quarta-feira, 13 de maio de 2009

Uma negra na Inquisição


A Inquisição e as etnias
Luzia Pinto, 50 anos, preta forra, natural de Angola
(Processo Inquisição Lisboa nº 252)

Neusa Fernandes

Luzia Pinto, 50 anos, preta forra, natural de Angola, moradora na Vila de Sabará, junto à Capela de Nossa Senhora da Soledade, foi presa em 1742, pelo Santo Ofício de Inquisição, acusada de feitiçaria. Era filha de Manoel da Graça, natural de Angola, e de Maria da Conceição, natural do Congo. Tinha dois irmãos: João e Angela. Jovem, veio de Angola para a Bahia de onde seguiu para Minas. Nesta Capitania dava consultas, curava doentes, como foi o caso de Luís Coelho Ferreira que, desprezando a Medicina, procurou a africana para ser medicado.7

No seu processo depuseram 19 testemunhas. Todas acusaram Luzia de praticar curas, através de receitas de papas e remédios feitos de ervas, raízes e vinho, e de fazer adivinhações em meio de ritual cantado e dançado. Para tanto, vestia-se à moda de anjo. Usava fita larga na cabeça e trazia um alfanje na mão. As pessoas cercavam-na, enquanto os atabaques eram tocados. Dançando, vinham-lhe “os ventos de adivinhar” e o dom de curar os “defeitos”. Saltando como cabra, Luzia fazia trejeitos, bramidos e algazarras. Uma das testemunhas informou que a preta forra praticava essas danças com cascavéis enroladas nas pernas e invocando o Demônio.8

Tudo começara quando tinha 12 anos e morava em Angola, na casa de seu amo Manoel Lopes de Barros.
Para ilustrar, contava que um dia, saindo pela manhã para o quintal, repentinamente, perdeu os sentidos. Foi levada até a margem de um grande rio, onde encontrou uma velha que lhe perguntou para onde ia. Continuando o caminho, encontrou mais duas velhas e uma bifurcação, indicando um caminho sujo e outro limpo. As velhas mandaram-na seguir pelo caminho sujo, onde encontrou um velho, com vários meninos. Contando esses fatos ao clérigo de Angola, Manuel João, este lhe disse que o velho que encontrara era Deus.
Considerava-se cristã, tendo sido batizada e crismada na Igreja Nossa Senhora da Conceição. Seu padrinho foi um negro chamado João, mas de sua madrinha não sabia o nome. Comungava e praticava todas as obras de cristã. Afirmava que seus feitos e palavras provinham de Deus.

Luzia depôs que não tinha pacto com o Demônio, não o invocava, nem nunca o tinha visto em parte alguma, que Deus sabia estar ela dizendo a verdade. Articulava suas rezas, para atingir o objetivo das curas, com a prática de pagamento aos santos, pedindo “dos enfermos duas oitavas de ouro, as quais repartia para Santo Antônio e São Gonçalo”.9
Depois de responder a inúmeras e repetidas perguntas, após um ano de prisão, foi-lhe dado tormento, lançada em um dos três instrumentos de tortura mais usados pelo Tribunal da Inquisição — o potro. Era o potro, segundo a descrição de Lúcio de Azevedo, uma “espécie de ripas onde, ligado o paciente a diferentes voltas de corda nas pernas e braços, se apertavam aquelas com um arrocho, cortando-lhes as carnes”.10
Os outros dois instrumentos eram a polé e o tormento da água. O primeiro era o mais comum: correias de couro amarravam a vítima pelos pulsos. Assim amarrada, a vítima era levantada atrás das costas até o alto do teto da Câmara de torturas e, dali, era despencada até perto do chão. Com o solavanco do choque, destroncavam-se as juntas da vítima. A mesma operação era executada até três vezes.

O tormento da água era menos usado. Consistia no afogamento do réu deitado e amarrado com a cabeça para o alto, boca aberta onde lhe metiam panos, enquanto era obrigado a beber através de um funil dezenas de cântaros de água.
Alguns réus, a princípio, negavam todas as acusações. A resistência, em geral, não passava da terceira sessão. Vencidos pela obstinação dos Inquisidores, acabavam por reconhecer as culpas, pedindo perdão e pagando as penitências impostas. Luzia Pinto, entretanto, constituiu-se uma exceção. Durante o ano em que transcorreu o seu processo, a preta forra confundiu os inquisidores ao afirmar sempre sua crença em Deus, que lhe dera os dons sobrenaturais, para exercer o seu ofício de curandeira.
Longe de omitir suas opiniões ou de responder evasivamente, Luzia Pinto negou sempre que tivesse algum pacto com o Demônio. Pelo contrário, disse que tudo obrava por destino que Deus lhe deu. Afirmava que suas aptidões eram sobrenaturais, virtudes que Deus lhe dotara.
Os inquisidores consideraram que a “ré” vivia apartada da fé católica e que firmara um pacto com o Demônio, fazendo curas supersticiosas e adivinhando coisas ocultas.
A tarefa de condenar Luzia Pinto demandou 127 páginas de interrogatórios, depoimentos, pareceres inquisitoriais sobre sua crença e curas.
No Convento de Santo Domingo, em ato público, ouviu Luzia Pinto sua sentença — a condenação a quatro anos de degredo e a rezar cinco Padre-nossos e cinco Ave-marias todas as sextas-feiras, a confessar-se na Páscoa, no Natal, na Ressurreição do Espírito Santo e na ascensão de Nossa Senhora. Havia, ainda, a ameaça de penas mais pesadas, se reincidisse no crime.

Tendo vivido na África (Angola) e no Brasil (Bahia e Minas Gerais), Luzia realizou uma complexa rede de cruzamentos culturais, mesclando crenças africanas com a religião católica, trazendo e levando elementos de um universo cultural para outro.
E o processo inquisitorial, bem diferente em muito, do processo jurídico, não abriu espaço para considerar as diferenças étnicas nem para investigar o sincretismo religioso. Luzia, na verdade, cruzou duas devoções, praticando o catolicismo revestido por suas crenças africanas.
É aos “santos” de terreiro que se oferece preciosas prendas. Da mesma forma, no catolicismo, os devotos presenteiam seus santos milagreiros. Introduzindo o culto e a fé aos santos milagreiros do catolicismo ao ritual religioso que trouxe do berço africano, Luzia Pinto praticou um novo padrão cultural. Rezava aos santos e lhe oferecia pagamento como se estivesse obedecendo a uma voz divina de comando. Acreditava estar agindo em nome de uma religiosidade colonizadora. Era a voz do Deus do colonizador que guiava sua ação “herética”.

Apesar de nunca ter sido implantado no Brasil, como em Portugal, o Tribunal da Inquisição1 esteve presente e atuante na Colônia. Os Livros dos Culpados, bem como os processos da Inquisição de Lisboa revelaram que cerca de dois mil brasileiros foram presos, julgados e condenados em Portugal, até o século XIX.
No Brasil, o Tribunal da Inquisição iniciou suas atividades em 12 de fevereiro de 1579, durante o reinado do cardeal D. Henrique, quando D. Antonio Barreiros — bispo e governador da Bahia — foi designado comissário do Santo Ofício. Permaneceu até às vésperas da independência, atuando por intermédio de seus Comissários e Familiares

Comissários eram homens do clero, representantes do Tribunal. Tinham o poder de prender e o dever de informar tudo a Lisboa, encarregada dos casos brasileiros. Para o julgamento dos casos especiais, os Comissários poderiam contar com os Visitadores oficiais. Eram, portanto, os inquisidores da Colônia, podendo agir e tomar todas as atitudes que os inquisidores tomavam, inclusive examinar os pertences pessoais do preso, contas, Livros de Razão etc.
Familiares eram homens leigos, de influência, com “sangue limpo” e com funções semelhantes a dos Comissários, isto é, colher denúncias, investigar, confiscar os bens e prender.
Em regiões onde não havia Familiares nem Comissários, os bispos substituíram os inquisidores, ocupando o lugar desses agentes e organizando as visitas diocesanas.

Muitas vezes, o bispo se sentiu incompetente para julgar a culpa do preso ou mesmo para sentenciar. Nessas ocasiões especiais, poderia recorrer aos Visitadores oficiais. Assim, embora as visitas diocesanas se constituíssem na esfera episcopal, contaram com a participação direta dos membros do Santo Ofício, Comissário do Tribunal da Inquisição que acompanhavam os processos das devassas.2 Mesmo os Comissários residentes na Colônia poderiam ser designados para essa tarefa de “inquirir”, em determinadas regiões.3
Além dos bispos, familiares e comissários, o trabalho inquisitorial requisitava grande número de funcionários, como clérigos seculares e regulares. Mas o principal instrumento da política religiosa na Colônia eram mesmo os Visitadores que, acompanhados de um escrivão, percorriam as freguesias, onde era oficializada a Mesa da Visitação, com a tarefa de abrir os processos. Prenunciada por um ritual, preparado pelos clérigos locais, essas visitas podiam acontecer anualmente. Toda a população era convocada, através de edital, para responder interrogatórios preliminares, com 40 quesitos4 e delatar pessoas consideradas heréticas, quando da chegada do visitador.5

Na verdade, o Santo Ofício interferiu profundamente na vida colonial, durante mais de dois séculos, perseguindo portugueses, brasileiros, índios e africanos, nos quatro cantos do Brasil. O maior número de denunciados vivia no Rio de Janeiro, Bahia, Paraíba e Minas Gerais. Eram cientistas, médicos, comerciantes. Na Paraíba, singular­mente, o maior número de prisões foi de mulheres.
Quando o Brasil se tornou a terra do ouro, os dirigentes de Inquisição passaram a se preocupar com a massa que afluía às minas. Mas o Tribunal procedeu também a prisões no Amazonas, atingindo aos naturais de terra. Processos inquisitoriais inéditos, pertencentes ao Arquivo Nacional de Torre do Tombo comprovam as perseguições, como o da índia Florência Perpétua, habitante do Rio Negro (Amazonas), acusada de poligamia, e da negra forra Luzia Pinto, habitante de Minas Gerais, acusada de bruxaria.

UMA ÍNDIA NA INQUISIÇÃO
(Processo Inquisição Lisboa no 225)

Em 30 de outubro de 1768 foi presa pelo Tribunal da Inquisição a índia Florência Martins, conhecida também como Florência Perpétua, acusada de poligamia. Florência tinha entre 25 e 28 anos. Era coxa de uma perna, porque lhe faltavam alguns dedos do pé. Natural do sertão do Rio Negro, pertencia à nação Baré, Capitania do Rio Negro, mas, no momento de sua prisão, morava em Poyares, Bispado do Pará. Em seu depoimento informou que seu pai foi o índio Diogo e “uma índia infiel”, ambos falecidos.
Ainda menor, ela e seus pais vieram da Aldeia de Bararoá, desceram o Rio Maieneuxi até o Rio Negro, onde se juntaram a outros índios. Na descida, foram todos recolhidos pelo jesuíta Antônio José, à Vila do Borba, que se chamava Aldeia dos Trocanos. Nesta Vila, foi batizada, comungava e fazia as demais obras cristãs. Casou-se, em 18 de julho de 1757, com o índio Julião Coelho, na Paróquia da Vila, tendo como testemunhas o índio Ariquena de Abreu e a mulher Valentina Ariquena. Nove anos depois, conheceu o índio Antônio de Lima, com quem combinou fugir. Levando suas duas filhas, foi com Antônio para Poyares, onde com ele se casou em 5 de janeiro de 1766, na Igreja Paroquial, na presença do Reverendo Vigário Vicente Ferreira da Silva, tendo como testemunhas o índio Tomé de Brito e a índia Mariana, mulher do índio Roque. Os casamentos foram realizados na língua tupi.

Por ter contraído segundas núpcias, tendo vivo o seu primeiro marido, foi denunciada e presa pela Inquisição. Em seu depoimento explicou que se casou com Antônio, porque seu marido Julião estava há muito tempo doente e, por isso, não realizava o matrimônio.
Vários moradores da Vila do Borba depuseram no processo, informando que sabiam dos dois casamentos realizados pela índia Florência, e confirmaram que o primeiro marido, Julião, sofria de chagas cancerosas. Tudo “por ouvir dizer”, sem precisarem os dados.
Julgada pelo Tribunal, teve o Conselho inquisitorial sensibilidade para distinguir as diferenças culturais entre as duas civilizações. A índia Florência Martins Perpétua foi severamente repreendida pela Mesa. Entretanto, os inquisidores mandaram-na soltar, alegando que: “não deve ser a ré mais severamente punida (...) porque sendo indispen­sável a necessidade de haver malícia para haver culpa, a barbaridade da ré que ainda a acompanha de tal modo que não se sabe explicar na língua portuguesa, faz com que conserve daquela natureza bárbara e selvagem em que foi nascida e criada no sertão”.

Comparada ao século anterior, pode-se ver que a repressão política, econômica e religiosa se intensificou na Colônia, como bem o demonstrou o Regimento das Superintendentes, Guardas Mores e Oficiais, de 1702, elaborado para a região das minas de ouro. Os exames de pureza de sangue se tornaram mais rígidos e aumentou o número de familiares. Para as minas, por exemplo, foram designados nove familiares. Apesar da importância e do sangue puro, os familiares sofreram várias acusações de roubos.
Em Minas Gerais, os representantes do Tribunal processaram e condenaram blasfemos, sodomitas, concubinos, bígamos, judaizantes e feiticeiros, na primeira metade do século XVIII, quando os processos se multiplicaram no Tribunal da Inquisição. Acusações de heresia ocorreram em menor número.
Fantástico foi o processo de Pedro Rates Henequim que, depois de viver vinte anos em Minas, foi denunciado à Inquisição, como “cabalista”, queimado, depois de ser afogados no Rio Tejo.6

Numerosas foram as prisões por feitiçarias, entre os homens, como, por exemplo, o escravo Bernardo Pereira Brasil que, curiosamente, “curava” doentes, tirando ossos de seus corpos e chupando-os para lhes tirar os feitiços. Sofrendo devassa, recebeu como pena 60 açoites, de seu próprio amo, na rua principal do Arraial.
Outro acusado de feitiçaria foi o negro Domingos Caldeireiro que fazia curas com feitiçarias em sua própria casa, onde se reuniam outros negros para um ritual de danças e batuques.

NOTAS
1. A Inquisição se estabeleceu em Portugal, em 1547, por força da bula “Meditati Cordis”, de Paulo III. Já em 1536, o rei D. João III havia conseguido que o Tribunal do Santo Ofício atuasse no Reino, fazendo suas primeiras vítimas, apresentadas no primeiro Auto de Fé, em 1540. Era regulamentado por um Regimento que foi, através dos tempos, modificado, conforme os interesses políticos e econômicos da Instituição. O primeiro Regimento data de 1552. O segundo, de 1613 e vigorou até 1640, quando entrou em vigor o quarto Regimento que durou 134 anos. Somente em 1774, o Marquês de Pombal o substituiu, elaborando o quinto Regimento do Santo Ofício.
2. Figueiredo, Luciano Raposo. As Práticas Inquisitoriais nas Minas Colonial, In: 1º Congresso Brasil-Portugal, Lisboa, p. 4.
3. Siqueira, Sônia. A Inquisição Portuguesa e a Sociedade. São Paulo, Ática, 1978, p. 139.
4. Os quesitos dos Interrogatórios abrangiam todos os crimes e transgressões religiosas, como: heresias, blasfêmias, feitiçarias, bigamias, solicitações, sacrilégios, sodomias, incestos, bestialidades, concubinatos, falsos juramentos, judaísmo, corrup­ções, empréstimos, dívidas, usuras, vinganças e muitos outros. Pode-se concluir que os interrogatórios das visitas diocesanas, especulavam profundamente, os costumes, radiografando toda a vida social da paróquia.
5. Essas visitações foram propostas por D. Diogo da Silveira, ao rei, em 1536, com o objetivo de penalizar os hereges, sobretudo os seguidores do judaísmo: “Algumas pessoas, assim como homens e mulheres que não temendo o Senhor Deus, nem o grande perigo de suas almas, apartados de nossa Santa Fé Católica, tendo, crendo, guardando e seguindo a Lei de Moisés e seus ritos, preceitos e cerimôniais e tendo outras opiniões e erros heréticos.” APUD Furtado, Junia Ferreira — Homens de Negócio, São Paulo, FFLCH/USP, tese de Doutoramento, 1996, p. 273.
6. Processo Inquisição Lisboa no 4864.
7. Processo Inquisição Lisboa no 252, p. 10.
8. Processo Inquisição Lisboa no 252, pp. 36 e 39.
9. Processo Inquisição Lisboa no 252, p. 76.
10. Uma das vítimas desse tormento foi o jornalista Hipólito da Costa que afirmou serem as cordas causas de violentas compressões no corpo inteiro.

www.rj.anpuh.org/Anais/1998/autor/Neusa%20Fernandes.doc
Foto: http://www.espada.eti.br/n1676.asp






terça-feira, 12 de maio de 2009

Mensagem aos jovens do Escritor Óscar Ribas


Caros jovens:
Como não me conheceis, vou fazer-vos a minha apresentação. Nasci em Angola.
Dado às letras, especialmente me dedicando à etnografia. Mas também produzindo obras de ficção e de poesia. Embora agindo nas trevas, não físicas, mas sensoriais, toda esta produção foi elaborada desde os 18 anos até à actual etapa da proximidade dos 88.

Para um juízo mais exacto de quem vos está falando, complementarmente acrescentarei que meu pai era português, e minha mãe, angolana, Estou radicado em Portugal desde meados de Junho de 1983, vivendo num lar da 3.ª idade, onde continuo, com a ajuda de um secretário, a ultimar a minha obra.
Já tenho dialogado com grupos de jovens e de crianças. Desta vez, talvez pela palavra inarticulada, saberei corresponder à vossa expectativa? Em vosso espírito desejoso de novidades, de algo que satisfaça a vossa curiosidade do ineditismo, tentarei penetrar nele, valendo-me de minha longa experiência.

Quem não sonha? Só o que já se foi. Pois, tal como vós, igualmente me embrenhei em ilusões, igualmente arquitectei deliciosos sonhos. Embora na última estação da vida, o sonho não deixa de me alentar, amenizar as agruras.

Desabaram os castelos urdidos na esperança? Ficámos decepcionados? Perdemos o anseio? Mas não dispomos nós de mágicas ferramentas? Recuperemos a energia, imponhamo-nos a resistência e metamos mãos à obra, Sem a necessidade, a carência do desejável, não há reacção. E sem reacção, não logramos o objectivo. De onde resultou o Progresso, senão dessa cruciante busca? Avante, pois!

Estais na época do prazer, das estúrdias. Folgai, aproveitei o ensejo. Mas não descureis da ferramenta da sabedoria. Apetrechai-vos convenientemente, sempre e sempre a melhorando. Com ela, vos imporeis social e profissionalmente. Então, que satisfação para o próprio e para os seus!

Vivemos num ambiente de sedutoras tentações. Se umas são benéficas, outras, pelo contrário, desesperam-nos com os seus tentáculos. Mesmo com os olhos abertos, precipitamo-nos num abismo. No estonteamento da queda, cometem-se desvarios de toda a ordem. Refiro-me ao horrível consumo dos estupefacientes. E quantos, na impotência da salvação, se lançam no abismo de que nunca mais se retiram? Não vos restrinjais apenas aos olhos físicos. Recorrei também aos da alma, Esses, mais penetrantes, alertam-nos melhor. Sede prudentes, jovens!

Estamos vivos? Mantenhamos a vida. Por quê e para quê atentar contra ela, sabendo que determinado rumo nos conduz a uma fatalidade? assim alegres, assim bem dispostos, fruindo a existência na luminosidade da esperança, não obteremos a paz espiritual? Errámos? Corrijamo-nos, Caímos? Levantemo-nos. Todo o tempo presta-se à recuperação.
Por ora, sois jovens, estais na fase em que o ímane do amor vos perturba. Aquela moça não vos sai do pensamento. Possa ou não ser o par que satisfaça a vossa aspiração, a mulher, que também é vossa mãe, vossa irmã, vossa consorte, vossa filha, inspira-nos o maior respeito, o maior afecto.

A par destes vínculos, ela é também a sábia conselheira, a perspicaz orientadora. Portanto, deve ser defendida pelo homem digno desse nome. O atentado contra a sua honra, em certos países é punido com a máxima severidade. Se gostamos que nos respeitem, por quê não respeitá-la? jovens, cultivai o sentimento da dignidade, da nobreza de carácter. Nunca vos alvitreis ou permitais que se ultraje ou abuse da fraqueza da mulher.

A violação, qual nódoa corrosiva, deve mortificar, ressurgir em lembranças doridas. Conforme semeamos, assim colhemos.
Sede perseverantes, uma vez que o intento não seja repulsivo. Graças à perseverança, realizei o meu ideal. Sem o querer, não advém o poder.
Verdadeiramente, comecei a editar a minha obra sem dinheiro disponível, hipotecando a uma instituição a reduzida pensão que meu pai me legou. Completei a quantia com dinheiro emprestado por um irmão. E sempre com empréstimos pagáveis com letras a 90 dias. Até que prescindi desse enervante compromisso. Actualmente, já foram editados 16 livros, restando 4 por publicar.

Na tortuosa caminhada da vida, cruzamo-nos com pessoas que, pela sua leal conduta, nos originam amistoso relacionamento, e com outras que, mal-intencionadas, nos atraiçoam, fomentando calúnias. Pior que a fera, é o próprio homem. A fera investe em necessidade de alimento ou de defesa por agressão. Por uma hipócrita amizade, já fui vítima. Portanto, acautelai-vos com as confidências.

Sempre fostes, sois e sereis os construtores de uma nação, os porta-testemunho dos antecessores, No cumprimento das tarefas e missões que vos esperam. Sede venturosos, jovens de todo o mundo!
Vou terminar esta mensagem, à maneira dos narradores dos contos populares de minha terra: - já expus a minha historiazinha. Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem.

Fisgas de Alcoitão, 14 de Junho de 1997
Foto: http://www.cpires.com/fotos_do_lobito.html




segunda-feira, 11 de maio de 2009

Há Quem Venda a Alma por Um Par de Sandálias de Plástico


Por A.C.P.Sábado, 27 de Março de 2004
PÚBLICO ÚLTIMA HORA

PÚBLICO – Há muita prostituição infantil em Nacala?
D. Germano Grachane – De miúdas, principalmente. Isto é um ponto marítimo, ferroviário, pedonal e aéreo. Não sou sociólogo, mas não é preciso ser especialista para ver. Aqui é normal! Ao fim-de-semana, os comboios, os camionistas. Olhe, é tempo de paz de Dezembro a Maio. É uma vida paradisíaca.

Por causa da miséria?
Sim. Uma pessoa vive longe, lá no campo, vê Nacala iluminada e é atraída pela luz. Vem, não tem emprego, não tem casa e é mãe de família, pai... Vende a alma por um par de sandálias de plástico, por um pedaço de pão. O HIV dispara em flecha. Já pedi socorro, com base nas características da cidade, e temos um pequeno centro para aconselhamento e acompamento dos infectados que não têm cura possível.

Há curandeiros que dizem que sim...
Li, no "Savana" [semanário moçambicano], o que a chefe de Medicina Tradicional do Ministério da Saúde diz: "Não tenho provas para mostrar que não podem curar". Seria um "boom" científico.

Há hipótese de os curandeiros estarem a usar órgãos humanos?
Não conheço casos concretos, só posso responder com a antropologia. Aí entraria também a superstição. Estariam a fazer remédios.
Em torno do processo de Nampula, surge também a insinuação de que as congregações católicas estariam a ceder crianças para adopção internacional à revelia da segurança social...

Na minha diocese, não conheço nenhum caso de adopção. Tenho é casos de pessoas que pedem que indique alguém para mandar ajuda para estudar. Eu era o melhor aluno do seminário, em 1957, e havia um casal benfeitor – eram os meus "padrinhos". Como aconteceu comigo, acontece com outros. Isso é o tipo de adopção que se pode facilitar. De outra não sei. Como é que se manda a criança para a Europa?

Há um português retido...
Documentos falsos. O Governo acusou-o de tentar levar ilegalmente um menor. Um dos pontos negativos destas histórias de raptos é que os carros são de brancos que subornam os locais. Isto pode desencadear uma aversão colectiva. É preciso tirar essa história a limpo.

sábado, 9 de maio de 2009

Voltaire – Robert G. Ingersoll


O Artigo abaixo é tradução de um trabalho de Robert Green Ingersoll, realizada por Afonso M. C. Amorim que, gentilmente, ofereceu como colaboração à MPHP.

 

A publicação em português está formalmente autorizada pela Internet Infidels. Inc., que inclusive disponibilizou um link para a MPHP em seu site.

 

Original em inglês: p://www.infidels.org/library/historical/robert_ingersoll/on_voltaire.html

 

 

VOLTAIRE

 

ROBERT GREEN INGERSOLL

 

1894

 

 

Os infiéis de determinada época se transformam nos santos da época seguinte. Os destruidores do velho são os criadores do novo. À medida que o tempo passa, o velho se vai e o novo, por sua vez, torna-se velho. Há no mundo intelectual, como no mundo físico, decadência e crescimento, e no túmulo dos que decaíram nasce a juventude e a alegria.

 

A história do progresso intelectual é escrita na vida dos infiéis; direitos políticos têm sido escritos por traidores, e liberdades de mentes, por hereges. Atacar um rei era traição; disputar com um sacerdote, uma blasfêmia. Por muitos séculos, a espada e a cruz foram aliadas. Juntas elas atacavam os direitos dos homens. Elas se defendiam entre si. O trono e o altar eram abutres irmãos gêmeos, vindos do mesmo ovo.

 

Jaime I disse: 'nenhum bispo, nenhum rei'. Ele deveria ter acrescentado: 'nenhuma cruz, nenhuma coroa'. O rei era o dono dos corpos dos homens. O sacerdote era dono da alma. Um vivia de taxas coletadas pela força; o outro, de esmolas coletadas pelo medo – ambos eram ladrões, ambos pedintes.

 

Esses ladrões e esses pedintes controlavam dois mundos: os reis faziam leis e os sacerdotes faziam crenças. Ambas atribuíam sua autoridade a Deus. Ambos eram representantes do Eterno.

 

Com as costas recurvadas, o povo carregava as obrigações de um, e com as bocas abertas de espanto, recebia os dogmas do outro. Se o povo tentasse ser livre, seria esmagado pelo rei, e todo sacerdote era um Herodes que esmagava as crianças pensantes.

 

O rei governava pela força, e o sacerdote, pelo medo, e ambos dependiam um do outro.

 

O rei dizia ao povo: "Deus vos fez servos, e me fez rei; ele vos fez para o trabalho, e me fez para a alegria; ele vos deu trapos e ferramentas e me deu palácios e roupas ricas; ele vos fez para obedecer e me fez para comandar. Esta é a justiça de Deus".

 

E o sacerdote dizia: "Deus vos fez ignorantes e vis; ele me fez sábio e santo; vós sois as ovelhas; e eu, o pastor; vossas peles pertencem a mim; se não me obedeceis aqui, Deus vos punirá e vos atormentará para sempre num outro mundo. Esta é a misericórdia de Deus".

 

"Não deveis usar a razão. A razão é uma rebelde. Não deveis contrariar – a contradição é nascida do egoísmo. Deveis acreditar. Aquele que tiver ouvidos para ouvir, que ouça". O céu era só uma questão de audição.

 

Felizmente para nós têm havido traidores e hereges, blasfemadores, investigadores, pensadores, amantes da liberdade, homens de gênio, que deram suas vidas para melhorar as condições dos seus semelhantes.

 

Isto pode ser suficiente para nos fazer perguntar: o que é a grandeza?

 

Um grande homem adiciona a o nosso conhecimento, amplia os horizontes do conhecimento, liberta as almas das bastilhas do medo, cruza mares desconhecidos e misteriosos, desbrava novas ilhas e novos continentes para o domínio do conhecimento, novas constelações do firmamento para nossas mentes. Um grande homem não busca aplauso e colocação. Ele busca a verdade. Ele busca a estrada para a felicidade, e o que ele obtém ele compartilha com os demais.

 

Pode continuar a leitura aqui:

http://www.mphp.org/racionalismo/voltaire---robert-g.-ingersoll.html

 

sexta-feira, 8 de maio de 2009

PEPETELA. O mistério dos passaportes chineses


O colonialismo e a escravidão ainda não acabaram não. É urgente a fundação de outro movimento de libertação de Angola… de movimentos de libertação mundiais.

 

Muito misterioso, Pepetela só notar nos anúncios do Jornal de Angola o mistério dos passaportes chineses, não é?!

Não viu o mistério dos anúncios por abandono injustificado do serviço. Será que morreram de fome? Foram assassinados? No tocante às senhoras fugiram porque os patrões as queriam empregar deitadas nas camas. Esta coisa de assédio sexual é tão normal, tão institucional.

 

Também o mistério dos anúncios de tanta empresa de especulação imobiliária. O mercado tem tal enchente desta escumalha, não chega para todos claro, que assim se explica o parte-casas e o roubo de terrenos. De outro modo não sobrevivem.

 

E os anúncios de geradores eléctricos? Bruto negócio não é?! Abandona-se a energia eléctrica para facturar nos geradores?!

E os anúncios fúnebres? Pepetela não reparou quantos morreram vítimas de assassinato? E quantos e quantos morreram de fome?

 

Pepetela também não notou que o jornal só anuncia, vangloria um partido, sempre o mesmo, porque será?

Finalmente nota-se bem que o amigo Pepetela só compra o Jornal de Angola por causa dos anúncios e para embrulhar o lixo. Eu também.  

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O mito da pátria de chuteiras


Livro relata fatos e ficção ligados a uma equipe de futebol que se tornou uma alegoria da resistência do povo ucraniano à ocupação nazista

JBONLINE

Marcelo Kischinhevsky*

Reprodução

O F.C. START reuniu jogadores do glorioso Dínamo de Kiev e tornou-se mito ao travar batalhas contra nazistas no campo e na guerra
Futebol & guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas
Andy Dougan
Tradução de Maria Inês Duque Estrada
Jorge Zahar
204 páginas, R$ 29

A agradável tarde de 7 de junho, de temperatura amena, típica do verão em Kiev, contrastava com a tensão estampada no rosto de cada funcionário da Padaria nº 3. Seu time de futebol, batizado de F.C. Start, estava prestes a escrever um dos capítulos mais espetaculares - e ao mesmo tempo nebuloso - da história do esporte mundial.

O uniforme se limitava a um jogo de camisas de malha vermelha, que evocava a bandeira da União Soviética. Tudo o mais era improvisado: em vez de calções, calças cortadas; no lugar das chuteiras, sapatos comuns, de lona. O adversário também era inusitado - nas fileiras do Rukh, formavam velhos conhecidos, simpatizantes da Alemanha nazista. Era o pontapé inicial do primeiro e único campeonato da Ucrânia ocupada por Hitler. Um torneio que, disputado no amargo ano de 1942, faria nascer um dos maiores mitos do futebol internacional.

As lendas e os fatos relacionados à equipe do Start, na verdade um combinado de jogadores do Dínamo de Kiev e do rival Lokomotiv, são narrados num livro excepcional, do jornalista e escritor escocês Andy Dougan, Futebol & guerra: resistência, triunfo e tragédia do Dínamo na Kiev ocupada pelos nazistas.

Dougan não escreveu exatamente um livro sobre futebol, mas sim sobre a tragédia que se abateu sobre o povo ucraniano e todo o intrincado jogo de interesses políticos em torno do lendário time do Start, que venceu todas as partidas que disputou até ser encarcerado no temido campo de extermínio de Siretz, em Babi Yar, nos arredores de Kiev. Esse mito, propalado por autores de renome como o uruguaio Eduardo Galeano, pode ser resumido da seguinte forma:

Era uma vez um time de futebol, orgulho da Ucrânia, que lutou bravamente contra a invasão dos alemães. Quando Kiev foi ocupada, todos foram presos. Só escaparam de ir para o campo de concentração por obra e graça de um Oskar Schindler local, que os levou para trabalhar numa fábrica de pães. Lá, formaram novamente uma equipe e voltaram a enfrentar os nazistas num campeonato de futebol armado pelas tropas de ocupação para provar a superioridade ariana. Ganharam todas as partidas, defendendo a honra da Ucrânia e do socialismo. Na última, bateram uma seleção germânica e, por isso, logo após o fim do jogo, foram fuzilados, ainda vestindo seus uniformes.

A história comovente do chamado Jogo da Morte circula há várias gerações no meio do futebol e até inspirou um péssimo longa-metragem, Fuga para a vitória, no qual Pelé (?!) interpreta um dos jogadores. Pena que, em grande parte, trate-se apenas de um mito, nascido de relatos de torcedores sobreviventes da ocupação nazista e reiterado pelos dirigentes soviéticos. Uma versão conveniente sobre o heroísmo e a abnegação do povo ucraniano, que finalmente agora é destrinchada pela ampla pesquisa empreendida por Dougan.

Ok, de fato, parte do time do Dínamo de Kiev lutou contra os nazistas nos campos de batalha. Muitos desapareceram nesse período e seus corpos jamais foram encontrados. As tropas ucranianas eram mal equipadas e treinadas. Em muitos pelotões, havia um fuzil para cada grupo de cinco soldados. Do outro lado, marchavam alemães bem nutridos, muitos dos quais acreditavam na propaganda de sua superioridade racial.

Kiev caiu e iniciou-se um dos períodos de maior barbárie da história humana. Em novembro, menos de um mês após a ocupação, 100 mil civis já haviam sido executados, dos quais 75 mil judeus. Era demais mesmo para um povo que sobrevivera, na década anterior, à Grande Fome orquestrada por Stálin - o ditador soviético que confiscou grande parte da declinante produção de grãos ucraniana, deixando a população local à míngua - e à política de deportações de dissidentes para campos de trabalhos forçados na Sibéria.

Com o país submetido à servidão, os nazistas reativaram algumas das padarias (na verdade, grandes fábricas de pães) existentes antes da ocupação, como a nº 3. A população foi dividida em castas. No topo da pirâmide, estavam os alemães, seguidos pelos arianos de países aliados. Abaixo, estavam os ucranianos, impedidos de exercer qualquer atividade qualificada. A economia deveria voltar a funcionar basicamente para garantir a exportação de trabalhadores rumo às fábricas germânicas de armamentos. Alguns ucranianos emigraram voluntariamente para fugir das péssimas condições de vida no país ocupado, mas a maioria (mais de 40 mil por mês) foi enviada para a Alemanha na mira de fuzis.

Neste momento, Josef Kordik, tcheco de origem, mas fluente em alemão, identificou-se como austríaco e conseguiu o controle da Padaria nº 3. Apaixonado por esportes, este sujeito rude e amargurado conseguiu reunir, entre seus funcionários, diversos atletas que passavam toda sorte de necessidades como cidadãos de segunda classe. Entre eles, jogadores do Dínamo, muitos remanescentes da conquista do título soviético de 1936, como Trusevich, Goncharenko, Korotkykh, Makhinya e Kuzmenko.

Dougan relata todas as dificuldades enfrentadas por estes jogadores para sobreviver a uma guerra que, ao acabar, havia reduzido a população de Kiev de 400 mil habitantes para 80 mil. É impressionante seu esforço de cotejar fontes contraditórias para episódios polêmicos, como a lendária vitória sobre a suposta seleção alemã no Jogo da Morte. O time germânico, chamado Flakelf (algo como os ''Onze da Bateria Antiaérea''), estava longe de ser uma equipe de atletas profissionais da Luftwaffe (Força Aérea), como seria descrita posteriormente na mitologia soviética.

Mesmo assim, ressalta o escritor, era uma tropa de ocupação buscando sobrepujar ucranianos, assim como havia ocorrido no campo de batalha. E não apenas o Flakelf fracassou, mas acabou humilhado pelos talentosos mas famintos jogadores do Start, que não estavam livres da rotina de trabalhos forçados e só melhoravam sua dieta graças à comida fornecida às escondidas por torcedores e soldados romenos, aliados de ocasião dos nazistas.

O desfecho é trágico, mas a maior surpresa da narrativa é descobrirmos que desconhecemos, em larga extensão, a história da opressão ao povo ucraniano, que não teve a publicidade de outros genocídios do século 20. Há no livro momentos inquietantes, como a descrição detalhada da máquina de extermínio alemã e a incômoda semelhança entre os interrogatórios a que os jogadores foram submetidos anos antes, no período stalinista, e durante a ocupação nazista. E a mais perversa ironia: a cortina de silêncio imposta aos sobreviventes do Start, que não puderam, durante décadas, contar suas histórias sob pena de macular a versão oficial comunista.

Com esse gol de placa, Dougan mostra que futebol também é coisa séria, para ser estudada a fundo, sob pena de se incorrer em mistificações. E expõe as entranhas da mitologia da pátria de chuteiras, tão cara aos cronistas esportivos brasileiros, ávidos pela criação de mártires como os do Dínamo.

*Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e colunista do JB


terça-feira, 5 de maio de 2009

Iriscelta


Este é um sonho que se tornou real. A terra mágica. A viagem fantástica. A natureza indomada. Manaus. O Rio Negro. O Lago Mamori. Os igarapés. O Teatro Amazonas. Os povos da floresta. Os índios. É necessário dizer que adorei esta viagem? Foram momentos de intensa conexão com a Deusa e o Deus. É indescritível.Um banho de cultura e a surpresa por encontrar um povo tão receptivo e gentil.

Sempre alimentei este sonho desde bem jovem, quando ainda era uma aluna do curso de Biologia. Sonhei até em trabalhar no INPA em Manaus. Mas o mundo é um moinho e consumiu meu mais lindo sonho. Minha vida tomou rumos inesperados. Fiz pós-graduação em Botânica no Museu Nacional, UFRJ, casei, tive 2 filhos, tornei-me professora de Biologia pra poder me sustentar e manter meus filhos...Mas a paixão pela Natureza sempre foi muito forte em mim. Finalmente, reuni coragem e resolvi passar parte de meus dias de férias em Manaus e finalmente realizar este sonho de conhecer a Mata Virgem.

Quando me aproximava da região uma moça moradora da região a Patrícia, me mostrou os locais.As fotos iniciais nos dão uma visão de cima da grande mata e de Manaus. É uma grande extensão de terra, com florestas e grande malha fluvial.
Pois, assim que lá cheguei fui a conhecer o Teatro Amazonas que tem uma estória muito interessante, pois foi construída na época do esplendor econômico da borracha, no ínvio do século XX, com materiais de diversos lugares do mundo. Atualmente, o Teatro é o centro cultural de Manaus, local onde ocorrem muitos eventos culturais.

Estive num hotel de selva, o Mamori, distante umas 3 horas de Manaus, pois eu quis conhecer as espécies de plantas e os animais típicos. Por 2 dias eu percorri rios, igarapés, varzes fui à pesca da piranha, vi o pôr-do-sol, a lua crescente, uma tempestade noturna com muita chuva, raios e trovões, mas ao amanhecer despontou um lindo sol sobre as águas do rio. O banho no rio foi muito bom e a vivência com turistas estrangeiros e o povo nativo foi muito maravilhosa.

Pois, embora falando línguas diferentes conseguimos estabelecer uma empatia, comunicação e até jogamos cartas. As refeições eram feitas numa sala de jantar onde todos compartilhavam do espaço.O dormitório era constituído de redes e algumas camas, num espaço onde não havia separação individual. Nos momentos que antecederam minha volta caiu uma forte chuva no local.O que mais me impressionou foi o interior da mata, com suas grandes árvores e vegetação cerrada de castanheiros-do-pará, palmeiras, etc. e um alto índice de humidade.O guia me deu muitas explicações a respeito da utilidade das plantas...

No restante do tempo, percorri todos os museus de Manaus que pude, principalmente, os com fauna e flora representativos da região.O bosque da Ciência do INPA, o Museu de Ciências dos japones e o Museu do Seringal foram os que mais me impressionaram, por sua diversidade de espécies e História. O Museu do Serigal Vila Paraíso é muito impressionante por ser uma réplica de um antigo local onde viveu Juca Cristão,um seringalista português. Neste local a rede Globo fez as filmagens da "Selva". Lá o guia me deu explicações detalhadas de como era feita a exploração da borracha e tudo que envolveu a estória do local.O Mercado Municipal é outro local bem curioso, por sua arquitetura e ainda é o centro comercial do porto de Manaus.

Pude ver uma exposição maravilhosa sobre a escrita chinesa e uma coleção de numismática no Centro Cultural Rio Negro, que foi no passado a residência de um comerciante alemão de borracha...
Os rituais indígenas da etnia dessano foram muito lindos e retratam um pouco dos costumes e crenças desta tribo que vive no Alto Rio Negro.
O povo de Manaus é muito simpático e amistoso, tendo a cidade uma intensa atividade cultural no entorno do Teatro Amazonas.Em fins de semana, ocorrem várias atividades culturais na praça simultaneamente, no teatro e nas casas que foram transformadas em locais de atividades culturais, tais como música, exposição de pinturas, etc. é uma cultura multifacetada, miscigenada, rica, que me emocionou a cada momento....

http://iriscelta.multiply.com/photos/

domingo, 3 de maio de 2009

Anatomia de um génio


Novas peculiaridades anatómicas poderiam explicar a genialidade de Einstein.
Uma fissura inusual poderia ser a origem da sua demora na aquisição da linguagem.

Albert Einstein. EL MUNDO

MARÍA SAINZ

MADRIDE. - Quando Albert Einstein estancava num problema de Física, pegava no seu violino e tocava-o até encontrar a solução. Tinha uma sensibilidade especial pela música e para compreender as coisas preferia as impressões sensoriais no lugar das palavras. Grande parte destas peculiaridades está marcada na anatomia do seu cérebro.

Depois do seu falecimento em 1955, e como não poderia ser de outra forma, o órgão que lhe dotou a genialidade doou-se à ciência. Thomas Harvey, do hospital Princeton (Nova Jersei, EEUU), foi o patologista encarregado de conservá-lo e, junto com outros peritos, fotografou-o e dividiu-o em distintas porções para analisá-las pelo microscópio.

Décadas depois, distintos grupos de investigação intentaram dissecar esta mente superdotada. Um deles é o dirigido por Dean Falk, do departamento de Antropologia da Universidade Estatal de Florida (EUA), e do que agora se faz eco na revista 'Science'.

Com técnicas de Paleoantropología, e baseando-se nos dados e imagens aportados por Harvey e outros peritos, Falk identifica novas peculiaridades anatómicas que poderiam explicar a genialidade de Einstein, se bem é certo que nem o peso do seu cérebro nem a maioria da sua superfície cortical são dignos de menção.
O cérebro não pesava mais do que o normal

"O córtex cerebral era fino [...] e com amplos sulcos, algo normal para a sua idade (76 anos). A sua massa cerebral, de 1.230 gramas, tampouco é excepcional", explica a investigação, publicada em 'Frontiers in Evolutionary Neuroscience'.

Se são peculiares determinadas zonas do córtex somatosensorial e motora. "É possível que estes aspectos atípicos [...] se relacionassem com as dificuldades que tinha para adquirir a linguagem; a sua preferência por pensar com impressões sensoriais, incluídas as imagens visuais em lugar das palavras; e a sua precocidade na prática do violino [tocou-o dos seis aos 14 anos]".

Parece que o órgão cinzento de Einstein apresentava uma curiosa combinação de rasgos simétricos e assimétricos. Ademais, Falk encontrou-lhe uma fissura inusual numa região envolvida na habilidade para recordar fonemas e sílabas: "Poderia associar-se com o seu já conhecido atraso na aquisição da linguagem e com o facto de que costumava repetir-se frases a si mesmo até que cumprisse os sete anos".

Como comentávamos anteriormente, este trabalho não é o primeiro nem possivelmente o último focalizado a conhecer o cérebro do físico alemão. Segundo explica a revista 'Science', o primeiro estudo anatómico nesta linha dirigiu-o Sandra Witelson, neurobióloga da Universidade McMaster em Hamilton (Canadá).

Os resultados deste ensaio também foram muito reveladores. Por exemplo, "os lóbulos parietais – implicados no conhecimento matemático, visual e espacial – eram uns 15% maiores que a norma". Uma descoberta que agora também confirma Falk.

"Ainda que estas visões são especulativas [...] possivelmente serão de utilidade a futuros estudantes com acesso a nova informação e metodologia", conclui este perito.

EL MUNDO

Foto: Cinco vistas diferentes do cérebro de Albert Einstein. (Foto: Miguel Rajmil)

sábado, 25 de abril de 2009

A Memória de Jaime Galante na Faina do Bacalhau


Público

Em 1948, com apenas 16 anos, Jaime Galante experimentou pela primeira vez a aventura nos bacalhoeiros portugueses nas águas da Terra Nova. Ao fim de 25 anos de pesca do bacalhau, decidiu acabar de vez com uma vida marcada pela má alimentação e pela falta de higiene. Memória de um tempo que já não existe. Por Ângelo Teixeira Marques

O mar entrou cedo na vida de Jaime Galante Rodrigues, um pescador de Vila do Conde que passou 25 dos seus 71 anos na safra do bacalhau. Aos nove anos, quando teve de abandonar a escola para minorar a pobreza da família com dez bocas para alimentar, o pai já andava na safra do bacalhau, mas Jaime começou pela faina costeira. Em 1948, o pai entendeu que estava à altura do desafio. Aos 16 anos, embarcou em Lisboa no "Adélia Maria", um bacalhoeiro de Aveiro, com quatro mastros e um pequeno motor auxiliar.

Entrou com a categoria profissional mais baixa de todas as existentes a bordo: era simplesmente um dos "moços". Um membro "sem direito a nada", nem sequer a sentar-se à mesa junto dos demais cinquenta pescadores, motoristas e cozinheiros. E muito menos junto do topo da hierarquia, composto por "oficiais, capitão e imediato". Por ironia, estes tinham direito ao trabalho privativo de um "moço".

Um "moço" não ia à faina, mas a permanência a bordo significava uma carga de trabalhos, desde a limpeza à distribuição de refeições e, a parte mais dura, o labor no sal, no porão. Os navios zarpavam na Primavera para safras que duravam cerca de seis meses e iam carregados de sal para proteger, no regresso, o bacalhau pescado.

O porão tinha diversas divisões e era necessário transferir o sal de umas para as outras, à medida que o peixe ia sendo pescado e acamado. Jaime Galante lembra-se de um "moço" ter falecido "no espaço de um dia", com uma "pneumonia galopante" que suspeita ter sido causada pelo choque térmico entre um corpo quente pelo suor adquirido no porão e uma aragem fria apanhada no topo do barco. "Era um trabalho de escravo", sintetiza.

Aos 18 anos, Jaime ascendeu a pescador. As viagens para a Terra Nova duravam cerca de 15 dias e o tempo era passado a preparar os aparelhos para a pesca, a jogar às cartas, a alar as velas (para poupar o motor) ou a limpar o barco. "Arranjavam sempre algo para fazermos", diz. Chegados à Terra Nova, onde adquiriam o isco - "a sarda era o melhor, o pior as lulas-gigantes, demasiado rijas" - , principiava a saga da pesca. Às quatro da manhã, ouvia-se o "Louvado" - uma ladainha religiosa que funcionava como despertador. O pequeno-almoço era escasso. "Normalmente, um pão e algo com parecenças de café ou feijão com peixe", conta.

De súbito ouvia-se um grito - "tira o isco, corta o isco, vamos arriar!" - e eram despejados na água os botes à vela e remos, com uma mão-cheia de pescadores a bordo. Jaime Galante ainda chegou a utilizar a "linha de mão", que tinha somente dois anzóis, mas este apetrecho foi ultrapassado pelos mais modernos e produtivos "trole" e "zagaia". O trole era composto por uma linha com "seiscentos anzóis ou mais" que tinha de ser estendida por longos quilómetros. E aqui levantava-se uma dificuldade: com tantos botes na água, os pescadores tinham de arranjar espaço para todos. Logo, os últimos botes a entrar na água eram os que regressavam mais tarde ao ponto de partida. O retorno era sinalizado pelo içar "de uma bandeira preta formada por dois panos de serapilheira". Assim, ficavam no mar, "no mínimo, até às seis horas da tarde" e só depois é que a barriga era reconfortada.

Mas o trabalho não acabava com as capturas. Já no navio, os pescadores eram divididos por três mesas e o peixe ia passando "como numa fábrica": "Uns faziam trote, abriam a barriga [do peixe], outros tiravam as tripas e partiam a cabeça e os últimos escalavam". Depois de lavados, os bacalhaus iam para os porões onde estavam outros membros da tripulação a fazer "a salga".
Até Junho, a faina era passada na Terra Nova. Depois o barco arribava à Gronelândia, onde, devido ao frio, o bacalhau "era mais escuro e tinha menos possibilidade de se estragar". Gastava, por isso, menos sal, o que agradava sobremaneira a quem tinha de gerir a quantidade do conservante. Por causa do tempo gélido, nos finais de Agosto o barco deixava a Gronelândia e, "se não estivesse carregado, voltava à Terra Nova para acabar de encher [com pescado]". Muito trabalho e pouco descanso. Só quando dava a "brisa" [ventos tempestuosos] é que os músculos descansavam.

O terceiro naufrágio
Numa das viagens, Jaime Galante viu uma "coxa de uma vaca" a descongelar e quando, noite alta, regressou da "vigia" no leme, sentiu uma fome corrosiva. Juntou-se a meia-dúzia de "camaradas" mais chegados e, com a afiadíssima "faca de escala", tirou tiras de bife que fritou na "máquina que era a petróleo, mas funcionava a gasóleo" - uma espécie de minifogão. Só que os improvisados cozinheiros esmeraram-se no tempero ("colocámos um bocadinho de pimenta, alho...") e "o cheiro começou a espalhar-se" pelo barco. No dia seguinte, da peça de carne só restava o osso.

E, por causa da alimentação, Jaime Galante quase encabeçava uma rebelião. O barco já tinha Aveiro à vista, mas como estava totalmente carregado - tinha capacidade para " onze mil quintais" (cada quintal é equivalente a 60 quilogramas) o calado roçava o fundo do mar e a aproximação à costa ficou dependente de uma boa maré. O proprietário mandou ao encontro da embarcação uma lancha com "hortaliças, batatas, ovos e metade de uma vaca". Só que, na hora da refeição, os pescadores viram-lhes cair no prato "feijões e peixe amarelo feito em sebo". O mesmo cardápio dos últimos meses e que enfastiava a tripulação. "Que c...... é isto?", zangou-se Jaime Galante, que foi pedir meças ao capitão do barco e, após uma azeda troca de palavras, o pescador, forrado com a presença dos restantes camaradas, ameaçou o superior. Galante esteve em vias de ser preso, mas o dono da firma "não enviou a polícia".

Em 1968, o "Adélia Maria" naufragou, em virtude de um incêndio, e Jaime Galante transitou para uma embarcação maior, a "Capitão José Vilarinho", que dava trabalho a "mais de oitenta pescadores". Mas também este barco iria naufragar, abalroado por um pesqueiro canadiano, quando encetava a fuga a um ciclone. Neste caso morreram quatro membros da tripulação.
Finalmente, Jaime Galante, já como "mestre-salga", seria tripulante do "Vila do Conde", mas a sina dos naufrágios perseguia-o e também o barco com o nome da sua terra foi ao fundo, depois de um incêndio a bordo. O pescador deixou a faina do bacalhau de vez. E depois de uma passagem por Espanha, da participação numa cooperativa, comprou um "barquito" de pesca local com o qual ganhou o pão até se reformar. E aí verificou que a pesca do bacalhau "era uma ilusão": os que trabalhavam e arriscavam ganhavam "uma miséria".

Jaime Galante ficou, pelo menos, a conhecer todos os segredos do bacalhau e sentencia: "O nosso bacalhau vinha cinco ou seis meses espremido no sal. Depois era seco ao sol e quando ficava de molho crescia e as postas pareciam lascas. Hoje a salga dura um dia ou dois e, por isso, o bacalhau fica branco por dentro e parece palha".

Domingo, 21 de Dezembro de 2003

sexta-feira, 24 de abril de 2009

BOUDICCA a nobreza celta


Boudicca é conhecida nos anais de Roma como Boadicea. Era uma nobre que nasceu por volta do ano 30. Pouco se sabe de onde veio, mas alguns estudiosos acreditam que seu nome é uma homenagem à deusa da Vitória Boudiga, do panteão celta, dado por seus seguidores.

Ela se casou dentro da nobreza do povo Iceni, do sudoeste da Bretanha, por volta de 48, dando à luz a duas filhas que alcançaram a adolescência antes do falecimento de seu pai, por volta do ano 60. A partir de sua morte, ocorreram uma série de ataques de surpresa dos romanos a ela e à suas filhas, ultrajando a tripo dos Iceni. Boudicca finalmente liderou uma força composta por mais de cem mil guerreiros, numa rebelião maciça que deixou uma ferida à integridade do Império Romano.

História

Boadicea fazia parte da nobreza céltica. Os Celtas eram um povo guerreiro que habitava as Ilhas Britânicas e a Europa Ocidental desde o século V AC aproximadamente. Os romanos fizeram várias incursões infrutíferas à Gália ao longo dos séculos e os celtas eram admirados por seu destemor e coragem.

Um ajuntamento de forças célticas saqueou Roma em 410, causando o colapso do Império que, de fato, já se encontrava dividido.

O que mais aterrorizava os combatentes romanos diante das forças célticas era que homens e mulheres combatiam lado a lado, sem distinção de honra ou valor e muitos menos, quanto ao vigor na batalha.

Mesmo assim, Roma sentiu-se extremamente ultrajada pelo fato da rebelião dos Celtas ser liderada por uma mulher.

César

Julio César invadiu a Bretanha duas vezes, primeiro em 55 AC e depois novamente no ano seguinte, obtendo então a submissão de seis poderosas tribos do leste, entre os quais, as tribos dos Iceni. Em virtude de outras questões relativas à ocupação das Ilhas do Canal e dos combates existentes contra os gauleses, deixou aquelas tribos governando-se a si mesmas, embora passassem a manter relações comerciais inclusive com a Gália Romana, pacífica e latinizada. César jamais retornou para a região e a vida retornou à normalidade pelos próximos cem anos.

O Retorno de Roma

Prasutagus, marido de Boudicca, era o provável rei dos Iceni quando Roma retornou em 43, com Claudius. Claudius enviou cerca de 60 mil homens não apenas para invadir a Bretanha, mas também para colonizá-la, depois de investigar e pesquisar sobre as vitórias e fracassos das incursões anteriores.

Os Iceni foram assim novamente subjugados e Prasatugus foi mantido no trono como rei-vassalo de Roma. Desta forma, havia um governante local dirigindo-se diretamente ao seu povo e suas terras, subordinado aos interesses de Roma. Dessa maneira, contavam com apoio militar, um estrutura de taxas e coletas de impostos e educação nos moldes da existente no Império. No fundo, tratava-se de uma escravidão branda.

Como disse Calgacus, líder dos caledônios, que liderou a rebelião 20 anos depois de Boudicca:

“Eles devastam tudo e criam a desolação, chamando a isso de paz”.

Haviam vários regentes submetidos à Roma a leste e ao sul da Bretanha. O País de Gales se submeteu apenas depois de 30 anos de violentos combates. E quanto mais ao norte os romanos se dirigiam, mas difícil se tornava controlar o povo. No extremo norte da ilha, cerca de 60 anos após Boudicca, os romanos tentaram conter os caledônios construindo uma muralha (Vallum Hadrianus), mantendo-os distante dos territórios romanos. O que mais tarde se tornou a Escócia permaneceu livre, uma prova de que jamais estiveram na Irlanda. O mais próximo que chegaram foi até a Ilha Mona (Anglesey), que era um santuário druídico renomado, destruído pelos romanos sob o governo de Suetonius Paulinis, na mesma época em que Boudicca reunia as suas forças.

A Rebelião

Depois de casar com Prasutagus, por volta do ano 48, Boudicca se tornou a rainha dos Iceni. Deu à luz a duas filhas, de nomes desconhecidos. Acredita-se que estavam na adolescência por ocasião da morte de seu pai entre os anos de 60 e 61. Boudicca então se tornou a regente dos Iceni e guardiã da herança de suas filhas.Prasutagus deixou um desejo ao morrer. Deixava terras e possessões pessoais, bem como quantias em dinheiro para o Imperador (na época, Nero), como era requerido dele como vassalo de Roma. Mas também deixou dinheiro e algumas propriedades para sua esposa e filhas. Ao sacrificar-se agindo assim, pensava assegurar a continuidade o pagamento de taxas e tributos à Roma durante um bom tempo. Acreditando que havia salvaguardado os interesses de seus descendentes, Prasutagus morreu despreocupado.

Porém, após a morte de Prasutagus, representantes da administração tributária de Roma foram enviados à Bretanha, acompanhados de guardas para contestar seu testamento. Segundo as leis romanas, não poderia deixar bens, propriedades e recursos à família sem o direto consentimento do imperador.

Boudicca foi tornada inteiramente responsável por todos os débitos junto a Roma. Por não ter como honrá-los, Roma não poupou esforços para utilizá-la como exemplo. Foi feita prisioneira e açoitada em público, enquanto que suas filhas foram levadas para longe e violentadas pelos soldados romanos. A isso chamavam de “a Lei Romana”. Nenhum crime havia sido cometido pelos Iceni aos romanos além do fato de Prasutagus ter distribuído alguns de seus recursos às suas filhas...

Ela recuperou suas filhas e trazendo-as novamente para o seu povo. Então, várias pequenas insurreições e rebeliões começaram a acontecer primeiramente ao sul, particularmente pelos Trinovantes, libertando seus parentes e familiares que passaram a engrossar as suas fileiras. Eles faziam parte de uma tribo que não havia se submetido aos romanos e que se colocou à disposição dos Iceni para responder ao ultraje recebido. E foi dessa maneira que as duas tribos que eram inimigas entre si por séculos estabeleceram uma aliança para se juntarem a Boudicca quando ela conclamou à guerra.

O Governador da Bretanha, Suetonius Paulinus estava justamente acabando com uma rebelião que seguia uma profecia dos druidas que falava de paz na ilha, quando uma nova rebelião se instalava cerca de 300 milhas adiante. Assim que terminou de aniquilar todos os seus habitantes e destruir os seus santuários, levantou acampamento e dirigiu as suas tropas em seguida.

Acredita-se que Boudicca reuniu cerca de cem mil pessoas quando liderou o primeiro ataque a Camulodunum Colônia (Colchester), uma colônia distante da administração romana e de suas famílias. No interior da cidade, uma quinta coluna de rebeldes assegurou que o ataque ocorreria sem aviso ou problema. Os combates duraram alguns dias, tempo suficiente para que mensageiros corressem a Londinium (Londres) e informassem o Procurador, uma vez que o Governador estava fora de alcance. Este respondeu enviando apenas 200 homens, que foram rapidamente abatidos na batalha.

Tácito cita a religiosidade romana e britânica que previu a desgraça futura de Roma:

“Apesar de tudo, sem nenhuma causa evidente, a estátua da Vitória em Camulodunum permanecia prostrada e de costas para o inimigo, como um presságio a ser refletido. Mulheres profetizavam a destruição em línguas estranhas e diz-se que foram ouvidas inclusive no Senado. Os combates foram tão fortes que a cidade parecia um cemitério e o Tamisa, um rio de sangue. E quando a maré baixava, corpos surgiam fantasmagóricos de suas águas. Para os bretões, esse sinal eram um alento; para os romanos, apavorante. Os soldados veteranos de Roma mantiveram-se fechados por mais dois dias, trancados no templo de seus deuses. Desempenhando a função de agricultores, estavam pouco equipados para lutas tão ferozes quanto aquela.”

Foi quando Boudicca se moveu. Camulodunum era uma cidade destruída e seus habitantes estavam totalmente fora de combate.

A IXª Legião Hispana, guiada por Petilius Cerialis, foi enviada para Camulodunum. Rapidamente se equipou e deslocou para a região do conflito trazendo cerca de cinco mil homens, mas foi emboscado por um destacamento que os esperava a norte de Camulodunum. A infantaria foi totalmente dizimada; Petilius e sua cavalaria se retiraram mais para norte e a rebelião rapidamente se espalhou.

Após as notícias da revolta, o Procurador Decianus partiu imediatamente de seu gabinete em Londres, levando tudo o que podia, inclusive os seus próprios funcinários, deixando a cidade sem administração.

Suetonius, enquanto isso, marchou rapidamente para Londres, inspecionando a cidade com um destacamento. De alguma maneira, evitara a chegada de Boudicca de Camulodunum, conduzindo uma legião inteira por cerca de 400 km, esperando encontrar apenas ruínas pelo caminho. Nessa época, Londres era uma cidade burguesa, com seus negócios e feiras espalhadas por toda a sua extensão. Não era uma cidade particularmente fortificada, uma vez que sua principal atividade era realmente os negócios e seus cerca de 30 mil habitantes, romanos ou não, sentiam-se em casa. Apesar de Suetonius ter chegado a tempo, abandonou prontamente a cidade, pois sabia que não poderia ser defendida.

Tácito descreve a cena em seus anais:

”Ele decidiu sacrificar a cidade para salvaguardar a situação geral. Sem se deixar levar pelos pedidos e lágrimas daqueles que imploravam por sua ajuda, ele deu o sinal para partir, levando a sua coluna e todos aqueles que quisessem acompanhá-lo. Aqueles que não estavam preparados para a guerra, seja por seu sexo, idade ou porque eram muito presos aos seus negócios para os abandonarem, acabaram sendo mortos pelo inimigo.

Boudicca e suas forças chegaram a Londinium pouco depois da partida de Suetonius e arrasaram inteiramente a cidade, não deixando pedra sobre pedra.”

Depois de deixar Londres, Boudicca se voltou para noroeste para Verulamium (Santo Albano), uma cidade pouco menos populosa que Camulodunum, mas composta inteiramente de bretões simpatizantes ao regime romano. Suetonius convocava agora a IIª Legião Agusta do sudoeste para reunir-se às suas próprias legiões. Mas parece que não compareceram a tempo, contidas por seu comandante Poenius Postumus. Sem eles, Suetonius reuniu rapidamente cerca de dez mil homens compostos dos destacamentos da XXª Legião que o acompanharam à Ilha Mona, da XIVª Legião e dos auxiliares disponíveis na área que poderiam ser reunidos o mais rapidamente possível. Supõe-se que assim tenha reunido cerca de 200 mil homens.

Os habitantes de Verulamium receberam orientações de Boudicca assim que ela partiu de Londres. Antes que ela chegasse, a população evacuou a cidade levando consigo todos os seus pertences. Ainda assim, assim que o exército atravessou a cidade, ateou fogo em tudo e em todos aqueles que se recusaram a seguir as suas ordens. Mas ainda não foi dessa vez que Boudicca conseguiu atacar os exércitos de Suetonius.

A Batalha Final

Suetonius buscava uma região com um terreno particularmente favorável para a batalha, que pudesse favorecer o trabalho de seus soldados, tendo que lutar com o seu inimigo vindo exclusivamente de uma frente. A localização precisa deste local nunca foi determinada, porém, acredita-se que tenha sido a oeste de Middlands. Tácito observa que os bretões vinham para a batalha com todo a sua família e pertences, acreditando realmente que poderiam conquistar a vitória e restaurar a paz. Pergunta-se porque traziam toda a família para as frentes de batalha. Talvez fosse para mantê-los seguros de ataques furtivos dos romanos contra eles, evitando ainda que fossem feitos cativos ou que os romanos lhes tomassem suas posses.

As duas forças se encontraram e se prepararam para a batalha. Para essa batalha, Boudicca é descrita com uma mulher cansada e com alguns ferimentos, conduzindo um clã de tártaros armados até os dentes e com uma aparência terrível (Tácito). Os celtas costumavam ir para a batalha com seus tambores, vestidos com roupas próprias para a guerra, brandindo lanças, espadas e armas roubadas. A pele era pintada de azul para intimidar o inimigo. Pode-se imagina a reação provocada nos soldados romanos bem treinados, mas não acostumados a enfrentar inimigos com esse aspecto. Diz-se ainda que os comandantes falavam das possibilidades da vitória, convencendo que poderiam vencer, antes que Boudicca fizesse o mesmo e liderasse finalmente suas tropas para a batalha.

Os romanos, em contrapartida, permaneciam naquela clássica formação de falange, seus escudos acima das cabeças servindo-lhes de proteção contra as lanças dos bretões. Assim que o inimigo estava ao alcance, Suetonius deu a ordem de formarem uma cunha, quando arremessaram as suas lanças e dardos. Em seguida, avança a infantaria auxiliar, sempre em ondas. Com esse ataque, o coração da tropa dos bretões que havia avançado primeiramente jazia morto e o caos se instalava na retaguarda bretã. Porém, os romanos avançaram ainda a sua cavalaria pelos flancos, buscando alcançar justamente a retaguarda bretã, onde estavam suas famílias e era considerado o ponto mais vulnerável de suas defesas.

Por fim a infantaria cercou as forças de Boudicca, deixando-a sem alternativa a não ser o combate. E muitos realmente acabaram morrendo. A partir dessa batalha, muitas outras rebeliões se sucederam.

Tácito diz que “para este combate havia cerca de 80 mil bretões e que apenas cerca de 400 soldados romanos foram mortos. A tradição diz que Boudicca sobreviveu à Batalha Final apenas para retornar ao lar e envenenar-se. É pouco provável que Nero tivesse clemência em seu caso ou de suas filhas. Se Boudicca tivesse sobrevivido e sido capturada, seria exibida como um troféu por Suetonius, em Roma, submetida então a horrores indescritíveis e por fim, levada a ser executada pelos gladiadores na arena”.

Cássio Dio sugere que tenha sido queimada como heroína, como é do costume dos celtas.

Conseqüências

Aqueles que foram capturados pelos romanos foram “vingados pelo fogo e pela espada”, de acordo com Tácito. O historiador diz ainda que muitos bretões deixaram de semear as suas plantações antes de deixarem as suas terras e assim, quando retornaram, muitos morreram de fome. Isso nos sugere que a rebelião tenha durado cerca de um ano.

Em várias localidades, muitos ainda permaneceram lutando, porque nada mais tinham a perder.

Fala atribuída a Boadicea (Tácito)

Agora, não sou apenas uma mulher de ascendência nobre, mas principalmente uma pessoa que se vinga pela perda da liberdade, pelo meu corpo açoitado, pela castidade ultrajada de minhas filhas. O desejo romano foi tão longe que nenhuma pessoa, independente de sua idade ou virgindade, permanece despoluída. Mas os céus estão do lado da vingança justa. Uma legião que se atreveu a lutar já pereceu; o restante está se escondendo nos campos ou tentando escapar ansiosamente. Sua força de vontade não sustenta o clamor de tantos milhares, muito menos de nossos ataques. Se você ponderar as forças de nossos exércitos, você verá que num combate você deve conquistar ou morrer. Esta é a responsabilidade das mulheres, pois para os homens, resta permanecerem vivos e se tornarem escravos.

Henrique Guilherme Wiederspahn, ESQUILO FALANTE
http://www.arteantiga.org/henrique/artigo02.php
boudi

foto
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Boudiccastatue.jpg

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Marina Tsvetáieva. Estenógrafa do ser


Os textos autobiográficos de Marina Tsvetáieva equivalem a ciclos sucessivos no purgatório e no inferno: a única interrupção possível é a morte, geralmente dolorosa e trágica. No caso da poeta russa, nascida em 1892, o fim foi o suicídio aos 49 anos incompletos, depois de uma seqüência de exílio, de fome, de perdas familiares, de frio e de penúria provocada tanto pelas frustrações amorosas quanto pela política. Impressiona que no longo sofrimento da poeta, considerada por Vladimir Maiacóvski "demasiado feminina", tenha podido surgir uma obra tão extraordinária, marcante por versos elípticos e metáforas surpreendentes, mesmo em tradução: "Sequer quero o buraco / Da orelha, e o olhar confuso. / Ao Teu mundo insensato / Só digo que – recuso".

Nas confissões reunidas em Vivendo sob o fogo (Martins, 763 páginas, R$ 83), com base em cartas e páginas de diário selecionadas pelo crítico Tzvetan Todorov, fica-se diante de um moderno Livro de Jó no qual a redenção parece menos importante do que a presença do mal e a força da esperança. Deve-se à tradutora Aurora Fornoni Bernardini, que já preparara uma antologia bilíngue de poemas em Indícios flutuantes (2006), o aparecimento em português dessa obra em prosa. Praticamente não há uma só página feliz ao longo da autobiografia montada a partir da seleção de dezenas de volumes. Em vários momentos, Marina Tsvetáieva é lírica e lancinante ao falar do seu sofrimento e das suas paixões, que a levam a extremos: "De um modo geral, detesto os literatos; para mim, cada poeta – vivo ou morto – é um protagonista de minha vida. Não vejo nenhuma diferença entre um livro e um ser humano, um pôr-do-sol e um quadro. – Tudo o que eu amo, amo com o mesmo amor". Nem toda confissão, no entanto, pode ser considerada criação literária – é o caso da carta que a poeta escreve para o poderosíssimo Lavrenti Béria, chefe do Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKDV), o serviço secreto e de segurança responsável, entre várias atividades, pela repressão política, pelas execuções extrajudiciais e pelo sistema de trabalho forçado nos gulags.

A poeta faz um apelo pela vida do marido, Sergei Efron, e pela filha do casal, Ariadna, ambos detidos em outubro e agosto de 1939, respectivamente. Inicialmente alistado no Exército Branco (ou seja, em oposição aos bolcheviques e aos ideais da Revolução de 1917), o militar foi em seguida cooptado pela espionagem comunista e esteve envolvido no assassinato de um agente soviético na Suíça. Em tom comovido e patético, a poeta procura explicar àquela máxima autoridade, que punia os "inimigos do povo", o drama de consciência de toda a sua família, em dimensão de tragédia: porém, cometido o "erro fatal" de haver participado do movimento meio monarquista e meio democrata contrário ao Exército Vermelho, como justificar a inocência de seu marido? O sistema repressivo já havia reduzido Sergei Efron a um homem sem ideais, atormentado por sua ambigüidade e fraqueza moral. Ele será fuzilado em 1941, pouco depois do suicídio de Marina Tvestáeva. A filha, também acusada de espionagem e "atividades anti-soviéticas", foi processada em 1939 e padeceu oito anos de "reeducação pelo trabalho".

A morte da mãe da poeta, tuberculosa, aos 37 anos, e a morte de uma filha mais nova, Irina, em 1920 – por maus tratos infligidos num abrigo para crianças – foram marcos do destino mórbido da poeta. Porém, outra seqüência de episódios de muita intensidade já havia também começado: a dos casos extramaritais de Marina Tsvetáieva com vários homens, a exemplo de Ossip Mandelstam, e também com a poeta Sofia Parnok, que tiveram impacto sobre sua obra. Muitos ciclos sentimentais, nunca paradisíacos, começaram e terminaram, sempre tocados pelo suplício. A atração que a autora de Psiquê (1923) sente por tantas pessoas – nem todas chegam de fato a ser suas amantes – forma o núcleo poético das suas confissões: é nessa dimensão amorosa que ela mais exibe o seu talento. Numa carta para o escritor Aleksandr Bakhrakh, na qual este toma conhecimento de ser ex-amante da poeta, ela conta que está amando outro (no caso, Konstantin Rodzevich, oficial do Exército Vermelho!), e conclui: "Terei deixado de amar você? Não. Você não mudou e eu não mudei. Só mudou uma coisa: minha fixação dolorosa em você. (...) Minha hora com você terminou, resta minha eternidade com você. Oh, demore-se um pouco nela!"

São as atrações passionais (ou "idílios cerebrais", como prefere) que elevam as anotações autobiográficas de Marina Tsvetáieva a um patamar só alcançado por seus poemas. Vivendo sob o fogo procura demonstrar, justamente, a superioridade da prosa da escritora russa, idéia que contraria a opinião de especialistas como Charles Simic e Jamey Gambrell, ainda que reconheçam a dificuldade e densidade lingüística dos poemas. Na confissão amorosa, ela se transformava na "estenógrafa da vida", sempre atenta para os acontecimentos mais presentes e mais tumultuados, fosse a sua pobreza material ou uma carta recebida há pouco. Deve-se recordar que, embora escritas em diversas formas, essas confissões tiveram início por uma razão de identidade literária: os diários da russa Maria Bashkirtseff (1858-1884), que morreu enferma aos 25 anos. E, no seu febril esforço de transmitir os eventos íntimos que lhe transtornavam, Marina Tsvetáieva procurava nos outros a melhor inspiração para obra confundida com a vida: por isso, numa anotação de 1919, declara que "o poema é o ser: de outra forma é impossível".

Tão precoce e constante como a idéia do suicídio é a presença da política na obra de Marina Tsvetáieva. A Revolução de Outubro foi seguramente o evento mais catastrófico para a poeta, e gerou uma situação impossível para sua família. Tanto os revolucionários quanto o regime que se consolidou exigiram dela uma definição que a poeta nunca esteve em condições de alcançar: seus temas eram a plenitude e a totalidade. Mesmo o fato de ser russa, segundo sua concepção, importava pouco: ser poeta, para ela, apagava as marcas da nacionalidade e a transformava num ser absoluto. Mas a Revolução varreu tudo: seu casamento e mesmo o destino das filhas. Numa carta de 1921 ao marido, ao comentar a morte de Irina, avalia que a filha "era uma criança muito estranha e, quem sabe, incurável". Mas admite em seguida: "Claro, se não houvesse a Revolução". Entre pão e céu – e também entre a falta e pão e o céu inalcançável – se posicionou Marina Tsvetáieva, cuja obra segue suspensa no lugar que só ela ocupa.
http://jbonline.terra.com.br/editorias/textosdoimpresso/jornal/ideias/2008/09/27/ideias20080927007.html

sábado, 18 de abril de 2009

Em busca da primeira edição de 'O retrato de Dorian Gray'


A Biblioteca Britânica estima em 9.000 o número de livros extraviados e roubados das suas prateleiras

EFE / EL PAÍS – Londres / Madride - 17/03/2009

Mais de 9.000 livros extraviaram-se na Biblioteca Britânica, entre eles os tratados renascentistas de teologia e alquimia, um texto de astrologia medieval, assim como primeiras edições. A Biblioteca não crê, sem dúvida, que alguém os roubou, senão que talvez estejam perdidos entre os 650 quilómetros de estantes desse centro, informa hoje o diário The Guardian.

Um dos livros que se perdeu a pista é o titulado Da Usura Legal e Ilegal dos Cristãos, do teólogo alemão do século XVI Wolfgang Musculus, que a biblioteca valoriza em 22.000 euros. Outros são uma Carta de Astrologia publicada em 1555 de que é autor o famoso filósofo judeu-cordovês Maimónides (1135-1204), primeiras edições do O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e Canzoni, do poeta norte-americano Ezra Pound. Também desapareceu uma edição de luxo do livro de Adolf Hitler A Minha Luta, que se publicou por motivo dos 50 anos do ditador alemão.

Segundo Jennifer Perkins, da Biblioteca Britânica, os livros consideram-se extraviados quando um leitor os reclama e não aparecem nas estantes em que deveriam normalmente estarem. Os maiores tesouros da Biblioteca, entre eles a Magna Carta, guardam-se numa galeria especial submetida a controles de conservação e segurança extraordinários.

Muitas das perdas produziram-se justamente antes ou depois de 1998, ano em que se trasladou a colecção desde o Museu Britânico para um moderno edifício cerca da estação de St. Pancras.

No passado mês de Janeiro, um coleccionador iraniano chamado Farhad Hakimzadeh foi encarcerado por levar mapas, ilustrações e páginas de vários volumes valiosíssimos dos fundos dessa biblioteca.

EL PAÍS

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Edgar Allan Poe revisitado


Sete autores reinventam os contos do autor
O livro inclui também ilustrações de Harry Clarke

Joana Rei Madride

Quando se trata de falar de Edgar Allan Poe, as palavras começam a ficarem curtas. Pai da novela negra e da ficção científica, génio da história policial e de terror, a sua marca na literatura é profunda e inegável. No ano em que se celebra o bicentenário do seu nascimento, as editoras apressam-se em sacar as obras que renderam homenagem ao seu talento. A mais recente apresentou-se ontem, em Madride, e recolhe sete dos seus contos em sete novas versões.

'Poe', da editora 451 editores, é um reinvento dalguns dos contos do autor. "As versões que mais gosto são as que destronam o original, as que o fazem em pedaços e recreiam, a partir das suas cinzas, um monstro novo. Este foi o repto que propusemos a s escritores", conta Fernando Marías, o editor.

Eugenia Rico e Luis Alberto de Cuenca foram dois dos autores que aceitaram o repto. Ele reconstruiu 'O Corvo' e ela 'O Gato Negro', duas das obras mais emblemáticas de Poe. "Dei-me conta de que me fascino pela dobragem, pelo espelho, assim que quis reinventar o conto a partir dos olhos da mulher, morta e emparedada", recorda Eugenia Rico. E, assim, o gato converteu-se em gata. Una gata negra que fala de "uma história de maus-tratos, de uma mulher que sofre e que não acredita que o homem a quem ama se está transformando num monstro".
"Intentei sentir o que sentiu Poe ao escrevê-lo, o que é muito difícil"

A versão de 'O Corvo' de Luis Alberto de Cuenca é mais pessoal: "Intentei sentir o que sentiu Poe ao escrevê-lo, o que é muito difícil. Mas na hora a ausência da amada morta e o meu primeiro amor morreu num acidente de carro. Assim que não tive que fazer nada mais que rememorar, destruir o modelo e voltar a construí-lo", explica o autor.

Os dois escritores unem-se a Mario Cuenca Sandoval, com 'O coração delator'; Espido Freire com 'Ligeia'; José Luis de Juan con 'A queda da casa Usher'; Montero Glez con 'O mistério de Marie Rôget' e a Pablo de Santis com 'A carta roubada' para dar vida a este novo 'Poe'.

Escritor de pesadelos

Em comum, têm a admiração por um autor que marcou o seu percurso como leitores e escritores. "Poe formou-nos a todos, aos bons, aos maus, ele foi o grande magma", diz Eugenia Rico.

O livro é a soma da visão única de cada autor sobre a obra de Allan Poe. Dos seus monstros, dos seus imaginários e, sobretudo, dos seus pesadelos. "Há muitas maneiras de matar um homem. Uma delas é não deixá-lo dormir. Estou convencida de que não morre por cansaço, mas porque não pode sonhar. Isto é o que é a arte. Mas Poe é distinto. Poe tem pesadelos, a sua literatura é uma espécie de catarse", explica Eugenia Rico.
"Os livros de Poe são pesadelos comuns à humanidade, que ele tem as brânquias de contar"

Luis Alberto de Cuenca segue a mesma linha de pensamento, uma sensação que se lhe entranhou no espírito quando leu 'O Barril do amontillado'. "Foi o primeiro livro de Poe que leu, uma edição de 1859, e sentiu que tudo o que lia já o tinha sonhado. Os livros de Poe são pesadelos comuns à humanidade, que ele tem as brânquias de contar", diz.

"A própria vida de Poe era um pesadelo. Não há nenhuma história feliz na sua obra. Era um homem atormentado, alcoólico e viciado em drogas, um ser autodestrutivo. Por isso escrevia como escrevia", continua Fernando Marías.

A edição de 'Poe' completa-se com os desenhos de Harry Clarke, ilustrações que acompanham cada conto e que dão razão a todos os que os intitulam de pesadelos. Duzentos anos depois do seu nascimento, 'Poe' é uma mirada mais ao universo negro do escritor norte-americano, outro regalo para os seus seguidores, para que possam seguir submergindo-se nesses pesadelos dos quais não querem despertar.

EL MUNDO

domingo, 12 de abril de 2009

Rimbaud, para lá da sua lenda


As cartas inéditas do poeta, quase umas memórias, descobrem a sua faceta mais íntima

ELSA FERNÁNDEZ-SANTOS – Madride – 20/03/2009

Para Albert Camus era "o maior de todos", e Patti Smith considerava-o "o primeiro poeta punk". A Arthur Rimbaud (1854- 1891) bastou-lhe um livro, uma temporada no inferno, para converter-se em mito. Tinha 18 anos e pouco depois decidiu que a literatura morrera para ele. Queria viver todas as vidas. E, apesar de morrer aos 37 anos dum cancro de ossos, quase o conseguiu. Prometo ser bom: cartas completas (Barril & Barral) reúnem a correspondência completa do poeta. Missivas autobiográficas que revelam os medos e anseios na desesperada voz de um homem condenado a errar, que viajou incansavelmente, foi professor, mendigo, explorador, comerciante, traficante de armas e até membro de um circo. A desamparada fuga de um poeta cujas consignas visionarias – "Eu sou outro", "Há que ser absolutamente moderno", "A verdadeira vida está ausente" – converteram-no num grande mito da rebeldia adolescente. Longe dessa imagem, a sua correspondência, inédita até agora em Espanha, descobre outro Rimbaud. Mais íntimo e longe da lenda.

Inquieto, irascível e insensato, também cresceu, perdeu e assentou a cabeça

"De que servem estas idas e vindas, estas fatigas?", escreve em 1883

O livro inclui o 'dossier' com o julgamento pelo disparo ao seu amante, Verlaine

"Enfim, nossa vida é miserável, uma miséria eterna. Para que vivemos?"

Inquieto, irascível e insensato, também cresceu, perdeu e assentou a cabeça. Em 1883 confessa aos seus o desejo de ter uma família: "Isabel [a sua irmã] equivoca-se com a sua decisão de não se casar se alguém sério e experimentado se apresentasse, alguém com um futuro. A vida é assim e a solidão é má coisa. Acho insignificante o estar casado e ter uma família. Mas estou condenado a errar [...] De que servem estas idas e vindas, estas fatigas, estas aventuras junto a raças estrangeiras, estas línguas com as que se enche a memória e estes sofrimentos sem nome se não posso, passados alguns anos, descansar num lugar que goste, encontrar uma família e ter um filho com o qual possa estar, passar o resto da minha vida, educando-o como se quer, criar e armar a instrução mais completa que alguém possa esperar, e que o veja converter-se num engenheiro prestigioso, um homem rico e poderoso graças à ciência?".

E em 1889, o poeta mostra um apego familiar impróprio do mito: "Minha querida mamã, minha querida irmã: ao mesmo tempo que me desculpo por não escrever-lhes mais amiúde, aproveito para desejar-lhes um feliz ano 1890, uma boa saúde. Ando muito ocupado e comporto-me o melhor que sou capaz enquanto me aguento muito, muito. Recebo também poucas notícias vossas. Sede mais prolixos e não duvideis que sou vosso servidor".

Para trás ficam a raiva e o entusiasmo das suas cartas a Paul Verlaine, amante, que cansado da sua jovem e grávida mulher foge com ele e lhe chama "o homem das solas de vento". A relação de Verlaine e Rimbaud não tardou em converter-se, tal e como definiu o próprio poeta, nas de "um marido infernal e uma virgem louca". Em Julho de 1873 escreve: "Volta, volta, querido amigo, amigo único, volta. Prometo ser bom. Se me mostrei desagradável contigo, foi apenas uma brincadeira; ofusquei-me, arrependo-me disso mais do que serás capaz de imaginar. Volta, e tudo se esquecerá totalmente. Que desgraça que hajas tomado a sério esta brincadeira! Não paro de chorar desde há dois dias. Volta. Sê valente, querido amigo. Nada está perdido todavia. [...] Não me esquecerás, não é verdade? Não, não me podes esquecer, eu levo-te sempre comigo".

Ademais das cartas, Prometo ser bom (que na segunda-feira se apresenta em Madride numa jornada no Centro Cultural Moncloa que inclui um recital de poesia, um concerto, uma mesa redonda e a projecção dum documentário) reúne o Dossier de Bruxelas com as declarações e os interrogatórios sobre o disparo a Paul Verlaine, as cartas da sua irmã Isabel e da sua mãe e um artigo, de cuja autoria não se sabia até 2008, publicado com o pseudónimo de Jean Baudry numa revista em 1870.

A vida deixou a sua impressão no poeta dos olhos azuis ("Porto-me bem, mas o cabelo encanece-me por minutos. Faz tanto tempo que isto sucede que temo que a minha cabeça pareça agora a de uma borla de maquilhagem. Resulta-me desoladora semelhante traição do couro cabeludo, mas que fazer?"). Até que em 1891, meses antes de lhe amputarem a perna carcomida pelo cancro de ossos que o matará, pede à sua mãe que lhe envie umas meias para o aliviar. "Encontro-me mal. Tenho na perna direita varizes que me fazem sofrer muito. [...] Faz-me este favor: compra-me um remédio para as varizes, para uma perna longa e magra. [...] A má alimentação, os alojamentos insalubres, as roupas demasiado ligeiras, os problemas de todo o tipo, o aborrecimento, a raiva permanente no meio de negros tão imbecis como canalhas; tudo isto ataca profundamente a moral e a saúde em muito pouco tempo. Uma pessoa envelhece muito rapidamente aqui, como em todo o Sudão".

Já com a perna amputada, num hospital de Marselha, incapaz de dormir e descansar por causa das dores, escreve à sua irmã Isabel: "Minha querida irmã: Não me escreves. Que se passa? A tua carta assustou-me, gostaria de ter noticia tuas. Espero que não sejam novos problemas, já temos bastantes! Não deixo de chorar dia e noite, sou um homem morto, aleijado para a vida. [...] Não sei o que fazer. Tudo isto me põe louco: não consigo dormir nem um só minuto. Enfim, a nossa vida é miserável, uma miséria eterna. Para quê vivemos? Envia-me notícias".

EL PAÍS