quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.



Daí pensarem os Bantus que o feiticeiro tem de ser procurado quase sempre entre os seus familiares ou vizinhos mais próximos. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Segundo lendas populares, nas noites de plenilúnio, vêem-se nos descampados das grandes florestas, círculos de feiticeiros dançando e girando com majestosa lentidão à volta do cadáver de alguma vítima. Ao fim, comem-no, cortando-o em pequenos pedaços e levando-os à boca com gestos rituais, lentos e suaves.

É muito frequente acusar mulheres, sobretudo as anciãs e esposas. É uma prova do antagonismo sexual e reacção à hipotética preponderância feminina nos grupos matrilineares. Além disso, como muitas mortes têm a sua origem em comidas e bebidas, é natural que acusem as mulheres que as prepararam.
«A mulher, considerada como a criatura mais misteriosa e insondável, está mais intimamente relacionada com a “escuridão” e a “noite”. Está, portanto, estreitamente relacionada com a feitiçaria». A mulher é enigmática devido à sua constituição física e psíquica. Os seus órgãos sexuais, o sangue menstrual, a capacidade de concepção e o poder alimentício dos seios levaram estes povos, apoiados na causalidade mística e nas leis e dinamismo da magia, a rodear a mulher de uma auréola misteriosa e ambivalente. É estimada e querida, receada e perigosa. Confirma-o o seu comportamento psíquico: uma intuição com reacções tão surpreendentes que transcendem a visão do homem, uma versatilidade incontrolável e uma capacidade de sedução até dobrar o próprio homem.

Para quem está alheio a esta cultura, não passa de uma pseudociência que se dissipará como o fumo, quando o bantu tiver conhecimento das leis da causalidade ou abraçar o cristianismo libertador e salvador.

Zumbi era descendente dos guerreiros imbangalas ou jagas de Angola e nasceu por volta de 1655 em um mocambo do quilombo. A palavra Zumbi significa "Deus negro de alma branca".
"É admirável que, sem partitura, eles consigam manter os seus rituais e composições desde épocas imemoráveis" J. A. Peret
Descobre-se assim, nitidamente, o ponto mais sensível da alma virgem. O indígena deixa-se vencer facilmente pela música e ela foi utilizada como meio prodigioso pelos jesuítas para a catequese. Realmente, foi a música a grande arma do missionário.
Entre os dogões da África, cujo sistema simbólico é lunar e aquático, "a avestruz substitui às vezes as linhas onduladas ou as sucessões dos bastões que simbolizam os caminhos da água". Nestas representações, o corpo da avestruz é pintado na forma de círculos concêntricos e de bastões.

Este mito não é exclusivamente aborígene, porque há nas lendas cosmogônicas dos Fans da África a imagem de Mboya, representando na floresta um acham errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício. Existe também no Maranhão, um mito mais aproximado do da tribo dos Fans do que do Boitatá. É o que se conhece pelo nome de kuracanga. Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça sai do corpo, à noite e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário, é fazer com que a filha mais velha seja madrinha desta caçula.

Na África a serpente é o arco-íris para sudaneses e bantos, a N’Tyama, cavalo de Nz’ambi, a Mu-kyama, etc. (Pe. Tastevin, Les idées religieuses des africains, 8, 10).

domingo, 23 de outubro de 2011

(Literatura angolana?) Maria Eugénia Neto Prémio de Literatura


A escritora Maria Eugénia Neto é a grande vencedora do Prémio Nacional de Cultura e Arte, edição 2011, na categoria de Literatura, anunciou ontem no Centro de Imprensa, em Luanda, o presidente do júri, Zavoni Ntondo, em cerimónia presidida pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.
Maria Eugénia Neto foi galardoada pela sua contribuição e persistência na valorização da literatura infanto-juvenil, numa altura em que se procura, cada vez mais, promover o gosto pela leitura, pela reflexão e espírito crítico, no seio das gerações mais novas.
Segundo o presidente do júri, a escritora também cultiva o género lírico e a sua poesia, além de constituir uma saudosa e angustiante evocação da imagem do seu marido, mantém um forte vínculo de intertextualidade com a obra “Sagrada Esperança”, problematizando aquilo que o social busca problematizar.
O investigador Vladimiro Fortuna venceu na categoria de Investigação em Ciências Humanas e Sociais, pela obra “Angolanos na Formação dos Estados Unidos”, considerando a relevância, a pertinência e o interesse deste trabalho para o estudo científico da historiografia angolana sobre o quotidiano da diáspora nos Estados Unidos da América.
Zavoni Ntondo realçou que este estudo, embora não seja o primeiro com esta temática, contribui para, por um lado, enriquecer o conhecimento da trajectória do tráfico de escravos e, por outro, colmatar o défice de informação desta temática no caso de Angola.
Pelo elevado valor artístico do conjunto da sua obra, desenvolvido ao longo de 37 anos de carreira, dando um forte contributo ao desenvolvimento das artes em Angola, o pintor Mendes Ribeiro ficou com o galardão da disciplina de Artes Plásticas. Mendes Ribeiro é um ícone que marca, do ponto de vista académico, uma geração desde os primórdios da independência de Angola.
Na disciplina de Teatro, o prémio foi atribuído ao grupo Vozes D’África, da província do Huambo, pelo esforço que tem vindo a desenvolver para manter vivo o teatro naquela região.

O realizador Tomás Ferreira ficou com o troféu, na disciplina de Cinema e Audiovisuais, pelo trabalho, responsabilidade, abnegação, rigor, seriedade e determinação, sobretudo nos programas televisivos “Stop Sida” e “Angola Chama-te”.
Na disciplina da Música, o prémio foi atribuído a João Morgado “Joãozinho dos Tambores”, um músico percussionista com mais de 50 anos de carreira activa, ininterrupta, imitado e respeitado por várias gerações.
A título excepcional, pelo conjunto da sua obra, o prémio na categoria de dança foi atribuído ao Ballet Tradicional Kilandukilu, um grupo com uma trajectória de 27 anos ininterruptos, de persistência artística no domínio da dança tradicional e popular recreativa.

Ministra satisfeita

A ministra da Cultura afirmou ontem estar satisfeita com o trabalho do júri do prémios, por todos os laureados serem ícones da cultura nacional. “Felicito os vencedores pelo empenho e dedicação. O génio criador foi posto em destaque. Qualquer das personalidades que ganharam são ícones da cultura angolana, são responsáveis pela passagem de testemunho das novas gerações.”
Disse que o Ministério que dirige vai continuar com o seu trabalho de incentivo e promoção do génio criador no domínio da cultura e das artes, promovendo e orientando acções, no sentido de que possam ocorrer com regularidade em todo o país.
“O facto de termos conseguido que os membro do júri se deslocassem a algumas províncias para identificar o talento e o génio criador nesses locais, ainda não correspondeu às expectativas de alguns criadores, porque nas nossas deslocações sentimos isso, mas é preciso dizer que a excelência é um ponto que se atinge com muito esforço e dedicação.”
A ministra disse que os exemplos que o Ministério da Cultura tem visto nas outras edições permite afirmar que é de facto a excelência um factor determinante para a escolha dos vencedores.
JORNAL DE ANGOLA

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo


Daí, a necessidade imperiosa do adivinho, agente legalizado e consagrado nestas sociedades, para quem é o recurso supremo, nalguns casos, a última esperança. A ele devem a constante reconstrução da vida comunitária. Com os chefes, é, pois, o factor social mais contrário a qualquer evolução cultural. Com o seu poder coactivo e mágico protege a vida tradicional e opõe-se energicamente à acção missionária e às ideias novas.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Por vezes, degenera e torna-se uma pessoa temida, perversa e autora de toda a espécie de vinganças e extorsões. É fácil compreender que a posse de uma arma tão temida e certeira como a magia, dê azo a ambições, orgulhos e violências. Esta prepotência é caminho livre para a malícia, venalidade, inveja e cobiça. Como nas consultas tem de acusar algum malvado, como causa da desordem, pode muito bem castigar inocentes ou aniquilar quem lhe agrade. Basta acusá-los de feitiçaria. Deste modo, pode ocasionar mortos inocentes, que a sociedade julga justas. Tem o costume de fazer alarde das sentenças executadas, ostentando, num feitiço, tantos trapos dependurados quantas as mortes causadas.
Exige somas avultadas e, na sombra, elimina os inimigos dos seus clientes. Também extorque com ameaças, para satisfazer os seus interesses e ambições. Tem uma influência que se estende a todo o grupo. Conta com colaboradores submissos. Alguns vivem clandestinos, outros (os aprendizes e discípulos) são conhecidos de todos. São estes que habitualmente efectuam as mortes, à base de veneno, com perfeita discrição e total impunidade. É tão grande o sigilo que ninguém duvida da acção punitiva de um ser do mundo invisível, realizada directamente ou por intermédio de um feitiço. Estes discípulos recolhem informações de cada cliente e dos conflitos sociais e, assim, facilitam os diagnósticos do adivinho e confirmam a veracidade dos seus oráculos.

A crença na terrível feitiçaria e nos feiticeiros, apesar de enraizada na magia bantu, ganhou tais proporções e tornou-se tão obcecante, por causa das constantes acusações do adivinho que, se por um lado alivia, soluciona e inspira confiança, por outro, aumenta o terror da magia e mantém a sociedade em permanente insegurança. Basta recordar os frequentes e arbitrários ordálios.

Na África negra está muito generalizada a ideia de profetismo. O profeta negro sente que comunga com algumas das forças da pirâmide vital. Este contacto permite-lhe transmitir mensagens que podem esclarecer situações críticas. Assim se explica, de certo modo, o pulular por quase toda a África negra do profetismo-messianismo, origem dos Movimentos Profético-Salvíficos.
Os fundadores, a partir de uma visão ou êxtase em que lhes foi comunicada a sua eleição, mensagem e missão, julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo, oprimido por qualquer tipo de violência.

Por exemplo, os habitantes de uma aldeia baconga têm de participar na preparação de «armas» contra os feiticeiros. Assim, ficam protegidos pelo feitiço e são controlados pelo adivinho, sempre atento à observância ritual que lhe é devida.

Nalgumas partes de Angola, destroem feiticeiros com a «arma de fogo da noite». Esta arma consiste num fémur humano, forrado ou cheio de terra do cemitério e de carne de algum cadáver. Quando o atiram ao feiticeiro, ele morre. Também se servem de armas de metal que disparam ossos de dedos humanos e bocados de metal. «Os homens das armas… não supõem, pelo menos alguns, que cometem um autêntico assassínio físico. Ao fazerem fogo contra a vítima, dizem: “Se és bruxo tens de morrer esta noite. Se não és, não deves morrer”… Acreditam misticamente que a pessoa, contra a qual dispararam, não sofrerá mal algum se não for culpada».
Também costumam apunhalar a imagem da pessoa acusada, reflectida num espelho ou na água de uma caçarola ou cabaça.

Têm, como os curandeiros, poderes parapsicológicos, às vezes notáveis e até dignos de admiração. Pessoas de confiança e testemunhas fidedignas contaram-me que alguns adivinhos colocam um boneco de madeira no chão e, depois de pronunciarem umas palavras esotéricas, o boneco começa a correr velozmente pela aldeia e só pára quando o mandam repousar a seus pés.
É quase certo que alguns praticam o hipnotismo praticam o hipnotismo, estão dotados para a telepatia, são ventríloquos e conhecem muitas aneiras de sugestionar e levar assembleias inteiras ao histerismo.
Usam truques, por vezes engenhosos, e uma prestidigitação eficacíssima. Como, às vezes, a consulta é feita na sua própria casa, um ajudante (ou aprendiz) ou mesmo o adivinho responde ao oráculo dentro de um subterrâneo aberto no chão. Também se esconde em troncos de árvore.

No entanto, há que distingui-lo do adivinho-feiticeiro, personagem real, conhecida e activa. Este actua livre e conscientemente. Fabrica feitiços malignos e serve-se deles nas suas actuações. Mistura veneno na comida e na bebida e assim vitima muitas pessoas. É movido por desejos de vingança e colabora na supressão dos inimigos dos seus clientes.

Acreditam que vive na comunidade, mas ninguém o conhece. Espalha um permanente medo que só o adivinho e o curandeiro podem enfrentar. O feiticeiro bantu é mito, lenda, suposição, figura, imaginação, símbolo, solução e necessidade psicológica, social e religiosa.

Nunca viram um feiticeiro, não assistiram ás suas reuniões, nunca presenciaram o seu desdobramento e metamorfoses nocturnas, mas a sua presença é uma exigência dos princípios fundamentais da cultura bantu.

Na sociedade bantu ninguém é feiticeiro, mas todos podem sê-lo. A explicação e a necessidade do feiticeiro estão no conhecimento e consciência que o bantu tem de si mesmo e da sociedade.

As palavras bantus mais comuns para o denominar são: «ndoki», «amulozi», «muloji», mloji», «moio», «ulogo», «bulozi», «buloji», «ulozi», «ndotshi», «moloi», provenientes do radical verbal «loa». Estes termos significam «malefício», «enfeitiçar». Noutras línguas dão-lhe o nome de «nganga» ou «onganga».

Este desdobramento de personalidade permite ao feiticeiro o dom da bilocação e até da multilocação. Uma parte do seu ser (o corpo) está fisicamente na cama, enquanto o seu doble (ou seu poder) actual em lugares distantes.
É este o fundamento da dura realidade, a razão que leva qualquer bantu a aceitar com resignação e passividade a acusação de ser feiticeiro, feita pelo adivinho e, então, submete-se docilmente aos ordálios. Quando estes indivíduos, inconscientes da sua maldade, são castigados, a justiça bantu subjectivamente considera-se, mas objectivamente é causa de lamentáveis injustiças, o acusado assume a responsabilidade, apesar de não ter consciência da sua maldade.

Entre ao Ambos, «aquele que quer receber esta faculdade encontra-se casual ou voluntariamente com quem a possui. Este, em determinado dia, dá-lhe “algo a comer”. Durante dois dias, o “mestre nada diz do que fez ao seu amigo noviço. Na terceira, depois de deitados, desperta-o repentinamente e confia-lhe a grande novidade:”Levanta-te, dei-te a ouwanga e quero que sejas meu amigo.” Em seguida, dá-lhe esta ordem formal: “Vai comer alguém da tua família.” E tem de cumprir esta ordem. Caso contrário, o “ouwanga” comeria o recalcitrante.

Trompa Himba (instrumento limitado à área dos pastores himbas, do grupo Herero, do Sudoeste de Angola)

O bantu vive em permanente terror e entre o jogo defensivo e ofensivo da poderosa magia. Se morre uma pessoa, ao bantu não satisfaz a explicação de que um vírus ou uns micróbios o mataram. Ele tem de averiguar como, porquê e quem os introduziu no defunto. E isto só pode ser obra de um feiticeiro que utilizou práticas mágicas.

«Lançam moscas, morcegos, pássaros, animais, espíritos e objectos mágicos; o “mau-olhado” também lhes serve para lançar o mal; enterram remédios malignos por onde a vítima costuma passar; depositam objectos mágicos nas casas ou nos campos das suas vítimas».
O feiticeiro é propenso à dissolução sexual, pode mesmo atingir a perversão. De facto, as feiticeiras comportam-se como ninfomaníacas, e os feiticeiros praticam o incesto e a antropofagia.

O feiticeiro é necrófago, desenterra os cadáveres e, como os vampiros, chupa o sangue humano. Pode também tornar-se invisível para realizar impunemente as suas acções. Abandona o seu corpo e vai até junto da vítima. Veloz como o pensamento, vence distâncias enormes
Acreditam que ele se metamorfoseia em bolas de fogo, torvelinhos, fogos-fátuos e, sobretudo, em insectos, pássaros (corvos, abutres e mochos), em leopardos, hienas, serpentes, antílopes, sapos e pirilampos. Também cavalga sobre animais ou envia-os contra as suas vítimas. Consegue esconder-se debaixo da terra, transforma-se em pedras e introduz-se nas árvores.

domingo, 16 de outubro de 2011

André Mingas, músico e arquitecto - In Memorium


Luanda - André Rodrigues Mingas Júnior, que também é conhecido por André Vieira Dias Mingas, pois a sua Mãe é Vieira Dias, é irmão de Ruy Vieira Dias Mingas, Saydi Vieira Dias Mingas, que também era escritor (Gasmin Rodrigues), sobrinho de Liceu Viera Dias e primo de Carlitos Viera Dias. Todos eles monstros sagrados da Cultura Musical e Política de Angola.

Fonte: Apostolado
André Mingas também usa o nome de Gasmin Rodrigues em projectos de Arquitectura, pois Gasmin é Mingas ao contrário.

Este senhor da música e da cultura é filho de André Rodrigues Mingas e Antônia Vieira Dias Mingas, nasceu em Luanda, a 24 de Maio de 1950. Influenciado pelo seu irmão Ruy Mingas e pela genialidade de Liceu Viera Dias, graças ao seu talento indiscutível e sentido de modernidade, começou desde muito cedo a criar uma nova sonoridade musical em Angola, quando mais ninguém o fazia, o que é visível no seu primeiro álbum denominado "Coisas da Vida".

Embora o CD tenha sido produzido há 30 anos, continua a ser actualmente uma das principais referências da moderna música angolana, misturando já naquela altura ritmos locais com sonoridades do jazz e do rock no semba criando a ideia do semba jazz, criticado na época.

O músico e compositor, segundo Filipe Mukenga, foi a sua principal influência levando-o a adoptar as dissonâncias que hoje são uma característica de Filipe Mukenga.

André Mingas tal como Filipe Mukenga e Waldemar Bastos fazem parte da geração de ouro de músicos de excelência que emergiu e teve sucesso nos anos 1970 e 1980. Precisam de ser ouvidos e tocados pelas novas gerações para enriquecimento da música angolana.

O pai do "Mufete" foi vice-ministro da Cultura e durante o seu mandato criou a sociedade de autores Angolanos denominada SADIA que existe até hoje. Segundo um quadro do Ministério da Cultura, não identificado, André Mingas foi o homem da massificação cultural, das ideias do Instituto Médio (em construção) e do Instituto Superior de Artes e Cultura e Museu de Arte Contemporânea.

André Mingas terminou os seus estudos na Universidade Agostinho Neto e posteriormente na Universidade Técnica de Lisboa. Foi Arquitecto, Mestre em Arquitetura e Urbanismo, Secretário para os Assuntos Locais do Presidente de Angola, foi Vice-Ministro da Cultura, formador de quadros em Portugal onde foi Professor do 5º ano de Arquitectura da Universidade Lusófona de Lisboa. É referenciado pelos seus alunos e pelo Professor Troufa Real como um grande comunicador, versátil e cativante, as suas aulas estavam sempre cheias pela sua capacidade de comunicação e cultura e ainda por cima com um tremendo coração.
Enquanto arquitecto é respeitado no seu país e é o percursor das ideias de requalificação de vários bairros da cidade de Luanda.

André Vieira Dias Rodrigues Mingas Júnior foi um dos fundadores da União dos Artistas Angolanos tendo composto músicas e letras que expressam o amor, valorizam a mulher angolana e expressam a realidade da vida com grande sentido de paz e fraternidade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

«Dicionário Português-Kimbundu e Kimbundu-Português» já nas “bancas”


Luanda - O livro tem 140 páginas e cerca de 5000 vocábulos. A obra Dicionário Português – Kimbundu e Kimbundu – Português, foi concebida para registar e divulgar vocábulos, usados nas distintas áreas do Kimbundu, lê-se no prefácio, da referida obra do autor Júlio António « Juju Kamuxitu ».

Fonte: Club-k.net
“Como é fácil de constatar, de edição em edição, as obras literárias registam sempre uma grande melhoria, um significativo enriquecimento em todos os aspectos,” lê-se ainda na introdução do para precisar que esta edição “agora com um aumento considerável de vocábulos, uma nova arrumação, pois, a estética é também questão de suma importância.”
O autor defende o princípio segundo o qual, não existe kimbundu melhor ou pior, existe sim um kimbundu diferente, nas distintas áreas do kimbundu.

Quanto as obras consultadas para esta edição « Juju Kamuxitu » descreve que consultou “dicionários Académicos de Português e com a prestimosa contribuição oral de pessoas singulares, falantes da Língua Kimbundu”

Dados do autor:
- Naturalidade: Luanda
- Estado civil: casado
- Professor, Oficial de Secretaria
- Operador de Telecomunicações SITA e ICAO
- Técnico de Tarifas
- Formador e participante às reuniões da IATA e AFRAA.
- Presentemente reformado e dedico a trabalhos literários
Contactos:
- Facebook: http://www.facebook.com/pages/Jujú-Kamuxitu/275389424393?sk=wall
- E-mail: juju.kamuxitu@gmail.com
- Telefone: 00244 939 710 365

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A República dos cem mil dólares


Até o fúnji me rapinaram

Sou corrupto!
Eis a pátria edificada
cercada, electrificada, armada, sem luar
Ai! Esta Luanda espectacular
de milhões de espoliados
em prisão domiciliar

Sou corrupto!
Gloriosa, eterna e abençoada ditadura cujo povo
jaz analfabeto.
A independência ainda não chegou
quem a usurpou?!
Um punhado
de punhais traiçoeiros/negreiros
vendida aos estrangeiros por alguns dinheiros

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar

Sou corrupto!
Já não nos sobra um pedaço da nossa terra
A independência da corrupção chegou
mas ainda não terminou
Nem nas ruas nos podemos movimentar
porque um segurança nos vai
interpelar e ameaçar
Estou na miséria, sem país
sem saber o que fiz
Roubar alguma coisa do petróleo
que me também espoliaram
Sou mesmo um zero
Electricidade, água, casa, saúde, emprego
só para quem comprou Angola
mais os estrangeiros que nos governam
E ainda fingem eleições que já sabemos
são fraudes eleitorais que de antemão
já vencemos

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar

Sou corrupto!
Até a banana, a jinguba, a jimboa
o fúnji me rapinaram
Eles roubam-me, não são gatunos?!
E eu quando roubo
atiram-me a matar!

Eles libertaram tudo mas esqueceram-se
de libertar o povo
Que se manifesta e denuncia
a corrupção
Eles têm bancos brancos
que nos espoliam, nos matam!
E a barragem de Kapanda não tem capacidade suficiente
para abastecer Luanda
mas potência não lhe falta
para abastecer a corrupção
Não se prende ninguém
enquanto a junta militar
nos escravizar
A água está também a minguar
e vai acabar, faltar
O momento final aproxima-se
o desabar
O clamor do povo
está no ar

Sou corrupto

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar



terça-feira, 11 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho.


Apresentamos alguns exemplos de feitiços usados por grupos angolanos.
O «kissola» é um boneco de trapos, de uns 30 cm, preparado pelo adivinho. Enfeitam-no com uma cabeleira de fibra pintada com barro vermelho. O casal que deseja filhos coloca-o debaixo da cama. Em todas as Luas Novas, alimentam-no aspergindo-o com bebidas e alimentos e a mulher pinta-o com pó. Fica simbolizado por uma bananeira plantadas à frente da casa e protegida por estacas. É o sinal do «kissola».

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Ninguém pode falar com a mulher que está sob a sua influência. Se não consegue engravidar, o adivinho arranca as estacas, mata uma galinha e esfrega o «kissola» com o sangue. Se, depois deste sacrifício, não consegue a gravidez, o especialista atribui à mulher a esterilidade.
O adivinho prepara o «nvunji» para o cliente que deseja descobrir um feiticeiro ou u m inimigo, autor de algum mal, especialmente doenças. Enche um chifre de antílope com pó da casca da árvore «mbambu», de onde se extrai um dos venenos mais utilizados nos ordálios. No meio do pó coloca duas balas de chumbo. Entrega também uma pequena cabaça, «ndembo», cheia de «nbambu» e de pêlos de várias partes do corpo de uma pessoa.
O dono coloca-o num cestito debaixo da sua cama. Quando quer activar a sua força, espeta o chifre junto ao fogo da lareira com a cabaça ao lado e pede-lhe uma doença para o inimigo.
Quando adoece uma criança, esfregam-na com pó de «nvunji». Tem variadas aplicações. Os chefes têm-no sempre porque o «nvunji» é como uma arma que mata tudo.
Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho. Esse tem uma arma diminuta em cujo tubo introduz pólvora, dois bocados de agulha e um pouco da terra que o inimigo pisou ou urinou. O cliente tem de matar um gavião e um pássaro selvagem chamado «andúa». Ao primeiro tira uma unha, ao segundo, um pedaço da asa e introduz tudo no cano da arma. A asa serve para levar a carga e a unha, além de ajudar a transportar, também serve para ferir o inimigo.
Dependuram um galo de cabeça para baixo e o adivinho, com um só golpe, corta-lhe a cabeça. O queixoso acende a pólvora, saem as balas (agulhas) e espetam-se no galo. Neste momento morre o inimigo. O adivinho atira o galo ao rio, para simbolizar o enterro do inimigo e o queixoso, entretanto, amaldiçoa-o. Manda-o para casa e proibi-lhe de dormir em sua cama, durante quatro dias. Certificada a morte do inimigo, ele tem de pagar os emolumentos ao adivinho.
Para compreendermos como o jogo mágico pode conduzir a aberrações e criar uma atmosfera de terror, vamos descrever alguns feitiços preparados só para fazer mal ou para defender e vingar supostas acções mágicas maléficas. É cega a fé no poder e, embora ninguém os tenha visto, acreditam na sua existência.
Certos feiticeiros podem vivificar um cadáver com fórmulas secretas, medicamentos e invocações mágicas. Quando o conseguem, transforma-se num feitiço visível apenas a quem o fez. A uma ordem do feiticeiro, ele dirige-se à pessoa indicada e torce-lhe o pescoço até a matar. As outras pessoas apenas vêem a vítima caída no chão com o pescoço torcido e a gritar de dores. Pode-se afugentar queimando um pouco de farinha.
Em várias regiões de Angola, existe a convicção de que os chefes podem preparar um feitiço especial. Apanham uma criança e enterram-na viva. Durante duas semanas, desenterram-na diariamente e mumificam-na com lavagens e irrigações. Transforma-se num feitiço invisível que o chefe utiliza para matar os seus inimigos desta forma: aproxima-se da pessoa indicada com uma arma ao ombro e um chicote; dá-lhe uma chicotada e introduz-se no seu sangue. A vítima começa a tremer até morrer.
Também se servem de meninas para conseguir os mesmos objectivos. Mas a estas matam-nas espetando-lhes um punhal no peito, depois de seduzidas, e levadas para um lugar escondido.
O bantu teve de recorrer à magia-feitiçaria para explicar as mortes repentinas, a epilepsia, apoplexia, loucuras, qualquer manifestação espasmódica ou ataques cardíacos.
Não há dúvida que estas crenças consolidam a autoridade política e o prestígio dos especialistas. Estes confirmam-nas utilizando o veneno ou matando mesmo, através de fiéis servidores. No aspecto negativo, a magia bantu encobre manobras terríveis que satisfazem os piores instintos. Há especialistas consumados em sugestão, hipnotismo, parapsicologia e com uma experiência e com uma experiência milenária na aplicação de drogas e na propagação do terrorismo psicológico. No entanto, estes exageros, são bastantes limitados e nunca atingem as dimensões e sangue-frio dos utilizados em outras sociedades.
Certos especialistas, diz o povo, tiram o coração a um cadáver, matam um cabrito e uma galinha e também lhes extraem o coração. Perfuram uma estátua de madeira, da cabeça ao ventre, e introduzem os três corações. Em seguida, tapam o buraco para que «fermentem». Alguns dias depois, o feitiço começa a bailar. Está pronto para cumprir a sua missão, isto é, matar os inimigos do proprietário. Como é invisível, agarra a vítima pela cintura, penetra pelo ventre e vai até ao pescoço. O inimigo morre deitando sangue pela boca e pelos ouvidos.

«Depois da nomeação, máscara e dançarino são sagrados e, se são profanados, podem causar a morte do sacrílego».
O especialista da magia deve sará-las com um cerimonial especial. Por isso, são guardadas em lugares secretos e bem vigiadas. Só o especialista, os iniciados da sociedade particular ou secreta, e os homens podem vê-las e conhecer o seu significado.

Na África Ocidental, a máscara adquiriu tal expressão, estilismo, naturalidade, surrealismo, perfeição, dramatização e simbolismo que, com pleno direito, pode ser considerada como uma das notáveis obras de arte da humanidade. Assim, as mascarras bambaras, ibas, mendes, bomuns, wavegas, dogóns, ekois, batekés, bamilekés, ashantis, aguis, pangwés, balumbas, iorubas, baulés, as de Ifé, o Benim, talhadas na madeira, marfim, ouro, bronze, cobre e latão.

Há muitas mulheres dotadas para o exercício da magia. Acreditam que certas anciãs se podem converter em perigosas feiticeiras

Como médico indispensável, douto e respeitado, consegue um nível de vida superior, pertence a uma casta privilegiada. A medicina científica ocidental, que o desprezou, reconhece hoje os seus valores e sabe que possui conhecimentos e segredos de grande utilidade. Em muitos países estão mesmo oficialmente reconhecidos.

Uma antiga curandeira narra o rito da seguinte maneira: «Tive uma doença ma garganta… A adivinha consultada declarou que a causa do mal eram dois antepassados, avós maternos, que exerciam a profissão. Fui a uma mestra. A cerimónia decorreu assim: estava sentada numa esteira, no pátio da casa da mestra. Enorme assistência dançava e cantava à minha volta ao som do batuque… Pouco depois, entro em transe. Não consigo proferir uma só palavra, apesar de compreender tudo o que se passa à minha volta. Sinto-me sufocada e os meus olhos parecem lançar fogo.

Muitos doentes dirigem-se ao dispensário queixando-se de corpos estranhos que percorrem algumas partes do corpo e que incomodam com dores. Assistimos a curas de estados de saúde preocupantes, com a simples prestidigitação de simular que se lhes extraia do corpo um rato, uma rã ou uma pedra. Nestes casos, a sugestão é uma terapia eficaz.

O hospital pode aliviar a doença, mas como não a ataca pela raiz porque não descobre a causa, naquele momento fica acalmada, mas pode voltar. Além disso, muitos receiam morrer no hospital, onde a sua comunidade não pode realizar os ritos fúnebres e onde deambulam outros membros da comunidade ali falecidos, propensos à maldade por causa da desesperada solidão em que se encontram.

O curandeiro é um especialista que, com certeza, ainda vai durar muitas gerações em África.

No entanto, também é verdade que o prestígio e coacção mágica refreiam a expansão das conquistas médicas. Sofrem e morrem muitos africanos porque estes especialistas influentes impedem o seu sucesso a centros hospitalares.
A África tem necessidade urgente de se libertar das cadeias da magia. Os curandeiros, adivinhos, chefes e a gerontocracia são os mais firmes defensores desta situação.

Em muitas regiões, são denominados «m-hanga», «n-gan», «mganga», «inyanga», mas o mais comum é «nganga» cuja raiz significa «curar, tratar, rodear, acomodar, diagnosticar». «A melhor tradução parece ser a de «homem que conhece os meios de poder». Numa acepção relacionada com a sua missão, «nganga é o termo mais vulgar e mais difundido e, no contexto cultural congolês, usa-se este termo para designar o “sacerdote”». Em duala, língua bantu do sul dos Camarões, chamam-lhe «ngambi», de «ngan», o forte, e «nganja», sábio em ciência oculta e poderosa, aquele que pode adivinhar o futuro e averiguar se uma pessoa está habitada por espírito adverso.
Em Angola, são muito usados os termos «kimbanda» e «nganga». No entanto, em algumas línguas «nganga e onganga» é o feiticeiro. Na impossibilidade de empregar um termo bantu com o mesmo significado em todos os grupos, optámos pelo de «adivinho», acentuando, porém, que interessa mais o significado que lhe é atribuído que propriamente o vocábulo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Para atingir um indivíduo basta actuar sobre as suas roupas, unhas, ossos, cabelos,


Os Bacongos situam-nos em aldeias subterrâneas, maza». A cada aldeia de vivos corresponde outra de antepassados equiparada à que aqui deixaram. Falam dum «lugar, dum mundo inferior». Os ruandeses dividem o mundo em três andares: «O andar do meio é constituído pela terra que habitamos. Debaixo da terra, está o mundo abissal, habitat dos “bazimu”… Por cima da terra está situado o andar superior o andar superior ou Céu… habitat de Deus».

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Outros grupos pensam que vivem em regiões inóspitas, nas selvas, em grutas ou num «lugar subterrâneo, sombrio e taciturno, sempre triste, onde não é agradável viver», embora de modo nenhum seja uma prisão, um lugar de castigo ou um cárcere, visto que podem visitar e até habitar bosques, estatuetas, cavernas, árvores, rochas, lagoas, colinas e pessoas.

Podem-se encontrar explicações naturais para tudo, mas é necessário encontrar também explicações de ordem sobrenatural. As pessoas precisam de bodes expiatórios para explicar os seus sofrimentos…
As frustrações, as desordens psíquicas, as tensões emocionais e outras manifestações da personalidade profunda são imediatamente exteriorizados e projectados num ser humano ou em circunstâncias que deitam as culpas sobre um agente exterior.

Na realidade, respondem à instituição e normas sociais e às aspirações do bantu, mas a causalidade mística deturpa e empobrece, tornando os «africanos brutais, demolidores e hostis».
Os bantus, como todos os humanos, são capazes do bem e do mal. Mas é pena que a causalidade mística e o poder omnímodo da magia impossibilitem de concretizar as aspirações de harmonia-paz que a cultura bantu persegue como o valor mais precioso.

Há um culto especial, em certos bosques sagrados, reservados aos túmulos dos chefes. Ali ninguém pode cortar lenha, e só penetra o guardião, descendente de chefes, o qual, de vez em quando, lhes oferece sacrifícios.
Para os sacrifícios preparam pequenos e toscos altares protegidos por uma cabana, ao ar livre, perto das casas ou no bosque e nas encruzilhadas.
Veneram certas relíquias dos antepassados ilustres, sobretudo o crânio, as tíbias, unhas e cabelos, ou objectos pessoais como armas e instrumentos técnicos. Colocam-nos dentro de minúsculas habitações, onde os antepassados gostam de morar. A sua presença é mais notada e activa, porque se prolongam nas relíquias.
Um dos processos mais usados para os atrair consiste em cavar uma minúscula sepultura junto de casa. Enchem-na de alguma matéria que apodrece depressa, simbolizando o corpo do antepassado. Ao lado plantam uma árvore, que fica sacralizada, porque a aspergem com o sangue de uma galinha, ao mesmo tempo que suplicam ao antepassado que passe a viver nela. Se a árvore seca, quer dizer que o antepassado não aceitou a mansão. Essa árvore escuta diariamente as súplicas da família.

Durante o terceiro ano, aprende a adivinhação pela água e as encantações pela maneira de entender a linguagem das árvores, rios e fadas.

Se a África negra não supera a estreiteza comunitária, a dependência acabrunhadora dos parentes e a crença na omnipresente e todo-poderosa, não cremos que consiga a libertação, que leva consigo uma gama de objectivos muito maior que a independência política.

A experiência do mal provocou o medo. O bantu sofreu calamidades permanentes: vida breve, doenças endémicas, opressões seculares e a interacção ambivalente. O medo é a consequência do desconhecimento das causas naturais dos fenómenos e afunda o bantu nesse desconhecimento, na inércia e na passividade fatal que sufoca qualquer tentativa e possibilidade de encontrar a solução de um problema, a seu ver, irremediável, pois que o ultrapassa.

A privada, exercida por indivíduos anónimos, é quase sempre perigosa, não só porque não se consegue detectar a sua origem, mas sobretudo, porque é utilizada com objectivos malévolos, para satisfazer paixões. Qualquer indivíduo, possuidor destas técnicas, quase sempre imitadas dos especialistas, julga-se superior e emprega-as em proveito próprio.
«A magia privada tem um campo vastíssimo. São raras as ocasiões em que o homem não necessite da sua ajuda. Recorrem a ela para aumentar o bem-estar, favorecer as paixões e afastar males reais, ou imaginários, que os rodeiam. Algumas actividades de primeira necessidade (caça, pesca, gado, agricultura) são acompanhadas de magia. O mesmo acontece com os principais actos da vida humana: nascimento, puberdade, matrimónio e morte. Há uma magia privada, própria para apoiar ou destruir o afecto, proteger a propriedade, ter êxito na guerra, controlar os fenómenos da natureza, curar doenças, anular os projectos dos feiticeiros, fazer exorcismos aos espíritos maus». Os feiticeiros exercem a magia privada.

O uso de um pedaço de qualquer objecto, ou mesmo reprodução, afecta e influi no objecto ou pessoa real. Quando põem ao pescoço um chifre de animal, conseguem a sua protecção ou ficam livres dos seus ataques. Se perfuram com uma pequenina será um boneco antropomórfico, se lhe espetam uma faca, se o queimam ou o cortam aos pedaços, provocam a morte do inimigo representado. O mesmo acontece se rasgam uma fotografia. Assim, o especialista fabrica uma estatueta que representa determinada pessoa e, actuando sobre ela, pode matar ou prejudicar essa pessoa.

É muito usada esta acção mágica sobre a participação. Para atingir um indivíduo basta actuar sobre as suas roupas, unhas, ossos, cabelos, saliva, excrementos, ou sobre a erva ou terra que ele pisou ou da sua casa, pois conservam algo da sua vida. Tudo o que o especialista fizer sobre esses objectos, bom ou mau, acontecerá ao dono. O mesmo se verifica em relação ao caçador que bebe o sangue da peça abatida, ou ao guerreiro que bebe o sangue dos seus companheiros ou inimigos caídos na batalha. Apropriam-se da sua força vital. Pela lei da comunidade, um ser pode sofrer as consequências mágicas da desgraça caída sobre outro ser com o qual estava vitalmente ligado. A morte de um gémeo pode vitimar o sobrevivente.
A magia por contacto pode actuar sobre fotografias, pegadas, sombra, utensílios e reflexo de um ser vivo e, sobretudo, sobre o seu nome verdadeiro. «as qualidades dos objectos são realidades substanciais, simultaneamente separáveis e transmissíveis. A comunicação verifica-se, quase sempre, por contacto físico: tacto, absorção de comida ou bebida, relações sexuais. O contacto pode revestir outras formas: um olhar, um gesto, uma palavra.

«o marido polígamo dirige-se à primeira esposa e esta transmite as suas ordens às restantes esposas. Dirige-se igualmente ao primeiro filho, quando quer dar ordens aos restantes filhos. O que está encarregado de transmitir um recado dirige-se a uma terceira pessoa, isto é, à pessoa que acompanha aquele a quem deve transmitir esse recado. A não ser que se trate de um segredo pessoal. Não é estranho nem fora do normal que o negro, ao sul do Sara, recorrendo sempre a um intermediário para se dirigir ao seu semelhante, tenha institucionalizado intermediário para orar a Masa Dambali (Deus para os Bambaras).

O bantu recorre ao adivinho ou ao curandeiro sempre que alguma desgraça o persegue, quando se sente ameaçado ou deseja conseguir favores, boa sorte ou, então, quando pretende afastar a acção de feitiços dirigidos contra si. Costumam recomendar-lhe um feitiço que pode mesmo ser fabricado pelo cliente ou por qualquer artista, mas só o especialista o pode tornar poderoso.

Também usam chifres de antílopes, bolsas de pano e até ossos humanos. As estatuetas costumam ter uma cavidade no centro do ventre, do pescoço ou da cabeça, onde o especialista esconde ossinhos, pêlos, cabelos, sangue e pedaços de plantas e minerais. A participação vital fica unida e activa. A força vital, que o enche, encontra os três reinos do universo. Assim, é possível a junção de forças que, em pequena escala, realiza a totalidade cósmica participante.

Hoje, é frequente encontrar dentro dos feitiços pequenos crucifixos, medalhas, contas do rosário e outros objectos cristãos. Pensam ser a melhor maneira de apropriar-se magicamente da virtualidade que proporcionou aos brancos o seu poderio. Uma cristianização superficial levou-os, por sincretismo, a utilizar imagens cristãs com a mesma finalidade. O santo cristão ocupa o lugar do antepassado, mas sem banir o sentido religioso tradicional.
Abundam as estatuetas-feitiços representando um antepassado ilustre. Como autênticos relicários, neles guardam, em qualquer cavidade, restos dos seus cabelos, unhas, crânio, ossos, dentes ou qualquer coisa, que lhe tenha pertencido. O antepassado, ali presente e actuante, protege a sua descendência porque gosta de recolher-se nessa morada, ou, então, porque os seus restos tornam presente a sua força vital.

A sugestão causa estragos. O veneno ocasiona muitas mortes. Os especialistas da magia e muitos particulares conhecem as receitas secretas para a sua preparação e a ciência empírica da sua aplicação, cujos efeitos vão desde a idiotice, paralisia ou intoxicação, até à morte quase instantânea ou lenta e dolorosa. Protegidos pela crença na acção mágica, fulminam vidas humanas com demasiada frequência e impunidade. O uso do veneno e de outros tóxicos leva as pessoas a acreditaram na eficácia da magia e a envolverem os especialistas numa auréola de poder, mistério e prestígio. As crenças mágicas originaram e mantêm estes abusos.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Então Khambagen, o herói do povo Sondjo, descerá à terra para salvar o seu povo.


Deixam sobre a sepultura algum objecto: uma cabeça de boi, uma cabaça ou garrafa com água, mel, aguardente, alguns alimentos, um copo, uma taça, um prato, qualquer instrumento de trabalho, os troféus de caça.
Com certa periodicidade ali depositam alimento e bebida. Quando enterram uma pessoa, os alimentos ajudam-na a realizar a viagem para a sua nova mansão.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Não acreditam que os mortos venham a comer e a beber às suas sepulturas. Apenas tomam «a essência das oferendas», o seu princípio vital animador, agradecem a recordação dos seus descendentes e retribuem copiosamente.
Os Bantus explicam assim este rito que foi ridicularizado e apresentado como exemplo da sua credulidade pueril: «só a noção de símbolo nos oferece uma interpretação plausível. As oferendas feitas aos mortos… são apenas meios de entrar em contacto com eles, de estabelecer entre eles e os vivos uma coerente vital; assim penetra alguma coisa na existência dos espíritos da parte dos seus devotos e vice-versa.»
Esta mesma explicação justifica a prática de enterrar objectos junto do defunto. Colocam a seu lado comida, utensílios, sementes, armas, tabaco e até roupa. Precisa disso para a viagem.
Por isso, os grandes chefes deviam ser acompanhados à sepultura por uma escrava e um escravo, pelo menos. Este deplorável costume praticava-se para que os chefes protegessem o grupo, que sacrificava alguns indivíduos para proteger a comunidade. Se bem que em muitos casos isso se fez só por prepotência, para demonstrar a autoridade e dar relevo invulgar às festas.
A África negra sacraliza os alimentos; servem de símbolo eficaz para que o homem, e sobretudo a comunidade, contactam com realidades místicas tornando-se propícias e se estreitem numa comunhão de vida.
Os cemitérios e as sepulturas ocupam um lugar central na vida comunitária. Os antepassados estão neles presentes, deles brota a causalidade mística que fortifica ou debilita; através deles se robustece a solidariedade vertical. São também lugares que inspiram temor, onde o receio e o mistério permanecem.
O luto pelos mortos começa depois do enterro. As mulheres costumam pintar a cara com riscas pretas, cortam o cabelo ou soltam o penteado e até rapam todo o cabelo.
O luto obriga sobretudo os cônjuges dos falecidos, que têm de despojar-se de vestidos luxuosos e cobrir-se de panos humildes. É normal que as mulheres tragam o tronco descoberto, porque se trouxessem um vestido normal, o defunto poderia reconhecê-las e atormentá-las. Para não sonhar com ele, nalguns lados, trazem dia e noite uma faca na mão.
Não podem acompanhar o cadáver à sepultura e ficam sujeitos a inúmeros tabus. Por exemplo, não podem tocar no fogo, fumar, cortar lenha, peneirar a farinha, acarretar água, ir para as lavras, comer com outros. Aquilo em que tocar tornar-se impuro e com o perigo do tabu.
A sua alimentação fica limitada e também os seus movimentos. Costumam ficar retirados onde recebem as visitas dos familiares e a comida.
Não podem cozinhar e as proibições sexuais são taxativas. Procuram evitar assim a contaminação impura do defunto, pois conservam, mais que qualquer outro, o «cheiro do morto».
Em certos grupos, a viúva, antes de se unir a um novo marido, o que pode demorar de um a três anos, deve limpar a sua impureza relacionando-se sexualmente com um parente próximo do marido falecido. Noutros grupos, tem de seduzir um desconhecido, que ignore o tabu, e carrega com a impureza da mulher. Se descobrir a cilada, o adivinho submetê-lo-á a ritos purificatórios.
Devem falar pouco, aparentar tristeza e chorar de vez em quando, até que o luto rigoroso termina com ritos purificatórios que começam com um banho lustral no rio. Entregam-lhes vestidos novos e os instrumentos para o trabalho. Costuma intervir o adivinho aspergindo-os.
Estes ritos conseguem «curar» os efeitos do contágio e fortificam a sua vitalidade talvez debilitada pelo contágio com o defunto. Simbolizam isso com uma fogueira acesa depois do banho, que «aquece» (revigora).
Quando regressam do rio, os parentes oferecem-lhes uma refeição que simboliza a certeza de que não intervieram na morte e, com o significado de um ágape, reintegram-nos na comunidade. A solidariedade entre os dois grupos, que selaram a aliança matrimonial, fica robustecida.
Os banhos lustrais pretendem também assegurar à viúva um futuro casamento feliz.
Entre os Humbis, a água lustral leva cinco ingredientes: uma unha de galinha, casca e pedaços de certos arbustos que darão ventura ao novo casamento, pés duma erva cuja interpretação seria: «O marido disse: fui-me embora; tu podes contrair novo matrimónio.» Por fim, outra casca de árvore que significa: «Esta pobre mulher teve pouca sorte; é preciso agora afugentar o mal que a atormentou.»
A adivinha, que ritualiza a purificação, entrega-lhe pequenos enfeites e uma enxada. Marca com giz branco a viúva desnudada no peito, frente, ventre e braços. Derrama-lhe água lustral e lava-lhe com ela o corpo, até a língua. Por fim, bebe uns goles enquanto a adivinha vai pronunciando palavras mágicas que vivificam o rito. Depois simula um acto sexual.
Por fim, a adivinha recolhe toda a imundície do corpo, depois de lho esfregar com pós vegetais, amassa com isso uma bola que enterra longe das casas. O luto e os tabus ficaram sepultados. A viúva pode recomeçar a vida.

Um dos mais típicos é o herói Lyangombe, venerado em muitos grupos da África Central, embora seja de criação ruandesa. Filho e herdeiro do rei Babinga e caçador apaixonado, saiu um dia à caça contra a opinião de sua mãe que tinha presságios funestos. De facto, morreu à luta com um búfalo. Antes, tinha encarregado o seu criado de comunicar a sua mãe que ia para os vulcões para reinar sobre os mortos como tinha reinado sobre os vivos. Transformou-se num herói a quem rendem intenso culto.
Os membros da seita «Ababandwa» intentam, por uma íntima comunhão com o herói entrar, «numa família divina, numa esfera superior ad aexistência. Pode-se assegurar que é um semideus, subordinado ao grande deus Imana» está no vértice da família real ruandesa.

Nalguns grupos, separam os que morreram de morte violenta, guerra, acidentes, homicídio, suicídio. Formam um grupo de antepassados muito poderoso. Deambulam pelas florestas e pelas margens dos rios. Os Bacongos chamam-lhes «bankita». Podem aparecer na forma de espectros brancos, embora também tomem a forma de morcegos e pássaros – moscas. Temem-nos e a sua missão é de mau agoiro.

Em alguns grupos, crêem que se podem transformar em génios com localização transitória nas águas ou nos bosques.
Certas tradições afirmam que, que, depois de um certo tampo, há uma selecção na aldeia dos mortos. É a segunda morte. Aqueles a quem os parentes deixaram de oferecer sacrifícios, cuja recordação se esfumou na memória dos homens e cujas obras não testemunham um passado glorioso, morrerão pela segunda vez e partirão para uma aldeia situada no mais profundo da terra…

Alguns grupos não-bantus do Senegal, os Sereres e os Diolas, crêem no renascimento dos mortos. «Depois duma permanência mais ou menos prolongada no além-túmulo, ou imediatamente depois da morte, ou inclusivamente antes de morrer… a alma reencarna numa criança ou num feto».
Os Dogons e Bambaras admitem a reencarnação nas crianças, que retém o seu nome e divisa, e aos Saras do Chade não lhes repugna o avô reencarne no neto.
Na Rodésia, os mortos podem escolher reencarnar numa rapariga ou num rapaz. Assim, morrer é um meio de mudar de sexo para as almas desejosas de novas sensações».

J.S. Mbiti assegura que os Sondjos da Tanzânia são o único grupo negro-africano com uma noção sobre o fim histórico do mundo. Um mito escatológico afirma que, ao chegar esse momento, o Sol cobrir-se-á de trevas por efeito duma nuvem de pó, dum enxame de abelhas e dum bando de pássaros.
O fim chegará no mesmo instante em que dois sóis, surgidos do este e do oeste, se encontrarem no zénite. Então Khambagen, o herói do povo Sondjo, descerá à terra para salvar o seu povo. O resto da humanidade será aniquilada.
Ignora-se como este se tenha formado. Este autor assegura que «no estado actual das pesquisas não pode ser atribuído à influência cristã dos tempos modernos».

Os Bandas pensam que a pele dos antepassados é branca; daí a ideia, em certos países, de que os europeus eram antepassados. Segundo os Manjas, têm o corpo coberto de longos pêlos brancos, a cabeça como um punho, sem dentes, os olhos sobre o peito, a voz fanhosa; alguns só têm um pé e outros não têm cabeça».
Entre os bantus do Sudeste e Nordeste está muito espalhada a crença de que se transformam em serpentes; por isso, alimentam-se, nunca as matam e quem come a sua carne quebra um tabu. Os Kikuyus «têm verdadeiras associações de adoradores de serpentes relacionadas com a estação das chuvas e com o arco-íris. Os Massais crêem que só os ricos e os curandeiros sobrevivem sob a forma de serpentes que vêem visitar as crianças a casa e as alimentam com leite. Cada família conhece as suas próprias serpentes de cores diferentes».

terça-feira, 27 de setembro de 2011

JES-MPLA EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS DO KILAMBA, SARL


Kopelipa e Manuel Vicente – Os vendedores de casas sociais
Desde Julho passado, milhares de cidadãos angolanos residentes em Luanda têm desesperadamente envidado esforços para adquirirem apartamentos sociais no Kilamba. Os preços praticados pela empresa encarregada das vendas, a Delta Imobiliária, variam entre US $125 mil e US $200 mil por apartamento. Esses valores especulativos e aparentemente incompreensíveis para um projecto social do Estado, bem como a revelação dos nomes dos sócios da Delta Imobiliária, configuram mais um escândalo de corrupção.

Rafael Marques de Morais
http://makaangola.org/2011/09/kopelipa-e-manuel-vicente-os-vendedores-de-casas-sociais/

Em 2008, a promessa eleitoral do presidente da República para construir um milhão de casas ao longo de quatro anos afirmou-se como triunfante. Ajustado à capacidade real de construção de apenas alguns milhares de casas, o projecto de habitação social do Kilamba tornou-se o símbolo deste sonho prometido ao povo.

A cargo da empresa estatal chinesa CITIC, o projecto envolvia inicialmente a construção de um total de dois mil edifícios residenciais e infra-estruturas de apoio, num valor global de US $3,5 mil milhões, conforme dados disponibilizados pela construtora no seu sítio online .

A CITIC procedeu à entrega do primeiro lote de 115 edifícios, correspondentes a 3118 apartamentos, a 11 de Julho de 2011, numa cerimónia presidida pelo chefe de Estado José Eduardo dos Santos. Este havia reconhecido, no seu primeiro discurso sobre o estado da nação alguma vez feito na Assembleia Nacional, a 15 de Outubro de 2010, que “o sector em que a situação é muito má é o da habitação. Mais de 70 por cento das famílias angolanas não têm casa condigna. Neste domínio, temos que fazer um esforço gigantesco para revertermos a actual situação”.

Os angolanos têm sido assolados por uma onda de indiferença presente nos discursos e comportamentos contraditórios dos seus dirigentes e cujas consequências são nefastas para a sociedade. Apesar de Angola ser um país extremamente rico em petróleo, a maior parte dos angolanos encontra-se entre as pessoas mais pobres do mundo; o produto interno bruto per capita é de US $4,941/ano, ao mesmo tempo que mais de metade da população (54,3 por cento) vive abaixo do limiar de pobreza, com US $1,25/dia.[1] Por um lado, regista-se a nobre ideia de construção de casas sociais e, por outro, assiste-se à sua especulação exorbitante, conformando políticas de exclusão social, económica e política daqueles a quem o projecto é dirigido.

No seu discurso de inauguração parcial do bairro social do Kilamba, o presidente José Eduardo dos Santos considerou-o como “o maior projecto habitacional jamais construído em Angola [constituindo], à escala global, um profundo exemplo da política social levada a cabo no país para resolver o défice habitacional”. De forma eloquente, o presidente afirmou que o seu executivo vai “ensaiar aqui um novo modelo de gestão urbana, que seja funcional, simples, racional, transparente e cumpridor das suas atribuições, capaz de encontrar as melhores soluções para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.”
Força Delta

A presente investigação centra-se exclusivamente na gestão do projecto e na sua transparência. A Delta Imobiliária – Sociedade de Promoção, Gestão e Mediação S.A, a quem se atribuiu a responsabilidade da venda dos apartamentos, foi criada a 27 de Dezembro de 2007. Tem como sócios o presidente e director-geral da Sonangol, o ministro de Estado e chefe da Casa Militar e o principal conselheiro deste, respectivamente: Manuel Vicente, general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa” e general Leopoldino Fragoso do Nascimento. A empresa apresenta, como testas-de-ferro, funcionários da Casa Militar – os coronéis José Manuel Domingos “Tunecas”, João Manuel Inglês e Belchior Inocêncio Chilembo, bem como o assistente privado do general Kopelipa, Domingos Manuel Inglês “Avô Inglês”, os quais representam 0,16 por cento do capital social da empresa. No mesmo dia, representados pelo cidadão português Ismênio Coelho Macedo e com a mesma estrutura accionista, os sócios procederam também ao registo da empresa Delta Engenharia – Sociedade de Consultoria e Engenharia S.A.

A Nova Centralidade do Kilamba, denominação oficial do projecto, foi supervisionada, até finais de 2010, pelo então Gabinete de Reconstrução Nacional (GRN), afecto à Casa Militar do presidente da República e dirigido pelo general Kopelipa. Esse gabinete foi criado em 2004 para negociar a aplicação de empréstimos chineses, até agora orçados em US $15 mil milhões, em obras de reconstrução nacional por si definidas. Ao GRN, coube também a gestão dos fundos e a supervisão dos trabalhos.

A 27 de Setembro de 2010, José Eduardo dos Santos transferiu formalmente todas as responsabilidades do GRN sobre o projecto Kilamba e outros projectos similares em Luanda para a Sonangol Imobiliária, uma subsidiária da petrolífera estatal .

Apesar da falta de justificação oficial para a entrega do maior projecto de habitação social do Estado à Sonangol, analistas chineses oferecem a explicação possível: “A CITIC tem estado a tentar financiar o projecto com o seu próprio dinheiro, porque o governo já não o tem. Entregou o projecto à Sonangol, que recentemente pagou as prestações em falta. A CITIC teve de investir US $350 milhões do seu próprio banco para continuar o projecto e manter os dez mil trabalhadores chineses no local.”

Quaisquer das opções adoptadas pelo Estado determinam a contínua injecção de fundos públicos no projecto, desta vez por investimento directo da Sonangol, cujo patrão, Manuel Vicente, tem sido, a par do general Kopelipa, personagem central nas negociações com a China. Os empréstimos são pagos com carregamentos de petróleo.

A contratação da Delta Imobiliária, pela Sonangol, para a venda dos apartamentos sociais do Kilamba atropela, de forma extensiva e arrogante, a legislação em vigor. A Lei da Probidade Pública qualifica como acto de corrupção conducente ao enriquecimento ilícito o recebimento de vantagem económica, de forma directa ou indirecta, a título de comissão, entre outros actos, por acção “decorrente das atribuições do agente público” (Art. 25.º, 1.º, a).

Manuel Vicente, como responsável máximo da Sonangol, faz negócio consigo próprio ao engendrar a contratação da sua empresa privada pela estatal que dirige. Está em vias de obter lucros fabulosos, para seu enriquecimento pessoal, com a venda dos apartamentos, sob a forma da comissão que a Delta Imobiliária receberá pelo negócio. O mesmo argumento jurídico aplica-se ao general Kopelipa, uma vez que tem sido simultaneamente sócio da Delta Imobiliária, gestor máximo do projecto e indiscutivelmente influente junto do presidente José Eduardo dos Santos, a quem cabe a última palavra sobre a gestão do projecto.

Apesar da situação criminosa, a Presidência da República anunciou a inauguração do Kilamba e a gestão da venda dos apartamentos como um grande sucesso. “Consideramos esta promessa como cumprida, sendo que o Governo fez sair um comunicado onde anunciou os critérios de acesso aos apartamentos construídos na cidade de Kilamba cumprindo com a promessa feita ao povo”, assegura o ministro de Estado e chefe da Casa Civil, Carlos Feijó, na sua alocução trimestral sobre as realizações do executivo.
Cartão-de-visitas e modelo de corrupção

O projecto de habitação social do Kilamba tem sido apresentado pelo executivo de José Eduardo dos Santos como o grande modelo da sua política social.

Nos últimos dois anos, com bastante êxito, as autoridades angolanas têm convidado vários dignitários estrangeiros a visitar o projecto do Kilamba, conferindo-lhe não só notoriedade internacional mas também legitimidade interna. Os seus gestores usam o selo de aprovação das entidades internacionais para abafar as reclamações internas, enquanto “privatizam” o projecto para enriquecimento pessoal ilícito.

A presidente da Libéria, Ellen-Johnson Sirleaf, foi a mais recente estadista a visitar o projecto, a 12 de Setembro de 2011, tendo-o classificado como “grandioso e impressionante”, de acordo com a agência de notícias estatal Angop .

Em Agosto passado, durante a sua visita ao projecto, o presidente moçambicano, Armando Guebuza, considerou-o uma “maravilha” . O rei Mswati II, da Swazilândia, também lá esteve.

Por sua vez, o ministro angolano do Urbanismo e da Construção, Carlos Fonseca, falou em nome do presidente namibiano, Lucas Pohamba, quando este visitou o projecto, em Junho passado. “O Presidente gostou muito desta apresentação, naturalmente que tirou muitas lições deste grande desenvolvimento e acreditamos que poderemos prestar-lhe toda nossa solidariedade e tributo ao povo namibiano no que se refere a projectos do género.” Mais, o ministro disse que “estamos a dar um exemplo a toda África sob a perspectiva da nossa juventude que está desejosa de uma oportunidade de desenvolvimento e que este complexo habitacional vem mostrar que temos um compromisso com a juventude e com a nossa população” .

Em Junho passado, o presidente de Timor-Leste, Ramos Horta, também visitou o projecto e emprestou a sua voz ao coro da propaganda oficial: “Está de parabéns o Governo por este projecto e visão, que corresponde as ansiedades do sonho dos jovens, das famílias angolanas.”

O vice-presidente chinês, Xi Jinping, cujo país concede o crédito para o projecto, realizou, segundo o Jornal de Angola, uma visita de inspecção ao Kilamba, a 20 de Novembro de 2010 .

É caso para dizer que o projecto Kilamba, um verdadeiro modelo de corrupção em África, se tornou no principal cartão-de-visita das autoridades angolanas. O uso do crédito chinês, destinado a projectos sociais para as camadas mais desfavorecidas, passa a ser mais uma avenida, sem impedimentos, para que os dirigentes angolanos engordem as suas fortunas.

[1] http://www.cici.citic.com/iwcm/null/null/ns:LHQ6LGY6LGM6MmM5NDgyOTYyMDEzNmIwMzAxMjAxMzdlYzA1YTAwMDEscDosYTosbTo=/show.vsml
[2] United Nations Development Program, United Nations Development Program. Human Development 2010, New York: Palgrave Macmillan, 2010:145, 162.
[3] Commarmond, Cécile de. “China lends Angola $15bn, but few jobs are created”, Agence France
[4] Press, March 6, 2011. http://mg.co.za/article/2011-03-06-china-lends-angola-15bn-but-few-jobs-are-created/
[5] http://www.pr.ao/imprensa/actividade/156
[6] http://www.opais.net/pt/opais/?det=22479
[7] http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/politica/2011/8/37/Presidente-liberiana-considera-grandiosa-impressionante-cidade-Kilamba,d2c49f6b-8e2f-41e5-8c77-64264e8a8480.html
[8] http://jornaldeangola.sapo.ao/20/0/construcao_da_cidade_do_kilamba_deve_inspirar_os_estados_da_regiao
[9] http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/politica/2011/5/25/Presidente-Namibia-impressionado-com-nova-centralidade-Kilamba-Kiaxi,b89bf196-8596-4619-969e-8505a7801a89.html
Ibid.
[10] http://www.tpa.ao/artigo.aspx?sid=348369ec-7a81-4b3c-80da-d946b39ae95e&cntx=Vs4xXtQ%2BH7gvvvKZD5zkeWzSSkNyZiTmVndrE%2FwAN68xMeza75JDRvUfYTjaePcc
[11] http://jornaldeangola.sapo.ao/20/0/jinping_no_kilamba_kiaxi

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Os Quibalas de Angola depositam os chefes sobre rocha e cobrem-nos com pedras bem trabalhadas,


O luto pelo chefe pode durar várias semanas e obriga a todos. O trabalho é proibido. Nalgumas partes, a infracção castigava-se com a morte. Os que morriam durante o luto não podiam ser enterrados.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Os escravos não tinham honras fúnebres visto que a sua nula influência social não os tornava temidos nem havia interesse algum em os prestigiar como antepassados.
Também não são necessárias quando morre um estrangeiro. Como este não participa da interacção derivada da consanguinidade, a comunidade não tem nenhum interesse em o naturalizar entre os antepassados.
A infâmia de certas enfermidades ou a brutalidade do rompimento da vida não oferecem garantias duma acção benéfica. Além disso, seria um insulto aos antepassados. Assim, são excluídos, os suicidas, os tarados psíquicos, os epilépticos e os celibatários.
Logo depois de morrer, enterram os feiticeiros, quase sempre mutilados (partindo-lhes as pernas, por exemplo) para que não voltem, ou abandonam-nos aos animais, ou queimam-nos e dispersam as suas cinzas ou lançam-nas à água.
Nalguns grupos, também sofrem esta sorte os que morrem de fome. Tem receio que, se forem enterrados dentro do território comunitário, a propaguem.
Há grupos que crêem que os condenados por feitiçaria se revestem, no além, de um corpo insignificante, repugnante, com um cheiro nauseabundo e com cabeleira encarnada. Levam uma vida errante por regatos e mananciais, encarnam em bestas ou em gatos (por isso, rejeitam este animal) e comem carne humana.
Castigados a não participar na vida dos seus parentes, dedicam-se a transtornar o ritmo de vida individual e comunitário. Pela sua índole malévola, inveja, ressentimento e vingança, podem ocasionar toda a espécie de males, inclusive convulsões sociais. Até conseguem possuir indivíduos. Rondam de noite pelas aldeias e intervém no feiticismo. Podem aparecer aos vivos em forma de espectros ou fantasmas. A sua visão produz a morte do visitado ou de algum familiar.
Logo que alguma pessoa morre, os seus familiares começam a chorar, a gritar e a dançar sem cessar, com um ritmo cadenciado e monótono. Lamentam a sua perda, chamam-no pelo seu nome, agradecem os seus favores, exaltam as suas virtudes, amaldiçoam o causador da morte e desejam a felicidade ao defunto.
Os parentes e amigos acompanham a gritaria com gestos, contorções e danças. Assim, demonstram aos antepassados a bondade do falecido, que procuram contentar para que não regresse carregado de influências nefastas. As festas, além disso, entretêm e dão coragem ao defunto enquanto espera a sua transformação em antepassado.
Lavam, o cadáver, vestem-lhe as melhores roupas, perfumam-no ou besuntam-no com óleo de palma. Alguns grupos, depois de o desnudar e antes que lhe chegue a rigidez, colocam-no na posição em que deve ser enterrado: sentado de cócoras, com os braços sobre o peito.
Cobrem-no com um pano, manto ou pele de boi e fica sentado numa cadeira ou deitado numa esteira. Assim preside às festas. Os familiares e amigos passam pela sua frente a saudá-lo antes de participar nos ritos.
Esta preparação do cadáver não só honra a sua família como privilegia o defunto, que se apresenta com dignidade no além-túmulo.
Não praticam nenhum género de mumificação, embora por vezes esvaziem o cadáver apertando-lhe o ventre.
Logo que uma pessoa morre, saem os emissários a comunicar a notícia à parentela. Todos têm de ser avisados ainda que se encontrem distantes. É que o parente que não vai aos ritos pode ser acusado da feitiçaria causadora da morte. Além disso, é um dos momentos em que mais se acentua o sentimento de solidariedade comunitária já que colaboram com o parente para que encontre paz.
Mesmo que trabalhem na cidade, deixam as obrigações e deslocam-se às suas aldeias. Só circunstâncias extremas podem impedir a participação nas festas fúnebres dum familiar.
As cerimónias duram dias. O cadáver costuma chegar a decompor-se. Abundam a comida e a bebida. Matam bois, cabras, porcos, e galinhas. Cada familiar contribui com algum presente. As mulheres preparam as bebidas tradicionais, os instrumentos de música arrancam e a dança começa.
Comendo e bebendo, conversando e dançando, passam vários dias. São as grandes festas da sociedade bantu. E, como a mortalidade é grande e a parentela extensa, encontramos o bantu em frequentes festas.
Não se esquecem de derramar um pouco de sangue das vítimas ao redor do cadáver para que participe também, ou com ele aspergem as paredes da casa para mostrar ao defunto e aos antepassados que os sacrifícios cruentos são propiciatórios e impetratórios. De vez em quando, um dos parentes chega junto do cadáver e oferece-lhe um bocado ou um gole que entorna a seus pés ou lhe introduz na boca.
Estas comidas e bebidas tentam diminuir a tristeza do morto para que se conforme com a mudança operada.
Suspeitamos também que estes sacrifícios de vítimas animais encerram um conteúdo sagrado, sacrificial e inclusive de aliança, que hoje se perdeu ou que não conseguimos captar. A dança e a alegria exteriorizam o prazer da participação conseguida «mistericamente». Assim, mundo invisível e visível fundem-se na mais eficaz comunhão e o defunto honrado torna-se definitivamente comungante-participante com os dois mundos
A maioria dos grupos sacrificam animais, sobretudo bovinos, somente nestas festas. Embora precisem de proteínas e sendo o bantu um apreciador incansável de carne, reservam os seus animais para os alambamentos e para aos sacrifícios propiciatórios. Os ritos fúnebres, pela abundância de animais mortos, desempenham uma missão compensatória do desequilíbrio alimentício e da errada dietética.
Estes ritos terminam com uma refeição que consolida a familiaridade. Decorre no meio de muita alegria porque o defunto já está satisfeito, em companhia dos seus antepassados e pronto a revigorar a sua comunidade.

O enterro
Muitos grupos enterram os defuntos perto de suas casas ou dentro delas e destroem-nas quando termina o luto.
É mais comum sepultá-los junto da aldeia e à beira dos caminhos para que os vivos lhes rendam uma pequena homenagem, todas as vezes que passam, inclinando a cabeça, guardando silêncio ou depositando alguma oferta no túmulo.
Encontram-se cemitérios em paragens solitárias e bem defendidas nas florestas. São cemitérios familiares, embora possam pertencer ao grupo. Normalmente cada aldeia tem um cemitério comunitário.
Os povos pastores enterram o chefe de família reduzida no curral dos bis ou no lugar onde se acende a fogueira, dentro da cerca de paus que rodeia a casa, onde enterram também as mulheres. As crianças sepultam-nas no curral dos vitelos, os jovens junto de sua casa, as raparigas iniciadas dentro da cerca onde guardam os pilões da farinha.
Os especialistas da magia, bem como os caçadores e guerreiros, quando tem renome, são enterrados à beira dos caminhos muito frequentados ou nas encruzilhadas, e sempre ao pé duma árvore para pendurar os seus instrumentos de trabalho, armas e troféus.
Pode-se deduzir que procuram contentar o defunto colocando o seu cadáver em lugares familiares e rodeado dos seus objectos e bens, ao mesmo tempo que fortificam com a sua presença a solidariedade.
Em alguns lugares, colocam o cadáver numa cubata especial onde permanece meses ou anos até ser enterrado.
Normalmente, cavam na terra sepulturas horizontais com quase dois metros de profundidade. No fundo e ao lado, abrem uma câmara mortuária onde colocam o defunto deitado ou de cócoras. Isolam-nas com ramos.
Quando enchem a sepultura, a terra não toca no defunto. A esta câmara podem vir visitá-lo os seus familiares antepassados, e ajudá-lo a completar o rito de passagem.
Outros grupos cavam as sepulturas em forma circular porque colocam o cadáver de cócoras. Alguns enterram-nos de pé.
Os Quibalas de Angola depositam os chefes sobre rocha e cobrem-nos com pedras bem trabalhadas, formando um sarcófago rectangular. Submetem os cadáveres a uma espécie de mumificação. Introduzem-lhes pela boca, com a ajuda dum funil, óleo de palma a ferver. Esta operação prolonga-se até que as vísceras desfeitas lhes saem pelo reto.
A prática muito espalhada de colocar o cadáver de cócoras, em posição fetal, simboliza o seu segundo nascimento. Talvez também o deixem assim porque é uma das posições preferidas pelos Bantus, que aguentam nessa posição horas seguidas.
Não há unanimidade na orientação do cadáver, se bem que a maior parte o coloca na direcção este-oeste; outros colocam-no na posição norte-sul. Pensamos que não dão importância a este pormenor pois não têm mitos nem crenças astrais.
Os participantes nas festas fúnebres acompanham o cadáver até à sepultura e observam silêncio. Só os mais chegados podem repetir os lamentos e enaltecer o defunto, que transportam aos ombros ou atado a um pau comprido.
Outros grupos permitem estas manifestações quando o morto sai de casa e é enterrado, pois durante o caminho não são permitidos. A comitiva avança a passo rápido com ruidosas manifestações de alegria.
Os que algum modo estiveram em contacto com o cadáver, ao que o transportaram e em geral os acompanhantes, depois do enterro têm de tomar banho num rio para «tirar o cheiro do morto», ou lavar as mãos.
Há grupos em que o viúvo e o homem que amortalhou a defunta ficam em interdito social pela sua excepcional impureza. Não podem fazer vida comunitária, enquanto a família da falecida não lhes proporcionar duas mulheres. As relações sexuais limpam a impureza e destroem o tabu.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Os assassinatos são muito raros. Abunda todavia a vingança mortífera do veneno.


A. Kagame insiste em que o Deus bantu não pertence à categoria de «ntu» (ser finito): porque a noção do ser não é unívoca, e sim análoga.

Embora seja mais comum chamar a Deus de Pai, em alguns grupos aparece como Mãe. Um velho soba quimbundo chamava sempre a Deus «Mama Nzambi» (Deus-Mãe) e não «Tatá Nzambi» (Deus-Pai), que seria o comum.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Referimo-nos apenas aos nomes usados em Angola. A denominação mais comum na área banta e empregada em 24 línguas é a de Nzambi, com estas variantes: Nyambe, Njambi, Nzambe, Nzame, Nzama, Njambe, Nsambi, Tshambe, Inambie, Inandzambi, Nhambe e outros.

O. Ribas afirma que deriva de «Kuzamba»: «presentear (a vida, o mundo)»: «dizer, fazer, executar, modelar, ordenar», isto é, «aquele que cria, fala, organiza e faz».
Pode também originar-se da raiz «Yamba» (recompensar, remunerar). Nzambi seria «o remunerador, o benfeitor», ou do radical «mbi», essência pessoal. Expressaria uma entidade abstracta. Em quicongo chamam-lhe «Nzambi-Mpungu» «o grande, o forte, o todo-poderoso, o perfeito, o bondoso, o imenso, o excelente», talvez, porém, por influência cristã.
De qualquer forma, «o sentido original de Nzambi… permanece obscuro, como diz Van Wing. Não obstante, esta obscuridade será relativamente menos densa, uma vez que os dois significados «dizer e fazer» poderiam referir-se a «criar pela palavra e pela acção».
Outro grupo de nomes provém dos radicais «umba, panga, unda, tongla, ilola e, sobretudo, unga» que dão uma noção de «criar fabricando, dando forma, modelando». Assim «Mbunda, Pamba, Umbumbi, Maunda, Karunga, Kalanga, Katonga, Umbumba e Kalunga».
Kalunga (Deus) aparece em vários grupos etnolinguísticos angolanos, norte da Namíbia, fronteira de Angola (nordeste) com o Congo (Zaire) e em grupos junto ao lago Kivu e lago Tanganica. Kalunga, etimologicamente, significa «aquele que, por excelência, reúne». Em diversas línguas bantus, significa também o mar, o oceano, o infinito, a morte, o rei do mundo subterrâneo ou mar, o que atrai a chuva. Kalunga
Encerra um significado real de Grandeza, Imensidão, Infinidade.
Não há certeza sobre o sentido etimológico dos nomes de Deus «Suku, Huku, Sugu».
Alguns os deduzem do verbo «oku-huka»: sobressair, exceder, sobrepujar. Assim, Deus seria «O Altíssimo, o Excelso, o Grande, o Impenetrável.»
Campbel opina que «Sku» quer dizer: «O que socorre as necessidades de suas criaturas».
Outros opinam que poderia derivar-se da palavra umbunda «esuku» (medula das árvores) ou de «uasuku» (o último). Suku seria, assim, o «primeiro de todos».
Parece mais acertado derivá-lo das palavras, também umbundas, «sekulu» e «ise-yukulu» («o velho dos velhos»),« a raiz dos velhos» Deus seria «o pai mais velho de todos os pais humanos.

Tipo cuvale (Kuvale). Puros pastores nómadas do grupo Herero. Somatologia mista caucasóide-bantu: as tradições e diversos traços culturais acusam origens camitas.

Encontra-se uma infinidade de alusões ao controlo divino do universo. Não duvidam de que é o Senhor do mesmo, o seu dono, que vê e conhece os segredos da criação e do homem. Para Deus não há mistérios. «Os Ba-Nhanekas e os Ba-kumbis designam com o nome de Huku ou Suku… ao Deus invisível que vê o que nós fazemos, ouve o que dizemos, e sabe o que pensamos.

Os Quimbundos de Luanda conhecem os «quituta» que vivem nos rios, bosques, rochas, fontes. Podem aparecer em forma de cobra com chifres ou de monstro horrível e encarnar através do pai ou da mãe. Também acreditam nas «quiandas», sereias que aparecem na forma de pessoa, costumam ocasionar deformações físicas.
Os génios fixam o seu habitat em lugares e árvores especiais. Para vários angolanos, alguns embondeiros gigantes, os baobás, ficam sacralizados com a presença de génios bons e protectores, e constroem ao pé deles pequenas cubatas-santuários onde lhes oferecem culto. Era frequente dependurar os cadáveres dos feiticeiros dos seus ramos, para que os génios impedissem as suas acções nefastas.
Controlam muitos lugares da natureza, quando habitam neles, bem como as actividades humanas nesse meio.
Há génios no ar, na chuva, na tormenta, no fundo da terra, nas selvas, lagos,, rios, nas nascentes, na caça e pesca, nas culturas, viagens, estepes e até nas enfermidades misteriosas.

Também é certo que, depois duma história de guerras, epidemias, fomes, escravidão e enfermidades endémicas, já se habituaram a morrer. A mortalidade é tão elevada e a morte tão imprevista que se lhes tornou familiar. «Esta familiaridade com a Morte é também uma herança africana».
Fatalismo irremediável, resignação, gozo pela passagem, diminuição do ser, mistério e absurdo, desgraça, impotência, transtorno social, consumação, nova realização individual e comunitária, revolta perante um violento desastre antinatural, segurança, receio? Nenhuma destas definições esgota o sentimento bantu ante a morte, mas parece que, no seu conjunto, a definem.

Causas da morte
Os assassinatos são muito raros. Abunda todavia a vingança mortífera do veneno. A maioria das mortes derivadas de consultas ao adivinho são provocadas por fulminantes drogas venenosas.
A origem mais é a feitiçaria. O bantu acredita que algum membro da comunidade, dotado de poderes mágicos ou que deles se apoderou, fulmina a vítima e permanece oculto.
Os familiares do morto recorrem ao adivinho para que descubra o feiticeiro criminoso. O adivinho apresenta um espelho, uma faca e uma cabaça com água, em cujo interior repousam pós vermelhos. Sentam-se na espessura da floresta. O adivinho chama com uns assobios produzidos por um chifre de cabra ou antílope, com palavras esotéricas e gestos cabalísticos, o feiticeiro. Em seguida, no espelho, por vezes na água, aparece a cara do defunto e a seu lado outra pessoa. É o feiticeiro causador da morte.
O adivinho mergulha a faca na água que se tinge de vermelho. Simboliza o sangue do feiticeiro que morrerá, ainda que se encontre longe. De facto, a sua morte realiza-se ou por acção dos familiares ou por acção de algum dos secretos cúmplices do especialista.
Utilizam o veneno como arma mais frequente, discreta e eficaz. Asseguraram-me muitos, porque viram, que o espelho reproduz as imagens. Será necessário apelar para o enorme poder de sugestão que a milenária experiência sedimentou nos adivinhos bantus ou para poderes parapsicológicos de que fazem gala muito amiúde.
Outras vezes, dependuram o cadáver, atado de pés e mãos a um pau ou colocam-no numas andas. Dois ou quatro homens passeiam-no pela aldeia. Diante de toda a assistência silenciosa e aterrada, o adivinho pergunta ao cadáver: - Quem te matou?
O cadáver quase sempre se detém diante duma pessoa e se move bruscamente. Não há dúvida, aquele indivíduo foi o feiticeiro.
Estas práticas originam vinganças, arbitrariedades, abusos e um medo generalizado. É que o acusado não pode apelar, visto que o bantu admite um tipo de feitiçaria inconsciente, como vimos, e, além disso, nunca pode demonstrar a sua inocência ante uma prova tão irrefutável prestada desde o além-túmulo por um defunto ou seus antepassados.
Acusam em especial os indivíduos anti-sociais, misantropos, apáticos, defeituosos, irascíveis, a quem os familiares ou o adivinho odeiam, e os mais ricos. Realizam assim uma assepsia social e uma circulação de bens.

Ritos fúnebres
Pelo contrário, se se realizarem com descuido ou forem deformados, o defunto esquecido vagueará sem destino, desgraçado, e o olvido dos seus acarreta desprezos e terríveis vinganças para os vivos. Converte-se num perigo permanente e pode ocasionar males.
A solenidade dos ritos está em proporção com o prestígio social e, sobretudo, com a influência vital do defunto. Os chefes merecem honras especiais que se revestem da maior solenidade, com a reunião da comunidade. Assim, conservam o seu estatuto social no outro mundo e não guardam ressentimentos contra as suas comunidades que, por outro lado, desejam prestigiar-se com pomposas festas, as comidas, bebidas e danças adquirem tal relevo, que não há festa que as supere. Vi, nestas ocasiões, sacrificar até quinze bois! As festas poderão prolongar-se por um mês se o chefe for importante.
Está bastante espalhado o costume de deixar corromper o cadáver do chefe até que a cabeça se desprenda do tronco. O crânio deve ficar para o herdeiro, como feitiço protector. Às vezes, arrancam-lhe as unhas para fabricar poderosos feitiços ou manter viva a sua presença, já que a sua personalidade se prolonga até aí.
Confiam tanto no seu poder que, em muitos grupos, os dignitários o sepultam num lugar escondido, por exemplo no leito dum rio, para evitar que seja esquartejado e a sua carne destinada a vivificar feitiços.
Foi frequente ocultar a morte do chefe durante meses, até um ano por vezes. Talvez tentassem evitar convulsões sociais ou fosse exigido por situações políticas.