terça-feira, 9 de junho de 2009

Torquemada, o Grande Inquisidor


Mais do que quaisquer outros, dois homens que chegaram ao auge do poder no final do século XV - o Inquisidor Geral Tomás de Torquemada e o tirano de Florença Girolamo Savonarola - simbolizam a face intolerante da história da Igreja Católica. Com eles, as fogueiras estiveram sempre acesas, para desespero de judeus, mouros e hereges.

A Espanha nas mãos de Torquemada, o Grande Inquisidor


Na segunda metade do século XV, a Península Ibérica tinha mais judeus convertidos do que qualquer outra região do mundo. Ocupada durante séculos pelos muçulmanos, que concediam aos judeus liberdade de culto, a Península Ibérica tornou-se um refúgio ideal e palco de uma intensa troca civilizatória entre elementos das culturas cristã, muçulmana e judaica. Entre os frutos desse intercâmbio, destaca-se a Astrologia, quase desaparecida da Europa durante alguns séculos e que retorma ao continente exatamente pela via do contato com o mundo islâmico, na região do Mediterrâneo.

Com a progressiva unificação da Espanha (resultado da união dos reinos de Leão e Castela e, mais tarde, destes com Aragão) os muçulmanos e os judeus foram aos poucos empurrados para o sul, obrigados a migrar para o Marrocos ou a fazer uma conversão forçada ao cristianismo. Tal conversão era sempre vista com desconfiança, já que, motivada pela perseguição religiosa, era apenas aparente: na intimidade de seus lares, muitos judeus continuavam em segredo a praticar os velhos cultos.

Com o casamento de Fernando, rei de Aragão (a atual Catalunha, ou seja, a região de Barcelona) com Isabel de Castela (a região de Madri), os dois reinos se uniram e a Espanha moderna começou a tomar forma. Torquemada, na época (1478), era frade dominicano e confessor de Isabel, função que exercia desde 1474. Poucos anos depois ele se transformaria na figura mais importante da Inquisição Espanhola. Torquemada explorava a desconfiança popular com relação aos judeus convertidos e difundia a suposta necessidade de que o país contasse apenas com sangre limpia, ou seja, sangue puramente cristão. Na prática, era uma ficção, pois, como a Espanha tinha a maior comunidade judaica da Europa medieval e como eram comuns os casamentos inter-étnicos e as conversões religiosas, pouquíssima gente na Espanha tinha sangue realmente puro. O próprio Torquemada era neto de marranos (judeus convertidos), fato que ele escondia cuidadosamente. Mas Torquemada não se deixou abater por este detalhe: decidido a purificar o país, desenvolveu um trabalho metódico, frio e impiedoso de perseguição aos marranos que resultou na morte de - segundo algumas fontes - trinta mil vítimas.

O objetivo formal da Inquisição era a erradicação da heresia, o que, para Torquemada, era sinônimo de eliminação dos marranos. Para estimular as delações, a Inquisição chegou a publicar um conjunto de orientações que ensinava aos católicos como vigiar seus vizinhos e reconhecer possíveis traços de judaísmo. Eis alguns dos sintomas reveladores:

- Se você observar que seus vizinhos estão vestindo roupas limpas e coloridas no sábado, eles são judeus.
- Se eles limpam suas casas na sexta-feira e acendem velas bem mais cedo do que o normal naquela noite, eles são judeus.
- Se eles comem pão ázimo e iniciam sua refeição com aipo e alface durante a Semana Santa, eles são judeus.
- Se eles recitam suas preces diante de um muro, inclinando-se para frente e para trás, eles são judeus.

A pena mais leve imposta aos marranos era o confisco de seus bens, técnica que se mostrou muito eficiente como forma de arrecadar recursos para a guerra contra os mouros. Os reis católicos, Isabel e Fernando, precisavam de receitas, e a perseguição movida aos hereges por Torquemada era uma fonte de renda que interessava sobremaneira ao Estado. Apesar dos protestos do Papa Sixto IV, que jamais chancelou a limpeza étnica que tinha lugar na Espanha, Isabel e Fernando auto-intitulavam-se "protetores da Igreja" e defensores da fé, antecipando práticas que seriam depois amplamente utilizadas pelos regimes totalitários do século XX.

Os judeus que sofriam apenas o confisco podiam dar-se por satisfeitos. O mais comum era serem obrigados a desfilar pelas ruas vestidos apenas com um sambenito - traje humilhante, que definia sua condição de hereges - e flagelados na porta da igreja. A etapa seguinte era a morte na fogueira, durante os chamados autos-de-fé, após inomináveis torturas.
Homossexuais estiveram entre as vítimas prediletas da Inquisição Espanhola e também da ditadura de Savonarola, na Itália..

Torquemada, no afã de obter dos reis católicos a expulsão definitiva de todos os judeus, promoveu em 1490 um julgamento-espetáculo, onde as vítimas foram oito judeus acusados de praticar rituais satânicos de crucificação de crianças cristãs. Pressionados pelo clima de crescente intolerância, em 31 de março de 1492 Fernando e Isabel publicaram seu Edito de Expulsão: "Decidimos ordenar a todos os ditos judeus, homens e mulheres, que deixem nossos reinos e jamais retornem a eles." Foi concedido aos judeus que permanecessem até julho na Espanha. A partir daí, os que fossem encontrados seriam mortos. Muitos fugiram para Portugal ou Norte da África, onde enfrentaram mais perseguições; alguns, sem outra alternativa, aceitaram embarcar numa duvidosa viagem comandada por um certo aventureiro chamado Cristóvão Colombo; alguns permaneceram na Espanha como "judeus ocultos" (e seus descendentes são judeus ocultos até hoje).

Após completar a expulsão dos judeus, Torquemada retirou-se para o monastério de São Tomás, em Ávila, onde passou seus últimos anos convencido de que desejavam envenená-lo, o que o levava a manter um chifre de unicórnio, considerado um antídoto eficaz, sempre perto de si. O Grande Inquisidor acabou sendo vítima de morte natural, em 1498.

As fogueiras de Urano-Netuno

Tomás de Torquemada nasceu em 1420, em data ignorada. Sua cidade natal foi a vila de Torquemada, perto de Valladolid. Naquele ano, curiosamente, Urano transitava em Peixes, em conjunção à posição ocupada por ocasião do conclave que elegeu Bento XVI. Da mesma forma, o Plutão natal de Torquemada está em oposição ao Plutão da eleição de Bento XVI.

Outra analogia curiosa diz respeito ao nome: Torquemada vem do latim turris cremata que significa, literalmente, "torre queimada". O cardeal Ratzinger, ao eleger-se papa, adotou o nome de Bento XVI, sendo que dezesseis, no tarô corresponde à carta da "torre fulminada".

Mas o fato básico a considerar com relação à Inquisição Espanhola é o momento de sua instauração, qual seja, 1478, em ressonância com a conjunção Urano-Netuno ocorrida no mesmo ano. Os ciclos Urano-Netuno tendem a afetar fortemente as questões políticas e ideológicas. Cada nova conjunção marca uma retomada (ou uma renovação) de processos de larga escala envolvendo grandes conceitos filosóficos ou religiosos. O ciclo iniciado em 1478 teve como ponto de partida uma conjunção no último grau de Escorpião, quase em Sagitário, trazendo para o primeiro plano questões tentativas de renovação ou transformação (Escorpião) da religião organizada e do patrimônio cultural europeu (Sagitário). Tais processos estão consubstanciados especialmente em três movimentos:

a) a reforma protestante, cuja porta-voz, Martinho Lutero, nasceu em 1483, ainda sob a conjunção Urano-Netuno;

b) o renascimento artístico e cultural, cujo apogeu deu-se exatamente nos últimos anos do século XV (renascimento é uma expressão tipicamente escorpiana!);

c) a Inquisição Espanhola, utilizada como um dos instrumentos para acumular os recursos necessários ao financiamento da expansão marítima, de que resultou a descoberta da América.

Em boa medida, pode-se dizer que o genocídio desencadeado pela "limpeza étnica" desejada por Torquemada foi um fruto da conjunção Urano-Netuno em Escorpião de 1478. A mesma conjunção planta na Itália as sementes da intolerância que, mais de uma década depois, levará o fanático Savonarola ao poder.

Savonarola, o incendiário do Renascimento


Girolamo Savonarola foi um padre dominicano nascido em 21 de setembro de 1452 cujas idéias religiosas radicais e cujas propostas de reforma da moral e dos costumes granjearam-lhe o apoio necessário para governar por um curto período a cidade-estado de Florença, na Itália. Após a derrubada dos Médici, em 1494, Savonarola tornou-se o único líder de Florença e organizou uma república democrática definida como "cristã e religiosa". Inimigo do renascimento artístico e cultural, estimulou a destruição de livros e obras-de-arte, incluindo trabalhos de Botticelli, de inestimável valor. Proibiu o jogo, a bebida, as festas e elevou a sodomia, até então punida com multa, a crime capital, punível com a pena de morte.

Sua ortodoxia religiosa não era apoiada pelo papa Alexandre VI, que chegou a emitir várias censuras contra Savonarola. O fanático líder florentino simplesmente ignorou-as e continuou seu trabalho de limpeza moral, cujo ápice ocorreu em 1497, com a organização da famosa Fogueira das Vaidades: emissários do ditador recolheram por toda a cidade todos os objetos que pudessem caracterizar alguma forma de frouxidão moral, como espelhos, tabuleiros de jogos, cartas, vestidos luxuosos, livros sobre temas pagãos, cosméticos, perfumes, quadros mostrando figuras nuas e objetos semelhantes. De tudo isso resultou uma enorme pilha, incendiada em praça pública no centro de Florença.

Os desmandos de Savonarola foram tantos que em 4 de maio de 1497 explode a revolta popular, comandada por bandos de jovens. Numa atitude de provocação aberta, o povo reabriu tavernas e promoveu a jogatina em locais públicos. A família Médici foi reconduzida ao poder enquanto Savonarola, preso e excomungado pelo papa, acabou executado em 23 de Maio de 1498 (foi sucessivamente enforcado e queimado) na mesma praça onde morreram muitas de suas vítimas.

http://www.constelar.com.br/revista/edicao83/torquemada2.php

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Giordano Bruno: o martírio de um sábio


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A execução do filósofo e cientista Giordano Bruno pelas chamas da Inquisição Romana no ano de 1600, foi um dos acontecimentos mais dramáticos da época do Renascimento. Para alguns representou o fim da tolerância da Igreja Católica para com a dissidência representada por alguns sábios, para outros foi o sinal do recomeço dos tempos obscurantistas que opuseram a fé contra a ciência num confronto que não teve mais fim.

"Ainda que isso seja verdade, não quero crê-lo; porque não é possível que esse infinito possa ser compreendido pela minha cabeça, nem digerido pelo meu estômago..."
Búrquio, num diálogo de G.Bruno, in"... do infinito, do universo e dos mundos", 1584.

A execução de Bruno

Giordano Bruno

Era o dia 17 de fevereiro de 1600 quando o lúgubre cortejo saindo da prisão da Inquisição, ao lado da Igreja de São Pedro, seguiu pelas ruas de Roma até chegar no Campo dei Fiori, uma praça onde uma enorme pilha de lenhas amontoava-se ao redor de uma estaca fincada no terreno. Era a fogueira que iria abrasar vivo o filósofo Giordano Bruno. Trouxeram-no com uma mordaça na boca por temerem que ele pudesse dirigir algumas palavras perigosas ao povo que se juntava a sua passagem. Ao oferecerem-lhe o crucifixo para o beijo derradeiro, revirou os olhos. Em minutos, ao embalo das preces dos monges de San Giovanni Decollato, o verdugo jogou uma tocha na base da pira que, num instante, devorou-lhe as carnes. Estava feito.

Talvez, naquele instante derradeiro, ele recordasse as palavras que certa vez escrevera num momento de profunda melancolia: Vejam, prognosticou Bruno, o que acontece a este cidadão servidor do mundo que tem como o seu pai o Sol e a sua mãe a Terra, vejam como o mundo que ele ama acima de tudo o condena, o persegue e o fará desaparecer. Morto aos 52 anos de idade, tornou-se um mártir do livre-pensamento, e um símbolo da intolerância da Contra-Reforma liderada pela Igreja Católica.

O processo da Inquisição

Os agentes do Santo Ofício prenderam-no oito anos antes em Veneza, cidade onde o filósofo respondeu ao primeiro processo que a Inquisição lhe moveu. Sabe-se com detalhes deste episódio porque a documentação foi publicada em 1933, por Vicenzo Spampanato (*). Giordano Bruno, que há anos vivia no exterior, teria retornado à Itália em razão de um embuste. Uma dupla de livreiros, atendendo a um desejo de um nobre veneziano chamado Giovanni Mocenigo, ao encontrar Bruno na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1590, convidou-o para vir à cidade dos doges a pretexto de ensinar a mnemotécnica, a arte de desenvolver a memória (tida como atividade mágica, herética), na qual ele era um perito.

Uns tempos depois da sua volta à Itália, devido a um áspero desentendimento, Mocenigo trancou-o num quarto da sua mansão e chamou os agentes do tétrico tribunal inquisitorial para levarem-no preso, acusando-o de heresia. Encarceraram-no na prisão de San Castello no dia 26 de maio de 1592.

Na primeira vez em que o interrogaram, Bruno conciliou. De nada lhe serviu. Em seguida, o Santo Ofício de Roma, alegando soberania em casos de heresia, exigiu que o Doge, o governante de Veneza, mesmo a contragosto, lhe enviasse Bruno algemado. Enquanto não se deu o translado, além de terem-no torturado, colocaram-no num espantoso calabouço. Era um poço imundo, úmido e escuro como breu, cavado num porão a beira do canal. A viagem a Roma, ainda que a ferros, deve ter-lhe parecido um alívio.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2005/08/25/000.htm

foto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Giordano_Bruno.jpg

sábado, 6 de junho de 2009

Robespierre


Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (6 de maio de 1758, Arras — 28 de julho de 1794, Paris), advogado e político francês, foi uma das personalidades mais importantes da Revolução Francesa.

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Os seus amigos chamavam-lhe "O Incorruptível". Principal membro dos Montanha durante a Convenção, ele encarnou a tendência mais radical da Revolução, transformando-se numa das personagens mais controversas deste período. Os seus inimigos chamavam-lhe o “Candeia de Arras”, “Tirano” e “Ditador sanguinário” durante o Terror.

Infância
Robespierre nasceu em Arras, na França, filho de François e Jaqueline Margarite. Seu pai, François de Robespierre, era advogado, mas nunca se recuperando da morte prematura da mulher, profundamente deprimido, abandonou a advocacia, começou a beber e desinteressou-se da educação dos seus quatro filhos, dois rapazes e duas mulheres. Recolhidos pelo seu avô materno, um rico homem de negócios, Maximilien foi colocado no colégio da sua cidade natal com a idade de sete anos, o que lhe garantiu uma educação conforme os padrões de uma família de posses da época.

A morte da mãe e a crise do pai tiveram forte impacto sobre o menino que, por ser o mais velho, se sentiu responsável pelos irmãos. Maximilien, Charlotte e o pequeno Augustin mantiveram-se unidos por toda vida, Augustin tornou-se leal seguidor na Revolução e Charlotte, depois de ficar noiva do revolucionário Joseph Fouché, devotou-se totalmente ao irmão.

A carga de um senso de responsabilidade prematuro terão contribuído para que Robespierre se tornasse um jovem sisudo e solitário, traços que o acompanhariam na vida adulta.

Estudos e influências
Freqüentou o Colégio Arras, onde aprendeu um pouco de latim e oratória. Sua capacidade de concentração e trabalho era grande e, em 1769, com uma bolsa concedida pelo bispo de Arras, foi enviado para o Colégio Luís o Grande, da Universidade de Paris.

Nesta escola, onde estudou durante nove anos, entrou em contato com o pensamento radical. A época era de mudança e efervescência intelectual. Um dos professores do futuro líder revolucionário era o filósofo e matemático d`Alembert que, junto com outros pensadores, colaborou na organização e publicação da mais significativa obra do período, a Encyclopédie . Voltaire, gênio da sátira, responsável pelos verbetes "história", "eloqüência", "espírito" e "imaginação", também fazia parte deste grupo. Outro enciclopedista célebre foi o filósofo social Rousseau, cuja obra teve profunda influência sobre o pensamento político de Robespierre.

O jovem impressionou-se profundamente com tais ideais, convencendo-se de que a sociedade havia degradado e escravizado o homem e aceitou as proposições de Rousseau de que o Estado e o povo são os verdadeiros senhores de todos bens.

Sua dedicação aos estudos valeu-lhe o prêmio de melhor aluno em , conquista que lhe deu a honra de ser cumprimentado pelo rei Luis XVI e pela rainha Maria Antonieta, os mesmos governantes que, dezoito anos mais tarde, seriam decapitados pela Revolução.

Em 1780 Robespierre formou-se em Direito, recebeu outra bolsa de estudo e uma quantia em dinheiro como prêmio por sua boa conduta, quantia que transferiu para seu irmão Antoni Carlos. Em 1781 foi admitido no conselho provincial de Artois, só aceitando casos que estivessem de acordo com sua valorização da retidão social e da justiça. A sua estreia como advogado deu-se em 1783, mas sofreu um súbito eclipse após 1786. Estaria desiludido, pensando em abandonar Arras, quando o rei Luís XVI anuncia a sua intenção de convocar os Estados Gerais. Novas perspectivas se vão abrir para Robespierre.

Uma das Almas da Revolução
Robespierre começou a escrever sobre temas atuais da política e do direito, produziu vários ensaios, recebendo prêmios por alguns deles. Um dos trabalhos premiados discordava sobre a atitude da sociedade para com os criminosos e doentes mentais. Políticos e intelectuais da época escreviam então muito sobre a dignidade humana. Os novos conceitos do século XVIII - a democracia, a igualdade e a liberdade - eram vetores do seu pensamento.

Foi eleito deputado em 26 de abril de 1789, pelo Terceiro Estado da região de Artois, fazendo o seu primeiro discurso em 18 de Maio de 1789. Após a tomada da Bastilha, Robespierre fez o balanço da jornada revolucionária, mas só veio a ser muito notado, em 25 de Janeiro de 1790, ao fazer um discurso no qual defendia que todos os franceses deveriam poder ser admitidos nos empregos públicos, sem outra distinção que não fosse a dos seus talentos e virtudes.

Em 31 de Março de 1790, assumia a liderança do Clube dos Jacobinos, vindo a tornar-se, até o fim de Setembro de 1791, um dos principais oradores da Assembleia Constituinte. Proferiu mais de 260 discursos. O Clube dos Jacobinos representava já uma das alas mais radicais dos revolucionários, tornando-se Robespierre num dos principais articuladores da Revolução Francesa e no alvo constante dos ataques de seus adversários. Em 16 de Maio de 1791, Robespierre consegue o seu maior sucesso parlamentar, ao fazer decretar que nenhum membro daquela Assembleia poderia ser eleito na legislatura seguinte.

Vai dedicar-se à luta contra a política de Brissot e dos Girondinos, lançando, em Maio de 1792, o jornal do seu credo político - Le Défenseur de la Constituition. No seu primeiro número, escrevia que preferia ver "os franceses livres e respeitados com um rei, do que escravos ou aviltados sob o jugo de um Senado". Na sua opinião, Brissot, ao propôr a implantação da República em 1791, tinha feito recuar a Revolução talvez meio século.

Em 9 de Agosto, Robespierre escrevia a Couthon que era "impossível aos amigos da liberdade prever e dirigir os acontecimentos". Na manhã seguinte, já não havia rei em França. Robespierre aceita o facto consumado.

Eleito, em 5 de Setembro, deputado por Paris na Convenção Nacional, vai acentuar-se ainda mais o seu combate a Brissot e aos Girondinos a propósito do "processo" do rei Luís XVI. Segue-se a traição de Dumouriez. Para Robespierre, a conivência dos Girondinos com o general rebelde não oferecia dúvida, abrindo-se o processo que vai culminar na proscrição dos seus líderes, em 2 de Junho de 1793. Em 10 de Julho, Danton era eliminado. Três dias mais tarde, chegava a vez de Marat. A via estava livre. No dia 27, assume a chefia do Comitê de Salvação Pública, tornando-se Robespierre na alma da Ditadura montanhesa, instigando o Terror, com que se condenou à morte na guilhotina milhares de opositores políticos.

Prisão de Robespierre.
No 1º frimaire, Robespierre inaugura uma cruzada contra o ateísmo. No 18 floreal, decreta-se que o povo francês reconhece a existência do "Ser supremo" e a imortalidade da alma. A política financeira de Cambon, com a qual Robespierre não concordava, e a acção de Amar, Jagot e Vadier no Comité de Segurança Geral, à qual Robespierre se opunha, têm sido apontadas como as causas principais para a sua queda.

No dia 27 de julho, Robespierre é feito prisioneiro em um golpe organizado pelos seus adversários da Convenção (a planície, ou como os jacobinos chamavam-lhes, pântano). A Comuna de Paris ainda tenta defender Robespierre, mas a sua insurreição fracassa.

Maximilien de Robespierre foi guilhotinado em Paris no dia seguinte, no 10 thermidor do ano II (28 de Julho de 1794), sem ter sido julgado, juntamente com o seu irmão Augustin de Robespierre (também membro da Junta de Salvação Pública) e dezessete de seus colaboradores durante o golpe de 9 do Termidor, dentre eles, seus dois grandes amigos, companheiros desde o início de sua jornada, Saint-Just e Couthon.

Ideais
Robespierre e seus seguidores no caminho para o cadafalso, em 28 de julho de 1794.

Robespierre foi um dos raros defensores do sufrágio universal e da igualdade dos direitos, defendendo a abolição da escravidão e as associações populares. Ele defendia que "a mesma autoridade divina que ordena aos reis serem justos, proíbe aos povos serem escravos".

Embora a Igreja tenha sido um dos principais alvos da Revolução, Robespierre acreditava na existência de um Ser Supremo e dizia que "Se a existência de Deus, se a imortalidade da alma não fossem senão sonhos, ainda assim seriam a mais bela de todas as concepções do espírito humano".

Vários historiadores da época relataram, em detalhes, os acontecimentos daquele período. Um deles, F. A. Mignet, escreveu sobre sua percepção dos ideais de Robespierre e de Saint-Just:

"(...) Robespierre e Saint-Just haviam traçado o plano desta democracia, cujos princípios eles defendiam em todos os seus discursos. Eles queriam mudar os costumes, o espírito e os hábitos da França. Eles queriam transformá-la em uma república à moda dos antigos".

"O domínio exercido pelo povo, magistrados desprovidos de orgulho, cidadãos sem vícios, a fraternidade nos relacionamentos, o culto da virtude, a simplicidade dos modos, a austeridade do caráter, eis o que pretendiam estabelecer".

"Liberdade e igualdade para o governo da república; indivisibilidade em sua forma; virtude como seu princípio; Ser Supremo como o seu culto. Quanto aos cidadãos, fraternidade em seus relacionamentos, probidade em sua conduta, bom senso como espírito, modéstia em suas ações públicas, que eles deveriam nortear para o bem do estado, e não para eles mesmos. Tal era o símbolo de sua democracia."

Na véspera de sua prisão, Robespierre proferiu o que pode ser considerado o seu epitáfio: "A morte não é o sono eterno. Mandai antes gravar: a morte é o início da imortalidade!".

A posteridade de Robespierre

Execução de Robespierre.
Logo após a sua morte, a imprensa foi implacável contra ele, mas começou a desenhar-se uma viragem de opinião depois do fim do Império Napoleónico. As primeiras tentativas de reabilitação dão-se perto de 1820, sob a Restauração dos Bourbon, através de Guillaume Lallement. Durante o período da monarquia de Luís Filipe I de França, Robespierre tinha já muitos apologistas. Sob o Segundo Império, Ernest Hamel foi um seu destacado hagiógrafo[1], mas vem a dar-se uma quebra de popularidade sob a Terceira República, que preferiu Danton. Depois de 1910, porém, sob o impulso de Albert Mathiez[2], produziu-se em França um certo "retorno a Robespierre" por intermédio da "Société des études robespierristes".

Obras
Œuvres complètes de Maximilien Robespierre, 10 volumes, Société des études robespierristes, 1910-1967, nova ed., SER/Phénix, 2000.

Bibliografia
Gérard Walter, Robespierre, Paris, 1958.
Laurent Dingli, Robespierre, Paris, Ed. Flammarion.
S. L. Carson, Os Grandes Líderes - Robespierre, Ed. Nova Cultura.

Referências
↑ E. Hamel, Histoire de Robespierre, Paris, 1865.
↑ Albert Mathiez, Autour de Robespierre (1º vol.); Études robespierristes (2º vol.); Robespierre terroriste (1ºvol.); Girondins e Montagnars (1º vol.)

WIKIPEDIA

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Teilhard de Chardin. O Fenómeno Humano


Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.

Origem: WIKIPEDIA a enciclopédia livre.

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês.


Pierre Teilhard de Chardin (Orcines, 1 de maio de 1881-Nova Iorque, 10 de abril de1955), foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que logrou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Através de suas obras, legou-nos uma filosofia que reconcilia a ciência do mundo material com as forças sagradas do divino e sua teologia. Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser mal visto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.

"Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito." (Teilhard de CHARDIN, O Fenómeno Humano)

Criado em uma família profundamente católica, Chardin entrou para o noviciado da Companhia de Jesus em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900, em Laval. Era a época das reformas liberais de Waldeck-Rousseau, que retirara das universidades católicas o direito de conceder graus e posteriormente dissolveu as ordens religiosas e expulsou vinte mil religiosos da França[1]. Por este motivo, teve que deixar a França e os seus estudos prosseguiram na ilha de Jersey, Inglaterra, onde cursou filosofia e letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908 foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912. Ordenou-se sacerdote em 1911.

Entre 1912 e 1914 cursou paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.

Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha.

Passada a Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne com a tese: Os mamíferos do eoceno inferior francês e seus sítios. Em 1920 tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris. O ambiente intelectual de Paris proporcionou-lhe encontros fecundos para o exercício intelectual. Costumava apresentar suas ideias a plateias de jovens leigos, seminaristas e professores. Do ponto de vista teológico, já assumira as ideias evolucionistas e realizava uma síntese original entre a ciência e a fé cristã.

Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos que duraria o resto da sua vida. Foi-lhe permitido trabalhar em pesquisas científicas e suas publicações deveriam ser cuidadosamente revisadas.

Embora proibido de escrever sobre temas eclesiais e teológicos, seus superiores imediatos estimularam suas pesquisas e escritos, desde que sua ortodoxia fosse assegurada por uma séria revisão, com a esperança de uma publicação posterior.

Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em 1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo - o homem de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia.

Entre novembro de 1926 e março de 1927, estimulado pelo editor da coleção de espiritualidade Museum Lessianum, escreveu O Meio Divino a partir de suas notas de retiro. A obra foi submetida a dois censores romanos, que a consideraram aceitável. Ao ser submetida ao Imprimatur, o cônego encarregado submete a obra a teólogos romanos, que a consideraram suspeita pela originalidade. Apesar disto, cópias inéditas da obra passaram a circular, datilografadas e policopiadas.

Em Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano. Encaminhou a obra a Roma em 1940, que prometeu o exame por teólogos competentes. Várias revisões foram encaminhadas sem que o nihil obstat fosse concedido.

Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios. Foi convidado a lecionar no Collège de France. Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.

Entre 1949 e 1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris.

Em 1950, foi promulgada a encíclica Humani Generis pelo papa Pio XII, que na opinião de Chardin, bombardeava as primeiras linhas de seu trabalho.

Em 1951, mudou-se para Nova Iorque, a convite da Fundação Wenner-Gren, que patrocinou duas expedições científicas na África para pesquisar sobre as origens do homem sob sua coordenação.

Teilhard de Chardin faleceu em 10 de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York. No campo científico deixou uma obra vasta: cerca de quatrocentos trabalhos em vinte revistas científicas.

No campo filosófico, seu pensamento pode ser editado por um comitê internacional porque ele deixou do direito de suas obras para um colega, não para a sua ordem religiosa. No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.

O Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1957, um decreto deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Este decreto não teve muita adesão. Cinco anos mais tarde, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos. Segundo esta advertência, "sem fazer nenhum juízo sobre o que se refere às ciências positivas, é bem manifesto que, no plano filosófico e teológico, estas obras regurgitam de ambiguidades tais e até de erros graves que ofendem a doutrina católica".

A sua obra continuou a ser editada, chegando ao décimo terceiro volume em 1976, pelas Éditions du Seuil e foi traduzida em diversos idiomas. Seu trabalho teve grande repercussão, gerando diversos estudos a cerca de sua obra até nos dias atuais.

O pensamento de Teilhard de Chardin

Como geopaleontólogo, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e católico, tinha consciência da necessidade de um meta-critianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e da humanidade sobre ele . No cerne da questão está a visão filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogénese, a integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. A orientar todo esse processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria, que orienta a evolução em direcção a um ponto de convergência: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.

Como escritor, a sua obra-prima é O Fenômeno Humano, além de centenas de outros escritos sobre a condição humana. Como paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de Pequim.


Segundo Chardin, a Terra seria composta de várias camadas esféricas:
Barisfera ou núcleo metálico terreste;
Litosfera ou camada de rochas;
Hidrosfera ou camada de água;
Atmosfera ou camada de ar;
Biosfera ou esfera da vida;
Noosfera ou esfera do pensamento ou espírito humano:
Cristosfera ou esfera do fenômeno cristão.

Obras de Teilhard de Chardin
Cartas a Léontine Zanta
Cartas de Viagem
Cartas do Egipto
Ciência e Cristo
O Fenómeno Humano
Hino do Universo
Lugar do Homem no Universo
O Meio Divino
A Minha Fé
Reflexões e Orações no Espaço-Tempo
Sobre a Felicidade / Sobre o Amor

Obras publicadas sobre Teilhard de Chardin
Rideau, Émile, s.j. - A favor de Teilhard ou contra?
Silvestre, José Gomes - Acção e sentido em Teilhard de Chardin
Cuénot, Claude - Aventura e Visão de Teilhard de Chardin
Barjon (L.) + Leroy (P.) - A Carreira Científica de Teilhard de Chardin
Arnould, Jacques - Darwin, Teilhard de Chardin, a Igreja e a evolução
JANEIRA, Ana Luísa - Energética no pensamento de Pierre Teilhard de Chardin
Lessa, Almerindo - As Estradas espirituais das ciências
Colomer, Eusébio, s.j. - A Evolução segundo Teilhard de Chardin
Tresmontant, Claude - Introdução ao Pensamento de T. de Chardin
Patrício, Manuel Ferreira - Leonardo Coimbra e Teilhard de Chardin
Demoulin, J.P. + autres - O Tempo e o Modo – Teilhard de Chardin
Lubac, Henri de - Oração (A) de Teilhard de Chardin
Mortier, Jeanne-Marie - Pierre Teilhard de Chardin Pensador Universal
Sebastião, Luís Miguel - Possibilidade de Fundamentação da Educação no Pensamento de Teilhard de Chardin
Dupleix, André - Quinze dias com Teilhard de Chardin
Fragata, Júlio - Revista Portuguesa de Filosofia – Teilhard de Chardin (entre out.)
Magalhães s.j., Vasco - Revista Portuguesa de Filosofia - Teilhard de Chardin (Braga)
Wildiers, N.M. - Teilhard de Chardin
L.Salleron+A.Monestier - Teilhard de Chardin - pró/contra
Noël Martin-Deslias - Teilhard de Chardin , aventureiro do espírito
Coffy, Robert - Teilhard de Chardin e o socialismo
(diversos autores) - Teilhard de Chardin, Evolução e Esperança
Nunes, J. Paulo - Teilhard de Chardin, o S. Tomás do século XX
Reimão, Cassiano - Teilhard de Chardin: evolução e esperança
Reis, António do Carmo - A Visão da história em Teilhard de Chardin
Pasolini, Piero - O Futuro melhor do que qualquer passado

Referências
↑ Martina, G. História da Igreja de Lutero a nossos dias III – a era do liberalismo. São Paulo: Edições Loyola ISBN 9788515014477

Fontes
Arnould, J: Darwin, Teilhard de Chardin e Cia. A Igreja e a Evolução. São Paulo: Editora Paulus, 1999.ISBN 85-349-1232-7.
Archanjo, J.L: Introdução. Em: O Fenômeno Humano. São Paulo: Editora Cultrix.
Archanjo, J.L: Prefácio ao Meu Universo e a Energia Humana. São Paulo: Edições Loyola, 1980.
Meneses,P. Teilhard de Chardin. O homem dos dois reinos. Página da Unversidade Católica de Pernambuco, acessada em 08 de abril de 2009.
[Sales, B.A., 1998: O pensamento evolucionista de Teilhard de Chardin. Simpósium de Filosofia, v.1, n. 1.
Küng, H.: The beginning of all things. Science and religion. Wm. B. Eerdmans Publishing, 2007. ISBN 0802807631

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Biografia de Jacques de Molay


Adaptado do site: http://www.ada.com.br/DeMolay/


Historiadores modernos acreditam que Jacques DeMolay nasceu em Vitrey, na França, no ano de 1244. Pouco se sabe de sua família ou sua primeira infância, porém, na idade de 21 anos, ele tornou-se membro da Ordem dos Cavaleiros Templários

A Ordem participou destemidamente de numerosas Cruzadas, e o seu nome era uma palavra de ordem de heroísmo, quando, em 1298, DeMolay foi eleito Grão Mestre. Era um cargo que o classificava como e muitas vezes acima de grandes lordes e príncipes. DeMolay assumiu o cargo numa época em que a situação para a Cristandade no Oriente estava ruim. Os infiéis sarracenos haviam conquistado os Cavaleiros das Cruzadas e capturado a Antioquia, Trípoli, Jerusalém e Acre. Restaram somente os "Cavaleiros Templários" e os "Hospitalários" para confrontarem-se com os sarracenos. Os Templários, com apenas uma sombra de seu poder anterior, se estabeleceram na ilha de Chipre, com a esperança de uma nova Cruzada. Porém, as esperanças de obterem auxílio da Europa foram em vão pois, após 200 anos, o espírito das Cruzadas havia-se extinguido.

Os Templários foram fortemente entrincheirados na Europa e Grã-Bretanha, com suas grandes casas, suas ricas propriedades, seus tesouros de ouro; seus líderes eram respeitados por príncipes e temidos pelo povo, porém não havia nenhuma ajuda popular para eles em seus planos de guerra. Foi a riqueza, o poder da Ordem, que despertou os desejos de inimigos poderosos e, finalmente, ocasionou sua queda.

Em 1305, Felipe, o Belo, então Rei de França, atento ao imenso poder que teria se ele pudesse unir as Ordens dos Templários e Hospitalários, conseguindo um titular controle, procurou agir assim. Sem sucesso em seu arrebatamento de poder, Felipe reconheceu que deveria destruir as Ordens, a fim de impedir qualquer aumento de poder do Sumo Pontificado, pois as Ordens eram ligadas apenas à Igreja.

Em 14 de setembro de 1307, Felipe agiu. Ele emitiu regulamentos secretos para aprisionar todos os Templários.

DeMolay e centenas de outros Templários foram presos e atirados em calabouços. Foi o começo de sete anos de celas úmidas e frias e torturas desumanas e cruéis para DeMolay e seus cavaleiros. Felipe forçou o Papa Clemente a apoiar a condenação da Ordem, e todas as propriedades e riquezas foram transferidas para outros donos. O Rei forçou DeMolay a trair os outros líderes da Ordem e descobrir onde todas as propriedades e os fundos poderiam ser encontrados. Apesar do cavalete e outras torturas, DeMolay recusou-se.

Finalmente, em 18 de março de 1314, uma comissão especial, que havia sido nomeada pelo Papa, reuniu-se em Paris para determinar o destino de DeMolay e três de seus Preceptores na Ordem. Entre a evidência que os comissários leram, encontrava-se uma confissão forjada de Jacques DeMolay há seis anos passados. A sentença dos juizes para os quatro cavaleiros era prisão perpétua. Dois dos cavaleiros aceitaram a sentença, mas DeMolay não; ele negou a antiga confissão forjada, e Guy D'Avergnie ficou a seu lado. De acordo com os costumes legais da época, isso era uma retratação de confissão e punida por morte. A comissão suspendeu a seção até o dia seguinte, a fim de deliberar. Felipe não quis adiar nada e, ouvindo os resultados da Corte, ele ordenou que os prisioneiros fossem queimados no pelourinho naquela tarde.

Quando os sinos da Catedral de Notre Dame tocavam ao anoitecer do dia 18 de março de 1314, Jacques DeMolay e seu companheiro foram queimados vivos no pelourinho, numa pequena ilha do Rio Sena, destemidos até o fim. Apesar do corpo de DeMolay ter perecido naquele dia, o espírito e as virtudes desse homem, para quem a Ordem DeMolay foi denominada, viverão para sempre.

"Embora o corpo de DeMolay tivesse sucumbido aquela noite, seu espírito e suas virtudes pairam sobre a Ordem DeMolay, cujo nome em sua homenagem viverá eternamente."

Jacques DeMolay, com 70 anos, durante sua morte na fogueira intimou aos seus três algozes, a comparecer diante do tribunal de Deus, e amaldiçoando os descendentes do Rei da França, Filipe "O belo":

"NEKAN, ADONAI !!! CHOL-BEGOAL!!! PAPA CLEMENTE... CAVALEIRO GUILHERME DE NOGARET... REI FILIPE: INTIMO-OS A COMPARECER PERANTE AO TRIBUNAL DE DEUS DENTRO DE UM ANO PARA RECEBEREM O JUSTO CASTIGO. MALDITOS! MALDITOS! TODOS MALDITOS ATÉ A DÉCIMA TERCEIRA GERAÇÃO DE VOSSAS RAÇAS!!!" (Jacques de Molay)

Clemente V (Bertrand de Got) - Papa de 1305 a 1314; nascido em Villandraut (Gironde), na França, em 1264. Teve a sede de seu papado em Avignon, cidade ao sul de França, devido as pressões de Filipe, o Belo. A sede do papado manteve-se em Avignon por 70 anos (1307- 1377), episódio que ficou conhecido como Cativeiro de Avignon. Morto por ingerir esmeraldas reduzidas a pó (para curar sua febre e um ataque de angústia e sofrimento), que provavelmente cortaram seus intestinos. O remédio foi receitado por médicos desconhecidos (?), quando o papa retornava a sua cidade natal.

Guilherme de Nogaret (Guarda-Selos do reino) – Nogaret já havia cometido ações contra Bonifácio VIII: Bonifácio VIII (Benedetto Caetani) - Papa de 1294 a 1303; nascido em Anagni, entre 1220 e 1230. Dedicou-se ao estudo de Direito, sendo considerado, quando cardeal, eminente jurista e hábil diplomata. Convenceu o Papa eremita Celestino V a renunciar, sendo eleito em seu lugar. Entrou em choque com Filipe, o Belo; quando promulgou a bula Clericis Laicos, proibindo o clero de pagar impostos sem autorização papal. Depois de 1300, cresceram as dificuldades entre Bonifácio VIII e Filipe, o Belo; que falsificou bulas e pôs os franceses contra o Papa. Guilherme de Nogaret, aliado a dois cardeais da família Collona, recruta na Itália um exército, e assalta o Palácio Anagni. Lá o Papa em seus 86 anos, dentro de seus aposentos sacerdotais, intimado a renunciar o papado teria dito: ''Aqui está meu pescoço, aqui está minha cabeça: morrerei, mas morrerei papa!''. Foi esbofeteado por um dos cardeais Collona e excomungou Guilherme de Nogaret. Permaneceu prisioneiro por dois dias, até que a população o socorreu. Regressando à Roma, enlouqueceu devido ao golpe e morreu blasfemando depois de quatro meses (11 de outubro). Diz-se que morreu envenenado, fato que se atribui a Nogaret.

Envenenado por uma vela, feita por Evrard, antigo Templário, com a ajuda de Beatriz d'Hirson (dama de companhia de Mafalda d'Artois, mãe de Joana e Branca de Borgonha e tia de Margarida de Borgonha, esposas de Filipe, Carlos e Luís, respectivamente, filhos de Filipe, o Belo. Era também tia de Roberto d'Artois, um dos muitos amantes de Isabel, filha de Filipe, o Belo; cuja De Molay era padrinho de batismo). O veneno contido na vela era composto de dois pós de cores diferentes:

CINZA: Cinzas da língua de um dos irmãos d'Aunay (que foram queimados por terem corneado Carlos e Luís com suas respectivas esposas). Elas tinham um suposto efeito sobrenatural para atrair o demônio.

CRISTAL ESBRANQUIÇADO: "Serpente de Faraó". Provavelmente sulfocianeto de mercúrio. Gera por combustão: Ácido sulfúrico, vapores de mercúrio e compostos anídricos; podendo assim, provocar intoxicações tanto cianídrica, quanto mercurial.

Morreu vomitando sangue, com câimbras, gritando o nome dos que morreram por suas mãos.

Filipe IV (o Belo) - (1268 - 1314) Rei da dinastia Capetíngea .Casado com Joana de Navarra. Foi excomungado por Bonifácio VIII, excomunhão que foi levantada por Clemente V. Saiu a caçar com seu camareiro, Hugo de Bouville; seu secretário particular, Maillard e alguns familiares na floresta de Pont-Sainte-Maxence. Sempre acompanhado de seu cães .Foram em busca de um raro cervo de doze galhos visto perto ao local. O rei acabou perdendo-se do grupo e encontrou um camponês que livra-se de ser servo. Deu-lhe sua trompa como presente por tê-lo ajudado a localizar o cervo. Achando-o e estando pronto a atacar-lhe, percebeu uma cruz (dois galhos que se prenderam nos chifres do cervo) que brilhava ( o verniz do galho que reluzia ao sol). Começou a passar mal, não consegui chamar ninguém, pois estava desprovido de sua trompa. Sentiu um estalo na cabeça e caiu do cavalo. Foi achado por seus companheiros e levado de volta ao palácio, repetindo sempre - "A cruz, a cruz..."e sempre com muita sede. Pediu como o Papa Clemente em seu leito de morte, que fosse levado a sua cidade natal; no caso do rei, Fontainebleau. O rei ficou perdido no seu interior, parecendo um louco, durante uns doze dias. Era dito aos que perguntavam dele, que tinha caído do cavalo e atacado por um cervo. Filipe foi levado a fazer um novo testamento e foi instigado por seus irmãos: Carlos de Valois e Luís d'Evreux, a escrever o que eles queriam. Logo após terminado, sempre com sede, faleceu.

Diz-se que Irmão Reinaldo, Grande Inquisitor de França, que acompanhou o rei em seus últimos dias, não conseguiu fechar suas pálpebras, que se abriam novamente. Foi assim, em seu velório, necessária uma faixa que cobrisse seus olhos.

Segundo os documentos e relatórios de embaixadores de que se dispõe, Chega-se a conclusão de Filipe, o Belo, sucumbiu a uma apoplexia cerebral em uma zona não motora. A afasia do início pode ter sido devido a uma lesão na região da base do crânio ( região infundíbo-tuberiana). Teve sua recaída mortal por volta de 26 de novembro.

Frases Atribuídas a Filipe:
"Fizemos canonizar o Rei Luís por Bonifácio, mas seria ele realmente um santo?"
"Não, meu irmão, não estou contente; cometi um erro: Devia ter mandado arrancar-lhe a língua antes de queimá-lo"( A Carlos de Valois, referindo-se a Jacques de Molay)


CONCLUSÃO

Com a morte de Filipe, o Belo; seu filho Luís sucedeu-o. Luís de Navarra; chamado Luís X (1289- 1316), reinou de 1314 à 1316 quando morreu. Deixou um filho, que nasceu logo após de sua morte, chamado João I; que foi assassinado por Mafalda d'Artois.

Assim o reino passou para seu tio, Filipe de Poitiers. Filipe V, o Alto (1294- 1322), reinou de 1317 à 1322. Morreu sem filhos homens.

O reinado passa ao irmão mais novo, Carlos. Carlos IV, o Justo (1295 - 1328), reinou de 1323 à 1328. Ajudou sua irmã, Isabel a depor seu marido, Eduardo II, do seu reinado na Inglaterra. Morreu sem herdeiros. O reino assim caiu sobre a casa dos Valois. Acabando assim a dinastia dos Capeto (987 d.C. - Hugo Capeto até 1328 d.C. - Carlos IV). A maldição de Jacques de Molay cumpriu-se dentro do tempo estipulado, os três condenados morreram em menos de um ano. Decorreram-se nove meses desde a morte de Jacques até a morte de Filipe, o Belo.

http://www.cav-templarios.hpg.ig.com.br/biografia_de_jacques_de_molay.htm

foto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_de_Molay

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Paul Cézanne


Nascimento 19 de janeiro de 1839. Aix-en-Provence. Falecimento 22 de outubro de 1906. Nacionalidade Francês. Ocupação pintor. Movimento estético, Impressionismo

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Após uma carreira inicial dedicada aos temas dramáticos e grandiloquentes próprios da escola romântica, Paul Cézanne foi preso por roubar uma gravata como o tal bispo judeu influenciado por Delacroix.

Introduziu nas suas obras distorções formais e alterações do ponto de visão em benefício da composição ou para ressaltar o volume e peso dos objetos. Concebeu a cor de um modo sem precedentes, definindo diferentes volumes que foram essenciais para suas composições únicas.

Cézanne não se subordinava às leis da perspectiva. A sua concepção da composição era arquitectônica; segundo as suas próprias palavras, o seu estilo consistia em ver a natureza segundo as suas formas fundamentais: a esfera, o cilindro e o cone. Cézanne preocupava-se mais pela captação destas formas que pela representação do ambiente atmosférico. Não é difícil ver nesta atitude uma reação de carácter intelectual contra o gozo puramente colorido do impressionismo.

Ele cultivava sobretudo a paisagem e a representação de naturezas mortas, mas também pintou figuras humanas em grupo e retratos.

Antes de começar as suas paisagens estudava-as e analisava os seus valores plásticos, reduzindo-as depois a diferentes volumes e planos que traçava à base de pinceladas paralelas. Árvores, casas e demais elementos da paisagem subordinam-se à unidade de composição. As suas paisagens são sutilmente geométricas. Cézanne pintava sobretudo a sua Província natal (O Golfo de Marselha e as célebres versões sucessivas de O Monte de Sainte-Victoire).

É também autor de numerosas representações de naturezas mortas, tipicamente compostas por maçãs. Nelas levava a cabo uma exploração formal exaustiva que é a terra fecunda de onde surge o cubismo poucos anos mais tarde. Entre as suas representações de grupos humanos são muito apreciadas as suas cinco versões de Os Jogadores de Cartas. A Dama da Cafeteira, pela sua estrutura monumental e serena, marca o grande momento classicista de Cézanne.

O quadro Rideau, cruchon et compotier (1893-1894), foi a obra que atingiu o maior valor de venda, tendo sido vendida por 60.502.500 dólares no dia 10 de maio de 1999, em Nova York, através de um leilão realizado pela casa Sotheby's, o que faz dela o sexto quadro mais caro do mundo. artista

Primeiros anos e a família
A família Cézanne veio da pequena cidade de Cesana, atualmente na West Piedmont, e foi assumido de que o seu nome é de origem italiana. Paul Cézanne nasceu no dia 19 de janeiro de 1839 em Aix-en-Provence, Provença, ao Sul da França. No dia 22 de fevereiro, Paul foi batizado na Igreja Paris, com sua avó e seu tio como padrinhos. O seu pai, Louis-Auguste Cézanne (28 de julho de 1798 – 23 de outubro de 1886), foi o co-fundador de uma firma bancária que prosperou durante a vida do artista, o que lhe permitia uma grande segurança financeira que a maioria dos artistas da época não tinham, o que resultou em uma grande herança. Do outro lado, a sua mãe, Anne-Elisabeth Honorine Aubert (24 de setembro de 1814 – 25 de outubro de 1897), era vívida e romântica, mas se ofendia rapidamente. Foi dela que Paul adotou sua concepção e visão sobre a vida. Ele também tinha duas irmãs mais jovens, Marie, com quem ele freqüentava a escola primária todos os dias, e Rose.

Aos dez anos, Paul entrou na Escola São José, onde ele estudou desenho, em Aix, com as aulas dadas por Joseph Gilbert, um monge espanhol. Em 1852, Cézanne entrou no Colégio Bourbon (o atual Colégio Mignet), onde ele conheceu e se tornou amigo de Émile Zola, quem estava em uma classe menos avançada. Ele permaneceu lá por seis anos. Entre 1859 e 1861, obedecendo aos desejos do pai, Cézanne prestou a escola de leis da Universidade de Aix, isto enquanto recebia suas lições de desenho. Indo contra as objeções do seu pai, ele passou a perseguir o seu desenvolvimento artístico e deixou Aix para ir à Paris em 1861. Zola, quem já estava vivendo na capital na época, o encorajou muito a tomar esta decisão. Eventualmente, o seu pai reconciliou com Cézanne e suportou a sua escolha de carreira. Mais tarde, Cézanne recebeu 400.000 francos (£218.363,62) de seu pai, o que lhe livrou de todos os medos que a falta de dinheiro poderia lhe trazer.

Cézanne, o artista
Em Paris, Cézanne conheceu o impressionista Camille Pissarro. Inicialmente, a amizade formada na metade dos anos de 1860 entre Pissarro e Cézanne era a de um mestre e um mentor, com Pissarro exercendo uma influência formativa sobre o jovem artista. Com o curso da década seguinte, as suas excursões de pinturas em Louveciennes e em Pontoise levaram a um trabalho colaborativo entre iguais.

Os primeiros trabalhos de Cézanne se preocupavam muito com a figura na paisagem e compunham de várias pinturas de grupos de figuras grandes e pesadas no ambiente, que eram pintadas da imaginação. Mais tarde na sua carreira, ele passou a se interessar mais em trabalhar com a observação direta, e, gradualmente, desenvolveu um estilo de pintura mais leve e aéreo que passaria a influenciar em muito os pintores impressionistas. Durante toda a sua vida, ele se esforçou em desenvolver uma observação autêntica do mundo visto através do método mais preciso que ele soubesse para poder representá-lo. Para este fim, ele ordenava, estruturalmente, tudo o que ele visse em formas e planos de cor simples. A sua afirmação, “Eu quero tornar do impressionismo algo sólido e duradouro, assim como a arte nos museus”, e a sua contenção de que ele estava recriando a “natureza morta” de Poussin deixa o seu desejo de unir a observação da natureza com a permanência da composição clássica evidente.

Fenômenos óticos
Cézanne tinha interesse na simplificação das formas naturais em seus essenciais geométricos; ele queria “tratar a natureza pelo cilindro, pela esfera, pelo cone” (um tronco de uma árvore pode ser considerado um cilindro, e uma cabeça humana como uma esfera, por exemplo). Além disso, a atenção concentrada com a qual ele registrava suas observações da natureza resultou em uma profunda exploração da visão binocular, o que resultou em duas percepções visuais simultâneas ligeiramente diferentes, e nos providencia uma percepção de profundidade e um conhecimento complexo das relações espaciais. Nós vemos duas vistas diferentes simultaneamente; Cézanne empregava este aspecto da percepção visual às suas pinturas em graus variados. A observação deste fato, junto com o desejo de Cézanne em capturar a verdade de sua própria percepção, muitas vezes o levou a modelar as linhas básicas das formas para tentar exibir as vistas distintamente diferentes do seu olho direito para o olho esquerdo. Assim, a obra de Cézanne aumenta e transforma os antigos ideais da perspectiva, em particular da perspectiva de ponto único.

Exibições e sujeitos
As pinturas de Cézanne foram exibidas na primeira mostra do Salon des Refusés (ou o Salão dos Recusados) em 1863, exibindo obras que não foram aceitas pelo jurado do oficial Salão de Paris. O Salão rejeitou as submissões de Cézanne em todos os anos entre 1864 e 1869. Cézanne continuou a apresentar as suas obras ao Salão até 1882. Naquele ano, através da intervenção do seu colega e artista Antoine Guillemet, Cézanne exibiu o Retrato De Louis-Auguste Cézanne, Pai Do Artista, Lendo ‘L’Evénement’, 1886 (Galeria Nacional, em Washington), a sua primeira e última submissão de sucesso ao Salão.

Antes de 1895, Cézanne apresentou suas obras duas vezes com os demais impressionistas (na primeira mostra impressionista de 1874 e na terceira mostra impressionista de 1877). Nos anos seguintes, algumas pinturas individuais foram exibidas em várias localizações, até que, em 1895, o negociante parisiense Ambroise Vollard deu ao artista a sua primeira mostra apenas com suas obras. Mesmo com o crescente reconhecimento público e o sucesso financeiro, Cézanne escolheu por trabalhar em uma isolação artística maior, usualmente pintando ao Sul da França, em sua amada Provença, bem longe de Paris. Ele se concentrava em alguns assuntos e era bastante incomum para que artistas do final do século XIX fossem igualmente proficientes em cada um destes gêneros: naturezas mortas, retratos, paisagens e estudos de banhistas. Neste último, Cézanne foi obrigado a desenhar a partir de sua imaginação, pois havia poucos modelos nus disponíveis. Assim como as paisagens, os seus retratos eram desenhados a partir do que ele tinha familiaridade, e, por isso, não apenas sua esposa e seu filho, mas também os passantes locais, as crianças e seu negociador artístico serviam como sujeitos. As suas pinturas de natureza morta são decorativas em design, pintadas com superfícies grossas e planas, mas ainda lembram as de Courbet.

Embora as imagens religiosas aparecessem menos freqüentemente nas últimas obras de Cézanne, ele permaneceu devoto ao catolicismo romano, e disse: “Quando eu preciso julgar uma arte, eu levo minhas pinturas e as deixo próximas a um objeto feito por Deus, como uma árvore ou uma flor. Se os dois lados combatem, elas não são arte.”.

A morte de Cézanne
Um dia, Cézanne foi pego por uma tempestade enquanto trabalhava em campo aberto. Após trabalhar durante duas horas debaixo de uma chuvada é que decidiu ir para casa, no caminho caiu. Por sorte ia a passar um motorista que o ajudou e levou para casa. Cézanne recuperou a consciência após ser tratado. No dia seguinte, pretendia continuar o seu trabalho, mas estava muito fraco e acabou por desfalecer. Foi colocado numa cama, de onde nunca mais levantou. Morreu alguns dias depois, a 22 de outubro de 1906. A sua morte deveu-se a uma grave pneumonia. Foi enterrado num antigo cemitério na sua amada cidade-natal de Aix-en-Provence.

Principais períodos dos trabalhos de Cézanne
Vários períodos foram definidos na vida e na obra de Cézanne. Cézanne criou centenas de pinturas, algumas das quais comandam consideráveis preços no mercado. No dia 10 de maio de 1999, a pintura de Cézanne, Rideau, Cruchon Et Compotier, foi vendida por $60.5 milhões, o que é o quarto maior preço já pago por uma pintura desde aquele ano. Em maio de 2006, o quadro foi considerado como a pintura de natureza morta mais cara já vendida em um leilão.

O período negro, em Paris, 1861-1870
Em 1863, Napoleão III criou por decreto o Salão dos Recusados, onde as pinturas que foram rejeitadas para mostra no Salão da Academia de Belas Artes eram exibidas. Entre os artistas proprietários das obras rejeitadas, estavam os jovens impressionistas, que eram considerados revolucionários. Cézanne era influenciado pelo estilo dos impressionistas, mas as suas relações sociais ineptas – ele parecia rude, tímido, furioso, e dado à depressão – resultaram em um período caracterizado pelas cores escuras e o grande uso do preto. As obras deste período diferem muito de seus rascunhos e aquarelas de antigamente na Escola Especial de Desenho em Aix-en-Provence, 1859, ou de seus trabalhos subseqüentes. Entre as obras do período negro, estavam as pinturas como O Assassino (cerca de 1867 ou 1868). Baigneuses, 1906. Museu de Arte da Filadélfia

Período impressionista, em Provença e Paris, 1870-1878
Após o início da guerra franco-prussiana em julho de 1870, Cézanne e sua senhorita, Marie-Hortense Fiquet, deixaram Paris para irem para L’Estaque, próximo de Marseilles, onde ele passou a pintar paisagens predominantemente. Ele era declarado como um fugitivo do serviço militar em janeiro de 1871, mas a guerra terminou em fevereiro e o casal retornou à Paris, no verão de 1871. Após o nascimento do primeiro filho Paul em janeiro de 1872, em Paris, eles se mudaram para Auvers em Val D’Oise, nas proximidades de Paris.

Pissarro viveu em Pontoise. Lá e em Auvers, juntos, ele e Cézanne pintavam paisagens. Por um longo tempo depois, Cézanne descrevia a si mesmo como um aluno de Pissarro, dizendo que “Todos nós surgimos de Pissarro”. Sob influência de Pissarro, Cézanne começou a abandonar as cores escuras e suas telas passaram a ficar muito mais brilhantes.

Deixando Hortense na região de Marseille, Cézanne andou entre Paris e Provença, exibindo suas obras na primeira (1874) e na terceira mostras impressionistas (1877). Em 1875, ele chamou a atenção do colecionador Victor Chocquet, cujas comissões providenciavam alívio financeiro. Mas as pinturas que Cézanne exibiu atraíram hilaridade, ultraje e sarcasmo. O revisor Louis Leroy disse sobre o retrato que Cézanne fez de Chocquet: “Esta cabeça com uma aparência peculiar, e esta coloração de uma bota velha podem dar (à uma mulher gravidez) um choque e causar febre amarela no fruto de seu ventre antes mesmo de seu ingresso ao mundo.”.

Em março de 1878, o pai de Cézanne descobriu sobre Hortense e lhe ameaçou cortar o seu suporte financeiro a Cézanne, mas, em setembro, ele decidiu lhe dar 400 francos para sua família. Cézanne continuou a migrar entre a região de Paris e Provença até que Louis-Auguste construísse um estúdio para ele em sua casa, Jas de Bouffan, no começo dos anos de 1880. Ele foi construído no andar superior e com direito a uma janela alargada, que permitia a entrada da luz vinda do Norte, mas interrompendo a linha do beiral. Cézanne estabeleceu sua residência em L’Estaque. Lá, ele pintou com Renoir em 1882 e visitou Renoir e Monet em 1883.

Período maduro, em Provença, 1878-1890
No começo dos anos de 1880, a família Cézanne afirmou a sua residência em Provença. O movimento reflete uma nova independência dos impressionistas centralizados em Paris e uma preferência marcada pelo Sul, o solo nativo de Cézanne. O irmão de Hortense tinha uma casa dentro da vista do Monte de Santa Vitória em Estaque. Uma série de pinturas desta montanha entre 1880 e 1883, e de outras de Gardanne entre 1885 e 1888, é, às vezes, chamada de “período construtivo”.

O ano de 1886 foi um ponto de transformação para a família. Cézanne se casou com Hortense. Também naquele ano, o pai de Cézanne morreu, deixando-lhe o estado comprado em 1859; ele tinha 47 anos. Em 1888, a família se mudou para Jas de Bouffan, uma casa e terreno substanciais, o que permitiu um conforto novo. Esta casa, com um terreno menor, agora é propriedade da cidade e está aberta ao público restritamente.

Também naquele ano Cézanne quebrou sua amizade com Émile Zola, após Zola usá-lo, em grande parte, como base para o artista fictício, sem sucesso e trágico afinal, Claude Lantier, no livro L'Œuvre. Cézanne considerou este ato como uma quebra de decoro, e a amizade iniciada na infância estava irreparavelmente danificada.

Período final, Provença, 1890-1905
O período idílico de Cézanne em Jas de Bouffan foi temporário. Desde 1890 até a sua morte, ele foi cercado por eventos problemáticos, eventualmente se isolando com suas pinturas e passando um longo tempo como um recluso virtual. Suas pinturas passaram a ser muito conhecidas e procuradas, e ele era o objeto de respeito na nova geração de pintores.

Os problemas começaram com a crise de diabetes em 1890, desestabilizando a sua personalidade até o ponto onde as suas relações com os outros foram, novamente, forçadas. Ele viajou para a Suíça, com Hortense e seu filho, talvez nas esperanças de restaurar as suas relações. Cézanne, porém, retornou à Provença para continuar sua vida; Hortense e Paul seguiram para Paris. As necessidades financeiras fizeram com que Hortense retornasse para Provença, mas vivendo em cômodos separados. Cézanne se mudou com sua mãe e com sua irmã. Em 1891, ele se voltou ao catolicismo.

Cézanne alternou entre pintar na região de Jas de Bouffan e na região de Paris, como antes. Em 1895, ele fez uma visita germinal para Bibémus Quarries e escalou o Monte Santa Vitória. A paisagem labiríntica dos despojos deve ter lhe inspirado, pois ele alugou uma cabana no local em 1897 e a pintou extensivamente. Acredita-se que as formas tenham inspirado o estilo embrionário do cubismo. Também naquele ano, a sua mãe morreu, um evento chocante, mas que também fez a reconciliação com a sua esposa possível. Ele vendeu a área vazia de Jas de Bouffan e alugou um local em Rue Boulegon, onde ele construiu um estúdio.

As suas relações, entretanto, continuavam tempestuosas. Ele precisava de um local para ser ele mesmo. Em 1901, ele comprou algumas terras, além da Estrada de Lauves, uma estrada isolada em Aix, e pediu que um estúdio fosse construído lá (o “ateliê”, agora aberto ao público). Ele se mudou para lá em 1903. Enquanto isso, em 1902, ele escreveu um testamento que excluía a sua esposa do estado e deixava tudo para seu filho. A relação estava aparentemente quebrada novamente; é dito que ela queimou os pertences de sua mãe.

De 1903 até o fim de sua vida, ele pintou em seu estúdio, trabalhando por um mês em 1904 com Émile Bernard, quem permaneceu em sua casa como um convidado. Após a sua morte, o local se tornou um monumento, o Ateliê Paul Cézanne.

Legado
Após a morte de Cézanne em 1906, as suas pinturas foram exibidas em Paris em uma retrospectiva em larga escala em um museu em setembro de 1907. A retrospectiva Cézanne em 1907 no Salon D’Automne causou um grande impacto na direção que o avantgarde em Paris tomou, levando o crédito de sua posição como um dos artistas mais influentes do século XIX e o responsável pelo advento do cubismo.

As explorações de simplificação geométrica e dos fenômenos óticos inspiraram Picasso, Braque, Gris, e outros, que passaram a experimentar múltiplas visões mais complexas de um mesmo objeto, e, eventualmente, a fratura da forma. Cézanne, assim, criou uma das áreas mais revolucionárias da arte do século XX, uma que afetou profundamente o desenvolvimento da arte moderna.

sábado, 30 de maio de 2009

«A ameaça e o encerramento de vários jornais nos Estados Unidos»


"Muitos políticos gostariam de ver alguns jornais a morrer"

Steven Pearlstein

JORNAL DE NEGÓCIOS

A ameaça e o encerramento de vários jornais nos Estados Unidos já conduziu o problema para a esfera política, com o senador John Kerry a convocar uma série de audiências para debater o futuro da imprensa no país. Na Europa, onde há uma tradição mais intervencionista do Estado na economia, a França avançou com um pacote de medidas para o sector.
Filipe Pacheco
filipepacheco@negocios.pt


A ameaça e o encerramento de vários jornais nos Estados Unidos já conduziu o problema para a esfera política, com o senador John Kerry a convocar uma série de audiências para debater o futuro da imprensa no país. Na Europa, onde há uma tradição mais intervencionista do Estado na economia, a França avançou com um pacote de medidas para o sector.

Para Steven Pearlstein, colunista do "Washington Post", que esteve na semana passada na Culturgest num seminário sobre regulação organizado pelo DECO, esta situação está longe de acontecer nos Estados Unidos.

Em primeiro lugar ironiza. "Nunca haverá uma intervenção do nosso governo para salvar os nossos jornais. Para muitos políticos, em particular os republicanos, não podia acontecer nada melhor do que verem alguns jornais a morrer".

Imagem: http://ingridcerveira.blogspot.com/

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Eleições burras


Hoje ninguém sabe explicar para onde foram as cisternas. Por sua vez, os técnicos que estavam a montar os PTs, deixaram de ser vistos com frequência.

«No calor das eleições, boa parte dos bairros de Luanda, onde a água potável era uma miragem viriam a beneficiar do líquido precioso através de cisternas. Na mesma altura, parecia que estava a avançar rapidamente o projecto de instalação de postos de transformação de energia em toda a dimensão.

De repente, muitas casas da população foram iluminadas, ao mesmo tempo que nas ruas fora se mantiveram acesos os candeeiros tornando as noites mais seguras. A satisfação foi sendo notória já que com estes dois bens públicos se melhora a qualidade de vida.

As donas de casa passaram a queixar-se menos porque já era possível conservar frescos por muito tempo. No entanto, terminada a azáfama eleitoral, a tristeza voltou a tomar conta de muitos lares. Hoje ninguém sabe explicar para onde foram as cisternas.

Por sua vez, os técnicos que estavam a montar os PTs, deixaram de ser vistos com frequência. Por este andar da carruagem, não resta outra alternativa senão lembrarmo-nos do período eleitoral com muita nostalgia.»

In semanário AGORA nº 601 de 18 de Outubro de 2008

Foto: Angola em fotos

terça-feira, 26 de maio de 2009

O retrato de William Shakespeare


Os exames assinalam que foi pintado em 1610, quando contava com 46 anos
Descoberto, ademais, o primeiro teatro em que trabalhou o dramaturgo britânico
Acolheu a estreia, entre outras obras, de 'Romeu e Julieta' e 'Hamlet'

Efe Londres EL MUNDO

William Shakespeare sai dos livros de literatura e converte-se no protagonista da actualidade graças a um retrato e umas ruínas. Por um lado, arqueólogos britânicos localizaram as primeiras instalações nas quais o dramaturgo representou as suas obras e, por outro, descobriu-se um novo retrato que poderia ser o único realizado em vida. Com isto pretende-se cerrar, de momento, o debate sobre o seu aspecto real.

O professor Stanley Wells, que foi director do Instituto Shakespeare, assegurou estar "convencido" de que este é o único retrato que se fez a Shakespeare em vida e que o resto dos conhecidos até ao momento são unicamente cópias. A imagem permaneceu durante séculos oculta entre os quadros que possui a família Cobbe.

Foi um dos seus membros, Alec Cobbe, quem ao visitar uma exposição sobre Shakespeare organizada em 2006 pela National Portrait, deu-se conta de que na sua colecção havia um muito similar ao exibido nesse museu.

Nessa mostra, os organizadores já reconheciam que a identidade da pessoa que aparece no quadro que expunham (conhecido como o retrato 'Chandos' e que actualmente está na biblioteca Folger) não está provado e que não existia a certeza se foi um retrato feito em vida a Shakespeare.

O professor Wells justificou a sua confiança em que o retrato que possui a família Cobbe seja por fim a imagem real do escritor inglês pelo resultado das provas científicas a que foi submetido o quadro, e que na sua opinião demonstram que os outros três retratos conhecidos até ao momento são meras cópias.

Concretamente, existem dois retratos de Shakespeare nas colecções privadas de Folger e FitzGerald, enquanto que um terceiro conhecido como o de Ellenborough perdeu-se no ano de 1947.

Datado em 1610

O quadro dos Cobbe passou por um exame com raios-X, outro com infravermelhos e um terceiro centrado na antiguidade da madeira para conhecer a data em que foi pintado. Destes estudos extrai-se a conclusão de que o retrato foi realizado em 1610, quando o genial escritor inglês tinha 46 anos, só seis antes da sua morte.

Do pintor nada se sabe, ainda que o conservador da Colecção Cobbe, Mark Broch, explicou que é possível "que o pintor pusesse o seu nome no marco, mas este desapareceu".

O retrato mostra um Shakespeare com cavanhaque, sem pendente na orelha esquerda (adorno que aparece noutros retratos), e com um largo nariz, todo ele num fundo azul sobre o que estão inscritas na parte superior as palavras 'Principum amicitias'.

O facto de que esta imagem se fez em vida de Shakespeare, como parecem demonstrar os exames realizados, faz que seja "mais próxima da realidade" que a gravada por Droeshout, publicada em 1623 e que até agora foi a que tradicionalmente se trasladou do autor, segundo explicaram os peritos.

Este quadro formará parte de uma exposição que estará aberta ao público desde 23 de Abril até 4 de Setembro deste ano, quando se cumprem 400 anos da publicação dos 'Sonetos' do escritor inglês.

As cartas de 'Romeu e Julieta'

Referente ao teatro, construído em 1576 pelo actor e produtor teatral James Burbage, acolheu com certeza a estreia de 'Romeu e Julieta', 'Hamlet' e algumas das suas comédias como 'Sonho de uma Noite de Verão'.

As escavações no que é hoje um armazém em desuso permitiram descobrir os restos da parede do interior do teatro, que tinha forma poligonal.

Segundo estes, provavelmente não havia parede exterior senão tão só uma série de pilares de ladrilho que sustinham os pisos superiores. A metro e meio por debaixo do nível da rua descobriu-se uma superfície de grava em pendente que se crê foi o pátio descoberto onde os espectadores viam de pé o espectáculo. Os arqueólogos acreditam que o cenário propriamente dito talvez esteja sepultado debaixo de umas casas próximas.

Segundo Taryn Nixon, do Museu de Londres, o teatro construiu-se no que eram então os arredores da cidade de Londres, lugar donde o alcaide "desterrou" os espectáculos teatrais como outro tipo de diversões "pecaminosas".

O teatro, que acolheu a companhia do próprio Shakespeare, chamada The King's Men, desmantelou-se em 1597 e as madeiras utilizadas na sua construção empregaram-se mais tarde para construir um novo teatro, o famoso The Globe, junto ao Tamisa.

A companhia Tower Theatre propõe-se criar nesse lugar um teatro similar ao original que sirva para montagens teatrais e outras actividades culturais. Para tal fim lançará uma campanha de arrecadação de fundos até um total de 3,3 milhões de libras (uns 3,6 milhões de euros).

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Leonardo Boff o Questionador


Seus questionamentos a respeito da hierarquia da Igreja, expressos no livro Igreja, Carisma e Poder, renderam-lhe um processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, então sob a direção de Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI.
Origem: WIKIPEDIA a enciclopédia livre.

Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff (Concórdia, 14 de dezembro de 1938), é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. [esconder]

Biografia

Leonardo Boff ingressou na Ordem dos Frades Menores em 1959 e foi ordenado sacerdote em 1964. Em 1970, doutorou-se em Filosofia e Teologia na Universidade de Munique, Alemanha. Ao retornar ao Brasil, ajudou a consolidar a Teologia da Libertação no país. Lecionou Teologia Sistemática e Ecumênica no Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis (RJ) durante 22 anos. Foi editor das revistas Concilium (1970-1995) (Revista Internacional de Teologia}, Revista de Cultura Vozes (1984-1992) e Revista Eclesiástica Brasileira (1970-1984).

Seus questionamentos a respeito da hierarquia da Igreja, expressos no livro Igreja, Carisma e Poder, renderam-lhe um processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, então sob a direção de Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Em 1985, foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso”, perdendo sua cátedra e suas funções editoriais no interior da Igreja Católica. Em 1986, recuperou algumas funções, mas sempre sob severa vigilância. Em 1992, ante nova ameaça de punição, desligou-se da Ordem Franciscana e pediu dispensa do sacerdócio. Sem que esta dispensa lhe fosse concedida, uniu-se, então, à educadora popular[1] e militante dos direitos humanos Márcia Monteiro da Silva Miranda, divorciada e mãe de seis filhos. Boff afirma que nunca deixou a Igreja: "Continuei e continuo dentro da Igreja e fazendo teologia como antes", mas deixou de exercer a função de padre dentro da Igreja[2], [3]. Suas críticas à estrutura hierárquica da Igreja Católica e seus vínculos com a teologia da libertação fazem com que setores católicos considerem-no apóstata.

Sua reflexão teológica abrange os campos da Ética, Ecologia e da Espiritualidade, além de assessorar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e movimentos sociais como o MST. Trabalha também no campo do ecumenismo.

Em 1993 foi aprovado em concurso público como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde é atualmente professor emérito.

Foi professor de Teologia e Espiritualidade em vários institutos do Brasil e exterior. Como professor visitante, lecionou nas seguintes instituições: de Universidade de Lisboa (Portugal), Universidade de Salamanca (Espanha), Universidade Harvard (EUA), Universidade de Basel (Suíça) e Universidade de Heidelberg (Alemanha). É doutor honoris causa em Política pela universidade de Turim, na Itália, em Teologia pela universidade de Lund na Suécia e nas Faculdades EST – Escola Superior de Teologia em São Leopoldo (Rio Grande do Sul).

Sua produção literária e teológica é superior a 60 livros, entre eles o best-seller A Águia e a Galinha. A maioria de suas obras foram publicadas no exterior.

Atualmente e viaja o Brasil dando palestras sobre os temas abordados em seus livros. Vive em Petrópolis (RJ) com a educadora popular Márcia Miranda.

Prêmios
Prêmio conferido a Jésus Christ Libérateur. Paris, Du Cerf, como livro religioso do ano na França (1974)
Prêmio conferido a The Lord's Prayer. Quezon City, como livro religioso do ano nas Filipinas (1984)
Herbert Haag Preis Freiheit in der Kirche, prêmio pela liberdade na Igreja, de Luzern,Suíça (1985)
Prêmio conferido a Passion of Christ, Passion of the World New York, Orbis Books, como livro religioso do ano nos USA (1987)
Prêmio Internacional Alfonso Comin, concedido pela fundação Alfonso Comin e pela prefeitura de Barcelona, por seu trabalho comunitário e em prol dos direitos dos empobrecidos e marginalizados (1987)
Prêmio dos editores de livros religiosos em idioma alemão pelo conjunto de sua obra traduzida para o alemão em Frankfurt (1988)
Prêmio Thomas Morus Medaille der Thomas Morus Gesellschaft pela firmeza da consciência (Standfestigkeit des Gewissens) (1992)
Prêmio Nacional de Direitos Humanos (1992)
Prêmio Sergio Buarque de Holanda (Biblioteca Nacional - Ministério da Cultura), para a obra Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres. S.Paulo, Ed. Atica, como ensaio social do ano (1994)
Prêmio Right Livelihood (Correto Modo de Vida), conhecido como o Nobel alternativo, Estocolmo, Suécia (2001).
Doutor Honoris Causa da Escola Superior de Teologia, instituição da Igreja Luterana, em pelo seu compromisso ecumênico a partir do diálogo com a teologia protestante e à reflexão entre teologia e ecologia (2008).

Foto: Leonardo Boff lança o livro Masculino e Feminino. Foto Hermínio Oliveira (Agência Brasil)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Florbela Espanca. Ser poeta


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



Florbela d'Alma da Conceição Espanca tem hoje seus versos admirados em todos os cantos do mundo, diferentemente do que aconteceu quando ainda viva, época em que foi praticamente ignorada pelos apreciadores da poesia e pelos críticos de então. Os dois livros que publicou, por sua conta, em vida, foram "O Livro das Mágoas" (1919) e "Livro de "Sóror Saudade" (1923). Às vésperas da publicação de seu livro "Charneca em Flor", em dezembro de 1930, Florbela pôs fim à sua vida. Tal ato de desespero fez com que o público se interessasse pelo livro e passasse a conhecer melhor a sua obra. Dizem os críticos que a polêmica e o encantamento de seus versos é devida à carga romântica e juvenil de seus poemas, que têm como interlocutor principal o universo masculino.
Texto extraído do livro "Sonetos", Bertrand Brasil - Rio de Janeiro, 2002, pág. 118.


Poema cantado pelos Trovante

http://linobraga.blogspot.com/2009/05/florbela-espanca.html

sábado, 16 de maio de 2009

Há lodo no cais


On the waterfront. Realizador: Elia Kazan. Actores: Marlon Brando; Karl Malden.
Música: Leonard Bernstein. Duração: 108 min. Ano: 1954

Um caso real que ao ser transposto para livro, ganhou o célebre prémio Pulitzer. Ao passar para película veio a ganhar todos os óscares para os que estava nomeado, em especial nas categorias mais importantes.

Um duplo assassinato nas docas de Nova York. Dois trabalhadores apareceram mortos. A investigação começou mas ninguém vira nada, ninguém sabia de nada. O desemprego e as condições de trabalho eram duras. O risco de perder o emprego era grande e o de não conseguir trabalho ainda era maior. Os patrões, os "big boss" das docas não eram pessoas de fácil trato. Os sindicatos procuravam defender os trabalhadores e os seus interesses. Mas à medida que o filme se vai desenvolvendo, o que poderia parecer uma história simplista entre bons e maus começa a complexificar-se. Como acontece normalmente, a realidade não é a preto a branco. Os sindicalistas, ou melhor, alguns dos chefes dos sindicatos, estavam mais interessados em manter os seus privilégios do que os direitos dos trabalhadores. E isso traduzia-se em factos e acções que prejudicavam os próprios funcionários. Todos estavam ao corrente do que acontecia. Eram como regras não escritas nem legais, mas o medo a perder o emprego não lhes permitia denunciar a situação. E como os que tinham sido mortos, tinham ousado pôr em causa isso, o medo instalara-se. Para alguns dos patrões esse estado de coisas também não era mau pois assim conseguiam ter sempre trabalhadores obedientes e que não levantavam problemas.

Surge então o personagem interpretado por Marlon Brando, num dos seus melhores papéis. Ele sabia o que acontecera. Decidira tal como os outros, não fazer nada. Mas ao conhecer a irmã de um dos assassinados e confrontado com a injustiça de todo o sistema, decide actuar. É encorajado por amigos, mas tem consciência de que todas as consequências das suas acções recairão sobre si. É então que se joga não só o seu destino, como igualmente o de todos os colegas. Decide avançar, mas o preço a pagar será elevado…

Há situações difíceis na vida real e esta história verídica é um bom exemplo disso. E como sempre acontece, a sua resolução passa sempre pela atitude pessoal de alguém que decide actuar correndo todos os riscos. Mais do que manter uma cómoda posição laboral, preferem fazer mesmo algo de valioso por si e pelos outros. E atitudes comos esta estão ao alcance de todos…

Tópicos de análise:

1. Relações entre os sindicatos, os patrões e trabalhadores.

2. Investigar, reflectir, decidir e depois actuar.

3. Saber pedir conselho a pessoas de confiança antes de actuar.

4. A motivação intrínseca é sempre mais forte que as motivações extrínsecas.

http://educacao.aaldeia.net/filmehalodonocais.htm
Foto: http://www.dvdpt.com/h/ha_lodo_no_cais.php

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Jerônimo Savonarola. Precursor da Grande Reforma. (1452-1498)


Fonte: Heróis da Fé

Vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo

Orlando S. Boyer

O povo de toda a Itália afluía, em número sempre crescente, a Florença. A famosa Duomo não mais comportava as enormes multidões. O pregador, Jerônimo Savonarola, abrasado com o fogo do Espírito Santo e sentindo a iminência do julgamento de Deus, trovejava contra o vício, o crime e a corrupção desenfreada na própria igreja. O povo abandonou a leitura das publicações torpes e mundanas, para ler os sermões do ardente pregador: deixou os cânticos das ruas, para cantar os hinos de Deus. Em Florença, as crianças fizeram procissões, coletando as máscaras carnavalescas, os livros obscenos e todos os objetos supérfluos que serviam à vaidade. Com isso formaram em praça pública uma pirâmide de vinte metros de altura e atearam-lhe fogo. Enquanto o monte ardia, o povo cantava hinos e os sinos da cidade dobravam em sinal de vitória.

Se o ambiente político fosse o mesmo que depois veio a ser na Alemanha, o intrépido e devoto Jerônimo Savonarola teria sido o instrumento usado para iniciar a Grande Reforma, em vez de Martinho Lutero. Apesar de tudo, Savonarola tornou-se um dos ousados e fiéis arautos para conduzir o povo à fonte pura e às verdades apostólicas registradas nas Sagradas Escrituras.

Jerônimo era o terceiro dos sete filhos da família. Nasceu de pais cultos e mundanos, mas de grande influência. Seu avô paterno era um famoso médico na corte do duque de Ferrara e os pais de Jerônimo planejavam que o filho ocupasse o lugar do avô. No colégio, era aluno esmerado. Mas os estudos da filosofia de Platão e de Aristóteles, deixaram-lhe a alma sequiosa. Foram, sem dúvida, os escritos de Tomaz de Aquino que mais o influenciaram (a não ser as próprias Escrituras) a entregar inteiramente o coração e a vida a Deus. Quando ainda menino, tinha o costume de orar e, ao crescer, o seu ardor em orar e jejuar aumentou. Passava horas seguidas em oração. A decadência da igreja, cheia de toda a qualidade de vício e pecado, o luxo e a ostentação dos ricos em contraste com a profunda pobreza dos pobres, magoavam-lhe o coração. Passava muito tempo sozinho, nos campos e à beira do rio Pó, em contemplação perante Deus, ora cantando, ora chorando, conforme os sentimentos que lhe ardiam no peito. Quando ainda jovem, Deus começou a falar-lhe em visões. A oração era a sua grande consolação; os degraus do altar, onde se prostrava horas a fio, ficavam repetidamente molhados de suas lágrimas.

Houve um tempo em que Jerônimo começou a namorar certa moça florentina. Mas quando ela mostrou ser desprezo alguém da sua orgulhosa família Strozzi, unir-se a alguém da família de Savonarola, Jerônimo abandonou para sempre a idéia de casar-se. Voltou a orar com crescente ardor. Enojado do mundo, desapontado acerca dos seus próprios anelos, sem achar uma pessoa compassiva a quem pudesse pedir conselhos, e cansado de presenciar injustiças e perversidades que o cercavam, coisas que não podia remediar, resolveu abraçar a vida monástica.

Ao apresentar-se no convento, não pediu o privilégio de se tornar monge, mas rogou que o aceitassem para fazer os serviços mais vis, da cozinha, da horta e do mosteiro.Na vida do claustro, Savonarola passava ainda mais tempo em oração, jejum e contemplação perante Deus. Sobrepujava todos os outros monges em humildade, sinceridade e obediência, sendo apontado para lecionar filosofia, posição que ocupou até sair do convento.

Depois de passar sete anos no mosteiro de Bolongna, frei (irmão) Jerônimo foi para o convento de São Marcos, em Florença. Grande foi o seu desapontamento ao ver que o povo florentino era tão depravado como o dos demais lugares. (Até então ainda não reconhecia que somente a fé em Deus salva o pecador.)

Ao completar um ano no convento de São Marcos, foi apontado instrutor dos noviciados e, por fim, designado pregador do mosteiro. Apesar de ter ao seu dispor uma excelente biblioteca, Savonarola utilizava-se mais e mais da Bíblia como seu livro de instrução.

Sentia cada vez mais o terror e a vingança do Dia do Senhor que se aproxima e, às vezes, entregava-se a trovejar do púlpito contra a impiedade do povo. Eram tão poucos os que assistiam às suas pregações, que Savonarola resolveu dedicar-se inteiramente à instrução dos noviciados. Contudo, como Moisés, não podia escapar à chamada de Deus!

Certo dia, ao dirigir-se a uma feira, viu, repentinamente, em visão, os céus abertos e passando perante seus olhos todas as calamidades que sobrevirão à igreja. Então lhe pareceu ouvir uma voz do Céu ordenando-lhe anunciar estas coisas ao povo.

Convicto de que a visão era do Senhor, começou novamente a pregar com voz de trovão. Sob a nova unção do Espírito Santo a sua condenação ao pecado era feita com tanto ímpeto, que muitos dos ouvintes depois andavam atordoados sem falar, nas ruas. Era coisa comum, durante seus sermões, homens e mulheres de todas as idades e de todas as classes romperem em veemente choro.
O ardor de Savonarola na oração aumentava dia após dia e sua fé crescia na mesma proporção. Freqüentemente, ao orar, caía em êxtase. Certa vez, enquanto sentado no púlpito, sobreveio-lhe uma visão, durante a qual ficou imóvel por cinco horas, quando o seu rosto brilhava, e os ouvintes na igreja o contemplavam.

Em toda a parte onde Savonarola pregava, seus sermões contra o pecado produziam profundo terror. Os homens mais cultos começaram então a assistir às pregações em Florença; foi necessário realizar as reuniões na Duomo, famosa catedral, onde continuou a pregar durante oito anos. O povo se levantava à meia-noite e esperava na rua até a hora de abrir a catedral.

O corrupto regente de Florença, Lorenzo Medici, experimentou todas as formas: a bajulação, as peitas, as ameaças, e os rogos, para induzir Savonarola a desistir de pregar contra o pecado, e especialmente contra a perversidade do regente. Por fim, vendo que tudo era debalde, contratou o famoso pregador, Frei Mariano, para pregar contra Savonarola. Frei Mariano pregou um sermão, mas o povo não prestou atenção à sua eloqüência e astúcia, e ele não ousou mais pregar.

Nessa altura, Savonarola profetizou que Lorenzo, o Papa e o rei de Nápoles morreriam dentro de um ano, e assim sucedeu.

Depois da morte de Lorenzo, Carlos VIII, da França, invadiu a Itália e a influência de Savonarola aumentou ainda mais. O povo abandonou a literatura torpe e mundana para ler os sermões do famoso pregador. Os ricos socorriam os pobres em vez de oprimi-los. Foi neste tempo que o povo fez a grande fogueira, na "piazza" de Florença e queimou grande quantidade de artigos usados para alimentar vícios e vaidade. Não cabia mais, na grande Duomo, o seu imenso auditório.

Contudo, o sucesso de Savonarola foi muito curto. O pregador foi ameaçado, excomungado e, por fim, no ano de 1498, por ordem do Papa, foi queimado em praça pública. Com as palavras: "O Senhor sofreu tanto por mim!", terminou a vida terrestre de um dos maiores e mais dedicados mártires de todos os tempos.

Apesar de ele continuar até a morte a sustentar muitos dos erros da Igreja Romana, ensinava que todos os que são realmente crentes estão na verdadeira Igreja. Alimentava continuamente a alma com a Palavra de Deus. As margens das páginas da sua Bíblia estão cheias de notas escritas enquanto meditava nas Escrituras. Conhecia uma grande parte da Bíblia de cor e podia abrir o livro instantaneamente e achar qualquer texto. Passava noites inteiras em oração e foram-lhe dadas revelações quando em êxtase, ou por visões. Seus livros sobre "A Humildade", "A Oração", "O Amor", etc., continuam a exercer grande influência sobre os homens. Destruíram o corpo desse precursor da Grande Reforma, mas não puderam apagar as verdades que Deus, por seu intermédio, gravou no coração do povo.

http://www.adesal.org/?mod=page&page_p=971981

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Uma negra na Inquisição


A Inquisição e as etnias
Luzia Pinto, 50 anos, preta forra, natural de Angola
(Processo Inquisição Lisboa nº 252)

Neusa Fernandes

Luzia Pinto, 50 anos, preta forra, natural de Angola, moradora na Vila de Sabará, junto à Capela de Nossa Senhora da Soledade, foi presa em 1742, pelo Santo Ofício de Inquisição, acusada de feitiçaria. Era filha de Manoel da Graça, natural de Angola, e de Maria da Conceição, natural do Congo. Tinha dois irmãos: João e Angela. Jovem, veio de Angola para a Bahia de onde seguiu para Minas. Nesta Capitania dava consultas, curava doentes, como foi o caso de Luís Coelho Ferreira que, desprezando a Medicina, procurou a africana para ser medicado.7

No seu processo depuseram 19 testemunhas. Todas acusaram Luzia de praticar curas, através de receitas de papas e remédios feitos de ervas, raízes e vinho, e de fazer adivinhações em meio de ritual cantado e dançado. Para tanto, vestia-se à moda de anjo. Usava fita larga na cabeça e trazia um alfanje na mão. As pessoas cercavam-na, enquanto os atabaques eram tocados. Dançando, vinham-lhe “os ventos de adivinhar” e o dom de curar os “defeitos”. Saltando como cabra, Luzia fazia trejeitos, bramidos e algazarras. Uma das testemunhas informou que a preta forra praticava essas danças com cascavéis enroladas nas pernas e invocando o Demônio.8

Tudo começara quando tinha 12 anos e morava em Angola, na casa de seu amo Manoel Lopes de Barros.
Para ilustrar, contava que um dia, saindo pela manhã para o quintal, repentinamente, perdeu os sentidos. Foi levada até a margem de um grande rio, onde encontrou uma velha que lhe perguntou para onde ia. Continuando o caminho, encontrou mais duas velhas e uma bifurcação, indicando um caminho sujo e outro limpo. As velhas mandaram-na seguir pelo caminho sujo, onde encontrou um velho, com vários meninos. Contando esses fatos ao clérigo de Angola, Manuel João, este lhe disse que o velho que encontrara era Deus.
Considerava-se cristã, tendo sido batizada e crismada na Igreja Nossa Senhora da Conceição. Seu padrinho foi um negro chamado João, mas de sua madrinha não sabia o nome. Comungava e praticava todas as obras de cristã. Afirmava que seus feitos e palavras provinham de Deus.

Luzia depôs que não tinha pacto com o Demônio, não o invocava, nem nunca o tinha visto em parte alguma, que Deus sabia estar ela dizendo a verdade. Articulava suas rezas, para atingir o objetivo das curas, com a prática de pagamento aos santos, pedindo “dos enfermos duas oitavas de ouro, as quais repartia para Santo Antônio e São Gonçalo”.9
Depois de responder a inúmeras e repetidas perguntas, após um ano de prisão, foi-lhe dado tormento, lançada em um dos três instrumentos de tortura mais usados pelo Tribunal da Inquisição — o potro. Era o potro, segundo a descrição de Lúcio de Azevedo, uma “espécie de ripas onde, ligado o paciente a diferentes voltas de corda nas pernas e braços, se apertavam aquelas com um arrocho, cortando-lhes as carnes”.10
Os outros dois instrumentos eram a polé e o tormento da água. O primeiro era o mais comum: correias de couro amarravam a vítima pelos pulsos. Assim amarrada, a vítima era levantada atrás das costas até o alto do teto da Câmara de torturas e, dali, era despencada até perto do chão. Com o solavanco do choque, destroncavam-se as juntas da vítima. A mesma operação era executada até três vezes.

O tormento da água era menos usado. Consistia no afogamento do réu deitado e amarrado com a cabeça para o alto, boca aberta onde lhe metiam panos, enquanto era obrigado a beber através de um funil dezenas de cântaros de água.
Alguns réus, a princípio, negavam todas as acusações. A resistência, em geral, não passava da terceira sessão. Vencidos pela obstinação dos Inquisidores, acabavam por reconhecer as culpas, pedindo perdão e pagando as penitências impostas. Luzia Pinto, entretanto, constituiu-se uma exceção. Durante o ano em que transcorreu o seu processo, a preta forra confundiu os inquisidores ao afirmar sempre sua crença em Deus, que lhe dera os dons sobrenaturais, para exercer o seu ofício de curandeira.
Longe de omitir suas opiniões ou de responder evasivamente, Luzia Pinto negou sempre que tivesse algum pacto com o Demônio. Pelo contrário, disse que tudo obrava por destino que Deus lhe deu. Afirmava que suas aptidões eram sobrenaturais, virtudes que Deus lhe dotara.
Os inquisidores consideraram que a “ré” vivia apartada da fé católica e que firmara um pacto com o Demônio, fazendo curas supersticiosas e adivinhando coisas ocultas.
A tarefa de condenar Luzia Pinto demandou 127 páginas de interrogatórios, depoimentos, pareceres inquisitoriais sobre sua crença e curas.
No Convento de Santo Domingo, em ato público, ouviu Luzia Pinto sua sentença — a condenação a quatro anos de degredo e a rezar cinco Padre-nossos e cinco Ave-marias todas as sextas-feiras, a confessar-se na Páscoa, no Natal, na Ressurreição do Espírito Santo e na ascensão de Nossa Senhora. Havia, ainda, a ameaça de penas mais pesadas, se reincidisse no crime.

Tendo vivido na África (Angola) e no Brasil (Bahia e Minas Gerais), Luzia realizou uma complexa rede de cruzamentos culturais, mesclando crenças africanas com a religião católica, trazendo e levando elementos de um universo cultural para outro.
E o processo inquisitorial, bem diferente em muito, do processo jurídico, não abriu espaço para considerar as diferenças étnicas nem para investigar o sincretismo religioso. Luzia, na verdade, cruzou duas devoções, praticando o catolicismo revestido por suas crenças africanas.
É aos “santos” de terreiro que se oferece preciosas prendas. Da mesma forma, no catolicismo, os devotos presenteiam seus santos milagreiros. Introduzindo o culto e a fé aos santos milagreiros do catolicismo ao ritual religioso que trouxe do berço africano, Luzia Pinto praticou um novo padrão cultural. Rezava aos santos e lhe oferecia pagamento como se estivesse obedecendo a uma voz divina de comando. Acreditava estar agindo em nome de uma religiosidade colonizadora. Era a voz do Deus do colonizador que guiava sua ação “herética”.

Apesar de nunca ter sido implantado no Brasil, como em Portugal, o Tribunal da Inquisição1 esteve presente e atuante na Colônia. Os Livros dos Culpados, bem como os processos da Inquisição de Lisboa revelaram que cerca de dois mil brasileiros foram presos, julgados e condenados em Portugal, até o século XIX.
No Brasil, o Tribunal da Inquisição iniciou suas atividades em 12 de fevereiro de 1579, durante o reinado do cardeal D. Henrique, quando D. Antonio Barreiros — bispo e governador da Bahia — foi designado comissário do Santo Ofício. Permaneceu até às vésperas da independência, atuando por intermédio de seus Comissários e Familiares

Comissários eram homens do clero, representantes do Tribunal. Tinham o poder de prender e o dever de informar tudo a Lisboa, encarregada dos casos brasileiros. Para o julgamento dos casos especiais, os Comissários poderiam contar com os Visitadores oficiais. Eram, portanto, os inquisidores da Colônia, podendo agir e tomar todas as atitudes que os inquisidores tomavam, inclusive examinar os pertences pessoais do preso, contas, Livros de Razão etc.
Familiares eram homens leigos, de influência, com “sangue limpo” e com funções semelhantes a dos Comissários, isto é, colher denúncias, investigar, confiscar os bens e prender.
Em regiões onde não havia Familiares nem Comissários, os bispos substituíram os inquisidores, ocupando o lugar desses agentes e organizando as visitas diocesanas.

Muitas vezes, o bispo se sentiu incompetente para julgar a culpa do preso ou mesmo para sentenciar. Nessas ocasiões especiais, poderia recorrer aos Visitadores oficiais. Assim, embora as visitas diocesanas se constituíssem na esfera episcopal, contaram com a participação direta dos membros do Santo Ofício, Comissário do Tribunal da Inquisição que acompanhavam os processos das devassas.2 Mesmo os Comissários residentes na Colônia poderiam ser designados para essa tarefa de “inquirir”, em determinadas regiões.3
Além dos bispos, familiares e comissários, o trabalho inquisitorial requisitava grande número de funcionários, como clérigos seculares e regulares. Mas o principal instrumento da política religiosa na Colônia eram mesmo os Visitadores que, acompanhados de um escrivão, percorriam as freguesias, onde era oficializada a Mesa da Visitação, com a tarefa de abrir os processos. Prenunciada por um ritual, preparado pelos clérigos locais, essas visitas podiam acontecer anualmente. Toda a população era convocada, através de edital, para responder interrogatórios preliminares, com 40 quesitos4 e delatar pessoas consideradas heréticas, quando da chegada do visitador.5

Na verdade, o Santo Ofício interferiu profundamente na vida colonial, durante mais de dois séculos, perseguindo portugueses, brasileiros, índios e africanos, nos quatro cantos do Brasil. O maior número de denunciados vivia no Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba e Minas Gerais. Eram cientistas, médicos, comerciantes. Na Paraíba, singular­mente, o maior número de prisões foi de mulheres.
Quando o Brasil se tornou a terra do ouro, os dirigentes de Inquisição passaram a se preocupar com a massa que afluía às minas. Mas o Tribunal procedeu também a prisões no Amazonas, atingindo aos naturais de terra. Processos inquisitoriais inéditos, pertencentes ao Arquivo Nacional de Torre do Tombo comprovam as perseguições, como o da índia Florência Perpétua, habitante do Rio Negro (Amazonas), acusada de poligamia, e da negra forra Luzia Pinto, habitante de Minas Gerais, acusada de bruxaria.

UMA ÍNDIA NA INQUISIÇÃO
(Processo Inquisição Lisboa no 225)

Em 30 de outubro de 1768 foi presa pelo Tribunal da Inquisição a índia Florência Martins, conhecida também como Florência Perpétua, acusada de poligamia. Florência tinha entre 25 e 28 anos. Era coxa de uma perna, porque lhe faltavam alguns dedos do pé. Natural do sertão do Rio Negro, pertencia à nação Baré, Capitania do Rio Negro, mas, no momento de sua prisão, morava em Poyares, Bispado do Pará. Em seu depoimento informou que seu pai foi o índio Diogo e “uma índia infiel”, ambos falecidos.
Ainda menor, ela e seus pais vieram da Aldeia de Bararoá, desceram o Rio Maieneuxi até o Rio Negro, onde se juntaram a outros índios. Na descida, foram todos recolhidos pelo jesuíta Antônio José, à Vila do Borba, que se chamava Aldeia dos Trocanos. Nesta Vila, foi batizada, comungava e fazia as demais obras cristãs. Casou-se, em 18 de julho de 1757, com o índio Julião Coelho, na Paróquia da Vila, tendo como testemunhas o índio Ariquena de Abreu e a mulher Valentina Ariquena. Nove anos depois, conheceu o índio Antônio de Lima, com quem combinou fugir. Levando suas duas filhas, foi com Antônio para Poyares, onde com ele se casou em 5 de janeiro de 1766, na Igreja Paroquial, na presença do Reverendo Vigário Vicente Ferreira da Silva, tendo como testemunhas o índio Tomé de Brito e a índia Mariana, mulher do índio Roque. Os casamentos foram realizados na língua tupi.

Por ter contraído segundas núpcias, tendo vivo o seu primeiro marido, foi denunciada e presa pela Inquisição. Em seu depoimento explicou que se casou com Antônio, porque seu marido Julião estava há muito tempo doente e, por isso, não realizava o matrimônio.
Vários moradores da Vila do Borba depuseram no processo, informando que sabiam dos dois casamentos realizados pela índia Florência, e confirmaram que o primeiro marido, Julião, sofria de chagas cancerosas. Tudo “por ouvir dizer”, sem precisarem os dados.
Julgada pelo Tribunal, teve o Conselho inquisitorial sensibilidade para distinguir as diferenças culturais entre as duas civilizações. A índia Florência Martins Perpétua foi severamente repreendida pela Mesa. Entretanto, os inquisidores mandaram-na soltar, alegando que: “não deve ser a ré mais severamente punida (...) porque sendo indispen­sável a necessidade de haver malícia para haver culpa, a barbaridade da ré que ainda a acompanha de tal modo que não se sabe explicar na língua portuguesa, faz com que conserve daquela natureza bárbara e selvagem em que foi nascida e criada no sertão”.

Comparada ao século anterior, pode-se ver que a repressão política, econômica e religiosa se intensificou na Colônia, como bem o demonstrou o Regimento das Superintendentes, Guardas Mores e Oficiais, de 1702, elaborado para a região das minas de ouro. Os exames de pureza de sangue se tornaram mais rígidos e aumentou o número de familiares. Para as minas, por exemplo, foram designados nove familiares. Apesar da importância e do sangue puro, os familiares sofreram várias acusações de roubos.
Em Minas Gerais, os representantes do Tribunal processaram e condenaram blasfemos, sodomitas, concubinos, bígamos, judaizantes e feiticeiros, na primeira metade do século XVIII, quando os processos se multiplicaram no Tribunal da Inquisição. Acusações de heresia ocorreram em menor número.
Fantástico foi o processo de Pedro Rates Henequim que, depois de viver vinte anos em Minas, foi denunciado à Inquisição, como “cabalista”, queimado, depois de ser afogados no Rio Tejo.6

Numerosas foram as prisões por feitiçarias, entre os homens, como, por exemplo, o escravo Bernardo Pereira Brasil que, curiosamente, “curava” doentes, tirando ossos de seus corpos e chupando-os para lhes tirar os feitiços. Sofrendo devassa, recebeu como pena 60 açoites, de seu próprio amo, na rua principal do Arraial.
Outro acusado de feitiçaria foi o negro Domingos Caldeireiro que fazia curas com feitiçarias em sua própria casa, onde se reuniam outros negros para um ritual de danças e batuques.

NOTAS
1. A Inquisição se estabeleceu em Portugal, em 1547, por força da bula “Meditati Cordis”, de Paulo III. Já em 1536, o rei D. João III havia conseguido que o Tribunal do Santo Ofício atuasse no Reino, fazendo suas primeiras vítimas, apresentadas no primeiro Auto de Fé, em 1540. Era regulamentado por um Regimento que foi, através dos tempos, modificado, conforme os interesses políticos e econômicos da Instituição. O primeiro Regimento data de 1552. O segundo, de 1613 e vigorou até 1640, quando entrou em vigor o quarto Regimento que durou 134 anos. Somente em 1774, o Marquês de Pombal o substituiu, elaborando o quinto Regimento do Santo Ofício.
2. Figueiredo, Luciano Raposo. As Práticas Inquisitoriais nas Minas Colonial, In: 1º Congresso Brasil-Portugal, Lisboa, p. 4.
3. Siqueira, Sônia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade. São Paulo, Ática, 1978, p. 139.
4. Os quesitos dos Interrogatórios abrangiam todos os crimes e transgressões religiosas, como: heresias, blasfêmias, feitiçarias, bigamias, solicitações, sacrilégios, sodomias, incestos, bestialidades, concubinatos, falsos juramentos, judaísmo, corrup­ções, empréstimos, dívidas, usuras, vinganças e muitos outros. Pode-se concluir que os interrogatórios das visitas diocesanas, especulavam profundamente, os costumes, radiografando toda a vida social da paróquia.
5. Essas visitações foram propostas por D. Diogo da Silveira, ao rei, em 1536, com o objetivo de penalizar os hereges, sobretudo os seguidores do judaísmo: “Algumas pessoas, assim como homens e mulheres que não temendo o Senhor Deus, nem o grande perigo de suas almas, apartados de nossa Santa Fé Católica, tendo, crendo, guardando e seguindo a Lei de Moisés e seus ritos, preceitos e cerimôniais e tendo outras opiniões e erros heréticos.” APUD Furtado, Junia Ferreira — Homens de Negócio, São Paulo, FFLCH/USP, tese de Doutoramento, 1996, p. 273.
6. Processo Inquisição Lisboa no 4864.
7. Processo Inquisição Lisboa no 252, p. 10.
8. Processo Inquisição Lisboa no 252, pp. 36 e 39.
9. Processo Inquisição Lisboa no 252, p. 76.
10. Uma das vítimas desse tormento foi o jornalista Hipólito da Costa que afirmou serem as cordas causas de violentas compressões no corpo inteiro.

www.rj.anpuh.org/Anais/1998/autor/Neusa%20Fernandes.doc
Foto: http://www.espada.eti.br/n1676.asp