terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Viriato da Cruz foi o ideólogo da angolanidade, diz acadêmico Carlos Serrano


Luanda - Carlos Serrano, antropólogo, angolano nascido em Cabinda, é professor de Antropologia na Universidade de São Paulo (a muito conhecida USP), que é a maior e uma das mais importantes universidades existentes nos espaços de língua portuguesa. A seguir, apresentamos uma conversa mantida à margem do IV Encontro da História de Angola, decorrido no final do mês de Agosto aqui em Luanda. Nessa ocasião, o professor Serrano apresentou o tema: “Angola – Manifestos, Programas e discursos na Formulação de uma Identidade”.

Fonte: SA CLUB-K.NET

SA- Que importância tem esse tema na formulação da identidade angolana, professor?

CS- Bom, acho que esta apresentação serve para dar continuidade ao meu trabalho que foi publicado em livro em 2009, que está ai no mercado angolano, tenho estado a trabalhar sobre a questão da identidade até porque já venho algum tempo a trabalhar sobre esta temática, e chego a conclusão que há diversas formas de abordar este tema, e um deles, que achei importante, e que tenho estado a pensar, tem a ver com a questão que vem dos anos 1940-50, sobre os discursos e formas de representação desta matéria pelos jovens da época que vieram a dar nas lideranças e fundadores do movimentos, principalmente no caso do MPLA, e como é que eles começaram abordar a questão da identidade. Primeiro, antes mesmo de falar de identidade, há necessidade de se criar uma ruptura com o discurso colonial, e a partir dai o angolano se tornar sujeito do seu próprio discurso, que não sejam mais os outros a falarem por ele.

Bem, mas isso tem alguns problemas, não é? E a forma, no meu entender, foi através das manifestações culturais que era à única maneira legal, na medida que havia uma grande repressão, de poderem começar a dialogar e a formular este problema. Bem, o interessante é que eu falo de jovens, e realmente eram todos muito jovens, o que já é uma característica dessa ruptura, quer dizer, nós sabemos que nossa sociedade é hierarquizada, também pelas faixas etárias, e que os mais velhos têm de certa forma uma hegemonia do discurso não é? Esta geração para mim, parece ser exactamente a geração de ruptura. Primeiro por serem jovens, e não compactuar mais, não que os mais velhos compactuassem, mas tinham algum receio, penso que este jovens tiverem este voluntarismo, esta vontade de superar esta geração, dai marca esta ruptura, que se faz primeiro a nível deste discurso cultural. Então, tenho impressão que a geração de 1950, sobretudo o grupo que tem como palavra de ordem”Vamos Descobrir Angola!” é sem dúvidas, um marco, não que este seja definitivo não é? Tudo eu afirmo, nunca tenho como verdades definitivas não é?...(Risos). Mas foi para mim o grupo mais representativo, fez um Jornal à “Mensagem” que já estava a pensar nisso, a Mensagem, é uma Revista, onde as pessoas falavam de Angola, dos valores culturais angolanos, bem, então esta é uma primeira ruptura, ai não se vê explicita em nenhum momento da publicação alguma coisa que se refere a Portugal, ou que se refere algo assim, e há intenções, não é? Há um poema logo no inicio que eles devem congregar-se na diferença de todos ou na unidade, alguma coisa do género, isto é importante porque é isto que vai dar esta unidade, que é o primeiro p+asso para de pensar, não se pode lutar individualmente, tem que se ver a formação de um eu colectivo, e ao mesmo tempo ver –se à forma de se manifestar colectivamente, todos os intelectuais neste sentido, dai então eles marcaram sem duvidas um marco. Bom! Mais isto não é suficiente, nós aprendemos que toda ruptura no domínio intelectual do século XIX, é marcado por manifestos, então um o manifesto é sem duvidas o momento de ruptura, e existem vários manifestos na década de 50, não há apenas um, que vão culminar, as datas não importam, se é em 1958, ou 1960, há muitas discussões sobre isto, mas o manifesto do MPLA, é um deles que vai talvez ser o que melhor vai reflectir sobre esta questão da identidade de Angola, de criar Angola. Então, aquilo que eu dizia “ Vamos Descobrir Angola!” é uma frase polissémica, que não quer dizer “descobrir”, se já existe, não é? Ela pode redescobrir ou construir não é? No fundo isto não se podia dizer, não se podia dizer “ Vamos Construir Angola” seria uma coisa muita explicita.

Bom! Então o projecto cultural “Vamos descobrir Angola” vai mostrar essa aspiração dos jovens intelectuais de forma legal, como sabe todos manifestos políticos da época eram clandestinos. Este projecto é uma parte cultural positiva e legítima que pertencia a revista “Mensagem” da “Anangola” (Associação dos Naturais de Angola) e que podia escrever sobre esta matéria. Os manifestos não, os manifestos e panfletos que circularam em Luanda naquela época, eram de carácter reivindicativos e de denúncias. Ao mesmo tempo, a reivindicação última é esta: vamos lutar pela nossa independência, mas não se diz, como nem quando, tão pouco a forma. Já o manifesto do MPLA, mais tarde, retoma uma análise histórica e de estrutura de classes sociais, económicas da chamada colónia de Angola, para mostrar que o povo estava ser explorado e ao mesmo tempo, dar caminhos para libertação, tudo isto culmina de certa maneira, que vai dar num programa, isto é, o manifesto é um projecto politico que vai de encontro as aspirações do povo, mas não é a forma última para se alcançar isto, tem que haver um programa que é a forma que coloca em prática o manifesto deste projecto politico, o projecto é uma coisa abstracta e teórica, mas o programa não, vai dizer como e por quê? O programa que tenho como exemplo é o programa do MPLA, de 1963, que foi o primeiro programa, que vai dizer item por item, o que é e o que vai ser a futura e por que é que estão a lutar. Estão a lutar para que não haja diferenças até mesmo culturais e étnicas, vai se considerar, exactamente estas diferenças que como um dado cultural do povo inteiro, ao mesmo tempo então vai falar também que nestas diferenças alguns dos povos que constituem a nação angolana, vão e devem não só pesquisar as línguas próprias, está é uma reflexão sobre a diversidade cultural e o respeito a esta diversidade cultural, chega até a dizer que as pessoas que constituem os diversos grupos e que têm uma certa autonomia cultural local devem ser consideradas a possibilidade de construção destas autonomias culturais locais não é? Então, há toda uma série de itens que vão percorrer este programa que nos dão orientação daquilo que as pessoas não só pensam, mas que querem exactamente pensar o que vai ser Angola futuramente, não quer dizer que pára ai, não é? Claro que isto vai mudar com o tempo. É um processo. Como eu digo, o tempo da luta, há vários tempos, há o “tempo do imaginário”, o “tempo do antigamente da vida”, que era dos jovens intelectuais da época, em volta da revista “Mensagem” do “ Vamos Descobrir Angola!” etc.É um momento histórico, não é? O outro passa ser mesmo o “tempo da revolução””, é o que conduz ao Manifesto; que é a “ruptura”; ao programa etc. e que vai culminar com a luta e o processo que conduz ao “tempo da independência”, o momento que consagra exactamente aquilo que as pessoas estavam a lutar. Mas não pára aí, a partir deste momento é reformulada novamente a questão da identidade. A partir deste momento eu chamo do “tempo institucional”, o que está identificado com o Estado que se formula de forma diversa. Antigamente era o Estado colonial, a partir deste momento é o Estado nação Angola, que passa a ter um outro tratamento institucional e jurídico. O que é ser angolano? O que é que se define pela constituição? Mesmo assim, isto mudou já pelas diversas constituições que o país teve, que possivelmente ainda venha à mudar, porque a questão da construção da identidade, não se cristaliza e não é definitiva, ela vai com certeza ter alterações futuras, pensando sempre nesta construção da ideia de nação.

SA- Professor, gostava de ouvir de si mais dados sobre o manifesto de 1948 “Vamos Descobrir Angola!” teve apenas um substrato cultural ou terá sido mais abrangente?

CS- Não ele pode ter começado, e não acredito que tenha a intenção de se definir como meramente cultural, e só com esta finalidade, era a forma legal de luta possível dentro de legalidade, era o de constituir uma Revista, com fins culturais, que tinha poemas, mas está nas entrelinhas, por exemplo os poemas que aparecem do Viriato da Cruz, do António Jacinto e outros, que estabelecem também a mesma ruptura, quer dizer, deixou-se de escrever o português, ou as formas construtivas da estrutura da língua tal como se fazia no português ditado pela metrópole, naquele momento os poemas do Viriato e do Jacinto, têm já um léxico de palavras em Kimbundu e outras coisas e não falam apenas da natureza, falam das suas coisas, das coisas angolanas. O primeiro momento, digamos assim, de “eliminação” do colono estão nos textos literários, não precisamos mais falar destas coisas. A luta está aí e vai se dar. Aí sim é que vai haver outro tipo de animação. Agora, falar de “nós” é excluir o “outro”, da mesma maneira que eles fizeram connosco, nos excluíram da História e da Cultura. Então, aqui o processo ainda está dentro de uma identidade contrastiva, ou seja no fundo o colono construiu uma identidade própria para o colonizado (indicativa, prescrita). As categorias de “indígena”, e do “branco civllizado”, passam pela dimensão racial também, quer dizer, a identidade contrastiva é esta, quer dizer: são portugueses e são brancos, somos angolanos e somos negros. Mas esta questão do angolano vai ter uma reformulação da categoria racial também, quer dizer são os negros angolanos, são os mestiços, este ainda é um debate que vai se prolongando até os nosso dias. E, também os brancos que se identificaram com a maioria, com africanidade, com angolanidade, são minoria mas existem, até do ponto de vista literário etc. Bem, então ser angolano é alguma coisa que vai ser supra-étnico, supra-racial e unificado, quer dizer é um “Eu” colectivo, e é isto no fundo que vai orientar sempre a construção da identidade nacional.

SA- Professor, se no manifesto de 1948 estava subjacente o lado político, sob a panóplia cultural no de 1956, está bem visível a componente politica…

CS- Sim, o António Jacinto já dizia que até ao movimento “Vamos Descobrir Angola!” já tem um carácter politico, mesmo que não seja manifesto explicitamente, mas ele possui exactamente esta intenção em si, está implícito. Mas como é evidente, o manifesto é já alguma coisa para acção mesmo, não é? O manifesto não é só uma ruptura literária de construção do imaginário, mas é alguma coisa propõe acção para se conseguir essa independência, não é? E ai sim é o manifesto político na verdadeira acepção da palavra.
SA- Estes dois manifestos saíram do punho do mesmo autor. Em 1948, o primeiro Viriato da Cruz publicou-o na revista Cultura. Em 1956, já foi mais claro em termos de condão político, não é, professor?

CS- Sim! Conheci pessoalmente o Viriato não é? Ele dizia que haviam certos momentos de superação dos momentos que nós vivíamos, não disse a mim pessoalmente, mais há escritos de que ele diz: olha à questão cultural está superada, porque houve críticas na época. As pessoas, questionavam dizendo: O Viriato nunca mais escreveu poemas ele que foi o fundador de uma poesia angolana de angolanidade. E o Mário António questiona no seu livro, será que é porque ele não queria ou porque não sabia? Esta questão é um pouco crítica esta frase, claro que o Viriato sabia fazer, porque ensinou os outros, não é? Só que ele achava que aquela fase cultural já estava ultrapassada, tinha que passar uma nova fase que era uma fase de acção. Mais o manifesto não é de uma só pessoa, é o que sempre digo, claro que o Viriato foi sem duvidas o ideólogo e não se pode negar este facto, mas eu sempre parte desta concepção de era um núcleo de jovens e eram bastante jovens, que sempre partiam para formulação de alguma coisa sempre unitária, de unidade na construção daquilo que chamo do eu colectivo, e construir naquilo que Benedict Anderson chama de comunidade imaginada, e é isto que eles pensavam em conjunto, era o Viriato, era o António Jacinto, por exemplo o Ilídio Machado que pertenceu ao primeiro núcleo do partido comunista angolano, o Mário António que depois saiu, foi estudar para Portugal e não voltou mais, que também fazia parte daquele grupo era uma serie de jovens intelectuais da época, que faziam isto, talvez tivessem já nesta época a liderança do próprio Viriato isto eu não tenho dúvidas, então estas são formas de pensar sempre em conjunto, é esta a minha ideia.

SA- Em determinada passagem da sua comunicação, que fazia referência que no programa do MPLA, de 1963, “Nós queremos garantir a igualdade de todas as etnias em Angola” este dado era assim tão importante para época professor?

CS- Possivelmente em 1963, as pessoas também sabiam que para além desta diversidade, não é? A política colonial protegia algumas etnias e excluía outras. Para poder melhor governar, quer dizer aquele jargão que dizia dividir para melhor reinar, era realmente um processo usado pelo colonialismo. Então, esta ideia de igualdade, dos grupos étnicos mesmo minoritários de ter expressão e voz na construção da unidade devia ficar marcada no programa.

SA- Professor enquanto Antropólogo, gostaríamos que nos dissesse com rigor científico que a resposta merece, podemos dizer que Angola é uma nação?

CS- Eu digo desde o inicio, desde a formulação lá pelos mais velhos, antes mesmo de Angola ser independente, já estava a começar a ser construída a nação. A nação não é nada cristalizado: o Estado mudou, o Estado-nação há em qualquer parte do mundo, nunca parou, é um processo, e o processo vai mudando sempre. Então, a nação é algo em construção. Vai perguntar mais: a nação existe ou não existe? Existe, acho que existe na medida que as pessoas se identificam como angolanas. Há uma maka. Não queria falar disso agora… É da época contemporânea que eu sempre disse isto. No exterior, quando sou indagado pelas pessoas por questões deste género, tenho dito, durante a luta que houve durante trinta anos, houve cessação? As pessoas podiam estar a combater pela hegemonia do poder, pelo poder mais a separação, como se deu na Nigéria, e noutros lugares. Penso que não, nunca houve uma tentativa de cortarem Angola ao meio, e mesmo no lugar onde eu nasci, mesmo Cabinda, tenho impressão que há sempre a possibilidade de dialogo de conversação, para se conseguir aquilo que está no projecto de 1963, quando já se falava em autonomias locais. Isto não quer dizer separação. A concepção do programa de 1963, que era meio federalista, não que explicitasse isto, mais havia uma ideia implícita, e esta ideia penso que nem sempre pode ser posta de lado. Claro que há vários tipos de federação: federação suíça Helvética, à Nigéria, a Republica Federativa do Brasil. Não quero dizer que sejam todas iguais, mas há formas de reflectir a inclusão de todos dentro de uma só nação, e acho que não é forçado, as pessoas convivem a centenas de anos juntas, sobretudo no tempo colonial, não é? Permitiu que todos tivessem convivido e que tivessem até um inimigo comum, o que mobilizou as populações neste luta foi em parte o combate ao próprio colonialismo, o que uniu, as pessoas, elas estavam muitos ligadas aos seus locais. Isto sucedeu também na América Latina. A guerra, por mais terrível que tenha sido, leva as pessoas a se contactarem umas com as outras, e a ter noção do outro, o primeiro momento foram às cidades, na sua criação, às pessoas se encontrara nas cidades vindas de várias partes do país e regiões etc. Há uma outra, que foi o momento de mobilidade, quer dizer, o colonialismo não conseguir fazer com que cada um ficasse no seu lugar, porque a guerra, conduziu a que as pessoas todas se contactassem. Na América Latina também, não digo tanto o Brasil, mas os países de língua espanhola, o movimento levou Simon Bolívar, que veio desde o Sul do continente até a Venezuela, a construir uma guerra de libertação em diversos locais, ele é herói não só da Venezuela, era o grande individuo lutador, e isto levou a possibilidade e esta marcha grande levou a que as pessoas tomassem consciência dos seus problemas e contacto de pessoas que vinham do Chile, e da Argentina e que tenham vindo a tomar contacto durante a caminhada para as independências, não é? Que culminou lá em cima no Norte da Venezuela. Este movimento que é a guerra que ninguém quer mais, foi a única saída devido a intransigência do colonizador conduz a isto, que as pessoas comecem a se contactar umas com as outras e a ter noção supra Nacional, e a fazer que a sua identidade étnica seja de certa maneira, não posta de lado, não as pessoas não renunciam às suas etnias. Mas luta agora para uma unidade supranacional, quer dizer, isto evidentemente que não pára também, com as independências e com uma definição jurídica ou institucional, ela tem que ser construída, ai estão as diversas formas de construção através dos processos, por exemplo o Ministério da Cultura é um lugar onde estes debates, onde estas coisas devem ser colocadas, não é? É onde se colhem os elementos culturais das diversas partes do país, do ponto de vista antropológico, para poder dar a conhecer a diversidade do país. Claro que os meios de comunicação são essenciais para isto, quer dizer, Rádios, Jornais e Televisões, quer dizer, dar a conhecer ao mesmo momento ao país uma notícia do Norte, do Sul da Capital etc. Este é um dos elementos que participam da construção os meios de comunicação.

SA- A discussão sobre a questão da nação é realmente polémica. Há autores que dizem que não se pode falar em nação pelo facto de não termos língua nacional em comum, e de não haver elementos identitários em Angola, por vezes só a selecção nacional, mas também quando joga. Acha que se tivéssemos pelo menos adoptado o programa do MPLA, de 1963, sobre o federalismo, algumas guerras e mal entendidos teriam sido evitados, professor?

CS- Não! Não, isto seria possível se todos os movimentos aceitassem um programa, aquele programa, mais não foi necessariamente, os outros movimentos nacionalistas, não tinham sequer um programa, dizia-se não pude ler hoje o texto completo, mais tenho estado a recuperar discursos do Holden Roberto, do Agostinho Neto, do Lúcio Lara etc. sobre esta questão durante a luta, então o Holden… Bom, naquela altura o Savimbi pertencia a FNLA, talvez deste período descubro estes discursos do Holden. Será o povo angolano a discutir e decidir o que vai fazer no futuro. Então a nossa luta nesse momento referido é a de conseguir a independência. Penso que o MPLA terá começado desde o início. Era uma actividade… Falei com várias pessoas do tempo da luta, pessoalmente estive no exterior exilado na Argélia durante algum tempo, logo depois fui estudar, o Viriato da Cruz mandou-me estudar, disse-me “se quiseres ser útil vai estudar”, e fui estudar, foi de facto a melhor coisa que fiz, é pela educação que acho que é também um dos elementos fundamentais, aliás, foi dito por dos oradores deste painel, que também acho ser fundamental para construção da identidade em si. Bem, pode a ver várias concepções sobre esta questão mesmo até da língua, há pessoas que não aceitam que o português tenha se tornado também uma língua nacional. Temos o exemplo do Brasil, o português brasileiro, e as pessoas no Brasil gostam de falar assim, já não é igual ao português de Portugal, foneticamente e até palavras, tem se calhar uma maior identidade até com Angola, se você for falar no Brasil um xingamento, o Angolano sabe o que é xingamento, agora em Portugal não é insulto, e por ai adiante, não é? Foram muitos vocábulos para o Brasil, defendo que se deve analisar também a questão da língua do português de Angola, como alguma coisa que foi uma conquista, é uma conquista do angolano, a língua não é mais a língua do colonizador, como se costumava dizer. Agora, faz parte do parte do património angolano e se faz uso dela como o angolano quer e não como o outro dita. A língua é também alguma coisa que vai se modificando todos os dias, e recebe de fora dentro desta globalização uma serie de palavras de outros, durante muito tempo, com a presença de cubanos e soviéticos etc., e que hoje fazem parte também do léxico usado pelos angolanos, da nomenclatura etc. Uma série de palavras enfim, tudo isto é dinâmico, não é? E acho que o mais enriquece são as palavras emprestadas pelo povo dos vários lugares de Angola, claro que há uma forma, que o português escrito e o falado são diferentes, mais sempre foi, por altura da independência só havia 5% de pessoas alfabetizadas formalmente, mais já havia mais 40 ou 50% dos angolanos já falavam português, eram falantes, não tinha alfabetização completa, mais eram falantes. Para mim, estamos num país e entre os povos africanos em que a cultura oral é mais importante do que talvez pela escrita e é por ai onde se tem que compreender o português de Angola dentro desta manifestação de oralidade. Então é uma língua nossa? É, acho que é interessante ao mesmo tempo isto, demonstra que nós estamos a pensar no futuro e que não estamos somente presos neste processo de vitimas do colonialismo, fomos sim senhor, mais agora aquela questão que se fala, eu tenho uma outra ideia do “Homem Novo”, ele não é aquele que talvez se pretendia construir teoricamente do ponto de vista, não que eu, pelo contrário ainda me identifico com certos princípios, digamos assim socialistas etc. Mas não é esta concepção artificial do Homem Novo, o Homem Novo é aquele que nasce de uma situação de conflito mas que agora é uma situação de construção onde todos participam. Agora que as línguas nacionais têm que ser respeitadas e que têm que ir para Universidade etc. Também acho que sim, que é necessário, não que o português pode ser a língua mais falada e também nacional, que tenha privilégios, não é? As línguas onde existe esta densidade, é o que diz o Programa Mínimo sobre a densidade cultural, e fala que se devem respeitar as etnias, está-se falar também das línguas nacionais. Uma etnia é um grupo que tem uma língua própria, isto acho importante e é igual a qualquer país. Na França os Occitanos escrevem e falam a sua língua, os Bretões falam a sua língua, os Flamengos na fronteira do Dunquerque no Norte de França falam a sua língua, os Corços também falam a sua língua. Claro que há um domínio do gaulês, do mais eles até hoje não solucionaram os problemas étnicos ou diversidade cultural, até hoje.

SA- Das informações que tem, acredito que terá informações privilegiadas neste domínio, gostávamos de saber de si: quem foi o autor do slogan “Vamos Descobrir Angola!”, professor?

CS- Não sei! Eu convivi com estas pessoas, mas nunca ninguém me disse isto, eu continuo firmemente a pensar que deve ser sugestão de alguém(Mario de Andrade atribuía ao Viriato da Cruz), mas continuo a falar sempre no plural. Era um grupo, e este grupo pensava em conjunto. Há sempre uma ideia, uma sugestão de uma das pessoas, mas eu não sei. Aquilo que eles queriam dizer era pensado em conjunto. Os discursos, tenho analisado hoje muito os discursos, quando vou aos panfletos, vou aos manifestos, em todas as coisas, nas actas, as pessoas daquele tempo mesmo da luta sempre se manifestavam no plural. Dizer: “eu isto ou aquilo”? Não havia isto! Pode-se ler, por vezes falar-se a “malta”, que era a gíria da época, nós todos,” a malta tem que se decidir assim, a malta...”. As sugestões, as pessoas podiam aceitar ou não, mas falava-se sempre, mesmo que houvesse a liderança de alguém, este alguém não punha a discussão individualmente. Isto que estou a falar pode ser comprovado até nas actas do movimento que agora estão a disposição lá na Torre do Tombo, aprendidas pela PIDE, e isto é forte e é diferente do que nós podemos pensar noutros momentos, não é? E isto é importante para se decidir o destino colectivo.

SA- Quais têm sido as suas pesquisas agora, enquanto Antropólogo?

CS- Estou a estudar a história recente, e quando digo história recente não quer dizer de agora, não é? Tem algum passado. Por exemplo, comprei e agora acabei de comprar um exemplar, algumas memórias dos mais velhos que alguns estão até a falecer, e continuo muito interessado exactamente nestes aspectos deste período que no fundo às memórias cobrem este período da história recente, sobretudo aquilo que as pessoas deram importância ou por vezes também esquecem. Esta questão do esquecimento também é um facto politico e histórico: a amnésia também é dirigida. Temos que estar atentos e fazer uma pesquisa, mas no fundo é isto. Já tenho neste momento catorze a quinze volumes de memórias ou biografias. Por exemplo o Viriato não fez memórias, mas já saíram dois livros sobre o Viriato, também está incluído no meu trabalho, porque foi uma pessoa importante na história de Angola e penso que continua ser na medida em que há pelo menos dois livros sobre ele, não é? É um pouco isto e ao mesmo tempo e também é histórico não é uma coisa actual, mas estou a ver a questão das genealogias das linhagens, das famílias sobretudo luandenses onde circulam de certa maneira à criação e renovação das elites dentro deste número que não sou eu que iniciei. Mário Pinto de Andrade, (em entrevista a Michel Laban) fala disso. Quem eram as famílias mais importantes e quem começou a entrar nelas. Alguns destes indivíduos que foram nossos heróis nacionais, como os Boavida e outras famílias, pelo “casamento de aliança”. Como é que os generais do Sul quando estabeleceram novas relações com o poder central (MPLA), durante o conflito, para obterem uma certa legetimidade reconhecida. Era através de um casamento de aliança com as senhoras da capital. Não enumero estas pessoas, claro que não vou falar aqui, mas estão nos jornais, nos semanários, no Jornal de Angola etc. estas informações são públicas, não é? Isso mostra que a questão da construção da genealogia também é uma construção politica e está aí para as pessoas verem e reflectirem sobre estas questões.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Filha de “Papá Ngulo” falece na África do Sul


Lisboa - O actor Nelo Jazz que personifica o personagem “Papá Ngulo” perdeu a sua filha mais nova, de três anos que havia sido evacuada, pelos serviços da junta médica para a África do Sul. A menina tratada no circulo familiar por Maxima, faleceu na manha desta Quarta-Feira numa unidade hospitalar em Pretória. (Antes teria feito uma paragem cardíaca)

Fonte: Club-k.net

Varias figuras angolanos tem telefonado para o actor angolano manifestando sentimento de pesar pelo sucedido. Uma das personalidades que se tem revelado bastante solidaria para com a familia enlutada, é Fernando Garcia Miala, o fundador do projecto Criança Futuro. Tão logo teve conhecimento que a malograda necessitava de apoios, este general angolano predispôs-se em se associar aos familiares para dar ajuda. Na manha desta quarta feira, hora antes da menina perecer, Fernando Miala telefonou para a mãe da criança na África do Sul para se inteirar do seu estado clinico.

Nelo Jazz “Papá Ngulo”, o pai da menina, esta em Luanda, onde se deslocou algumas semanas antes a procura de apoios. O mesmo esta a caminho da África do Sul para dar seguimento ao processo de transladação dos restos mortais da sua filha. Nelo é pai de três filhos, a pequenina “Maxima” era a mais nova de todos.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Elisabeth Rank Frank “Beth”, Comandante da policia de Luanda


Lisboa - Nasceu em Benguela, mas é em Cabinda onde estão as suas origens. Quando era jovem denotava queda pelo desporto. Jogou basquetebol por algum tempo mas foi no Voleibol, que identificou-se experimentada chegando a servir a seleção nacional durante 7 anos.

Fonte: Club-k.net

Com a moda dos partidos após ao 25 de Abril, Maria Elisabeth Raque Franque “Bety” fugiu de casa, com um grupo de quatro pessoas. Tomaram um comboio que fazia o trajecto Benguela/Huambo para de seguida tomar um autocarro rumou a Luanda, com o intuído de chegar a localidade do Úkua, na província do Bengo, onde ingressou no centro de instrução revolucionária (CIR) do MPLA, então movimento de libertação que iria desfazê-la do destino de “desportista”.

No período dos acordos de Alvor fez parte do primeiro destacamento feminino da primeira região militar do MPLA baseado no norte do país ao qual ajudou a criar. Foi por esta via que participou nos combates para a libertação de Caxito como integrante da 9ª brigada de infantaria motorizada. A quando do anuncio da independência nacional foi uma das integrantes do esquadrão feminino que combateu contra a FNLA, na conhecida batalha do Kifangondo. Nos dias de hoje, generais das FAA, estimam-lhe pelo seu voluntarismo na defesa da pátria.

A sua passagem pelas forças armadas terá lhe consumido levado um ano e meio. Daí foi chamada para ingressar um grupo que se tornou conhecido com o das primeiras 200 mulheres policias em Angola. Foi despachada para Romênia onde ficou durante dois anos em formação policial. Fez carreira na policia de transito tendo sido ela a fazer escolta que conduziu a caravana da primeira cosmonauta da história, a Russa, Vladimirovna Tereshkova, quando visitou Angola. Terá feito parte da escolta de Agostinho Neto. Era a “dama” do ultimo carro. Naquela altura era uma das poucas mulheres que conduziam motorizadas em Luanda

Elisabeth Rank Franque, passa por ser sobrinha do fundador da FLEC, Luis Rank Franque. Porém, os Cabindas não a reconhecem por ter um convício nulo com os mesmos. Em vida o então Ministro da Defesa, general Pedro Maria Tonha “Pédale” tentava puxar por ela no circulo das suas raízes. Certo dia, teria feito parte de uma festa em casa do malogrado general, no Miramar, e este aproveitou a ocasião para lhe apresentar algumas figuras do enclave com realce a Belchior Tati e Osvaldo Buela, o hoje membro do gabinete de Nzita Tiago.

Outro Cabinda que revelava certo apresso por ela é o antigo comandante geral da policia, André Pitra “Petroff”. Em 1986, “Petroff” integrou-a para fazer parte de uma delegação oficial que com ele se deslocou a Argélia. Era o marco da sua ascensão acompanhada de formações que a levaram a ser a chefe de regulação do trânsito.

Em meado da década de noventa, muitos encarregados de educação mostravam-se saturados por ela ter andado a esbofetear, os jovens na rua. Certo dia, esbofeteou um militar que a impediu de entrar no Hospital Militar quando ela socorria um agente da policia que fora baleado. “Beth” foi levada a tribunal sob acusação de pratica de agressão. Esteve prestes a ser condenada. A sociedade fazia gosto de vê-la por detrás das grades e a sorte aparentava remar contra a sua maré. Teria chorado e hoje elege este momento como “o mais negativo da sua carreira”. Durante a secção de acareação judicial, uma corrente de senhoras da OMA decidiu apóia-la e acompanhá-la até ao ultimo momento para que não fosse injustiçada. Acabou por ser inocentada. Porém, em gesto, entendido como de agradecimento teria passado a freqüentar algumas actividades da OMA.

Depois de um longo período de afastamento, a mesma regressou a corporação após uma suposta intervenção de Santa André Pitra “Petroff”. Do seu protagonismo após o regresso na policia nacional, destacou-se em cargos como o de Comandante de divisão da Maianga, comandante da Brigada Especial de Transito (BET), comandante da unidade operativa de Luanda e segunda comandante provincial na capital do país. Presentemente, chefia provisoriamente o comando provincial de Luanda em substituição do subcomissário, Joaquim Ribeiro. É também, a líder da Associação Angolana da Mulher Polícia, e membro da Rede da Mulher Polícia da SADC. Tornou-se a primeira mulher em Angola a chegar ao grau de general na policia nacional. (subcomissário).

No circulo de trabalho, atribuem-lhe a particularidade de ser “muito rígida, inconsistente e pouco criteriosa” que “usa excessivamente a punição como ferramenta disciplinar”. Embora seja notabilizada por esta faceta de punidora, o seu comportamento no seu meio familiar é o contrario do que se verifica na rua. Esteve acasalada com João Guimarães com que tem um casal de filhos que estudam no estrangeiro. (João Guimarães é irmão do antigo basketebolista José Carlos Guimarães). É apreciadora de Whisky, e fuma dois maços de cigarros por dia.

Mário António


(Mário António Fernandes de Oliveira. Maquela do Zombo, 05/04/1934 - Lisboa, 07/02/1989) Estudos primários e liceais em Angola. Licenciado em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e doutorado em literaturas africanas de língua portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa. Foi considerado dissidente pelo MPLA e menosprezado pelo regime angolano. Sua obra foi, injustamente, relegada à segundo plano. Morreu em Portugal em 1989, país onde morou desde 1963.

http://betogomes.sites.uol.com.br/MarioAntonio.htm

Obra poética:

Poesias, 1956, Lisboa, e. a.;
Poemas & Canto Miúdo, 1961, Sá da Bandeira, Coleção Imbondeiro;
Chingufo, 1962, Lisboa, AGU;
100 Poemas, 1963, Luanda, Ed. ABC;
Era Tempo de Poesia, 1966, Sá da Bandeira, Coleção Imbondeiro;
Rosto de Europa, 1968, Braga, Ed. Pax;
Coração Transplantado, 1970, Braga, Ed. Pax;
Afonso, o Africano, 1980, Braga, Ed. Pax;
50 Anos - 50 Poemas, 1988, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda;

Obra Poética (inclui todos os livros anteriores), 1999, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

Rua da Maianga
Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nós somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga às duas goras da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maianga às seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga da pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infância passada!

(Nené foi levado pro Hospital
meus olhos encontraram Nené morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)

Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inapagados!)
as moças nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
à porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora
O liso alcatrão e as suas casas
As eternas moças de muro
Rua da Maianga me lembrando
Meu passado inutilmente belo
Inutilmente cheio de saudade!

(Obra poética)

Beijo-de-mulata
Pai:
Olho o teu rosto fechado
nas letras apagadas dessa campa
a tua
(no quadro dezasseis
do Cemitério Velho)
e não sei que mistério poderoso
me prende os olhos,
Pai!

A pedra não diz nada senão pedra.
Os beijos-de-mulata que plantaram
sobre o teu corpo
continuam florindo da tua substância.
Não surge sobre a campa
O sorriso de que dourei tua lembrança,
Pai!

Não fico mais aqui, porque estás longe.
Tudo quanto estou ouvindo e repetindo
vem de dentro de mim
de um já longínquo mundo.
Apenas levarei um beijo-de-mulata
eterna florescência do teu ser
lembrança imperecida da tristeza
que marcou o teu rosto sofredor.

(Obra poética)

Linha quatro
No largo da Mutamba às seis e meia
carros pra cima carros pra baixo
gente subindo gente descendo
esperarei.

De olhar perdido naquela esquina
onde ao cair da noite a manhã nasce
quando tu surges
esperarei.

Irei pr'á bicha da linha quatro
Atrás de ti. (Nem o teu nome!)
Atrás de ti sem te falar
só a querer-te.

(Gente operária na nossa frente
rosto cansado. Gente operária
braços caídos sonhos nos olhos.

Na linha quatro eles se encontram
Zito e Domingas. Todos os dias
na linha quatro eles se encontram.

No maximbombo da linha quatro
se sentam juntos. As mãos nas mãos
transmitem sonhos que se não dizem.)

No maximbombo da linha quatro
conto meus sonhos sem te falar.
Guardo palavras teço silêncios
que mais nos unem.

Guardo fracassos que não conheces
Zito também. Olhos de cinza
como Domingas
o que me ofereces!

No maximbombo da linha quatro
sigo a teu lado. Também na vida.
Também na vida subo a calçada
Também na vida!

Não levo sonhos: A vida é esta!
Não levo sonhos. Tu a meu lado
sigo contigo: Pra quê falar-te?
Pra quê sonhar?

No maximbombo da linha quatro
não vamos sós. Tu e Domingas.
Gente que sofre gente que vive
não vamos sós.

Não vamos sós. Nem eu nem Zito.
Também na vida. Gente que vive
Sonhos calados sonhos contidos
Não vamos sós.

Também na vida! Também na vida!

(Obra poética)

Noites de luar no morro da Maianga
Noites de luar no Morro da Maianga
Anda no ar uma canção de roda:
"Banana podre não tem fortuna
Fru-tá-tá, fru-tá-tá..."
Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversa antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
- Os emigrados das ilhas
Com o saldo mar nos cabelos
Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias
E tocam violão
E puxam faca nas brigas...

Ó ingenuidade das canções infantis
Ó namoros de moças sem cuidado
Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens

Vida!:

Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão

Os homens
Os homens
As tragédias dos homens!

(Obra poética)

Uma negra convertida
Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...

Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de idéias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...

Não xinguilas, no óbito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas,
tuas mãos, ora tranqüilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...

Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...

Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!

(Obra poética)


Fuga para a Infância

Nas tardes de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
os meninos brincavam
iam passear ao mar
até o Morro iam
ver a gente.

O menino ficou preso
quando cresceu.

E nas tardes de domingo
vozes vinham chamá-lo
vinham ecos de vozes
que lindas vozes o menino ouvia!

Mas o menino estava preso
e não saía...

Numa tarde de domingo
os outros meninos vieram chamar
o menino preso...
E foi nessa tarde de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
que o menino fugiu para não voltar.

(Obra poética)

Enfermaria

1

Que tinha esse jardim a ver com a minha enxerga?
E a tua saia azul
Com o meu lençol de cor indefinida?

Ai, teto da enfermaria!
Duas lâmpadas
Mais três
Mais duas lâmpadas
(A do meio fica acesa toda a noite
Toda a noite acesa!)
E este cheiro nauseabundo
E o homem que chama
Lá no fundo
Pela mãe!
Ai, teto da enfermaria!

Como pudesse aparecer ao encontro que não marcamos?
Como pudeste aparecer
Se nunca, até agora, me tinhas aparecido?
(A tua saia estendida sobre a relva
E a minha mão divagando em teus cabelos...)

Tua presença...
A insinuar-me vida e liberdade,
Segredando-me amor e juventude
Tua presença...
Bendita!

2

E pensar
Que além deste teto está o céu
E detrás das paredes está o mar
(O mar sereno e quente
O mar sereno e azul
Tal como o céu!)
E a gente que trabalha
E a canção dessa gente
(Praias amarelas, praias amarelas
E as nódoas das redes sobre as praias!)

Tão perto do mar!
Tão perto do céu!
Mais perto
Do que se andasse lá fora!...

Lembrança de negrinhos brincando sobre a areia...

Afinal, estou lá sem saber:
Negrinho, na minha infância perdida!

(Obra poética)

Chuva

Outrora
Quando a chuva vinha
Era a alegria que chegava
Para as árvores
O capim
E para a gente.

Era a hora do banho sob a chuva
Meninos sem chuveiro
A água regateada na cacimba
Muitas horas de pé esperando a vez.

Era a alegria de todos, essa chuva:
Porque então fiz o primeiro poema triste?

Hoje ela veio
Veio sem o encanto de outras eras
E ergueu na minha frente o tempo ido.
Porque estou triste?
Porque estou só?

A canção é sempre a mesma
Mesmos os fantasmas, meu amor:
Inútil o teu sol ante os meus olhos
Inútil teu calor nas minhas mãos.
Essa chuva é minha amante
Velho fantasma meu:
Inútil, meu amor, tua presença.

(Obra poética)

Retrato

Olho e vejo através dos óculos
A escura face com óculos
Desse teu retrato antigo:
Fato de brim, engomado
Gravata preta apertada
Só te falta o capacete
De cortiça, todo branco
Para seres o mesmo ser
Prolongado pela vida
Que o Seminário marcou.

Face tocada do rito
Da revelação vivida
(Face dos padres que foram
Flores escuras da Igreja)
Olhar aberto ao mistério
Certo que as chaves do mundo
Sempre às mãos nos vêm dar
Era no tempo em que a vida
Se entretinha e prometia
Nas longas conversas cheias
(Sem verdes) de impossibilidades.

Lembro alguns dos teus amigos
(Fato de brim, capacete)
Os longos passeios dados
Pelos domingos à tarde
Conversa larga e pausada
Repouso nos sítios ermos
Prolongáveis pela vida
Os tempos do Seminário
Com suas marchas ordeiras
Suas falas sussurradas.

Alguns amigos mudaram
(Mal se vê o fato de brim
Ninguém usa capacete)
Tu permaneces o mesmo:
Quando a morte te levou
Havia o mesmo rito
Na tua face parada.
E assim tu ficaste, Pai:
Com teu sorriso incompleto
Na certeza entressonhada.

Olho e vejo através dos óculos
A escura face com óculos
Desse teu retrato antigo:
Sou eu que me vejo ao espelho.
Teu sorriso anda comigo
Na ânsia de completar-se.
Comigo o teu acanhamento
Teu sonho e vida e solidão
E, prolongada na minha,
A tua poesia.

(Obra poética)

Donas do outro tempo

Donas do outro tempo
Vejo-as neste retrato amarelado:
Como estranhas flores desabrochadas
Negras, no ar, soltas, as quindumbas.
Panos garridos nobremente postos
E a posição hierática dos corpos.
São três sobre as esteiras assentadas
Numa longínqua tarde de festejo.
(Tinha ancorado barco lá no rio?
Havia bom negócio com o gentio?
Celebrava-se a santa milagrosa
Tosca, tornada cúmplice de pragas
Carregada de ofertas, da capela?)
A seu lado, sentados em cadeiras,
Três homens de chapéu, colete e laço.
Botinas altas, botas de cheviote.

Donas do tempo antigo, que perguntas
Poderia fazer aos vossos olhos
Abertos para o obturador da fotográfica?
Senhoras de moleques e discípulas
Promotoras de negócios e quitandas
Rendilheiras de jinjiquita e lavarindo
Donas que percebíeis a unidade
Íntima, obscura, do mistério e do desígnio
Atentas ao acaso que é a vida
(Há sopros maus no vento! Gritos maus
No rio, na noite, no arvoredo!)
E que, porque sabíeis que a vida é larga e vária
E vários e largos os caminhos possíveis
A nova fé vos destes, confiantes,

O que ficou de vós, donas do outro tempo?
Como encontrar em vossas filhas de hoje
A vossa intrepidez, a vossa sabedoria?

Os tempos são bem outros e mudados.
A tarde da fotografia, irrepetível.
Água do rio Cuanza não pára de correr
Sempre outra e renovada.
E dessa fotografia talvez hoje só exista
Na vilória onde as casas são baixas e fechadas
E têm corpo, pesam, as sombras e o calor
A sombra farfalhante da mulemba
Que vos deu sombra e fresco nesse domingo antigo.

(Obra poética)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Quim Ribeiro sofre atentado


Luanda - O sub-Comissário Joaquim Ribeiro foi alvo Quinta-feira de um atentado quando se fazia à viatura na sua residência sita no município da Samba. Contam testemunhas no local que eram 19 horas sensívelmente quando foi detectado um movimento estranho na área.

Fonte: VOA

Houve ainda assim tempo de reacção da guarda do ex-Comandante, ao que seguiram troca de tiros. Estranho é o facto de ter sido encontrado no local da refrega uma viatura com identificativos da polícia nacional, registada com a matrícula LD-24-89-BJ, inclusive com aparelho de sirene acoplado.

De acordo com fontes afectas a vítima, foram encontrados no interior desta mesma viatura que se supõe ter transportado os atacantes, maquina fotográfica e de filmagem.

Joaquim Ribeiro que terá saído ileso pretendia dirigir-se para a residência de um dos filhos no do bairro Benfica.

Observadores locais dizem ser indissociável o acontecimento desta quinta-feira dum outro tido lugar no passado sábado, quando homens em composição não determinada, fortemente armados conseguiram neutralizar a guarda da quinta do ex-Comandante localizada no Kicuxi na Viana, penetraram e levaram consigo apenas meios informáticos, como computadores.

Vale também sublinhar que estes dois assuntos eram tratados compormenor na edição desta sexta-feira do semanário Novo-Jornal que até ao momento não chegou as mãos dos leitores.

Embora estivesse tudo operacional até ontem perto das 23:00 horas, responsáveis da rotativa alegaram problemas técnicos como razão do atraso.

Vendedores por nós contactados esta tarde nas ruas da cidade confirmaram a ausência da publicação, e disseram citando os seus fornecedores que apenas amanhã o semanário viria a rua.

Ainda assim alguns dos números que foram vistos a circular nas redondezas do bairro S. Paulo área circundante do bairro CUCA, eram refugos da mesma edição, geralmente recuperada pelo pessoal menor que o revende.

Pela sua manchete, os poucos números desapareceram imediatamente. Sobre estes dois incidentes, não houve até ao momento qualquer pronunciamento oficial da polícia.

Lembro que o Sub-Comissário Joaquim Ribeiro foi constituído Arguido num processo que está a ser movido pela Procuradoria Geral, supõe-se por envolvimento na apropriação de dinheiros e também na morte de dois oficiais da polícia.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Carta aberta ao Dr Carlos Feijó - militantes do MPLA




Luanda - CARTA ABERTA AO DR. CARLOS FEIJÓ, MINISTRO DE ESTADO E CHEFE DA CASA CIVIL DA PRESIDENCIA DA REPUBLICA DE ANGOLA

Fonte: Club-k.net

Prezado e admirado Dr. Carlos Feijó, Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil.

Somos trabalhadores da RNA e Militantes do MPLA, e, tomamos a ousadia de o escrever esta carta aberta como forma mais significativa de lhe fazer chegar o nosso desalento e preocupação para os problemas que vamos vivendo no dia a dia laboral de uma das mais empresas do Pais: A Radiodifusão Nacional de Angola.

Vivemos um período transitório de expectativas aguardando com muita ansiedade a constituição do Conselho de Administração para a nossa RNA, que tanto contributo deu para a conquista de Paz desta Nação: Angola ( apesar da guerra interna despoletada com a nomeação de uma nova Ministra). Afinal surgiu o que já vem sendo um adágio popular: “ A montanha pariu um rato”. É de facto isso, fomos brindados com um Conselho de Administração que não dá garantias nem esperança para a estabilidade, desenvolvimento e progresso da Empresa e dos trabalhadores. Uma Empresa que se tem como Estratégica não só pelo Órgãos de Soberania da Nação como pelo Partido no Poder, o MPLA. Começa por ter um Presidente, Pedro Cabral (antes um simples secretario da grupo desportivo, para alem de locutor de continuidade), que de repente, como que caindo de pára-quedas, assume uma função de extremo relevo, o que resulta em falta de competências transformada em ameaças e falta de respeito aos subordinados principalmente em reuniões com falta de civismo a mistura. A sua ignorância aos assuntos de gestão é preenchida com arrogância.

A par da atitude do PCA, desmascaramos também comportamento indigno dos demais membros do Conselho de Administração para com os responsáveis da empresa; Exonerações e afastamentos de responsáveis e quadros sem motivo aparente. Exemplo: Director da Rádio Benguela - Carlos Gregório( foi o mentor dos principais programas de apoio as FAA em período de guerra por via dos brigadeiros Cowboy e JOTA) ; Director da Rádio Huambo - Gilberto Júnior Principal realizador dos maiores programas culturais da RNA); a forma coerciva como tiraram a Directora dos Recursos Humanos do seu gabinete; a pressão que está a ser exercida sobre o Director de Gabinete de apoio às Rádios Provinciais para auto-exonerar-se; a forma prepotente e inqualificável como pretendem despedir trabalhadores; a maneira grosseira e arrogante como muitos desses administradores (incluindo o próprio PCA, Pedro Cabral) trata os responsáveis da empresa e restantes funcionários demonstra bem o tipo de gente que é e o que pretendem. Repare-se também na constituição dos pelouros, como por exemplo Administração e Património e por outra Finanças e Recursos Humanos. E para acentuar e justificar tais comportamentos evoca-se o nome da Ministra Carolina Cerqueira de quem vem as orientações como escudo.

Prezado Dr. Carlos Feijó,

A indicação deste Conselho de Administração, foi uma autêntica humilhação, desrespeito e desconsideração aos funcionários e responsáveis que durante longos anos serviram com zelo e dedicação essa Empresa e Consequentemente o Pais. Na qualidade quadros seniores da RNA estamos a alertar ao Governo e ao Partido MPLA para o perigo que se corre com a nomeação desse Conselho de Administração. Pensamos mesmo que o nosso Cda Presidente foi induzido em erro quando lhe propuseram estes indivíduos. Muitos deles não conhecem os sacrifícios consentidos nos mais variados momentos e desafios que a Empresa viveu. Os verdadeiros filhos da casa, aqueles que sempre se identificaram com a causa nobre da Pátria estão na disposição de continuar a colaborar caso a situação seja revertida. Caso contrário será um descalabro e não responderão sobre o que vier a acontecer.

De realçar que as áreas mais sensíveis da empresa como a produção radiofónica à mistura estão sob guarda da senhora Bela Malaquias da UNITA pessoa essa que não dá garantias de nada, pois nunca trabalhou no verdadeiro sentido da palavra nem conhece nada da RNA e pior que isso não oferece confiança ao trabalho nenhum aos colegas. Pois o trabalho tem sido muitas vezes sigiloso Veja o perigo que se corre? Bem recentemente, em tom de ameaça, anunciou aos trabalhadores das áreas sob seu pelouro que 80% dos trabalhadores seriam despedidos e outros tantos precisariam de uma gramática e dicionário para falar nos canais da RNA.

Os quadros da RNA e militantes do MPLA têm perfeita consciência do programa do Governo para a Comunicação Social mas não é com pessoas como essas que se vai levar avante os seus intentos.

Em suma: estamos diante de muita incompetência. Preste a devida atenção ao comportamento da Ministra Carolina Cerqueira: Muito pronunciamento publico e sempre que o faz não perde uma oportunidade de atacar o seu antecessor que também é militante do MPLA. Não estará a disparar no próprio Pé do Partido? Bem recentemente manifestou o seu desconhecimento total ao falar que em Benguela encontrou problemas de gestão financeira, patrimonial e de recursos humanos. Como é possível , se na província não se faz gestão, os órgãos decisores estão em Luanda? Mais grave ainda: Numa recente entrevista disse que não lia o CLUB K, pois foi o próprio CLUB K, que num artigo assinado por Nelo de Carvalho, denunciou contactos da própria Carolina Cerqueira com aquele Jornal ONLINE para uma campanha de branqueamento da sua imagem. Pois bem , se fez campanha para esse efeito, só assim se justifica um período de forte campanha contra o seu antecessor, Manuel Rabelais.

Por aí, Sr. Dr. Ministro de Estado Carlos Feijó, veja com que grupo a Comunicação social está envolvida, faça uma interpretação extensiva dos casos em apreço , retire as devidas ilações e procure ter uma atitude informando o Chefe de Estado, o SG do MPLA e agir quanto antes.

Luanda, 10 de Dezembro de 2010

OS TRABALHADORES DA RNA E MILITANTES DO MPLA