quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Nádia Silva Exibe A Forma Física Em Editorial De Revista Sul-Africana



Luanda - A modelo angolana Nadia Silva interpretou o papel de “femme fatale” e exibiu um corpo de fazer inveja num editorial feito para a revista masculina “FHM South Africa”.

Fonte: JA Club-k.net

A modelo, ícone fashion desde que arrebatou o título de Miss Angola Mundo em 2009, aparece com uma lingerie vermelha justa e decotada, a fazer poses sensuais para o fotógrafo internacional Kevin Mark Pass.

A manequim, natural de Cabinda e de 22 anos, teve de perder peso para o ensaio fotográfico feito em Joanesburgo, capital sul-africana. “Tenho tido cuidados redobrados com aquilo que como e feito muito exercício para estar no meu melhor nesta sessão de fotos. Valeu a pena e até fiquei surpreendida com o resultado final”, disse.

Dona de curvas generosas, rosto bonito e olhar penetrante, a bonita manequim que representou Angola e ficou entre as 20 modelos com os melhores corpos do globo, no concurso Miss Mundo, arrasou num modelo vermelho que fazia contraste com a pele morena e o longo cabelo negro. Nádia fica na capital sul-africana até ao dia 20 de Fevereiro para participar do Joburg Fashion Week, segundo maior evento de moda em Africa, por intermédio da agência Hadja Models, em que trabalha. Gente deseja-lhe sucesso.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A quem interessava a morte de Euridce?, questiona Jornal Angolense


Luanda - Perguntas que não se querem calar, como foi possível um indivíduo sem usar ao menos um silencioso no revólver matou uma indefesa mulher em plena hasta pública e sumiu sem deixar qualquer rasto? Quem é o executor? Existe um mandante? A quem interessava a morte de Euridce Cândido? As respostas de tais pergunta sou poderão ser dadas pelos peritos da DNIC, mas será que responderam? É outra grande interrogação

*Maria Japa. Fonte: Angolense. Club-k.net

De interrogações em interrogações, a verdade é que, na sexta-feira, 28, por volta das 19:30, na rua Frederic Welvitch, aos Combatente, Euridce Cândido, a vítima de 30 anos ou simplesmente Dódó, como era carinhosamente tratada pelos mais próximo, chegava a casa trajada de um fato de treino cor-de-rosa, ténis de marca Nike, ao volante da sua viatura Mercedes, modelo 350 ML, cor preta, com a chapa de matrícula LD-54-20-CR, vindo do ginásio Clube Náutico, sito na Ilha de Luanda.

Na entrada do prédio denominado da Chick Chick, parou o carro no parque defronte a uma roulotte, onde comercializa-se hamburguês, cervejas e refrigerante, normalmente recheada de pessoas, que, para garantir segurança aos clientes, possui um holofote, além que era comum naquele local ver policiais em serviço de giro, tanto apeados como em viaturas, o que naquele dia não aconteceu curiosamente.

Parou a viatura, desceu, dirigia-se até a porta de trás para abrir e retirar uma sacola no banco traseiro, neste mesmo instante foi surpreendida pelo seu algoz que mas não fez senão bem junto dela e frontal, encostou o cano do revólver na cabeça e disparou fatalmente contra aquela indefesa mulher.

Caiu inanimada, o seu algoz subiu numa motorizada, em companhia de um comparsa que já o aguardava com o motor ligado, de seguida ambos sumiram sem deixar qualquer rasto.

Conheça o percurso do assassinato
Segundo fontes policiais Euridce Cândido, a vítima, já estava a ser perseguida a partir do ginásio, pois ao que conseguiram apurar, a mesma era uma constante sair do serviço e ir imediatamente ao ginásio e sou assim regressar a casa, entretanto, naquele dia não foi diferente.

Os meliantes conheciam bem o seu percurso, isso é, casa, serviço, ginásio e casa, sabe-se que ao sair do Ginásio do Clube Náutico, por volta das 19 horas, a mesma a partir do visor da viatura apercebeu que estava ser perseguida por dois indivíduos de uma motorizada, ao longo que acelerava a marcha os mesmos também o faziam.

Entretanto, diz a nossa fonte, Euridce naquela altura ligou para o celular da irmã que estava em casa a pedir que a mesma descesse, porque estava ser perseguida por dois indivíduos de uma motorizada, o que poderia ir até a uma esquadra próxima pedir auxilio, mas antes como tinha uma sacola no interior da viatura pretendia deixar numa paragem que esperava ser breve, mas ao que parece nem lhe foi dado tempo.

As pessoas que na altura se encontravam no local disseram não se aperceber de nenhum movimento estranho, porque quando a mesma foi atingida, a julgar pelo barulho do projéctil numa primeira fase presumiu-se que foi um pneu que estoirou, mas quando viram ao redor foi sim, um tiro certeiro que vitimou a vizinha do 3° andar.

Os supostos executores não deixaram qualquer rasto visível no local, entretanto, os efectivos Policial afeto a Investigação Criminal, que além de removerem o cadáver do local levaram também a viatura, o telemóvel da vítima e outros haveres que se fazia acompanhar e poderiam servir para chegar até aos presumíveis autores.

Este jornal apurou de uma fonte ligada a investigação que já conseguiram encontrar o invólucro da arma disparada que possivelmente pertence a uma pistola do tipo Makarov, curiosamente o mesmo tipo de arma usada pela polícia, mas que a nossa fonte ignorou este pormenor porque acredita que a julgar pelo histórico do país qualquer um pode ter uma arma daquele tipo.

Apurou-se ainda que não foi retirado nada do interior da viatura, assim como, por outro lado, não conseguiram apurar a impressão digital porque a mesma até altura em que os especialistas chegaram ao local do crime, a viatura já tinha sido tocada por várias pessoas o local também já tinha sido invadido por curiosos, o que dificultou apurar com precisão as impressões digitais.

Para os familiares Governador de Luanda é o possível mandante
A polícia que já abriu um processo com o número 699/011-IG não descarta qualquer das possibilidade inclusive uma tentativa de assalto ou roubo de viatura, mas neste período começou por notificar as pessoas que telefonaram para a vítima naquela sexta-feira, 28.

A mesma fonte policial disse também que na perícia realizada ao telefone da vítima encontraram várias mensagens ameaçadoras de várias pessoas dentre as quais de várias mulheres como por exemplo Dona Teresa, (esposa do Governador) e Indira Bobola, (uma das amantes do governador, com a qual tem um filho), supostamente suas rivais, assim como de alguns marmanjos sobre os seus conteúdos preferiu omitir para não deturpar as investigações.

A nossa fonte analisando o possível autor do disparo que vitimou Euridce disse tratar-se de um indivíduo mas alto em relação a vítima pois o disparo foi efectuado por cima da cabeça da mesma, assim como pode ser também conhecido e sou por isso ela não reagiu, no sentido de gritar ou clamar por socorro, “das duas, uma: ou ele era conhecido dela, ou o mesmo é alguém com vasta experiencia militar”. Vaticinou para acrescentar “quem age como ele não é qualquer bandido”.

A mesma fonte numa espécie de preocupação disse o caso ser bastante bicudo e se não aparecer os executores do crime a dizerem quem os mandou “o caso pode ficar em nada, em tribunal uma coisa é ameaça e outra são os factos que não têm o mesmo peso jurídico”.

Se por um lado os investigadores têm duvidas por outro lado já os familiares não, pois ouvidos garantiram que acerca de seis anos atrás que a vítima começou a namorar com o actual Governador de Luanda, José Maria dos Santos, que resultou o nascimento de uma menina que hoje tem dois anos de vida.

Recordam que em 2009 no primeiro aniversário da filha da malograda, realizado num dos restaurantes de luxo da Capital de Luanda, a esposa do Governador chegou a festa mesmo sem ser convida e armou a maior confusão, assim como fez várias ameaças e o pior sou não aconteceu graça a intervenção de alguns policiais presentes.

Por este e outros casos, a vítima tivera realizado duas queixa -crime contra uma terceira mulher do então pai de sua filha que, além de ameaça-la de morte, agrediu-a várias vezes, assim como inclusive já partiu os vidros do seu carro.

Até antes da sua morte o processo já tinha saído da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e tramitado para o Tribunal Provincial de Luanda Dona Joaquina, onde acerca de um ano aguardava por julgamento, mas ao que parece dada a tardia da justiça Euridce Cândido morreu e a justiça não conseguiu garanti-la a protecção que procurava.

Dizem também os familiares que como consequência das constantes brigas com Dona Teresa esposa e Indira Bobola, a mesma preferiu terminar com a relação. Entretanto, ao que tudo indica, se mal pensou pior o fez, pois contam os familiares a caminho de um ano o ex. marido não a deixava em paz e fazia ameaças constantes uma das quais como por exemplo “se não ficar comigo, não ficas com mas ninguém”. Recordaram os familiares.

Curioso é que, o pai da filha que outro ora era visto constantemente a procura da mesma, nestes dias jamais foi visto na defunção para ao menos prestar solidariedade a família enlutada.

Euridce Cândido, 30 anos de idade, os seus restos mortais já descansam em paz desde terça-feira, 02, no Cemitério Altos das Cruzes, era técnica superior de Gestão de Empresas, funcionaria no Banco de Fomento de Angola (BFA), na Direcção de Créditos a Particulares e Negócios, a mesma deixou órfão uma criança de dois anos de idade.

Caracterizada pelos familiares e amigos como sendo bastante batalhadora, persistente quando quer alcançar algo, amiga dos amigos, divertida e bastante solidária, para a sua família era uma espécie de abono familiar.

Quim Ribeiro entre os suspeitos, mas familiares recusam seu envolvimento no assassinato
Rumores postos a circular dão conta que Joaquim Vieira Ribeiro estará também por de trás do assassinato de Euridce Cândido, alegando que a mesma era sua amante e gestora das suas contas bancária no BFA, onde realizou várias transacções bancárias que se presume que seriam valores concernente ao caso BNA em que, aquele antigo Comandante de Luanda está responder um processo-crime de desvio.

Contactado por telefone na terça-feira, 01, o Comissário Joaquim Vieira Ribeiro, colocado a situação estupefacto disse “nunca conheci a senhora que foi morta e jamais foi minha amante ou gestora no BFA, pois a minha gestora há mais de 15 anos chama-se doutora Lourdes Rasgado”. E mais não disse.

Por outro lado, Leandro Cândido, irmão mais novo da vítima, também contactado por telefone, jurou de pés junto que Joaquim Vieira Ribeiro não conhecia a sua irmã e justificou-se “ o único contacto que tivemos com o senhor Quim Ribeiro foi por telefone e por intermédio do Zé Maria que, lhe ligou a partir do Kuando Kubango para agilizar a retirada da viatura da minha irmã que tinha sido rebocada pelos fiscais por lavar na rua”.

E mais: “Fui eu quem foi buscar a viatura no parque o senhor Quim Ribeiro fez tudo a partir do telefone e jamais se encontrou com a minha irmã, portanto, tudo que estão a dizer é mentira, é sou mais uma forma de desviarem as atenções ao verdadeiro assassino e pretendem prejudicar alguém que já está cheio de problemas, por outro lado, na área em que a minha irmã trabalhava não tinha contacto com nenhuma conta, pois isso era impossível.

Analisando a forma cruel e covarde com que misteriosamente foi assassinada na porta de casa com um tiro mortal na cabeça, a jovem Euridce Cândido, por um lado, representa bem a voracidade do seu executor, ao mesmo tempo do seu suposto mandante, por outro, coloca a nu o estado de vulnerabilidade em que todos os cidadãos se encontram sujeito com a predominante onda de violência e assustadora falta de segurança que grassa por Luanda fora.

Para muita gente este assassinato mostra o quão é urgente a necessidade de colocar um Comandante Provincial de Luanda competente, assim como um Director Provincial de Investigação Criminal, para fazer fase nesta onda de criminalidade que cresce a cada dia pelo.

Esta também patente que tanto Elizabeth Ranck Franque (Bety), actual comandante interina que, ao invés de se preocupar em criar ideias para combater a criminalidade, esta mas preocupada em criar livros de ponto para os policias, simplesmente incrível, assim como Issac de Assunção, actual director interino da DPIC que era um dos nomes muito falado de envolvimento do “Caso Frescura” não é a pessoa certa para dirigir aquele importante órgão da polícia que precisa de pessoas uma imagem imaculada.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

(Um exemplo da mediocridade) As Noites Mágicas de Luanda (II Parte) - Katya Samuel


Luanda - Não fazia um mês desde que estava em Luanda. Tudo para mim era quase novidade. Há 20 dias, eu estava na casa da minha mãe “pequena”, como mandam as nossas tradições africanas (irmã mais nova da nossa mãe é também nossa mãe). Fui visitá-la para passar alguns dias com ela.

Fonte: Club-k.net

Depois de ter cumprido a minha agenda do dia, dirigi-me ao quarto para descansar, ou seja, dormir mesmo porque estava muito cansada. Não foi preciso fazer muito esforço que o sono apareceu logo de imediato.

Passada uma hora, porque eu deitei-me às 7 da tarde, ouvi o telefone a vibrar e, minutos depois, tocou! Quem ligava era a minha amiga Anne, que está fazer o doutoramento em Psicologia na Universidade do Minho, Portugal. Como sempre, ela falava com bastante entusiasmo, mas sentiu que eu acabava de sair do sono. De seguida, fez a seguinte pergunta: Então, Katy, hoje é sexta-feira e já estás a dormir? Mas tu és jovem, por que não sais com os teus amigos? Aproveita a vida! Tão perspicaz, apercebeu-se logo que eu estava morta de sono e despediu-se de mim. Enviei-lhe um abraço de Luz, como sempre, ainda com os olhos semicerrados.

Momentos depois, o móvel voltou a tocar, mas, desta vez, não era a Anne, mas sim o meu amigo, branco de origem Britânica. Faço questão de frisar isso, porque, para não ser mal interpretada e acusada de intolerante, não tenho nada contra a raça branca, amarela ou mista ……, até por sinal, mantenho uma ralação intercultural. Ele perguntou-me se eu não queria sair com ele para o Chill Out. Eu disse que não; que queria ficar em casa a descansar. Insistiu, mas infelizmente foi em vão. Deitei-me novamente para ver se sono voltava. Mexia-me de um lado para o outro e com os olhos bem fixos nas quatro paredes do quarto. Mas os minutos iam passando e o sono nada. De súbito, vieram-me, sorrateiramente, à memória as palavras doces de Anne. Mas como a magia pairava no ar e, como eu sou uma pessoa de muita sorte, o móvel voltou a tocar. Era, de novo, o meu amigo a dizer-me que ele já estava no Chill Out com uns amigos e se eu quisesse sair de casa mandaria o motorista.

Assim sendo, diante desses acontecimentos, senti-me obrigada a dizer-lhe, que sim, aceito! Agora, o problema estava no que iria vestir, pois eu só tinha comigo roupas de trabalho e desportivas e alguns sapatos que estavam na mala que tinha trazido da Bélgica há 5 meses! Calcei-os, pus um fato cor vermelha, bem actual de estilo macacão.

Em cima, era um tomara bem justinho na cintura e com umas fitas vermelhas que quando amarrasse, realçavam muito bem a minha cintura e os meus peitos, na parte superior, que pareciam dois maboques. Usava cabelos cumpridos caídos até as costas e bem ondulados. A roupa e os sapatos combinavam com os meus lábios pintados em vermelhos que jogavam com o contraste da minha pele negra, que parecia um chocolate puro e os olhos semi-rasgados. Quem me conhece sabe que tenho um corpo magro, um rosto de adolescente, ar delicado, mas quando estou diante de uma conversa, as pessoas apercebem-se que apesar da aparência, sou uma pessoa madura. Simples e bonita como estava, sentia-me como se fosse a Gata Borralheira! O motorista estava lá fora à minha espera! Dirigimo-nos, como de hábito, para o coração da cidade de Luanda!

A cidade estava bastante agitada, mais que o habitual, talvez isso se devesse ao facto do aumento demográfico da cidade!

As sextas-feiras, como prenúncio de fim-de-semana, os luandenses dormem mais tarde! Verifiquei isso na fronteira entre o Bairro Azul e a Samba! À berma da estrada havia muitas Roulottes que vendiam tudo, desde cachorros quentes até bebidas. Luanda, a noite, brilha tanto que quase não se nota o lixo e a poeira que se sente durante o dia. Quanto ao lixo, tenho que admitir, que tem vindo a diminuir!

Já na entrada da Ilha, Chicala, apercebi-me que havia novas construções como hotéis e restaurantes e outros a serem reabilitados. Apesar de Luanda ser considerada uma das cidades mais cara do mundo, mas mesmo assim, quando o fim-de-semana bate à porta, ninguém consegue ficar indiferente, incluindo os estrangeiros que não resistem a magia desta cidade!

Depois de termos passado o Clube Náutico, que estava muito cheio, o Jango Veleiro chegámos ao salão de festa que fica na rotunda para quem deixa o Jango Veleiro: ouvia-se música, pessoas que saíam de carros, provocando engarrafamento; as moças atrapalhadas nos seus engates pareciam abstrair-se desse caos!

Depois de termos deixado a estrada do Hotel Panorama, que agora está em reabilitação, continuámos sempre em frente! Ultrapassávamos os bares de praia, à minha esquerda o Tamariz. Ao olhar para ele, com tanta gente a querer entrar para se divertir, vieram-me a memória os tempos em que eu fazia praia aos domingos e quando ficava à espera da boleia do meu pai, para nos deixar em casa! Os meus olhos ficaram marejados de lágrimas ao pensar nos tempos que já se foram; momentos esses guardo-os no peito com muitas saudades. Que bom seria se pudesse revivê-los !

Era a primeira vez que tinha estado na Ilha, desde que tinha chegado a Luanda! Deixando o Tamariz, à minha esquerda, vi que a floresta de Luanda estava mudada e vedada com uns murros bem altos. Depois de termos visto tumultos à entrada das discotecas, bares e restaurantes, chegámos, finalmente ao nosso destino: Chill Out! Ao chegarmos, custava-me imaginar que estávamos lá, pois, em tempos passados, este era um bar restaurante de praia, com nome de Surf. Fiquei admirada, porque o que tinha deixado já não existia, apenas o vestígio do próprio espaço ocupado por um belo Bar de nome Chill Out! Porém, depois de termos estacionado o carro, tal como havia combinado ao telefone, o meu namorado, saiu do Bar para me fazer entrar. Senti-me tal qual uma princesa!

À entrada do estabelecimento, pude ver que era bem moderno. Os seguranças estavam muito bem apresentados! Certamente, pensei eu: este sítio deve ser bem diferente do Palos e de outros bares, onde complicavam as pessoas por tudo e por nada! Soube que o local era gerido por um branco, não me foi muito difícil aperceber-me deste pormenor. Isso tem a ver com o facto de ser Psicóloga e uma das ferramentas de trabalho dos psicólogos é a observação!

Achei o bar muito bem estruturado e com uma qualidade de serviços invejável. Talvez isso se deva ao facto de ser era um local de preferência da classe estrangeira e da elite angolana! Quando procurava de onde via o som, deparei, sem querer, com o DJ. Também branco, bem, tudo isso é normal, mas veio, ao fim e ao cabo, provar as minhas suspeitas quanto à gerência do estabelecimento.

Este local é frequentado pela elite angolana. À minha esquerda, vi uma mulher, quase branca, no limiar da juventude e da fase adulta. Ao fixá-la bem, notei que era a filha da Saudosa “Mamã Coragem”, ou seja, Vitória de Anália Pereira. Está senhora, que estava acompanhada por um grupo de brancos, fora vice-ministra da Educação. Parecia mais que estávamos na Europa do que propriamente em África! Digo isso, porque se viam muitos brancos e mulatos e poucos negros. Havia 4 grupos no bar: Negras, digo isso porque quase não se viam homens negros, grupos dos brancos, esses é que eram a maioria, as mulatas e, por fim, os chineses!

Eu sentia-me à vontade mesmo com os olhares de muitos presentes concentrados em mim. O grupo das negras era o mais acanhado, talvez por ser o grupo minoritário ou, por outro lado, porque estava a tentar limpar a imagem da mulher angolana, rotulada, pelos estrangeiros, de interesseiras, aldrabonas e trambiqueiras.

As mulatas sentiam-se donas da situação e achavam-se as mais bonitas do que as negras e, para não variar, estavam sempre atrás dos engates, mas quando as negras o faziam eram logo rotuladas. Os brancos, depois de uma semana intensa de trabalho, apenas queriam divertir-se e, quem lá sabe, conseguir um bom engate no final da noite. Os Chineses, estes ao contrário do que tivera visto na França e em Madrid, faziam um esforço para se adaptarem à cultura e à moda angolana. Bem, até as chinesas nas discotecas já iam ao engates e, pelos vistos, atacavam todos: brancos, negros e mulatos, como diz o velho ditado: tudo que cai na rede é peixe!

No princípio, as pessoas estavam bem comportadas, mas, porém, lá para o fim da noite, pareciam mais agitadas. Todos queriam engatar a todo o custo. Momentos depois, vi umas chinesas, no bar que fica a entrada da porta, com os seus negros angolanos, com um bom aspecto. Até eu, imaginem, que estava muito bem acompanhada, não escapei dos olhares tendenciosos de alguns brancos. O facto é que a agitação começa sempre no final da noite. E por fim, conseguem engatar. Os que não conseguem ou, os que dominam pouco as técnicas de engate, apenas o conseguem com ajuda de um plano B.

Tudo isso faz parte da magia que a Kianda consegue transmitir com bastante força a todos os habitantes da cidade de Luanda. Daí que muitos estrangeiros e mesmo angolanos, façam esse percurso todos os fins-de-semana: Caminham a pé, viajam de carro, rumo ao Postal do País, cuja magia e beleza, muda por completo as nossas vidas, afectando, por sua vez, a vida das pessoas que pertencem a nossa comunidade. Assim, querendo ou não, sentem-se obrigados a vivenciarem esta magia que paira nas noites de Luanda, que nos obriga, a cada dia que saímos a noite, a sonhar com um futuro melhor em todo as esferas das nossas vidas.

Deixo-vos com um abraço de luz

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

“Quim” Ribeiro nega amizade com ex-amante do governador de Luanda


Lisboa - Joaquim Ribeiro, ex comandante da policia Nacional de Luanda nega em meios privados que tenha sido amigo da funcionária do BFA Eurídice Bernarda Cândido que apareceu assassinada em Luanda na passada sexta feira a noite. A sua versão de não ter sido amigo de Eurídice Cândido da é subscrita por um parente da malograda.

Fonte: Club-k.net

O comissário da policia segundo atribuições que lhe são feitas alega ainda que a malograda nunca foi sua gestora de contas. De acordo com os mesmos pareceres, Joaquim Ribeiro teve um único contacto telefônico com a malograda a pedido de José Maria dos Santos, ao tempo em que este era Vice-Governador de Luanda. O contacto visava ajudar a malograda que teria a sua viatura retomada pelos fiscais na via pública.

O Assassinato da malograda tem sido investigado pela policia nacional que de acordo com dados estão numa fase "sem saber por onde começar". São apresentadas como principais suspeitas figuras que em discussões anteriores a teriam ameaçado de morte, tais como uma suposta ex- concubina do governador de Luanda, José Maria dos Santos. O dirigente tem se manifestado embaraçado com a constante citação do seu nome tendo enveredado com iniciativas juntos aos jornais para evitar que se fala do assunto fazendo referencia a si.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Assassinato de amante do governador de Luanda levanta ligações a “Quim” Ribeiro


Lisboa - As investigações do recente assassinato em Luanda de uma funcionária bancaria Eurídice Bernarda de Oliveira Cândido, apresentada como amante do governador de Luanda, José Maria dos Santos esta apresentar capítulos que ligam a malograda a segredos bancários que detinha em relação a contas do antigo comandante da policia, Joaquim Ribeiro.

Fonte: Club-k.net

Terá sido vitima do esquadrão da morte
Eurídice Bernarda Cândido, era funcionária da Direcção de Créditos a Particulares e negócios do BFA, foi assassinado na sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011, entre as 18h50 as 19h00 na rua Comandante Eurico, momentos após ter parqueado o carro e se preparava para tirar a filha do mesmo. A vitima foi surpreendida e alvejada à queima-roupa com um projéctil da face.

Peritos que acompanham o caso teriam inicialmente suspeitado que se estava diante de mais um crime face as particularidades da cidade de Luanda que nos últimos tempos ocorrem casos de assaltos a mão armada que terminam em mortes. Porém, nas páginas subsequentes foram verificados uma series de dados que levou os observadores a pensarem ao contrário.

De acordo com dados apurados, veio a se saber que a malograda teve uma relação amorosa com José Maria dos Santos, actual Governador da província de Luanda, da qual resultou uma filha. Durante o tempo que o responsável ainda ocupava a pasta de Vice do Kuando-Kubango, a mesma atravessou uma crise que segundo pessoas próximas se deveu ao facto da mesma ter retirado da conta do tal uma quantia avultada por alegadamente se ver privada da pensão para a filha a que aparentemente tinha direito.

A situação criou um estado de “guerra-fria” entre o casal e, como consequência, gerou a exaltação dos ânimos, com cobranças à mistura e acusações de ingratidão, e etc.

Resultado de um litígio com uma suposta outra concubina do Governador, a vitima foi levada a uma esquadra da capital onde o ex-Comandante “Quim” Ribeiro foi chamado a intervir para solucionar a objecto. Porém, apercebendo-se que a mesma funcionava numa área privilegiada do BFA e da sua influência, o mesmo estreitou as suas relações, chegando mesmo a cumplicidade amorosa com a malograda.

A relação dos mesmos foi se estreitando, que a dada altura a vitima se tornou uma “quase-gestora” de contas do ex-Comandante Provincial de Luanda e segundo os dados a que o Club-K teve acesso a mesma movimentava milhões em divisas do mesmo, o que propiciava o usufruto de alguns valores.

Há apurações indicando que o ex-Comandante “Quim” Ribeiro teria criado “todas artimanhas” possíveis para manter sob sua alçada e rédea curta a malograda, porem ela não cedia. Dai ter entrado em rota de colisão com José Maria dos Santos, tendo inclusive sido chamado ao gabinete do Comandante Geral, Ambrósio de Lemos, em companhia de Dias do Nascimento, Comandante de Divisão da Ingombota, onde foi advertido por estar a perturbar a vida e o lar de seu sobrinho. (relação de familiaridade que aparentemente o Comandante de Luanda desconhecia).

O temor tomou proporções alarmantes quando José Maria dos Santos foi nomeado Governador Provincial de Luanda e a fixação de residência na capital do país era inevitável, razão pela qual estão a levantar suspeitas de que o assassinato de Eurídice Cândido esteja ligada a sectores policias.

Argumentações que sustentam as suspeitas; A saber:
- Um dado considerado como “bizzaro” é o facto de 48 horas antes do infausto acontecimento, ter fluido uma informação proveniente de uma estrutura da Policia Nacional responsável pela protecção das individualidades protocolares insinuando que a UNITA tinha programado raptos e atentados contra pessoas próximas a José Maria dos Santos. A informação tramitou até ao gabinete do Comandante Geral e outras áreas do MININT, mas estes terão rejeitado por não fazer sentido que o partido dos maninhos perpetre actos contra o Governador de Luanda.

- A forma como aparentemente se concebeu o crime, revela um modus operandi já conhecido, segundo fontes ligadas ao assunto indiciam uma actuação típica dos “esquadrões da morte” que eram ou ainda são controlados por uma corrente conotada ao antigo comandante da policia de Luanda.

- Há indícios de que esse caso tem relação com o do Superintendente da Policia Nacional, Domingos Francisco João, assassinado no dia 21 de Outubro de 2010, por ter tomado conhecimento do envolvimento do ex- Comandante Joaquim Ribeiro num jogo “não limpo” . No presente caso a vítima conhecia o número de contas, valores, transacções, pagamentos e vários outros segredos.

- O salteador não pretendia, pelos vistos a todo custo, que se quebrasse o pacto.
De recordar ainda que logo após a morte da mesma surgiram em Luanda rumores de fonte inserta insinuando de que foi morta a mando de uma outra amante do governador José Maria dos Santos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tatiana Durão Apresenta Single "Crazy"


Luanda - A ex-big brother África (BBA), apresentadora, modelo e agora cantora, a angolana Tatiana Durão, vai apresentar, dia 03 de Fevereiro próximo, no cine Tropical, em Luanda, o primeiro single “Crazy”, que em português significa "louco".

Fonte: Angop CLUB-K.NET
Em entrevista sábado à Angop, Tatiana Durão disse que o single, produzido pela Geelala, estúdio de Londres (Inglaterra), comporta três temas que retratam, no seu todo, aspectos relacionados com o amor, paz, solidariedade e festa.

O single versado num género dançante, segundo a artista, nasceu da falta que sentia em ter algo de novo, apesar de incessantemente desejar cantar.

"Sempre desejei cantar, mas nunca pensei que chegasse a concretizar, porque estava ocupada com as minhas outras paixões", salientou, acrescentado a obra "transmiti liberdade, felicidade e fará as pessoas dançar sem parar".

Este trabalho, de acordo com Tatiana Durão, contou com a participação do músico nigeriano Naeto C, premiado por duas vezes (2009-2010) num canal televisivo da Nigeria.

Salientou que no dia da estreia vai exibir o primeiro videoclipe da obra também designado Crazy. "Este é o momento promocional e de preparação do álbum que sai ainda este ano".

"Já tenho os meus fãs, apenas vou conquistar o meu espaço no mercado discográfico nacional. Perspectivo fazer do Crazy um sucesso (…), uma proposta fantástica que será surpresa", vaticinou.

Noutra vertente, afirmou que o BBA em nada poderá prejudicar os seus projectos musicais. “O episódio faz parte de um passado que já não voltará a acontecer”.

“Espero que quando o público me ouvir a cantar possa ver todo o esforço e dedicação que fiz em mais um desafio”, augurou.

domingo, 30 de janeiro de 2011

A DITADURA E O CLUB K


José Gama: O CK tem sido alvo de ataques. Iremos superar e sair desta fase. Estamos a estudar o reforço das medidas de segurança.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Paulo de Carvalho, sociólogo e Professor Universitário


Lisboa - Até pouco tempo reitor da Universidade Katiavala Bwila, Paulo de Carvalho é um dos mais prestigiados sociólogos em Angola. Formou-se pela Universidade de Varsóvia em finais da década de 80 mas foi em Portugal pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) que se doutorou em sociologia defendendo como tese um estudo acerca da exclusão social em Luanda.

Fonte: Club-k.net

Enquanto sociólogo, Paulo de Carvalho centrou-se também em pesquisas de opinião e estudos de mercado. Alguns dos seus trabalhos e posições baseadas em estudos habilitados causaram impacto interno no rumo do país. É notabilizado como a figura que teria alertado dois anos antes das eleições que se o MPLA avançasse naquele momento teria nas urnas resultados desfavoráveis. Na altura uma corrente do partido no poder teria se mostrado deselegante com as suas posições dizendo que o sociólogo “estava contra o partido”. Por outro lado, uma outra corrente aparentemente mais tolerante levantou a voz para alertar que ao invés de insurgirem contra o acadêmico deveriam estudar as suas alertas. De seguida, o MPLA encomendou três sondagens de diferentes instituições estrangeiras que apontavam a vitoria do partido no poder com 55% ou 60% dos votos. A prevenção das alertas do sociólogo fez com que um grupo da Casa Militar entrasse em jogo para garantir uma vitoria eleitoral superior as estimativas para o MPLA. Em círculos oposicionistas ao regime, há ainda quem diga que Paulo de Carvalho foi a figura que despertou o MPLA para atribuição dos 82% dos votos.

A nível profissional, Paulo de Carvalho é uma figura que em finais da década de setenta trabalhou na Secretaria de Estado da Cultura onde chefiou o Departamento de Casas de Cultura e o Departamento de Espectáculos. Poucos anos depois, isto em meados da década de oitenta partiu para Polônia onde concluiu a licenciatura e o mestrado em sociologia. Na capital Varsóvia, desenvolveu um trabalho a “Estrutura social da sociedade colonial angolana” e esteve ligado a Associação Polaca de Estudos Africanos. Nos dias de hoje o seu nome é ainda citado com alguma relevância. Quando Angola assinalou ao aniversario dos 30 anos da independência de Angola a embaixada angolana na Polônia convidou-lhe para fazer uma dissertação em alusão a data.

Paulo de Carvalho é também jornalista. Quando regressou a Angola em 1990, após a sua formação no estrangeiro trabalhou no Ministério da Informação para um ano depois ser apontado Director do Centro de Imprensa "Aníbel de Melo". Foi também administrador da Representação em Luanda da OXFAM-G.B por um ano até passar a dedicar-se a consultoria. O mesmo faz parte do sindicato Angolano dos Jornalistas e de outras instituições de sociólogos internacionais.

A sua carreira acadêmica teve inicio em 1996 como docente da Universidade Agostinho Neto onde mais tarde passaria a coordenar a Comissão de Gestão da Faculdade de Letras e Ciências Sociais, de Janeiro de 2005 a Abril de 2006. No seguimento da descentralização da Universidade Agostinho Neto que culminou com a criação de estruturas autônomas nas regiões do países, Paulo de Carvalho foi nomeado reitor da Universidade Katiavala Buila (UKB) que compreende as regiões de Benguela e Kwanza Sul. Enquanto entidade máxima da instituição encontrou as estruturas desorganizadas em termos de admissão mas também movidas por hábitos de corrupção. Declarou combate contra tais praticas provocando o rebentamento de um barril de pólvora. Os funcionários conotados a tais praticas teriam interpretado a sua acção como “estando a estragar o seu pão”. Os docentes acabaram por combatê-lo com criticas ou difamações em jornais. Face ao clima de instabilidade instaurado na instituição universitária, a Ministra de tutela afastou-lhe do posto nomeando um novo reitor, Albano Ferreira, medico e antigo Vice- reitor da UAN, ao tempo de Sebastião Teta.

A primeira vez que o seu lado de combate a corrupção alastrou-se em círculos estrangeiros, foi em meados de 2008. Na altura viajou para a vizinha Namíbia para consultas medicas e no regresso, a 11 de Julho, Paulo de Carvalho viu-se escandalizado com um caso de suborno a bordo da aeronave desencadeado por uma hospedeira da companhia área da Air Namibia, respeitante ao “upgrade” das classes de vôo. Em terra, escreveu um artigo de protesto/ opinião denunciado o sucedido. Em reação a companhia aérea despediu a hospedeira e foi-lhe apresentado um pedido de desculpas formal. O Director Comercial da companhia ofereceu-lhe, em gesto simbólico, uma viagem a Windhoek, mas declinou.

Para o futuro, Paulo de Carvalho prevê regressar a docência na Faculdade de Ciências Sócias da UAN. Personalidades que com ele privam notam-lhe pretensão de reativar os seus projectos de investigação e publicação em curso. Uma informação que tem o wikipia como fonte aponta-lhe como autor de acima de 50 pesquisas e estudos empíricos, com utilização do método quantitativo e do método qualitativo de investigação sociológica (inquérito por questionário, entrevista aprofundada e grupo de discussão). É também administrador da Consulteste, Lda. - empresa angolana de pesquisa de opinião e estudos de mercado.

Em 2008, fez uma sondagem a cerca dos semanários mais influentes ou lidos no país. A sondagem apresentava o Semanário Angolense, N.J e ACapital na liderança das leituras. Dois anos depois 2010, personalidades próximas a Manuel Vicente e Manuel Vieira Dias “Kopelipa”, decidiram comprar os semanários lideres de audiência por estes terem publicado relatórios de autoria de Rafael Marques que estaria a criar supostos embaraços a imagem do PCA da Sonangol.

domingo, 23 de janeiro de 2011

IGREJA ANGOLANA DE LUTO


A igreja angolana está de luto. Morreu, esta quinta-feira, Dom Eugénio Salesso, vítima de doença, depois de um coma profundo que durou uma semana.

apostolado-angola.org/

O até então bispo emérito de Malanje faleceu na cidade do Huambo, onde residia desde que deixou o trabalho activo.

O padre Dionísio Hissilenapo, do Secretariado da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé disse que Dom Eugénio Salesso se encontrava em coma profundo há já uma semana.

“Praticamente há uma semana que estava em coma profundo no hospital, na cidade do Huambo. Por volta das 21 horas (quinta-feira) recebemos a comunicação de Dom Queirós Alves, Arcebispo do Huambo, a dar conta da morte de Eugénio Salesso que foi o bispo emérito de Malanje” – disse.

“Trabalhou muitos anos em Malanje, mas pertence ao clero do Huambo. Era padre do Huambo quando foi nomeado em 1977 para a Arquidiocese de Malange” – referiu ainda.

“O secretariado da CEAST está consternado por esta morte. São figuras que marcaram a nossa igreja, dedicaram-se e trabalharam profundamente para expandir o reino de Deus no meio de nós” – lamentou.

Sentimento de consternação também em Malanje. O Arcebispo local, Dom Luís Maria, em nome da igreja malanjina, lamenta a morte de Dom Salesso.

“É um sentimento de tristeza de todos, porque é um amigo que se foi” – revelou.

“Faremos uma oração de acção de graças, porque ele, na sua vida pessoal e como bispo de Malanje, significou muita coisa para a igreja. Portanto, damos graças à Deus pela sua vida” – acrescentou.

Dom Luís Maria disse ainda que as exéquias fúnebres de Dom Eugénio Salesso serão realizada entre terça e sexta-feira da próxima semana na cidade do Huambo.

“As cerimónias fúnebres serão realizadas no Huambo. Ele faleceu no Huambo, onde viveu como emérito muito anos”.

Dom Eugénio Salesso faleceu aos 88 anos de idade, 25 dos quais como Bispo da Arquidiocese de Malange.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Entre Crimes, Detetives e Mistérios...(Pepetela e Mia Couto _ Riso, Melancolia e o Desvendamento da História pela Ficção)*



Toda narrativa policial apresenta um crime e alguém disposto a desvendá-lo, mas nem toda narrativa com tais elementos pode ser classificada como policial.**

1.O "falso policial" e o "humor cínico" dos romances históricos contemporâneos

Escrito por Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco
http://www.ueangola.com/

Refletindo sobre a trajetória do romance histórico no Brasil e na América Hispânica, Vera Follain de Figueiredo, em seu livro Da profecia ao labirinto , registra três grandes modelos: o primeiro, que diz respeito à clássica narrativa histórica do século XIX _ cujo paradigma é Walter Scott _, centrado na fé historicista e nos projetos românticos de consolidação do sentimento nacional; o segundo, que abarca os romances da descolonização, ou seja, os romances de resistência do século XX que subvertem, parodicamente, a ótica oficial da história, dando voz aos vencidos; e, por fim, o terceiro que se refere às narrativas históricas produzidas nas últimas três décadas (1980, 1990 e 2000), onde a tensão própria dos romances de resistência desaparece, cedendo lugar a um humor cínico, cuja função é a de acenar ceticamente para a quase completa ausência de utopias e projetos sociais nos contextos históricos contemporâneos, em geral, no alvorecer do terceiro milênio. Essa mais recente forma de romance histórico opera com a descrença, com o fato de saber impossível recuperar, hoje, objetivamente o passado. As próprias incertezas em relação ao presente levam a uma opção por diversos narradores, por várias versões, o que comprova a relatividade não só da ficção, mas também da História. Há um desconfiar permanente, mas os mistérios nunca se decifram por inteiro. Muitos dos novos romances históricos dos tempos atuais vestem a capa das narrativas policiais do século XIX, no entanto o fazem para a desconstrução do próprio subgênero:

O retorno atual, por uma literatura que não se assume como direcionada unicamente para os interesses comerciais, a subgêneros de aceitação popular do século XIX _ tanto ao romance histórico, como ao romance policial _ faz parte do movimento mais amplo de progressivo abandono das atitudes reativas, de protesto, surgidas no século passado, mas acirradas com o modernismo, contra a reificação mercantil da obra de arte operada pelo capitalismo. Trata-se da reapropriação e do deslocamento histórico de antigas estruturas a serviço de uma situação qualitativamente diversa. Retomam-se, hoje, os subgêneros que ocuparam lugar privilegiado na hierarquia, segundo os princípios do sucesso comercial no século XIX. Subgêneros que tiveram raízes na crença no processo histórico e na possibilidade de se atingir a verdade última dos fatos e que tiveram seu tempo áureo antes do estabelecimento da fissura entre uma arte considerada culta e outra vista como produção mercenária..2

Os "falsos romances policiais" contemporâneos se afastam dos textos de suspense e enigma, à Sherlock Holmes. Efetuam uma carnavalização do gênero, que visa, com irônico humor, a assinalar a dispersão e a banalização de crimes e detetives em tempos neoliberais, onde, em muitos países, a corrupção é generalizada e instituída por poderes paralelos e, até mesmo, centrais. Nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, os romances históricos de resistência cumpriram, durante as lutas libertárias e nos primeiros anos do pós-independência, o importante papel de descolonização, repensando, com outro olhar, o passado colonial. Nas literaturas de Angola e Moçambique, por exemplo, são muitos os romances desse tipo, principalmente nas décadas de 1960, 1970 e princípio dos anos 1980, momento em que a afirmação dos nacionalismos se impunha e se fazia necessária em razão da necessidade de reconstrução nacional que a liberdade conquistada exigia. Nos anos 1990 e 2000, quando as utopias libertárias se enfraquecem e o neoliberalismo transnacional atinge as economias periféricas também de África, começa a haver, como acontece com a Literatura Brasileira e as Literaturas Hispano-Americanas contemporâneas, uma transformação nas propostas romanescas de diversos escritores. O viés do humor irônico e o "falso policial" _ traços característicos dos romances históricos atuais _ se fazem presentes também em recentes obras romanescas representativas das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa publicadas em 2000 e 2001, dentre as quais elegemos para análise Jaime Bunda: agente secreto , do angolano Pepetela, e O Último voo do flamingo , do moçambicano Mia Couto, já que, em ambos, além de mistérios, crimes e detetives, convivem, em tensão, o riso e a melancolia, tema principal deste Seminário.

2. O Riso e a Melancolia _ sob o signo da alegoria benjaminiana...

Tanto a narrativa de Jaime Bunda, como a de O Último voo do flamingo se engendram melancolicamente, pois, das entrelinhas textuais, emanam discursos reveladores das incoerências sociais existentes nos contextos históricos de Moçambique pós-1992 e de Angola dos primórdios dos anos 2000 focalizados pelos referidos romances. A melancolia, para Walter Benjamin, não se relaciona à depressão e ao luto, conforme postula a teoria freudiana. De acordo com o pensamento do filósofo alemão, está intimamente relacionada à alegoria, no que esta tem da faculdade "de dizer o outro reprimido" . Os romances de Pepetela e Mia Couto aqui estudados, adotando esse olhar melancólico benjaminiano, realizam, respectivamente, alegóricas leituras das sociedades moçambicana e angolana nos tempos pós-coloniais de globalização econômica. Fazem interpretações, tecidas de lugares "dialeticamente dilacerados" , ou seja, exprimem o sentimento de mal-estar dos quem se encontram inadaptados ao presente, nostálgicos das crenças e valores do passado. Mas essa nostalgia não se traduz como saudade romântica do outrora, e, sim, como dissonância e indignação. Nos dois romances, há uma polifonia narracional, um entrecruzamento de pontos de vista que se mostram melancólicos, ou melhor, "melancoléricos", isto é, expressam a divergência própria dos rebeldes radicais, daqueles que não concordam com a realidade corrupta que os cerca. Etimologicamente, "a palavra melancolia vem do grego, de melanos (=negro) e kholé (=bílis); designa um estado patológico do fígado que produz bílis escura e acarreta depressão, irritação". Em ambos os romances, essa melancolia vem envolta por um riso trágico, ou melhor, por um tom risível, cujos traços jocosos e grotescos desvelam o absurdo do próprio real histórico de Angola e Moçambique. É um riso fechado, travado, cortante. Seu caráter transgressor assinala o indizível, o não-lugar, o sem-sentido que domina, em geral, as instâncias culturais de certas sociedades que se perderam de si próprias. Não são inocentes as risíveis imagens das nádegas volumosas do detive-protagonista Jaime Bunda, nem as do pênis "avulso e avultado" que se encontra decepado no meio de uma rua da vila de Tizangara, logo ao início da narrativa de O Último voo do flamingo. Tais alegorias traçam uma caricatura cáustica e sarcástica dos problemas vivenciados por Angola e Moçambique entre o fim dos anos 90 e início dos 2000.

3. Jaime Bunda: "a pena da galhofa e a tinta da melancolia"...

Elegendo para protagonista do livro de trama aparentemente policial uma personagem kitsch, o romance Jaime Bunda estabelece, de início, com os leitores, um pacto carnavalizador de sátira à sociedade angolana. Jaime Bunda é um estagiário de Polícia a desempenhar o papel de agente secreto na elucidação de um crime que envolve uma menina de quatorze anos, encontrada morta, depois de estuprada, num recanto deserto da Ilha de Luanda. Elucidar o hediondo delito torna-se, contudo, mero pretexto da narrativa que acaba por revelar a existência de outros crimes maiores em Angola, só que estes não podem ser confessados publicamente. Jaime Bunda, desviando-se dos cânones tradicionais do gênero policial, realiza uma dessacralização do investigador clássico, comportando-se como um James Bond à angolana. A infalibilidade do detive-herói é transgredida e ridicularizada pelo contraste com a figura do agente secreto angolano, cujas atitudes caricatas levam-no a ser inserido na categoria de anti-herói: "O James Bond resolvia logo o assunto com um aparelho qualquer, mas ele era um James Bond subdesenvolvido (...)" . Sob o signo da falência e do grotesco, desde a adolescência, o detetive angolano recebera o apelido desmerecedor _ "Bundão" _, por ter fracassado como jogador de basquete, em virtude de o avantajado tamanho dos glúteos lhe roubar a leveza, impedindo-o de saltar conforme exigia o esporte que tentava praticar. Segundo Todorov, em "Tipologia do Romance Policial" , a clássica narrativa de enigma oferece sempre duas histórias distintas: a do crime _ concluída antes do começo da outra _ e a do inquérito. Nesta, as personagens apenas observam e examinam as pistas e os indícios, não realizando ações. O relato da investigação geralmente fica a cargo de um amigo do detetive, como, por exemplo, o Dr. Watson que narra as aventuras do célebre Sherlock Holmes. Nesse tipo de narrativa, o raciocínio lógico é o fio condutor do enredo que se arma, com base em cenas progressivas de suspense, em direção à infalível descoberta, ao final, do criminoso. Em Jaime Bunda, ao contrário do romance policial convencional, o que o leitor encontra o tempo todo é justamente a desmontagem irônica dos clichês característicos desse tipo de narrativa. Há duas estórias: a do crime e a do inquérito; porém, esta não é narrada por um amigo do detetive, e, sim, por uma polifonia discursiva que alterna as vozes de quatro narradores, todos falseadores e despistadores do assassinato inicial. A estória deste é apresentada no Prólogo por um pseudo-autor, ou seja, um autor ficcional que comanda os quatro narradores e, ao mesmo tempo, se esconde e se revela, sendo marcado o seu discurso em itálico e entre colchetes, toda vez que faz uso da palavra. O primeiro narrador se mostra ingênuo e imprudente, logo sendo demitido pelo pseudo-autor; o segundo, Malika, é quem escreve o relatório do crime, não o da morte da menina de quatorze anos, porém o da corrupção e contrabando disseminados em Angola, principalmente após o ingresso desse país na economia transnacional de "livre mercado"; o terceiro narrador é o mais ferino e mordaz, possuindo um humor cético e corrosivo como o de Machado de Assis; emite sarcásticas críticas, funcionando como um duplo do autor ficcional; o quarto narrador retoma a função do relatório e tenta unir tudo, no entanto, também não consegue deslindar nada. O grande enigma, no fundo, é o desvendamento pelo leitor da enunciação polifônica do romance que, operando com o fingimento escritural, sinaliza para o cinismo social, para a descrença no poder instituído em Angola, atingida também pelas leis do FMI e Banco Mundial. O pseudo-autor aparece no Prólogo, no Epílogo e faz recorrentes intromissões aos discursos dos quatro narradores, atuando como um autor intruso, semelhante aos dos romances de Machado de Assis. Vejamos um exemplo, quando se refere ao Livro do Segundo Narrador, Malika, a bailarina libanesa, oprimida por Said, o árabe contraventor, aliado da misteriosa personagem denominada, o tempo todo, de "T":

[Esse relatório, com pequenos cortes e alguns arranjos, muitas vezes derivado da tradução, mas sobretudo para disfarçar o estilo de relatório, constituiu o Livro do Segundo Narrador, como os leitores certamente já repararam, se não andaram a saltar demasiadas páginas só para descobrir viciosamente como acaba a estória.]12

O interessante é que, em vez de fornecer pistas para a descoberta do criminoso da menina de quatorze anos, o pseudo-autor vai despistando, criando entradas falsas para desconstruir o próprio subgênero parodiado. Ele mantém enigmática a figura tenebrosa do "T", o chefe do Bunker, e vai manipulando ou descartando, quando necessário, os vários narradores do romance. Exerce, desse modo, o papel de um super-Autor, que Vanessa Ribeiro _ mestranda da UFRJ, em sua monografia sobre este livro de Pepetela _ comparou a uma espécie de "big brother africano" . Esse autor ficcional vai insinuando, em contraponto, nos bastidores, ou seja, nas malhas e lacunas dos discursos dos quatro narradores, que a argumentação e o relato desses não demonstram uma lógica pertinente às autênticas narrativas de enigma. Evidencia, com ironia, que o detetive Jaime Bunda, embora fizesse inferências e deduções, buscando rastros e pegadas do misterioso assassino visto na Ilha, num luxuoso carro preto, cada vez mais, se afastava da decifração do crime, pois os índices por ele levantados, ao invés de o levarem ao delito relatado no Prólogo, o arrastavam vertiginosamente para os meandros de uma rede complexa e ampla de contrabandos e corrupções que envolviam não só estrangeiros, como também personalidades importantes _ e por isso mesmo intocáveis _ do governo de seu país, onde a falsificação dos kuanzas _ a desvalorizada moeda de Angola _ era resultado da intensa política de dolarização da economia angolana, ocorrida principalmente nos anos 1990 e 2000. Apesar de o livro Jaime Bunda, em virtude de apresentar um detetive frágil, grotesco e falível, se aproximar mais dos romances policiais americanos ou da "série negra", também falseia esse tipo de narrativa, denunciando o aspecto kitsch dessa literatura de crimes e investigações. Se os freqüentes jogos intertextuais com célebres protagonistas e passagens de conhecidas estórias policiais têm o objetivo de perfilar o romance de enigma ou o de "série noire" em relação a outras narrativas do gênero, em Pepetela essa metalinguagem tem uma função dessacralizadora e paródica. Pode ser lida como cáustica crítica à indústria cultural norte-americana que costuma jogar seu lixo nos países periféricos . Pode também ser interpretada como uma pungente alegoria da situação de Angola, violada e violentada _ como a menina do crime narrado no Prólogo _ por poderes ocultos, "silenciados, pudicamente, sob sete véus"... A par do riso trágico e do tom grotesco de Jaime Bunda, esse romance de Pepetela termina em aberto e de modo muito sério, deixando no ar, ambiguamente, ao lado de um travo de dor, uma predisposição sonhadora e utópica. Machadianamente, a pena de Pepetela segue os caminhos da galhofa, e, simultaneamente, se cobre com a indignação das tintas de uma melancolia benjaminiana que expressa a "cólera dos justos". O pseudo-autor, embora sabedor do desencanto contemporâneo que envolve Angola no início dos anos 2000, retoma a palavra no Epílogo, para lembrar _ mesmo que colocando sob irônica suspeita _ a presença dos sonhadores e ingênuos como Gégé _ mano mais novo de Jaime Bunda _ que continuam a correr, de peito aberto, para ajudar a reformar o mundo, apostando _ como defende Cinda Gonda _ no poder de transformação e "permanência das utopias" .

4. Entre o risível e o trágico _ o vôo mitopoético do flamingo...

Também o romance O Último voo do flamingo, do escritor Mia Couto, apresenta um viés utópico, a par da imagem apocalíptica do abismo em que, alegoricamente, ao final da narrativa, afunda Moçambique, e do tom trágico-melancólico emanado das misteriosas explosões dos capacetes azuis _ como eram chamados os soldados da ONU _, que tinham vindo trabalhar, no pós-guerra, na desminagem do país, logo em seguida à assinatura do acordo de paz em 1992. O romance é uma fingida narrativa policial, pois começa e termina de modo fantástico, o que é incompatível com as clássicas estórias de enigma, onde devem predominar a lógica e a razão. A cena inicial insere o leitor, de chofre, numa trama narrativa que se tece entre o risível e o insólito, entre a dor e a perplexidade de ver fragmentos de corpos humanos indo pelos ares como, por exemplo, um pênis decepado que acabou criando a maior polêmica, porque ninguém sabia a quem pertencia, tendo sido chamada, então, Ana Deusqueira, a prostituta da cidade, para tentar identificá-lo. O riso que se instala é desconcertante, pois chama atenção, ironicamente, para o ridículo da situação, emitindo uma crítica mordaz à sociedade moçambicana, cujo poder corrupto e falido das autoridades é alegorizado pela imagem do falo amputado. É um riso incômodo que perpassa o melancólico desenho caricato das personagens típicas, entre as quais: Estêvão Jonas, o Administrador, cujas práticas desonestas o levaram ao enriquecimento ilícito; e sua esposa Ermelinda, a "administratriz", que gostava de exibir "mais anéis que Saturno" e fazer "tilintar os ouros, multiplicados em vistosos colares." As explosões em Tizangara _ vila imaginária, que funciona como metonímia de Moçambique _ tornam-se apenas pretexto da investigação para a qual foi nomeado o soldado italiano Massimo Risi. O grande enigma a ser elucidado não são essas mortes misteriosas, mas a própria cultura moçambicana, vítima de tantas destruições e ruínas, do desprezo pelas tradições, cujo esgarçamento foi resultado tanto do colonialismo, como das guerrilhas pós-independência que não respeitaram os saberes e religiosidades do povo. Interessante notar que quem narra a história não é um amigo do investigador, conforme costuma ocorrer em romances policiais, porém um narrador-tradutor, que procura levar o estrangeiro a entender "as coisas da terra", tentando estabelecer uma ponte (como se isso fosse possível...) entre as tradições orais e a escrita. O tradutor acumula, na narração propriamente dita, as funções de narrador e personagem, e, no Prefácio, assumindo uma temporalidade posterior à da estória narrada, desempenha o papel de pseudo-autor e, adotando a primeira pessoa, confessa logo à saída: Fui eu que transcrevi, em português visível, as falas que daqui se seguem. Hoje são vozes que escuto senão no sangue, como se a sua lembrança me surgisse não da memória, mas do fundo do corpo.(...) Mas o que se passou só pode ser contado por palavras que ainda não nasceram. Agora, vos conto tudo por ordem da minha única vontade. É que preciso livrar-me destas minhas lembranças como o assassino se livra do corpo da vítima.

O tradutor, ao invés de facilitar as investigações do italiano Massimo Risi, já que havia sido incumbido de lhe traduzir o imaginário local, acaba _ por ser isso impossível _ comportando-se como um criminoso que desejava desvencilhar-se, o mais rapidamente, das marcas do crime. E este, no fundo _ como o leitor descobrirá ao término da leitura _, é a imensa destruição das tradições de Moçambique por alguns dos próprios governantes moçambicanos que, após a Independência, terminaram por abrir mão dos princípios éticos e ideológicos dos tempos revolucionários, ingressando no neoliberalismo econômico e vendendo o país ao estrangeiro. Essa é a grande crítica que subjaz à narrativa, introjetando no discurso enunciador um gosto melancólico profundamente benjaminiano. Este, entretanto, na denúncia social empreendida pelo jogo dialógico entre enunciado e enunciação, se hibridiza com os aspectos risível e satírico da linguagem, dessacralizando, assim, a moral viciada e viciosa daquela sociedade. Mas, os requintes de engendramento ficcional de Mia Couto não param aí. Mesclando as fronteiras dos gêneros, realiza uma prosa que respira poesia, indo do trágico ao satírico, do épico ao dramático e ao lírico. Em O Último voo do flamingo, o tradutor tenta ensinar Risi a pisar o chão moçambicano, recuperando tradições, mitos, lendas esquecidos em razão dos longos anos de colonialismo e guerra. Através das lembranças que guardou da mãe, do pai Sulpício, o tradutor tenta reencontrar a identidade dilacerada por tantas opressões e imposições feitas pelos colonizadores que silenciaram sua cultura. Por meio do convívio com o feiticeiro Zeca Andorinho e com Temporina, a moça-velha, tenta passar ao investigador italiano as crenças e a visão africana de mundo, segundo as quais os antepassados continuam, após a morte, interferindo no mundo dos vivos. Risi declara que não consegue entender isso. Talvez, o abismo, onde se dilui o país, no desfecho do romance, represente, alegoricamente, esse fosso enorme existente entre a cultura africana e a estrangeira, entre a oratura e a escrita, entre as tradições moçambicanas e a modernidade ocidental. Não é a língua que Massimo Risi não compreende, mas os modos de sentir, ver e pensar daquela gente. A hiância entre dois mundos diversos permanece, assim como também fica sem explicação a causa das explosões. Os depoimentos e falas das personagens representativas da cultura moçambicana, ao invés de esclarecerem o investigador, o confundem ainda mais. O tradutor vai despistando e embaralhando o investigador, de modo que a narrativa se revela antipolicial, principalmente quando o onírico surpreende o epílogo romanesco, com a imagem de Moçambique perdendo o chão, imergindo numa imensa cratera. Na última página do romance, à margem do precipício, o tradutor e Massimo Risi transformam a folha, onde escreviam, em uma gaivota de papel que atiram sobre o despenhadeiro. Tal imagem representa, alegoricamente, o vôo mágico da poesia, trazendo também a lembrança da lenda contada pela mãe do tradutor que explicava serem os flamingos cor-de-rosa os pássaros da esperança, pois eram eles que empurravam o sol para o outro lado do mundo, anunciando, sempre, a cada manhã, o nascer dos dias. Com esse remate mitopoético, o romance de Mia Couto termina de modo lírico, deixando entreaberta a possibilidade de poderem surgir, para Moçambique, novas utopias.

5. Concluindo...

Muito mais haveria a dizer sobre os dois romances analisados. Contudo, em razão do tempo, torna-se necessário parar por aqui, ressaltando, apenas, que, embora tanto Jaime Bunda, como O Último voo do flamingo operem com o riso irônico e com a melancolia benjaminiana, trilham direções um pouco diversas. Enquanto Pepetela usa uma linguagem mais cáustica, cujos procedimentos têm algo do ceticismo e da ironia empregados por Machado de Assis, Mia Couto, num estilo, em alguns aspectos, semelhante ao de Guimarães Rosa, faz o risível e o trágico contracenarem com um intenso lirismo fundado na artesania poética da linguagem. Observamos, em suma, que as duas obras estudadas, sob a capa de um "falso policial" ou de um "policial às avessas", além da crítica irônica e contundente empreendida em relação à história atual de Angola e Moçambique, apresentam desenlaces em aberto, que apontam para alegóricas imagens utópicas, insinuando, nas entrelinhas textuais, que nem tudo está definitivamente perdido.

RESUMO: Crimes, detetives e mistérios. Os enigmas e vazios da História repensados pela ficção. Pepetela e Mia Couto: a inversão paródica do romance policial clássico. O "romance de enigma" e o "romance negro": desconstruções, subversões, recriações. O risível e a melancólica consciência do real: a denúncia crítica dos atuais contextos históricos de Angola e Moçambique imersos na política de globalização neoliberal.

MICRO-CURRICULUM:

CARMEN LUCIA TINDÓ SECCO é Doutora em Letras Vernáculas ( UFRJ, 1992 ), Supervisora do Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pesquisadora do CNPq. Desenvolve a pesquisa Sonho, Paisagem e Memória nas Literaturas Africanas. Publicações nas áreas de Literaturas Africanas e Brasileira, entre as quais: Morte e prazer em João do Rio (Rio: Francisco Alves, 1976), Além da idade da razão ( Rio: Graphia, 1994), Guia bibliográfico das literaturas africanas em bibliotecas do RJ (Rio: F. Letras / UFRJ, 1996), Antologias do mar na poesia africana ( Rio: F. Letras / UFRJ, 1996, 1997, 1999. 3 v. ); Antologias do mar na poesia africana- Angola. Luanda: Ed. Kilombelombe, 2000.

*Trabalho apresentado na UFF, em 7/11/2002, no Seminário Riso e Melancolia, a ser publicado nas Atas do referido evento. **REIMÃO, Sandra L.O que é romance policial. SP: Brasiliense, 1983. p. 8.

1 FIGUEIREDO, Vera Follain de. Da profecia ao labirinto: imagens da história na ficção latino-americana contemporânea. Rio de Janeiro: Imago e EDUERJ, 1994.
2 FIGUEIREDO, Vera Follain de. Síntese do livro Da profecia ao labirinto: imagens da história na ficção latino-americana contemporânea.. In: http://members.tripod.com/~lfilipe/Vera.html , consulta à Internet em 23/03/2000. 3 PEPETELA. Jaime Bunda, agente secreto. Lisboa: Editora Dom Quixote, 2001. 4 COUTO, Mia. O Último voo do flamingo. Lisboa: Editora Caminho, 2000.
5 KOTHE, Flávio. A Alegoria. São Paulo: Ática, 1986. p. 7.
6 KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. Rio de Janeiro: Campus, 1988. p. 27.
7 Idem, p. 102.
8 PEPETELA, Jaime Bunda, 2001, p. 120.
9 TODOROV, Tzvetan. "Tipologia do romance Policial". In:_. As Estruturas narrativas. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1970. pp.94-97.
10 PEPETELA, Jaime Bunda, 2001, p. 274. [grifo nosso]
11 RIBEIRO, Vanessa. Fala, Malika, Fala _ o discurso da virada ou a falsa libertação ?. Monografia final apresentada à Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco, na disciplina Entre Crimes, Mistérios e Detetives, código LEV 782, ministrada no Mestrado em Letras da UFRJ, no 1º semestre de 2002.
12 FERREIRA, Rita de Cássia Silva. Jaime Bunda: um policial às avessas?! . Monografia final apresentada à Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco, na disciplina Entre Crimes, Mistérios e Detetives, código LEV 782, ministrada no Mestrado em Letras da UFRJ, no 1º semestre de 2002.
13 GONDA, Cinda [Profa da F.Letras/UFRJ]. Pepetela, a permanência da utopia. Monografia final apresentada à Profa. Dra. Carmen Lucia Tindó Secco, na disciplina Entre Crimes, Mistérios e Detetives, cód. LEV 894, ministrada no Doutorado em Letras da UFRJ, no 1º semestre de 2002.
14 COUTO, Mia. O Último voo do flamingo, 2000, p. 11.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Pedra de Dighton. Teoria Portuguesa – Século 20


Em 1918, Edmund Burke Delabarre, professor de psicologia da Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, EUA, detectou o nome de Miguel Corte Real e a data de 1511 gravados na Pedra de Dighton.

http://www.academyofcodfish.com/pedra_de_dighton.htm

Em 1951, José Dâmaso Fragoso, professor de português e métodos de ensino da Universidade de Nova Iorque, descobriu três Cruzes da Ordem de Cristo.

Em 1960, Manuel Luciano da Silva, médico especialista em Medicina Interna, no Cntro Médico de Bristol, Rhode Island, descobriu a quarta Cruz e apresentou, no dia 8 de Setembro de 1960, no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos em Lisboa, Portugal, toda a documentação sobre a Teoria Portuguesa.

A Teoria Portuguesa foi concebida em 1918 por Edmund Burke Delabarre, psicologista na Universidade de Brown, em Providence, Rhode Island, quando descobriu a data de 1511. “Eu vi-a, clara e indubitavelmente, a data de 1511. Ninguém até à data a viu ou detectou na pedra ou em fotografia, mas uma vez vista a sua presença genuína não pode ser negada”. (2 de Dezembro de 1918).

Com o conhecimento da data de 1511, Delabarre pesquisou História da Europa e verificou que existem em Lisboa, Portugal, Cartas Reais afirmando o facto do navegador Gaspar Corte Real ter feito uma segunda viagem a América do Norte em 1501 e nunca regressou a Portugal. Delabarre descobriu também o facto de Miguel Corte Real, Porteiro Mor da Casa Real do Rei D. Manuel I, ter deixado Lisboa em 10 de Maio de 1502, à procura do irmão Gaspar, mas Miguel teve a mesma sorte -- nunca mais voltou a Portugal.
Em posse dos conhecimentos da História Portuguesa Delabarre reviu todos os desenhos, pinturas e fotografias feitas por vários pesquisadores desde 1680 e afirmou que estavam gravados na Pedra de Dighton:

(1) Data 1511
(2) Nome do Capitão - Miguel Corte Real
(3) Escudo Português em forma de “V”

Em 1951, José Dâmaso Fragoso (natural de São Miguel, Vila da Lagoa, Açores) e professor de Português na Universidade da Nova Iorque, escreveu um artigo revelando: (1) a descoberta de três Cruzes da Ordem de Cristo, com as extremidades em 45 graus, e (2) o Escudo Português em forma de “U”.

Em 1960, depois de uma análise profunda das pesquisas feitas por Delabarre e Fragoso, Manuel Luciano da Silva, médico em Bristol, Rhode Island, fez uma comunicação no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos, realizado em Lisboa, Portugal, onde revelou a sua descoberta da quarta Cruz da Ordem de Cristo e afirmou convictamente a Teoria Portuguesa. Da Silva fez uma análise comparativa das inscrições da Pedra da Dighton na América, com as inscrições irrefutavelmente portuguesas de outros Padrões Portugueses como a Pedra de Yelala, no Congo, África e com a Pedra de São Loureço em Seri-Lank, na Ásia. Da Silva concluiu a sua apresentação no Congresso Internacional assim:

“A semelhança entre estes padrões portugueses tantos milhares de milhas afastados uns dos outros é deveras impressionante. Todos têm gravações com o mesmo escudo das armas portuguesas, com a mesma Cruz da Ordem de Cristo e com o mesmo estilo de algarismo”.

“Todos estes padrões foram gravados por navegadores que receberam o mesmo treino e instrução na Escola Náutica do Infante D. Henrique, em Sagres, Portugal.”

Delabarre, Fragoso e Da Silva, cada um dedicou mais de trinta anos das suas vidas a investigar e a acertar a Teoria Portuguesa. Eles próprios examinaram, no local, muitas vezes a face da Pedra de Dighton, em alturas diferentes das marés, quer de dia quer de noite, com luz razante.

Imagem: Fotografia tirada no dia 2 de Novembro de 1959 por Manuel Luciano da Silva
As inscrições estão decalcadas a giz para melhor análise comparativa

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA ESCRITOR ANGOLANO


Olhares sobre a Luanda antiga
“A Conjura”, que retrata a sociedade da capital angolana no século 19, marca a estreia do escritor no Brasil

Em 1989, a literatura angolana foi surpreendida com a publicação de “A Conjura”, a primeira obra literária a debruçar-se sobre a sociedade crioula de Luanda no final do século 19, marcando a estreia do escritor José Eduardo Agualusa.

http://www.clicrbs.com.br/

“Ali estão as fragilidades dos primeiros romances – a ânsia de querer contar tudo, por exemplo – mas também algumas virtudes que só os iniciantes costumam possuir, como a paixão e uma certa ingenuidade”, comenta Agualusa, sobre o livro lançado no Brasil pela Editora Gryphus.

Ao longo de seis capítulos, Agualusa descreve a rotina dos moradores da velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, para onde eram enviados os condenados e bandidos de Portugal que cruzavam com os nobres senhores africanos e seus escravos pelas ruas da cidade, entre os anos de 1880 e 1911. Confira a entrevista com o autor.

Como o passado ajuda a olhar o presente com menos distorção?

José Eduardo Agualusa – Tinha 26 anos quando comecei a escrever “A Conjura”. Escrever esse romance, pesquisar sobre a sociedade angolana no século 19, ajudou-me a compreender muito melhor a história recente do país. A própria gênese da guerra civil que, mais que um confronto ideológico entre esquerda e direita, foi um confronto entre campo e cidade, algo que vem do século 19 – e que trato neste romance. As grandes famílias escravocratas do século 19, famílias negras e mestiças, estão também na gênese do movimento independentista moderno.

Por que o romance histórico é forte em Angola e sem o mesmo peso nos outros países africanos?

Agualusa – Angola tem uma literatura muito mais desenvolvida do que os restantes países africanos de língua portuguesa. Em Moçambique, por exemplo, contam-se nos dedos de uma única mão os escritores com carreira internacional – e sobram dedos. Isso tem a ver com a história da própria colonização. Em Angola, uma porcentagem muito significativa de pessoas falam português como língua materna, e isso desde há várias gerações, o que não acontece nem em Moçambique nem na Guiné-Bissau. Há escritores angolanos, como o Pepetela, que têm se esforçado por explorar os silêncios da história, mas mesmo assim ainda há muito o que explorar. Em Angola, o passado tem muito futuro.

Cruzar o imaginário cultural com a história remota e recente do seu país seria um caminho para montar um painel da complexa realidade de Angola?

Agualusa – Sem dúvida. A boa literatura não traz respostas, mas pode ajudar a colocar as questões certas. O mais interessante num país como Angola é a presença no dia a dia do imaginário popular, e toda a imensa riqueza de enredos gerados por um presente e um passado próximo, extremamente agitado. Além disso, um país como Angola, jovem, cheio de vitalidade, atrai aventureiros de toda parte do mundo. É um prato cheio para um escritor.

Já se disse que sua relação com Angola é semelhante à de Camus com a Argélia.

Agualusa – Eu acho que a literatura, sobretudo em países como Angola, nos quais os mecanismos democráticos estão ainda pouco desenvolvidos, e onde a maioria da população não consegue fazer ouvir a sua voz, acho que num país assim a literatura tem um imperativo ético, o que não significa que deva ser dirigista. Como disse antes, ao escritor cabe colocar as questões, cabe promover o debate, cabe incomodar e perturbar, mas não tem de ter a pretensão de dar as respostas. Várias pessoas me perguntaram, quando do lançamento de “Barroco Tropical em Lisboa”, se não tinha receio de perturbar. Eu acho que um bom romance é aquele capaz de perturbar. O que incomoda. Um romance que não incomode provavelmente não merece ser publicado.

Imagem: agualusa.info

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Viriato da Cruz foi o ideólogo da angolanidade, diz acadêmico Carlos Serrano


Luanda - Carlos Serrano, antropólogo, angolano nascido em Cabinda, é professor de Antropologia na Universidade de São Paulo (a muito conhecida USP), que é a maior e uma das mais importantes universidades existentes nos espaços de língua portuguesa. A seguir, apresentamos uma conversa mantida à margem do IV Encontro da História de Angola, decorrido no final do mês de Agosto aqui em Luanda. Nessa ocasião, o professor Serrano apresentou o tema: “Angola – Manifestos, Programas e discursos na Formulação de uma Identidade”.

Fonte: SA CLUB-K.NET

SA- Que importância tem esse tema na formulação da identidade angolana, professor?

CS- Bom, acho que esta apresentação serve para dar continuidade ao meu trabalho que foi publicado em livro em 2009, que está ai no mercado angolano, tenho estado a trabalhar sobre a questão da identidade até porque já venho algum tempo a trabalhar sobre esta temática, e chego a conclusão que há diversas formas de abordar este tema, e um deles, que achei importante, e que tenho estado a pensar, tem a ver com a questão que vem dos anos 1940-50, sobre os discursos e formas de representação desta matéria pelos jovens da época que vieram a dar nas lideranças e fundadores do movimentos, principalmente no caso do MPLA, e como é que eles começaram abordar a questão da identidade. Primeiro, antes mesmo de falar de identidade, há necessidade de se criar uma ruptura com o discurso colonial, e a partir dai o angolano se tornar sujeito do seu próprio discurso, que não sejam mais os outros a falarem por ele.

Bem, mas isso tem alguns problemas, não é? E a forma, no meu entender, foi através das manifestações culturais que era à única maneira legal, na medida que havia uma grande repressão, de poderem começar a dialogar e a formular este problema. Bem, o interessante é que eu falo de jovens, e realmente eram todos muito jovens, o que já é uma característica dessa ruptura, quer dizer, nós sabemos que nossa sociedade é hierarquizada, também pelas faixas etárias, e que os mais velhos têm de certa forma uma hegemonia do discurso não é? Esta geração para mim, parece ser exactamente a geração de ruptura. Primeiro por serem jovens, e não compactuar mais, não que os mais velhos compactuassem, mas tinham algum receio, penso que este jovens tiverem este voluntarismo, esta vontade de superar esta geração, dai marca esta ruptura, que se faz primeiro a nível deste discurso cultural. Então, tenho impressão que a geração de 1950, sobretudo o grupo que tem como palavra de ordem”Vamos Descobrir Angola!” é sem dúvidas, um marco, não que este seja definitivo não é? Tudo eu afirmo, nunca tenho como verdades definitivas não é?...(Risos). Mas foi para mim o grupo mais representativo, fez um Jornal à “Mensagem” que já estava a pensar nisso, a Mensagem, é uma Revista, onde as pessoas falavam de Angola, dos valores culturais angolanos, bem, então esta é uma primeira ruptura, ai não se vê explicita em nenhum momento da publicação alguma coisa que se refere a Portugal, ou que se refere algo assim, e há intenções, não é? Há um poema logo no inicio que eles devem congregar-se na diferença de todos ou na unidade, alguma coisa do género, isto é importante porque é isto que vai dar esta unidade, que é o primeiro p+asso para de pensar, não se pode lutar individualmente, tem que se ver a formação de um eu colectivo, e ao mesmo tempo ver –se à forma de se manifestar colectivamente, todos os intelectuais neste sentido, dai então eles marcaram sem duvidas um marco. Bom! Mais isto não é suficiente, nós aprendemos que toda ruptura no domínio intelectual do século XIX, é marcado por manifestos, então um o manifesto é sem duvidas o momento de ruptura, e existem vários manifestos na década de 50, não há apenas um, que vão culminar, as datas não importam, se é em 1958, ou 1960, há muitas discussões sobre isto, mas o manifesto do MPLA, é um deles que vai talvez ser o que melhor vai reflectir sobre esta questão da identidade de Angola, de criar Angola. Então, aquilo que eu dizia “ Vamos Descobrir Angola!” é uma frase polissémica, que não quer dizer “descobrir”, se já existe, não é? Ela pode redescobrir ou construir não é? No fundo isto não se podia dizer, não se podia dizer “ Vamos Construir Angola” seria uma coisa muita explicita.

Bom! Então o projecto cultural “Vamos descobrir Angola” vai mostrar essa aspiração dos jovens intelectuais de forma legal, como sabe todos manifestos políticos da época eram clandestinos. Este projecto é uma parte cultural positiva e legítima que pertencia a revista “Mensagem” da “Anangola” (Associação dos Naturais de Angola) e que podia escrever sobre esta matéria. Os manifestos não, os manifestos e panfletos que circularam em Luanda naquela época, eram de carácter reivindicativos e de denúncias. Ao mesmo tempo, a reivindicação última é esta: vamos lutar pela nossa independência, mas não se diz, como nem quando, tão pouco a forma. Já o manifesto do MPLA, mais tarde, retoma uma análise histórica e de estrutura de classes sociais, económicas da chamada colónia de Angola, para mostrar que o povo estava ser explorado e ao mesmo tempo, dar caminhos para libertação, tudo isto culmina de certa maneira, que vai dar num programa, isto é, o manifesto é um projecto politico que vai de encontro as aspirações do povo, mas não é a forma última para se alcançar isto, tem que haver um programa que é a forma que coloca em prática o manifesto deste projecto politico, o projecto é uma coisa abstracta e teórica, mas o programa não, vai dizer como e por quê? O programa que tenho como exemplo é o programa do MPLA, de 1963, que foi o primeiro programa, que vai dizer item por item, o que é e o que vai ser a futura e por que é que estão a lutar. Estão a lutar para que não haja diferenças até mesmo culturais e étnicas, vai se considerar, exactamente estas diferenças que como um dado cultural do povo inteiro, ao mesmo tempo então vai falar também que nestas diferenças alguns dos povos que constituem a nação angolana, vão e devem não só pesquisar as línguas próprias, está é uma reflexão sobre a diversidade cultural e o respeito a esta diversidade cultural, chega até a dizer que as pessoas que constituem os diversos grupos e que têm uma certa autonomia cultural local devem ser consideradas a possibilidade de construção destas autonomias culturais locais não é? Então, há toda uma série de itens que vão percorrer este programa que nos dão orientação daquilo que as pessoas não só pensam, mas que querem exactamente pensar o que vai ser Angola futuramente, não quer dizer que pára ai, não é? Claro que isto vai mudar com o tempo. É um processo. Como eu digo, o tempo da luta, há vários tempos, há o “tempo do imaginário”, o “tempo do antigamente da vida”, que era dos jovens intelectuais da época, em volta da revista “Mensagem” do “ Vamos Descobrir Angola!” etc.É um momento histórico, não é? O outro passa ser mesmo o “tempo da revolução””, é o que conduz ao Manifesto; que é a “ruptura”; ao programa etc. e que vai culminar com a luta e o processo que conduz ao “tempo da independência”, o momento que consagra exactamente aquilo que as pessoas estavam a lutar. Mas não pára aí, a partir deste momento é reformulada novamente a questão da identidade. A partir deste momento eu chamo do “tempo institucional”, o que está identificado com o Estado que se formula de forma diversa. Antigamente era o Estado colonial, a partir deste momento é o Estado nação Angola, que passa a ter um outro tratamento institucional e jurídico. O que é ser angolano? O que é que se define pela constituição? Mesmo assim, isto mudou já pelas diversas constituições que o país teve, que possivelmente ainda venha à mudar, porque a questão da construção da identidade, não se cristaliza e não é definitiva, ela vai com certeza ter alterações futuras, pensando sempre nesta construção da ideia de nação.

SA- Professor, gostava de ouvir de si mais dados sobre o manifesto de 1948 “Vamos Descobrir Angola!” teve apenas um substrato cultural ou terá sido mais abrangente?

CS- Não ele pode ter começado, e não acredito que tenha a intenção de se definir como meramente cultural, e só com esta finalidade, era a forma legal de luta possível dentro de legalidade, era o de constituir uma Revista, com fins culturais, que tinha poemas, mas está nas entrelinhas, por exemplo os poemas que aparecem do Viriato da Cruz, do António Jacinto e outros, que estabelecem também a mesma ruptura, quer dizer, deixou-se de escrever o português, ou as formas construtivas da estrutura da língua tal como se fazia no português ditado pela metrópole, naquele momento os poemas do Viriato e do Jacinto, têm já um léxico de palavras em Kimbundu e outras coisas e não falam apenas da natureza, falam das suas coisas, das coisas angolanas. O primeiro momento, digamos assim, de “eliminação” do colono estão nos textos literários, não precisamos mais falar destas coisas. A luta está aí e vai se dar. Aí sim é que vai haver outro tipo de animação. Agora, falar de “nós” é excluir o “outro”, da mesma maneira que eles fizeram connosco, nos excluíram da História e da Cultura. Então, aqui o processo ainda está dentro de uma identidade contrastiva, ou seja no fundo o colono construiu uma identidade própria para o colonizado (indicativa, prescrita). As categorias de “indígena”, e do “branco civllizado”, passam pela dimensão racial também, quer dizer, a identidade contrastiva é esta, quer dizer: são portugueses e são brancos, somos angolanos e somos negros. Mas esta questão do angolano vai ter uma reformulação da categoria racial também, quer dizer são os negros angolanos, são os mestiços, este ainda é um debate que vai se prolongando até os nosso dias. E, também os brancos que se identificaram com a maioria, com africanidade, com angolanidade, são minoria mas existem, até do ponto de vista literário etc. Bem, então ser angolano é alguma coisa que vai ser supra-étnico, supra-racial e unificado, quer dizer é um “Eu” colectivo, e é isto no fundo que vai orientar sempre a construção da identidade nacional.

SA- Professor, se no manifesto de 1948 estava subjacente o lado político, sob a panóplia cultural no de 1956, está bem visível a componente politica…

CS- Sim, o António Jacinto já dizia que até ao movimento “Vamos Descobrir Angola!” já tem um carácter politico, mesmo que não seja manifesto explicitamente, mas ele possui exactamente esta intenção em si, está implícito. Mas como é evidente, o manifesto é já alguma coisa para acção mesmo, não é? O manifesto não é só uma ruptura literária de construção do imaginário, mas é alguma coisa propõe acção para se conseguir essa independência, não é? E ai sim é o manifesto político na verdadeira acepção da palavra.
SA- Estes dois manifestos saíram do punho do mesmo autor. Em 1948, o primeiro Viriato da Cruz publicou-o na revista Cultura. Em 1956, já foi mais claro em termos de condão político, não é, professor?

CS- Sim! Conheci pessoalmente o Viriato não é? Ele dizia que haviam certos momentos de superação dos momentos que nós vivíamos, não disse a mim pessoalmente, mais há escritos de que ele diz: olha à questão cultural está superada, porque houve críticas na época. As pessoas, questionavam dizendo: O Viriato nunca mais escreveu poemas ele que foi o fundador de uma poesia angolana de angolanidade. E o Mário António questiona no seu livro, será que é porque ele não queria ou porque não sabia? Esta questão é um pouco crítica esta frase, claro que o Viriato sabia fazer, porque ensinou os outros, não é? Só que ele achava que aquela fase cultural já estava ultrapassada, tinha que passar uma nova fase que era uma fase de acção. Mais o manifesto não é de uma só pessoa, é o que sempre digo, claro que o Viriato foi sem duvidas o ideólogo e não se pode negar este facto, mas eu sempre parte desta concepção de era um núcleo de jovens e eram bastante jovens, que sempre partiam para formulação de alguma coisa sempre unitária, de unidade na construção daquilo que chamo do eu colectivo, e construir naquilo que Benedict Anderson chama de comunidade imaginada, e é isto que eles pensavam em conjunto, era o Viriato, era o António Jacinto, por exemplo o Ilídio Machado que pertenceu ao primeiro núcleo do partido comunista angolano, o Mário António que depois saiu, foi estudar para Portugal e não voltou mais, que também fazia parte daquele grupo era uma serie de jovens intelectuais da época, que faziam isto, talvez tivessem já nesta época a liderança do próprio Viriato isto eu não tenho dúvidas, então estas são formas de pensar sempre em conjunto, é esta a minha ideia.

SA- Em determinada passagem da sua comunicação, que fazia referência que no programa do MPLA, de 1963, “Nós queremos garantir a igualdade de todas as etnias em Angola” este dado era assim tão importante para época professor?

CS- Possivelmente em 1963, as pessoas também sabiam que para além desta diversidade, não é? A política colonial protegia algumas etnias e excluía outras. Para poder melhor governar, quer dizer aquele jargão que dizia dividir para melhor reinar, era realmente um processo usado pelo colonialismo. Então, esta ideia de igualdade, dos grupos étnicos mesmo minoritários de ter expressão e voz na construção da unidade devia ficar marcada no programa.

SA- Professor enquanto Antropólogo, gostaríamos que nos dissesse com rigor científico que a resposta merece, podemos dizer que Angola é uma nação?

CS- Eu digo desde o inicio, desde a formulação lá pelos mais velhos, antes mesmo de Angola ser independente, já estava a começar a ser construída a nação. A nação não é nada cristalizado: o Estado mudou, o Estado-nação há em qualquer parte do mundo, nunca parou, é um processo, e o processo vai mudando sempre. Então, a nação é algo em construção. Vai perguntar mais: a nação existe ou não existe? Existe, acho que existe na medida que as pessoas se identificam como angolanas. Há uma maka. Não queria falar disso agora… É da época contemporânea que eu sempre disse isto. No exterior, quando sou indagado pelas pessoas por questões deste género, tenho dito, durante a luta que houve durante trinta anos, houve cessação? As pessoas podiam estar a combater pela hegemonia do poder, pelo poder mais a separação, como se deu na Nigéria, e noutros lugares. Penso que não, nunca houve uma tentativa de cortarem Angola ao meio, e mesmo no lugar onde eu nasci, mesmo Cabinda, tenho impressão que há sempre a possibilidade de dialogo de conversação, para se conseguir aquilo que está no projecto de 1963, quando já se falava em autonomias locais. Isto não quer dizer separação. A concepção do programa de 1963, que era meio federalista, não que explicitasse isto, mais havia uma ideia implícita, e esta ideia penso que nem sempre pode ser posta de lado. Claro que há vários tipos de federação: federação suíça Helvética, à Nigéria, a Republica Federativa do Brasil. Não quero dizer que sejam todas iguais, mas há formas de reflectir a inclusão de todos dentro de uma só nação, e acho que não é forçado, as pessoas convivem a centenas de anos juntas, sobretudo no tempo colonial, não é? Permitiu que todos tivessem convivido e que tivessem até um inimigo comum, o que mobilizou as populações neste luta foi em parte o combate ao próprio colonialismo, o que uniu, as pessoas, elas estavam muitos ligadas aos seus locais. Isto sucedeu também na América Latina. A guerra, por mais terrível que tenha sido, leva as pessoas a se contactarem umas com as outras, e a ter noção do outro, o primeiro momento foram às cidades, na sua criação, às pessoas se encontrara nas cidades vindas de várias partes do país e regiões etc. Há uma outra, que foi o momento de mobilidade, quer dizer, o colonialismo não conseguir fazer com que cada um ficasse no seu lugar, porque a guerra, conduziu a que as pessoas todas se contactassem. Na América Latina também, não digo tanto o Brasil, mas os países de língua espanhola, o movimento levou Simon Bolívar, que veio desde o Sul do continente até a Venezuela, a construir uma guerra de libertação em diversos locais, ele é herói não só da Venezuela, era o grande individuo lutador, e isto levou a possibilidade e esta marcha grande levou a que as pessoas tomassem consciência dos seus problemas e contacto de pessoas que vinham do Chile, e da Argentina e que tenham vindo a tomar contacto durante a caminhada para as independências, não é? Que culminou lá em cima no Norte da Venezuela. Este movimento que é a guerra que ninguém quer mais, foi a única saída devido a intransigência do colonizador conduz a isto, que as pessoas comecem a se contactar umas com as outras e a ter noção supra Nacional, e a fazer que a sua identidade étnica seja de certa maneira, não posta de lado, não as pessoas não renunciam às suas etnias. Mas luta agora para uma unidade supranacional, quer dizer, isto evidentemente que não pára também, com as independências e com uma definição jurídica ou institucional, ela tem que ser construída, ai estão as diversas formas de construção através dos processos, por exemplo o Ministério da Cultura é um lugar onde estes debates, onde estas coisas devem ser colocadas, não é? É onde se colhem os elementos culturais das diversas partes do país, do ponto de vista antropológico, para poder dar a conhecer a diversidade do país. Claro que os meios de comunicação são essenciais para isto, quer dizer, Rádios, Jornais e Televisões, quer dizer, dar a conhecer ao mesmo momento ao país uma notícia do Norte, do Sul da Capital etc. Este é um dos elementos que participam da construção os meios de comunicação.

SA- A discussão sobre a questão da nação é realmente polémica. Há autores que dizem que não se pode falar em nação pelo facto de não termos língua nacional em comum, e de não haver elementos identitários em Angola, por vezes só a selecção nacional, mas também quando joga. Acha que se tivéssemos pelo menos adoptado o programa do MPLA, de 1963, sobre o federalismo, algumas guerras e mal entendidos teriam sido evitados, professor?

CS- Não! Não, isto seria possível se todos os movimentos aceitassem um programa, aquele programa, mais não foi necessariamente, os outros movimentos nacionalistas, não tinham sequer um programa, dizia-se não pude ler hoje o texto completo, mais tenho estado a recuperar discursos do Holden Roberto, do Agostinho Neto, do Lúcio Lara etc. sobre esta questão durante a luta, então o Holden… Bom, naquela altura o Savimbi pertencia a FNLA, talvez deste período descubro estes discursos do Holden. Será o povo angolano a discutir e decidir o que vai fazer no futuro. Então a nossa luta nesse momento referido é a de conseguir a independência. Penso que o MPLA terá começado desde o início. Era uma actividade… Falei com várias pessoas do tempo da luta, pessoalmente estive no exterior exilado na Argélia durante algum tempo, logo depois fui estudar, o Viriato da Cruz mandou-me estudar, disse-me “se quiseres ser útil vai estudar”, e fui estudar, foi de facto a melhor coisa que fiz, é pela educação que acho que é também um dos elementos fundamentais, aliás, foi dito por dos oradores deste painel, que também acho ser fundamental para construção da identidade em si. Bem, pode a ver várias concepções sobre esta questão mesmo até da língua, há pessoas que não aceitam que o português tenha se tornado também uma língua nacional. Temos o exemplo do Brasil, o português brasileiro, e as pessoas no Brasil gostam de falar assim, já não é igual ao português de Portugal, foneticamente e até palavras, tem se calhar uma maior identidade até com Angola, se você for falar no Brasil um xingamento, o Angolano sabe o que é xingamento, agora em Portugal não é insulto, e por ai adiante, não é? Foram muitos vocábulos para o Brasil, defendo que se deve analisar também a questão da língua do português de Angola, como alguma coisa que foi uma conquista, é uma conquista do angolano, a língua não é mais a língua do colonizador, como se costumava dizer. Agora, faz parte do parte do património angolano e se faz uso dela como o angolano quer e não como o outro dita. A língua é também alguma coisa que vai se modificando todos os dias, e recebe de fora dentro desta globalização uma serie de palavras de outros, durante muito tempo, com a presença de cubanos e soviéticos etc., e que hoje fazem parte também do léxico usado pelos angolanos, da nomenclatura etc. Uma série de palavras enfim, tudo isto é dinâmico, não é? E acho que o mais enriquece são as palavras emprestadas pelo povo dos vários lugares de Angola, claro que há uma forma, que o português escrito e o falado são diferentes, mais sempre foi, por altura da independência só havia 5% de pessoas alfabetizadas formalmente, mais já havia mais 40 ou 50% dos angolanos já falavam português, eram falantes, não tinha alfabetização completa, mais eram falantes. Para mim, estamos num país e entre os povos africanos em que a cultura oral é mais importante do que talvez pela escrita e é por ai onde se tem que compreender o português de Angola dentro desta manifestação de oralidade. Então é uma língua nossa? É, acho que é interessante ao mesmo tempo isto, demonstra que nós estamos a pensar no futuro e que não estamos somente presos neste processo de vitimas do colonialismo, fomos sim senhor, mais agora aquela questão que se fala, eu tenho uma outra ideia do “Homem Novo”, ele não é aquele que talvez se pretendia construir teoricamente do ponto de vista, não que eu, pelo contrário ainda me identifico com certos princípios, digamos assim socialistas etc. Mas não é esta concepção artificial do Homem Novo, o Homem Novo é aquele que nasce de uma situação de conflito mas que agora é uma situação de construção onde todos participam. Agora que as línguas nacionais têm que ser respeitadas e que têm que ir para Universidade etc. Também acho que sim, que é necessário, não que o português pode ser a língua mais falada e também nacional, que tenha privilégios, não é? As línguas onde existe esta densidade, é o que diz o Programa Mínimo sobre a densidade cultural, e fala que se devem respeitar as etnias, está-se falar também das línguas nacionais. Uma etnia é um grupo que tem uma língua própria, isto acho importante e é igual a qualquer país. Na França os Occitanos escrevem e falam a sua língua, os Bretões falam a sua língua, os Flamengos na fronteira do Dunquerque no Norte de França falam a sua língua, os Corços também falam a sua língua. Claro que há um domínio do gaulês, do mais eles até hoje não solucionaram os problemas étnicos ou diversidade cultural, até hoje.

SA- Das informações que tem, acredito que terá informações privilegiadas neste domínio, gostávamos de saber de si: quem foi o autor do slogan “Vamos Descobrir Angola!”, professor?

CS- Não sei! Eu convivi com estas pessoas, mas nunca ninguém me disse isto, eu continuo firmemente a pensar que deve ser sugestão de alguém(Mario de Andrade atribuía ao Viriato da Cruz), mas continuo a falar sempre no plural. Era um grupo, e este grupo pensava em conjunto. Há sempre uma ideia, uma sugestão de uma das pessoas, mas eu não sei. Aquilo que eles queriam dizer era pensado em conjunto. Os discursos, tenho analisado hoje muito os discursos, quando vou aos panfletos, vou aos manifestos, em todas as coisas, nas actas, as pessoas daquele tempo mesmo da luta sempre se manifestavam no plural. Dizer: “eu isto ou aquilo”? Não havia isto! Pode-se ler, por vezes falar-se a “malta”, que era a gíria da época, nós todos,” a malta tem que se decidir assim, a malta...”. As sugestões, as pessoas podiam aceitar ou não, mas falava-se sempre, mesmo que houvesse a liderança de alguém, este alguém não punha a discussão individualmente. Isto que estou a falar pode ser comprovado até nas actas do movimento que agora estão a disposição lá na Torre do Tombo, aprendidas pela PIDE, e isto é forte e é diferente do que nós podemos pensar noutros momentos, não é? E isto é importante para se decidir o destino colectivo.

SA- Quais têm sido as suas pesquisas agora, enquanto Antropólogo?

CS- Estou a estudar a história recente, e quando digo história recente não quer dizer de agora, não é? Tem algum passado. Por exemplo, comprei e agora acabei de comprar um exemplar, algumas memórias dos mais velhos que alguns estão até a falecer, e continuo muito interessado exactamente nestes aspectos deste período que no fundo às memórias cobrem este período da história recente, sobretudo aquilo que as pessoas deram importância ou por vezes também esquecem. Esta questão do esquecimento também é um facto politico e histórico: a amnésia também é dirigida. Temos que estar atentos e fazer uma pesquisa, mas no fundo é isto. Já tenho neste momento catorze a quinze volumes de memórias ou biografias. Por exemplo o Viriato não fez memórias, mas já saíram dois livros sobre o Viriato, também está incluído no meu trabalho, porque foi uma pessoa importante na história de Angola e penso que continua ser na medida em que há pelo menos dois livros sobre ele, não é? É um pouco isto e ao mesmo tempo e também é histórico não é uma coisa actual, mas estou a ver a questão das genealogias das linhagens, das famílias sobretudo luandenses onde circulam de certa maneira à criação e renovação das elites dentro deste número que não sou eu que iniciei. Mário Pinto de Andrade, (em entrevista a Michel Laban) fala disso. Quem eram as famílias mais importantes e quem começou a entrar nelas. Alguns destes indivíduos que foram nossos heróis nacionais, como os Boavida e outras famílias, pelo “casamento de aliança”. Como é que os generais do Sul quando estabeleceram novas relações com o poder central (MPLA), durante o conflito, para obterem uma certa legetimidade reconhecida. Era através de um casamento de aliança com as senhoras da capital. Não enumero estas pessoas, claro que não vou falar aqui, mas estão nos jornais, nos semanários, no Jornal de Angola etc. estas informações são públicas, não é? Isso mostra que a questão da construção da genealogia também é uma construção politica e está aí para as pessoas verem e reflectirem sobre estas questões.