quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Mito Solongo de Diogo Cão e o seu contexto. Breve história antiga do Soyo e do Kongo


"Breve história mítica antiga do Soyo e do Kongo !..."

Debatem-se ainda hoje várias opiniões (às vezes opções...) sobre as origens remotas e a "fundação" do Reino do Kongo, sem se fazer sequer muita atenção à extensão ou validade dos conceitos "fundação" e "Reino" e introduzindo no respectivo estudo terminologias discutíveis que, infelizmente, vamos uma vez mais ser obrigados a utilizar por falta de melhor solução.

Entretanto, e independentemente dessa indecisão terminológica, não parece ainda possível descrever o processo de formação destes Estados da África Central com um mínimo de precisão.

Correm vários mitos que a ele se referem, e sobre esses mitos chocam-se várias leituras. O panorama dos resultados é vasto, é rico, e é vago.

A documentação que nos chega não se refere a estas épocas senão como reflexo duma tradição oral muito posterior e tem-se visto mais do que uma vez, os velhos e outros informantes de trabalhos de campo recitarem o que vem escrito nos livros que estiveram ao seu alcance.

Por vezes os relatores dessa documentação não tinham discernimento suficiente para entrar em subtilezas semânticas dos conceitos que usavam e que eram os que definiam a sua própria sociedade, como os conceitos de "pai", "tio", "sobrinho", "filho", etc.

O termo "Mani" muito usado nessa documentação para distinguir os mais altos aristocratas, tais como o "Mani Sonho", o "Mani Kongo", o "Mani Bata", etc. que se saiba, nunca foi confirmado no terreno por pesquisadores mais modernos e logo mais completos
.
Tudo parece indicar que se trate de uma corruptela de "mwana" significando, "filho" no sentido hierárquico e não genealógico.

Para António Gonçalves, o acto de conceder uma terra ou um território a um visitante ou a qualquer pessoa, é um acto de paternidade.

O "Mani Soyo" da época de Diogo Cão falava do rei do Kongo como "seu sobrinho", não porque fosse necessariamente seu "tio" mas sim porque eram ambos do mesmo clã e ele, o do Soyo, era o mais-velho do clã, o Nkunkulu, título que sempre preferiram e respeitaram os chefes solongo originários de Mbanza Kongo.

Mas apesar destas dificuldades vale a pena passar uma rápida vista de olhos pela mitologia destes povos quanto mais não seja para ganhar outra e tremenda dúvida:

Quem eram afinal os basolongo?

Os basolongo são eminentemente patrilineares.

Os muxikongo (de Mbanza Kongo) e todos os outros bakongo que se conhecem, identificam-se pela filiação matrilinear. Donde vem essa diferença tão significativa? Corresponde às diferenças entre dois povos de origens diversas que se encontraram e aliaram de várias maneiras, ou à diferenciação operada durante um processo comum?

Os basolongo falam um dialecto, o kisolongo, bem distinto do kikongo clássico de Mbanza Kongo. Porquê?

Isso é mais uma vez o resultado do encontro de dois povos diferentes que se aproximaram ou de um só povo que se diferencia em partes?
O Mito de Lukeni

Há portanto mais do que um mito referindo-se ao processo de formação do Estado do Kongo, dito geralmente Reino do Kongo.

Todos eles têm a mesma linha narrativa, isto é, falam da primeira migração de um grupo de linhagens associadas, simbolizadas pelo nome de um herói mítico, um "herói fundador" como Ntinu Wene, como Nimi a Lukeni, falam também de um contexto centro-africano onde se insere o itinerário percorrido, este último fixando um território que virá a consagrar fronteiras míticas do referido Estado.

Para o efeito que se pretende neste breve estudo, todos esses complicados enredos não são muito relevantes.

Mas não poderíamos compreender o "mito de Diogo Cão", o navegador português que atingiu as praias do Soyo pela primeira vez, sem compreender também o que eram e como se desenvolviam os basolongo, isto é os habitantes do Soyo, assim como, qual o ponto da situação, na altura, em relação ao Estado do Kongo.

Tomamos aqui uma síntese das versões conhecidas do mito talvez mais representativo referido à formação do Estado do Kongo, o mito de Nimi a Lukeni.

Segundo a documentação dos séculos XV e XVI, e segundo a interpretação mais corrente, a "fundação" do reino do Kongo parte de uma formação Yombe vinda de Vungu, na margem direita do Zaire, provavelmente no Mayombe, que teria emigrado no Século XIV que se encaminhou para a margem esquerda do rio onde acabou por fundar Mbanza Kongo.

Diz-nos esta tradição que vivia no ponto de partida um chefe chamado Nimi a Nzinga. Nzinga é um nome atribuído a um grupo de linhagens aliadas que se pretendiam descendentes do mesmo antepassado.

Um determinado ramo do grupo Nimi a Nzinga, chamado Nimi a Lukeni, é o que está na origem da fundação da capital do Kongo, na margem Sul.

Neste conjunto, Nimi a Nzinga, nome dominante, é o de uma aliança patrilinear. Lukeni é um nome da linha matrilinear. Assim, Nimi a Lukeni é "filho" de Nimi a Nzinga e de uma certa Nzanza que pertence a outro subgrupo chamado Nsaku Lau.

O herói "Lukeni" partiu, pois da aldeia do seu "pai" e, em Mpemba, a região de Mbanza Kongo, derrotou o chefe local Mbunlulu Mwana Mpangala.

A história posterior revela uma aliança importante do poder com uma série de senhores que a documentação mais antiga designa por "Mani Pangala" que representa as linhagens locais com importância determinante nos assuntos religiosos e na gestão da "propriedade linhageira".

Uma outra lenda sobre a "fundação" do reino do Kongo que não vamos tratar nestas páginas, relatada por A.Cordeiro em 1624, diz que Mbanza Kongo foi fundada por Ntinu Wene (ou Motino- Bene), "um filho mais novo do Rei de Vungu" o qual teria conquistado e unificado as numerosas chefaturas em que estava dividida a formação local Kongo.

A narração deste mito está ornada com os parâmetros habituais da linguagem mítica. Nela se destaca um personagem que vem de longe com uma intenção reformadora (ou conquistadora) e com uma comitiva ou "a sua gente", um itinerário muito bem definido, o encontro com mandatários locais, e a instituição de uma aliança que assume formas diversas, desde o casamento com uma mulher aborígene a uma guerra seguida de vitória total mas sempre generosa.

Seja como for todas as lendas estão de acordo com um ponto de origem em Vungu, donde rompeu uma migração cujo nome designa não a pessoa nem sequer o conteúdo étnico do grupo mas apenas a linhagem dominante, que chegou a Mpemba, onde fundou a cidade de Mbanza Kongo.

Importa referir que o missionário A. Cordeiro, Duarte Lopes/Pigafetta e todos os cronistas que se referiram à expedição de Diogo Cão, fixaram para a posteridade o nome de Nzinga a Nkuwo, como sendo o rei do Kongo que os portugueses encontraram e que veio a chamar-se D. João I.

Nzinga e Nkuwo são, uma vez mais, nomes clâmicos que se repercutem por toda a história do Kongo e, principalmente o primeiro, é uma chave para a história do Soyo e dos seus conflitos internos.

Diz também a tradição Kongo que este rei teve um filho (entre outros) chamado Mvemba a Nzinga (D. Afonso I) e Cordeiro acrescenta que a (linhagem central) Mvemba Nzinga deu "os grandes reis até Henrique I" e ocupou os territórios de Mpemba e Soyo, o que significaria que se estendeu nesse território pelo menos desde Lukeni até ao "príncipe Nezinga" que incluiu o Soyo no território do reino.

Com efeito, a partir de Mbanza Kongo teve lugar um processo de expansão por todo o território que acabou também por chegar ao Soyo e assim, é o sangue Mvemba a Nzinga que entra no Soyo através de um outro personagem ou herói que pertence já à mitologia local e que se chama Nzinga a Mvemba (designado na tradição soyo como "o príncipe Nezinga").onde encontra os basolongo e organiza um estado sujeito à coroa central.

Nas linhas que se seguem vamos ter ocasião de ver como as linhagens reais em Mbanza Kongo tendo vindo de fora, ficam ligadas ao poder local Mpemba Nkazi assim como no Soyo a linhagem estrangeira (Mvemba Nzinga, vinda de Mbanza Kongo) sediada no Pinda, se liga ao chefes da terra (do Pângala).

Os Mitos de Fundação no Soyo

Todos os velhos do Soyo, tanto os das linhagens "da terra" como os das linhagens "de fora" (de Mbanza Kongo) estão de acordo que Nezinga, o "príncipe Nezinga", é o verdadeiro fundador do Estado do Soyo embora absorvido pela soberania Kongo.

Mas, em 1980, os velhos ligados ao poder de então que estava nas mãos das linhagens "da terra" - em que um regente (na falta de um rei coroado) utilizava o título de Soyo dya Nsi- afirmavam que a gente que Nezinga encontrou no Soyo, era um povo organizado e evoluído, produto duma migração muito mais antiga dirigida pelo herói Nentombe. A origem de Nentombe não porém muito clara.
A sua função ideológica sim: a de criar uma formação dona da terra antes de Nezinga. Algumas das versões recolhidas dizem: " Nentombe foi colocado por Deus aqui na terra do Soyo...".

Outros porém afirmavam que "Nentombe é originário de Mbanza Kongo.
Os espíritos arrastaram-no para o Soyo... ".

Em todo o caso o herói permanece um personagem misterioso que simboliza uma migração muito remota, cujo itinerário, passando pelo Ambriz no Sul até Noki na margem do Zaire, estabelece um território que se pode considerar mesmo ainda hoje, o território solongo.

Além disso, de certo modo o mito é confirmado pela tradição Nezinga onde se diz que este príncipe encontrou no Soyo uma sociedade rica, evoluída mas fragmentada, vagamente dirigida por um chefe designado Soyo dya Nsi, sediado no Pângala.

De tudo isto ressalta com bastante evidência um conflito de poder -- e de posse de terras -- no Soyo, entre os descendentes de Nentombe e os descendentes de Nezinga, que vem até hoje.
A lenda de Nezinga tem também um itinerário significante, como todas as outras, que sai de Mbanza Kongo, vai ao Nzetu (zona do Ambriz) desce para a foz do Zaire e chega ao Pângala onde está o Soyo dya Nsi , estabelece uma aliança em que fica claro que Nezinga segura o poder mas o Chefe local continua o dono da terra.

Depois prossegue na sua viagem através da qual foi espalhando o sangue Mvemba a Nzinga com casamentos dos quais resultam mais de trinta filhos.

Um dos mitemas principais da tradição Nezinga é o conflito surgido entre os seus próprios filhos e dos filhos com o pai, por ocasião de uma doença deste, por via das misturas de sangue de que eram portadores e dos diferentes compromissos que elas implicavam.

Num outro mitema diz-se que Nezinga, depois de firmado o acordo com Soyo dya Nsi, voltou a Mbanza Kongo exibindo esse excelente trunfo assim como duas cabaças, uma com água do mar (a riqueza) e outra com areia do solo ( a numerosa população local), faz-se perdoar e é acreditado pelo rei como governador das terras donde viera.

Algumas versões recolhidas informam que Nezinga recebe autoridade sobre o Soyo por parte do rei do Kongo seu tio, para resolver "os casos simples" deixando para ele, Ntotila, "os casos complicados".

Este mitema vem a repercutir-se, como veremos, no mito de Diogo Cão.

Finalmente, e para não alongarmos muito este texto fora do assunto principal, resta acrescentar que, depois do conflito de Nezinga com os seus filhos, estes foram deserdados excepto as duas filhas, Ndilu e Mfutila que se haviam mostrado obedientes por amor filial.

O mito prossegue, depois da morte de Nzinga através dos seus sucessores.
O herdeiro do trono solongo foi o filho de Ndilu, a filha mais velha, que se chamou Mvemba a Ndilu.

Mas quando cresceu o filha de Mfutila, a mais nova, a mãe exigiu uma parte da herança segundo as orientações do falecido pai.

Gerou-se um conflito que resultou na partilha do Soyo em dois Estados: o Soyo de Cima (Mfutila Nentandu) e o Soyo de Baixo (Mfutila Neanda) situado na margem do Zaire, aliás o centro do conjunto político. Enfim, este mitema da partilha do Soyo explica o estado actual da sociedade e do poder solongo que de facto apresentam uma divisão em duas partes, hoje bastante diluída.

O panorama político-social do Soyo à chegada da expedição de Diogo Cão, é pois o de um Estado solongo, dividido em dois, o Soyo-de-Cima ao Sul e o Soyo-de-Baixo, ao Norte. o todo é contudo uma dependência do trono Kongo em Mbanza Kongo, onde reina provavelmente a linhagem Mvemba Nzinga.

A comunidade solongo, além de dividida por dois Estados entre os quais o Soyo-de-Baixo, sediado no Pinda (mais exactamente no Kitxitxi, segundo a tradição Nezinga) detém o poder central de etnia, contem igualmente um certa diferenciação classista onde se destaca uma camada social aristocrática, ela própria dividida também em duas camadas aliadas mas contraditórias vindas de fontes diferentes:
a dos chefes das linhagens locais e a dos chefes das linhagens Mvemba Nzinga originárias de Mbanza Kongo.
Resta acrescentar que, tendo sido possível em 1990, recolher várias listas genealógicas do trono solongo "desde a sua fundação" mais ou menos desiguais mas semelhantes pareceu-nos interessante apresentar aqui aquela que se revela mais sólida, embora apenas até à época do navegador português:

Mvemba a Ndilu - neto de Nezinga e primeiro soberano, portanto depois da fundação do Estado através do herói Nezinga.
Nkinvi kya Mvemba
Nkulumba dya Ngolowolo - que aparece em outras listas com o nome de NKUKULUMBA NEKOKANLOKO
Nekyanvu Kya IkwaNdom Malele kya Nsi - o soberano do Soyo à chegada de Diogo Cão.

Pretenderam sempre os nossos informantes que todos estes nomes pertencem à camada Mvemba Nzinga.
Contudo o nome Kya Nsi, de Dom Malele, que significa "da terra", parece desmenti-lo. Somente estudos mais detalhados poderão esclarecer este assunto.
O Cisma Antonino do Século XVIII e suas consequências

A cosmogonia tradicional solongo não difere muito da dos outros povos desta parte de África.

Ela é simplesmente, como tudo o que pertenceu ao antigo reino do Kongo, muito mais agitada.

De uma maneira geral e breve, é próprio dessa cosmogonia o culta da água (implicando o da chuva com o seu sacerdócio específico e seu sistema de pensamento), da árvore (principalmente o da mulembeira ou mulemba ("ensendeira" na documentação que a ela se refere) e o da pedra.

Os espíritos são os Nkisi Nsi e habitam preferencialmente em certas lagoas como a nascente que abastecia a Missão Católica do Pinda e que se chamava Malu ma Madiya ("Água de Maria"), mas eles também costumam roçar-se pela folhagem da grande mulembeira da casa do chefe, o que é visível quando a copa da árvore se agita chamando a atenção dos velhos que conversam à sua sombra.

Os gémeos, essas criaturas controversas enviadas ao casal para o pôr à prova, habitam igualmente as camadas superficiais da água depositada. Mas sob essa camada há outra, a dos albinos, os adversários dos gémeos.

A pedra e a árvore são também habitáculos de cargas mágicas e geradoras de mitologia.

Da pedra surgiram um dia os homens brancos, ao passo que os negros tinham nascido das árvores.

O culto dos antepassados (de certo modo, o dos gémeos também) é talvez o mais formal da religião tradicional do Soyo.

Ele é praticado em todas as aldeias num altar constituído por um pequeno telheiro com não mais de um metro de altura, que esconde uns orifícios no solo através dos quais se comunica com os antepassados.

Chama-se Mvela e há entre estes altares uma hierarquia estabelecida que apresenta no Pângala, o mais importante dentre eles: o Mvela kya Soyo, que cobre o povo de todo o território, tanto para o Soyo-de-Cima como para o seu vizinho do Norte, onde se encontra.

Mas é, provavelmente o culto da chuva o mais determinante, porque se relaciona com a sobrevivência material das pessoas, com a fertilidade e com a mulher. O seu sacerdote é designado Kintumba e a sua importância é tão grande que a coroação de um novo soberano no Soyo tem de ser presidida e ministrada por ele.

É também o Kintumba que faz vir a chuva através de um culto hoje sincrético, onde se reza um padre-nosso em kisolongo, apenas parecido com o original cristão em português.

Sobre este contexto vem justapor-se a ideologia cristã desde o século XVI. Como afirma Thorton.
Porém, essa cristianidade "... era aceite, não como uma nova religião mas como um culto sincrético, integralmente conservado com outros cultos do Kongo e derivando do Kongo e não da cosmologia cristã ou europeia".

Hoje a atitude religiosa dos basolongo é, de certo, predominantemente cristã. Mas atrás dessa atitude que devia implicar um sistema ideológico igualmente cristão desenham-se todas as correntes místicas que a atravessaram e reconfiguraram num composto bem difícil de interpretar.

Ressalta porém de tudo isso que da cosmogonia tradicional à ideologia oficial de hoje mais ou menos cristã, intromete-se com uma força afinal determinante, o culto antonino que nasce no fim do Século XVII na região de Mbridje (alto Ambriz) e se difunde a partir do Soyo absorvendo de forma avassaladora a consciência dos basolongo e não só, espalhando-se por todo o território Kongo, e novamente não só.

As raízes desse culto podem ser reportadas a uma velha do Ambriz, Apolónia Mfumaria, conhecida igualmente por Mfuta Mfumaria (Mfumadiya) que afirmava, entre outras, coisas ter encontrado no rio a cabeça de Cristo (uma pedra arredondada e vulgar) com sinais do seu descontentamento em relação aos pecados dos homens.

Daí surgiram os primeiros mandamentos do antonismo, condenando os antigos feitiços, o trabalho aos domingos, e sobretudo criticando o Senhor D. Pedro IV de Água Rosada, candidato ao trono central do Kongo, que se refugiava no Kimpango, temendo os seus rivais na posse da coroa até então abandonada.

Para a apóstola do antonismo, D. Pedro devia marchar sobre S. Salvador e proclamar-se rei do Kongo.

Com efeito o retrato político dessa época que resultava da desastrosa batalha de Ambwila contra o Governo colonial de Angola (1666), onde teriam perecido "mais de cem mil homens", era o de um Kongo desmembrado, dividido em ducados, e marquesados mais ou menos independentes a fazerem guerras uns aos outros e a recolherem escravos, com dois candidatos ao trono, de clãs rivais, respectivamente D. Pedro de Água Rosada, um Kimpangu, da estirpe dya Nlaza, e D. João II Nsimba a Ntando, um Kimpanzu, da estirpe dya Nlemba, refugiado em Bula ( mais ou menos Kinshasa actual) a evitarem enfrentar-se pela posse da coroa e pela reunificação do reino.

Depois da velha Apolónia surgiram outros apóstolos igualmente reformadores que aprofundavam mais um pouco o novo credo, até que do Tubi, uma aldeia solongo onde era a chefe (mfumu), surgia a figura impressionante de Beatriz Kimpa Mvita, a Santa Beatriz, ou Beatriz do Kongo como ficou conhecida pelos historiadores.

Beatriz, uma jovem muito bela segundo um relatório do capuchinho Bernardo da Gallo ao papa Clemente XI datado de 1717, relança o movimento que pela primeira vez se constitui em "cisma antonino".

Ela afirma ter estado no céu com S. António o qual lhe propôs um programa reformador que limpava o culto cristão de suas impurezas feiticistas e outras, como o crucifixo que não era mais que um amuleto, definia uma moralidade de tipo novo, e fixava como objectivo central a reunificação do Reino do Kongo, único meio de racionalizar o tráfico de escravos que andava ao sabor dos apetites dos grandes senhores, de criar uma sociedade crente, justa e sem preconceitos, de fugir também à influência terrível dos capuchinhos italianos que missionavam a coberto do Governo de Angola, do Papa e daqueles senhores da guerra.

Este movimento conheceu uma amplitude inesperada, e face à atitude irresoluta de D. Pedro de Água Rosada, dividiu mais o poder ainda em suspenso com um novo candidato ao trono, o General "Chibenga", ou seja, D. Pedro Constantino de Almada, então Capitão General de D. Pedro de Água Rosada.

A força do movimento era muito grande na primeira década do Século XVIII.

Os escravos bakongo abandonavam seus amos e apresentavam-se ao antonismo que se estruturava à maneira duma seita activa e contestatária.

Uma oração nova, a Salve Antoniana, substituía a Salve Reginae da liturgia católica e constituía o verdadeiro manifesto do antonismo.

Para os antonistas, Jesus Cristo era natural de S. Salvador (Bethelem), e mesmo a Virgem Maria e S. José eram bakongo de nascimento, naturais do Ducado do Nsundi (Nazaré).

Mas o fim do decénio pôs um termo a este sonho dourado e piedoso.

Beatriz, sob impulsão do P. Bernardo da Gallo (que evoca o Santo Ofício para se justificar) e a conivência da autoridade de D. Pedro (o Água Rosada), foi queimada na fogueira com o seu principal oficial, o "Anjo da Guarda" S. João, em 1708.

No ano seguinte o Chibenga, com o seu enorme exército meio antonino meio católico, foi derrotado na tremenda batalha do Monte Evululu e D. Pedro ocupou finalmente S. Salvador fazendo-se coroar rei do Kongo, como D. Pedro IV.

O antonismo refugiou-se no seu estrato cosmológico misturado com os "espíritos da terra", mas o ponto principal do seu programa, a restauração do reino do Kongo, fora cumprido.

Aparentemente a seita dissolveu-se após os desaires sofridos. Mas o culto e a fé nos dois principais protagonistas da ideologia antonina mantiveram-se e existem ainda hoje. St. António continua a ser em todo o Kongo um pólo essencial da mitologia e a santa, agora chamada Stª. Maria é, no Soyo, objecto de um culto discreto de fertilidade e de propiciação da chuva.

Um novo mito surge no Soyo em data incerta (após a queda do antonismo), que converte "D. Beatriz Kimpa Vita ou D. Beatriz do Kongo, mulher ligada à política e à história do reino, na Stª. Maria do Soyo, "espírito da terra" que habita nas águas da sua própria nascente e que se ocupa dos problemas dos basolongo"
O Mito de Diogo Cão

Diogo Cão, navegador português e figura histórica do Século XV, entra finalmente na história tradicional do Soyo como personagem mítica, embora aí apareça de uma maneira um tanto vaga, e contudo com a missão muito precisa de reiterar a eclosão de uma nova cultura entre os basolongo, de uma nova religião e de uma nova civilização técnica que faz surgir bens materiais de tipo novo.

Ora a maneira como o seu mito se desenvolve é a maneira clássica dos "heróis reformadores" da mitologia savânica desta parte de África.

A sua estrutura narrativa é semelhante à de toda essa mitologia.

O protagonista surge de algures, de longe, com uma comitiva; tem encontros com os mandatários dos soberanos locais mas não chega a encontrar o "rei" (ou "rainha") do Soyo.

A sua entrada em cena tem aspectos espectaculares que valorizam o personagem e que o definem como "estrangeiro".

Depois percorre um itinerário bem definido onde a via fluvial -- a principal via comercial: o rio Zaire -- se desenha como dominante, e acaba em Mbanza Kongo, junto do Ntotila.
Por uma das versões recolhidas desta lenda, sabe-se que Diogo Cão desembarcou numa praia do Soyo onde encontrou uma "pedra alta", sobre a qual havia dois santos: St. António e St. Maria.

O visitante queria levá-los para Portugal, mas St. Maria negou-se e veio a ser deixada na praia, criando uma derivação da lenda destinada a dar conteúdo ao culto de St. Maria que, como vimos atrás, ainda hoje se pratica no Soyo
.
Uma segunda versão diz que Diogo Cão chegou num barco à vela (Nkumbi ya Nkutuktu) a uma praia do Soyo em Mbanza Malele.

Aí encontrou um pescador, Ndom Lwolo, um súbdito da rainha Malele kya Nsi, nome que figura entre os primeiros da lista de soberanos do Mfutila Neanda ( o "Soyo de baixo").

Quando o navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko" ("não sei").

E ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo respondeu: "Nzadi" ("Rio").

O visitante concluiu assim que o rio se chamava "Zaire".

Então Diogo Cão manifestou o desejo de ser apresentado à rainha.

A soberana foi informada deste acontecimento e desta solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado Nezinga recebera ordens do Tio, o Ntotila, que a impediam de, como seu suserano, estabelecer relações com povos estrangeiros.

Por isso a rainha recusou qualquer contacto com os visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza Kongo.

Um guia acompanhou, pois, a expedição portuguesa rio acima, até Noki, onde desembarcaram.
O navio ficou fundeado no sítio chamado Nsuku a Nsambi a Nzombo, onde havia uma grande pedra com uma mulembeira que lhe crescera no topo.

Desse modo evitava-se subir até Matadi, "por causa dos ventos violentos da região, originados pelas montanhas".

Prosseguiram a viagem por terra ao encontro do Nekongoe da sua corte, que lhe ofereceram um grande banquete.

Note-se que o Nekongo, avisado por mensageiros, já sabia da chegada dos portugueses e já os esperava.

O visitante deu ao Ntotila como presente um rico pano que se chamou Nkampa.

O mito de Diogo Cão parece, enfim, pôr em relevo algumas particularidades da consciência solongo.

Nele se recorda com especial vigor a dependência do rei do Soyo para com o rei do Kongo, seu soberano.

Este aspecto não tem porém uma intenção didáctica pura, mas ele é, muito mais, o resultado do movimento de aproximação com Mbanza Kongo e portanto com o poder central por tradição, que crescia no Soyo à data da recolha do mito (1990).

Contudo sabe-se pertinentemente pela documentação existente , que os contactos de Diogo Cão com o dito "Mani Soyo", foram numerosos e até frutuosos, pois inclusive o chefe solongo fez-se baptizar.

Além disso a narração pretende mostrar através dum contorno simbólico que o culto actual (e bastante antigo) de St. Maria, surge da igreja católica (vem com Diogo Cão), mas em oposição a ela.

Recordemos que a santa, devendo ter "regressado" com o navegador como sucedeu a St. António, preferiu ficar no Soyo.

Enfim, para o historiador, há neste mito numerosos elementos significativos inspirando um mínimo de segurança que lhes permita serem tratados como factos históricos, quer pelo número muito elevado de informantes que os reconheceram -- o que dá fixidez a uma cultura histórica envolvente -- quer pela sua semelhança com a realidade concreta conhecida.

No episódio histórico de Diogo Cão fala-se de uma "pedra" (na ocorrência, o Padrão); essa "pedra", de que, no mito, o Navegador é miticamente (e não explicitamente) portador (ou criador) contém dois santos da religião católica:
St. António e St. Maria, o primeiro, tanto na versão antonina do Soyo como na do Kongo desaparece, abstratiza-se e só se manifesta indirectamente através da sua eleita, a santa; o itinerário mítico da expedição pelo rio Zaire conduzindo a uma "pedra" que evoca a descoberta de Yelala, facto histórico e por fim um Senhor do Soyo, um "Mani Soyo" que na narração mítica se chama Ndom Malele Kya Nsi e na narração histórica toma o nome de D. Manuel da Silva.
O que é pois o dito "Mito de Diogo Cão", senão a representação que o povo solongo se faz do facto histórico, modelado pela linguagem mítica local e pela ideologia dominante?

Assim sendo é também uma das fontes da história do Soyo cuja leitura implica a descodificação de um mito.

Bibliografia Sumária

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COSTA, José da (informante de terreno) - Mambu mampa. Mvila a Nezinga - (manuscrito), Pinda, 1963
MVEMBA, André (informante de terreno) - Lutoma vina e Mvila a Nezinga (manuscrito), Ngande Soyo.
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GALLO, Bernardo da - Relations (1694-1718) - in Jadin, 1961
GONÇALVES, António Custódio - Kongo, le lignage contre l'Etat - I.I.C.T., Univ. Évora, Évora, 1985
HILTON, Anne - The Kingdom of Kongo - Clarendon Press, Oxford, 1987
JADIN, L. - Le Congo et la scecte des Antoniens - Restauration du Royaume sous Pedro IV et la "Sant Antoine" congolaise (1694-1718) - Bulletin de L'Institut Historique Belge de Rome, T. XXXIII, pgs 411 a 614, Bruxelles, 1961.
LUCCA, Lourenzo da - Relations sur le Congo, 1700-1717- in Jadin, 1961
MARCHAL, P. Gilles, s.sp. - Sur l'origine des basolongo - in "Equatoria", Revue des sciences congolaises, n-4 ano 11, 1948, pgs 121 e ss.
RAVENSTEIN, e.g. - The strange adventures os Andrew Battell of leight, in Angola and adjoining regions, 1950.
THORTON, J. - The development of un african catholic churc in the kingdam os Kongo, 1491- 1750 - in JOURNAL OF AFRICAN HISTORY, 25, n.2 (1984) pgs 147-167, Cambridge
http://afmata-tropicalia.blogspot.com/2010/06/breve-historia-antiga-do-soyo-e-do.html
Imagem: Photo of Soyo, Angola: By a Facebook Member on Aug 2009. tripadvisor.com

sábado, 3 de dezembro de 2011

Regresso



E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

Imagem: título, História Trágico-Marítima. editor, Livraria Sá da Costa
pedroalmeidavieira.com

Por Aquele Caminho. Adriano Correia de Oliveira (1942-1982). Letra de José Afonso



Por aquele caminho
De alegria escrava
Vai um caminheiro
Com sol nas espáduas.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Leva o solitário
Sob os pés marcado
Um rasto de sangue
De sangue lavado.

Levanta-se o vento
Levanta-se a mágoa
Soltam-se as esporas
Duma antiga chaga.

Mas tudo no rosto
De negro nascido
Indica que o negro
É um espectro vivo.

Quem lhe dá guarida
Mostra-lhe a pintura
Duma cor que valha
Para a sepultura.

Não de mão beijada
Para que não viva
Nele toda a raiva
Dessa dor antiga.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
Doutra sementeira.

O sol vem primeiro
Grande como um sino.
Pensa o caminheiro
Que já foi menino.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
Doutra sementeira.

Imagem: do Ventre Livre-1871). Quem faz a oferta é um tal de Manoel Dias Pereira ...
picaretasdatavola.blogspot.com

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Trova do Vento que Passa


Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Qualquer dia


No inverno bato o queixo
sem mantas na manhã fria
No inverno bato o queixo
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno aperto o cinto
Enquanto o vento assobia.
No inverno aperto o cinto
Qualquer dia
Qualquer dia
No Inverno vou pôr lume
Lenha verde não ardia.
No inverno vou pôr lume
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno penso muito
Oh que coisas eu já via
No inverno penso muito
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno ganhei ódio
E juro que o não queria
No inverno ganhei ódio
Qualquer dia
Qualquer dia

sábado, 26 de novembro de 2011

A Lenda da origem dos Nkises – Angola


Conta-se que na antiguidade o povo bantu prestava certo culto e que, neste tipo de culto, um determinado chefe bantu tinha o costume de se dirigir a uma montanha e lá fazer suas preces diretamente à Zambi, sendo sempre atendido. Ocorre que este chefe vem a falecer e seu filho o sucede em suas funções, só que o filho não sabe como desempenhar as atividades do pai, teme estar diretamente em contato com Zambi, como fazia seu pai. Ele fica desesperado, não sabe como agir e seu povo precisa de ajuda. É aí que lhe ocorre: apenas meu pai tinha coragem de estar diretamente com Zambi, porque então não chamar de volta o espírito de meu pai para que ele possa interceder por mim e meu povo perante Zambi?
E assim foi feito. O filho traz de volta o espírito de seu pai, que torna a fazer suas preces perante Zambi. A aldeia volta a receber bençãos com suas preces, até que gradualmente, cada chefe de família passa a utilizar este método, e assim, com um período de tempo maior, cada família acaba tendo seus próprios espíritos ancestrais, que a princípio eram tratados como simples intercessores perante Zambi, e posteriormente como objetos de adoração. Por fim, Zambi acaba sendo posto de lado, para serem invocados os Nkises, ou seja, os ancestrais divinizados.
http://contosdeadormecer.wordpress.com/category/lendas/lendas-de-angola/
Imagem: Os Nkises. Os Inkices na Africa Minkisi / Mukixi
flogao.com.br

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Lenda da origem do povo Huambo (versão 1) – Angola


POR CONTOSDEADORMECER
Um dia, tendo o filho do Soba Huambo Kalunda saído para caçar, enquanto estavam ausente da aldeia, esta foi atacada por uma família enorme de leões famintos, que comeram todas as pessoas da tribo.
Quando Sobeta retornou ao Kimbo, apenas encontrou os restos do seu povo que os leões tinham desperdiçado, e de vivo, apenas uma jovem leoa que presa e ferida numa armadilha de caça, não tivera condições de acompanhar o grupo de carnívoros, quando após o lauto repasto, se foram embora.
Triste com tudo o que acontecera, e sem vontade de vingança, o Sobeta soltou e tratou a leoa que agradecida pelo que o homem lhe fizera de bem, e revoltada por ter sido abandonada pelos outros leões, nunca mais se separou do solitário chefe, e com ele viveu muitos anos, servindo-lhe inclusive de mulher.
Desta ligação de um chefe e de uma leoa, nasceu um povo forte e corajoso, além de inteligente, a quem o Sobeta deu o nome do pai, Huambo, nome que o planalto que habitava, também adquiriu

A Lenda da origem do povo Huambo (versão 2) – Angola
POR CONTOSDEADORMECER
Durante o movimento migratório dos N’Gola-Luandos para o Sudoeste, um guerreiro, de nome Huambo, tentou com alguns acompanhantes, um movimento de revolta, em relação ao resto do seu povo.
Como os revoltosos eram poucos, foram facilmente batidos e fugiram para a região do Planalto Central de Angola, onde, achando a terra fértil e o clima bom, enfim as condições propícias, se estabeleceram.
Este pequeno grupo de guerreiros, segundo esta lenda, é que terá dado origem ao povo Huambo, de cujo chefe tiraram o nome, e pelo qual, também a região passou a ser conhecida

http://contosdeadormecer.wordpress.com/category/lendas/lendas-de-angola/
Imagem: ... é que terá dado origem ao povo Huambo, de cujo chefe tiraram o nome, ...
esoterismo-kiber.blogs.sapo.pt

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.



Daí pensarem os Bantus que o feiticeiro tem de ser procurado quase sempre entre os seus familiares ou vizinhos mais próximos. Assim, o feiticeiro destrói a própria família.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Segundo lendas populares, nas noites de plenilúnio, vêem-se nos descampados das grandes florestas, círculos de feiticeiros dançando e girando com majestosa lentidão à volta do cadáver de alguma vítima. Ao fim, comem-no, cortando-o em pequenos pedaços e levando-os à boca com gestos rituais, lentos e suaves.

É muito frequente acusar mulheres, sobretudo as anciãs e esposas. É uma prova do antagonismo sexual e reacção à hipotética preponderância feminina nos grupos matrilineares. Além disso, como muitas mortes têm a sua origem em comidas e bebidas, é natural que acusem as mulheres que as prepararam.
«A mulher, considerada como a criatura mais misteriosa e insondável, está mais intimamente relacionada com a “escuridão” e a “noite”. Está, portanto, estreitamente relacionada com a feitiçaria». A mulher é enigmática devido à sua constituição física e psíquica. Os seus órgãos sexuais, o sangue menstrual, a capacidade de concepção e o poder alimentício dos seios levaram estes povos, apoiados na causalidade mística e nas leis e dinamismo da magia, a rodear a mulher de uma auréola misteriosa e ambivalente. É estimada e querida, receada e perigosa. Confirma-o o seu comportamento psíquico: uma intuição com reacções tão surpreendentes que transcendem a visão do homem, uma versatilidade incontrolável e uma capacidade de sedução até dobrar o próprio homem.

Para quem está alheio a esta cultura, não passa de uma pseudociência que se dissipará como o fumo, quando o bantu tiver conhecimento das leis da causalidade ou abraçar o cristianismo libertador e salvador.

Zumbi era descendente dos guerreiros imbangalas ou jagas de Angola e nasceu por volta de 1655 em um mocambo do quilombo. A palavra Zumbi significa "Deus negro de alma branca".
"É admirável que, sem partitura, eles consigam manter os seus rituais e composições desde épocas imemoráveis" J. A. Peret
Descobre-se assim, nitidamente, o ponto mais sensível da alma virgem. O indígena deixa-se vencer facilmente pela música e ela foi utilizada como meio prodigioso pelos jesuítas para a catequese. Realmente, foi a música a grande arma do missionário.
Entre os dogões da África, cujo sistema simbólico é lunar e aquático, "a avestruz substitui às vezes as linhas onduladas ou as sucessões dos bastões que simbolizam os caminhos da água". Nestas representações, o corpo da avestruz é pintado na forma de círculos concêntricos e de bastões.

Este mito não é exclusivamente aborígene, porque há nas lendas cosmogônicas dos Fans da África a imagem de Mboya, representando na floresta um acham errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício. Existe também no Maranhão, um mito mais aproximado do da tribo dos Fans do que do Boitatá. É o que se conhece pelo nome de kuracanga. Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça sai do corpo, à noite e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário, é fazer com que a filha mais velha seja madrinha desta caçula.

Na África a serpente é o arco-íris para sudaneses e bantos, a N’Tyama, cavalo de Nz’ambi, a Mu-kyama, etc. (Pe. Tastevin, Les idées religieuses des africains, 8, 10).

domingo, 23 de outubro de 2011

(Literatura angolana?) Maria Eugénia Neto Prémio de Literatura


A escritora Maria Eugénia Neto é a grande vencedora do Prémio Nacional de Cultura e Arte, edição 2011, na categoria de Literatura, anunciou ontem no Centro de Imprensa, em Luanda, o presidente do júri, Zavoni Ntondo, em cerimónia presidida pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.
Maria Eugénia Neto foi galardoada pela sua contribuição e persistência na valorização da literatura infanto-juvenil, numa altura em que se procura, cada vez mais, promover o gosto pela leitura, pela reflexão e espírito crítico, no seio das gerações mais novas.
Segundo o presidente do júri, a escritora também cultiva o género lírico e a sua poesia, além de constituir uma saudosa e angustiante evocação da imagem do seu marido, mantém um forte vínculo de intertextualidade com a obra “Sagrada Esperança”, problematizando aquilo que o social busca problematizar.
O investigador Vladimiro Fortuna venceu na categoria de Investigação em Ciências Humanas e Sociais, pela obra “Angolanos na Formação dos Estados Unidos”, considerando a relevância, a pertinência e o interesse deste trabalho para o estudo científico da historiografia angolana sobre o quotidiano da diáspora nos Estados Unidos da América.
Zavoni Ntondo realçou que este estudo, embora não seja o primeiro com esta temática, contribui para, por um lado, enriquecer o conhecimento da trajectória do tráfico de escravos e, por outro, colmatar o défice de informação desta temática no caso de Angola.
Pelo elevado valor artístico do conjunto da sua obra, desenvolvido ao longo de 37 anos de carreira, dando um forte contributo ao desenvolvimento das artes em Angola, o pintor Mendes Ribeiro ficou com o galardão da disciplina de Artes Plásticas. Mendes Ribeiro é um ícone que marca, do ponto de vista académico, uma geração desde os primórdios da independência de Angola.
Na disciplina de Teatro, o prémio foi atribuído ao grupo Vozes D’África, da província do Huambo, pelo esforço que tem vindo a desenvolver para manter vivo o teatro naquela região.

O realizador Tomás Ferreira ficou com o troféu, na disciplina de Cinema e Audiovisuais, pelo trabalho, responsabilidade, abnegação, rigor, seriedade e determinação, sobretudo nos programas televisivos “Stop Sida” e “Angola Chama-te”.
Na disciplina da Música, o prémio foi atribuído a João Morgado “Joãozinho dos Tambores”, um músico percussionista com mais de 50 anos de carreira activa, ininterrupta, imitado e respeitado por várias gerações.
A título excepcional, pelo conjunto da sua obra, o prémio na categoria de dança foi atribuído ao Ballet Tradicional Kilandukilu, um grupo com uma trajectória de 27 anos ininterruptos, de persistência artística no domínio da dança tradicional e popular recreativa.

Ministra satisfeita

A ministra da Cultura afirmou ontem estar satisfeita com o trabalho do júri do prémios, por todos os laureados serem ícones da cultura nacional. “Felicito os vencedores pelo empenho e dedicação. O génio criador foi posto em destaque. Qualquer das personalidades que ganharam são ícones da cultura angolana, são responsáveis pela passagem de testemunho das novas gerações.”
Disse que o Ministério que dirige vai continuar com o seu trabalho de incentivo e promoção do génio criador no domínio da cultura e das artes, promovendo e orientando acções, no sentido de que possam ocorrer com regularidade em todo o país.
“O facto de termos conseguido que os membro do júri se deslocassem a algumas províncias para identificar o talento e o génio criador nesses locais, ainda não correspondeu às expectativas de alguns criadores, porque nas nossas deslocações sentimos isso, mas é preciso dizer que a excelência é um ponto que se atinge com muito esforço e dedicação.”
A ministra disse que os exemplos que o Ministério da Cultura tem visto nas outras edições permite afirmar que é de facto a excelência um factor determinante para a escolha dos vencedores.
JORNAL DE ANGOLA

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo


Daí, a necessidade imperiosa do adivinho, agente legalizado e consagrado nestas sociedades, para quem é o recurso supremo, nalguns casos, a última esperança. A ele devem a constante reconstrução da vida comunitária. Com os chefes, é, pois, o factor social mais contrário a qualquer evolução cultural. Com o seu poder coactivo e mágico protege a vida tradicional e opõe-se energicamente à acção missionária e às ideias novas.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Por vezes, degenera e torna-se uma pessoa temida, perversa e autora de toda a espécie de vinganças e extorsões. É fácil compreender que a posse de uma arma tão temida e certeira como a magia, dê azo a ambições, orgulhos e violências. Esta prepotência é caminho livre para a malícia, venalidade, inveja e cobiça. Como nas consultas tem de acusar algum malvado, como causa da desordem, pode muito bem castigar inocentes ou aniquilar quem lhe agrade. Basta acusá-los de feitiçaria. Deste modo, pode ocasionar mortos inocentes, que a sociedade julga justas. Tem o costume de fazer alarde das sentenças executadas, ostentando, num feitiço, tantos trapos dependurados quantas as mortes causadas.
Exige somas avultadas e, na sombra, elimina os inimigos dos seus clientes. Também extorque com ameaças, para satisfazer os seus interesses e ambições. Tem uma influência que se estende a todo o grupo. Conta com colaboradores submissos. Alguns vivem clandestinos, outros (os aprendizes e discípulos) são conhecidos de todos. São estes que habitualmente efectuam as mortes, à base de veneno, com perfeita discrição e total impunidade. É tão grande o sigilo que ninguém duvida da acção punitiva de um ser do mundo invisível, realizada directamente ou por intermédio de um feitiço. Estes discípulos recolhem informações de cada cliente e dos conflitos sociais e, assim, facilitam os diagnósticos do adivinho e confirmam a veracidade dos seus oráculos.

A crença na terrível feitiçaria e nos feiticeiros, apesar de enraizada na magia bantu, ganhou tais proporções e tornou-se tão obcecante, por causa das constantes acusações do adivinho que, se por um lado alivia, soluciona e inspira confiança, por outro, aumenta o terror da magia e mantém a sociedade em permanente insegurança. Basta recordar os frequentes e arbitrários ordálios.

Na África negra está muito generalizada a ideia de profetismo. O profeta negro sente que comunga com algumas das forças da pirâmide vital. Este contacto permite-lhe transmitir mensagens que podem esclarecer situações críticas. Assim se explica, de certo modo, o pulular por quase toda a África negra do profetismo-messianismo, origem dos Movimentos Profético-Salvíficos.
Os fundadores, a partir de uma visão ou êxtase em que lhes foi comunicada a sua eleição, mensagem e missão, julgam-se profetas escolhidos por Deus para salvar o seu povo, oprimido por qualquer tipo de violência.

Por exemplo, os habitantes de uma aldeia baconga têm de participar na preparação de «armas» contra os feiticeiros. Assim, ficam protegidos pelo feitiço e são controlados pelo adivinho, sempre atento à observância ritual que lhe é devida.

Nalgumas partes de Angola, destroem feiticeiros com a «arma de fogo da noite». Esta arma consiste num fémur humano, forrado ou cheio de terra do cemitério e de carne de algum cadáver. Quando o atiram ao feiticeiro, ele morre. Também se servem de armas de metal que disparam ossos de dedos humanos e bocados de metal. «Os homens das armas… não supõem, pelo menos alguns, que cometem um autêntico assassínio físico. Ao fazerem fogo contra a vítima, dizem: “Se és bruxo tens de morrer esta noite. Se não és, não deves morrer”… Acreditam misticamente que a pessoa, contra a qual dispararam, não sofrerá mal algum se não for culpada».
Também costumam apunhalar a imagem da pessoa acusada, reflectida num espelho ou na água de uma caçarola ou cabaça.

Têm, como os curandeiros, poderes parapsicológicos, às vezes notáveis e até dignos de admiração. Pessoas de confiança e testemunhas fidedignas contaram-me que alguns adivinhos colocam um boneco de madeira no chão e, depois de pronunciarem umas palavras esotéricas, o boneco começa a correr velozmente pela aldeia e só pára quando o mandam repousar a seus pés.
É quase certo que alguns praticam o hipnotismo praticam o hipnotismo, estão dotados para a telepatia, são ventríloquos e conhecem muitas aneiras de sugestionar e levar assembleias inteiras ao histerismo.
Usam truques, por vezes engenhosos, e uma prestidigitação eficacíssima. Como, às vezes, a consulta é feita na sua própria casa, um ajudante (ou aprendiz) ou mesmo o adivinho responde ao oráculo dentro de um subterrâneo aberto no chão. Também se esconde em troncos de árvore.

No entanto, há que distingui-lo do adivinho-feiticeiro, personagem real, conhecida e activa. Este actua livre e conscientemente. Fabrica feitiços malignos e serve-se deles nas suas actuações. Mistura veneno na comida e na bebida e assim vitima muitas pessoas. É movido por desejos de vingança e colabora na supressão dos inimigos dos seus clientes.

Acreditam que vive na comunidade, mas ninguém o conhece. Espalha um permanente medo que só o adivinho e o curandeiro podem enfrentar. O feiticeiro bantu é mito, lenda, suposição, figura, imaginação, símbolo, solução e necessidade psicológica, social e religiosa.

Nunca viram um feiticeiro, não assistiram ás suas reuniões, nunca presenciaram o seu desdobramento e metamorfoses nocturnas, mas a sua presença é uma exigência dos princípios fundamentais da cultura bantu.

Na sociedade bantu ninguém é feiticeiro, mas todos podem sê-lo. A explicação e a necessidade do feiticeiro estão no conhecimento e consciência que o bantu tem de si mesmo e da sociedade.

As palavras bantus mais comuns para o denominar são: «ndoki», «amulozi», «muloji», mloji», «moio», «ulogo», «bulozi», «buloji», «ulozi», «ndotshi», «moloi», provenientes do radical verbal «loa». Estes termos significam «malefício», «enfeitiçar». Noutras línguas dão-lhe o nome de «nganga» ou «onganga».

Este desdobramento de personalidade permite ao feiticeiro o dom da bilocação e até da multilocação. Uma parte do seu ser (o corpo) está fisicamente na cama, enquanto o seu doble (ou seu poder) actual em lugares distantes.
É este o fundamento da dura realidade, a razão que leva qualquer bantu a aceitar com resignação e passividade a acusação de ser feiticeiro, feita pelo adivinho e, então, submete-se docilmente aos ordálios. Quando estes indivíduos, inconscientes da sua maldade, são castigados, a justiça bantu subjectivamente considera-se, mas objectivamente é causa de lamentáveis injustiças, o acusado assume a responsabilidade, apesar de não ter consciência da sua maldade.

Entre ao Ambos, «aquele que quer receber esta faculdade encontra-se casual ou voluntariamente com quem a possui. Este, em determinado dia, dá-lhe “algo a comer”. Durante dois dias, o “mestre nada diz do que fez ao seu amigo noviço. Na terceira, depois de deitados, desperta-o repentinamente e confia-lhe a grande novidade:”Levanta-te, dei-te a ouwanga e quero que sejas meu amigo.” Em seguida, dá-lhe esta ordem formal: “Vai comer alguém da tua família.” E tem de cumprir esta ordem. Caso contrário, o “ouwanga” comeria o recalcitrante.

Trompa Himba (instrumento limitado à área dos pastores himbas, do grupo Herero, do Sudoeste de Angola)

O bantu vive em permanente terror e entre o jogo defensivo e ofensivo da poderosa magia. Se morre uma pessoa, ao bantu não satisfaz a explicação de que um vírus ou uns micróbios o mataram. Ele tem de averiguar como, porquê e quem os introduziu no defunto. E isto só pode ser obra de um feiticeiro que utilizou práticas mágicas.

«Lançam moscas, morcegos, pássaros, animais, espíritos e objectos mágicos; o “mau-olhado” também lhes serve para lançar o mal; enterram remédios malignos por onde a vítima costuma passar; depositam objectos mágicos nas casas ou nos campos das suas vítimas».
O feiticeiro é propenso à dissolução sexual, pode mesmo atingir a perversão. De facto, as feiticeiras comportam-se como ninfomaníacas, e os feiticeiros praticam o incesto e a antropofagia.

O feiticeiro é necrófago, desenterra os cadáveres e, como os vampiros, chupa o sangue humano. Pode também tornar-se invisível para realizar impunemente as suas acções. Abandona o seu corpo e vai até junto da vítima. Veloz como o pensamento, vence distâncias enormes
Acreditam que ele se metamorfoseia em bolas de fogo, torvelinhos, fogos-fátuos e, sobretudo, em insectos, pássaros (corvos, abutres e mochos), em leopardos, hienas, serpentes, antílopes, sapos e pirilampos. Também cavalga sobre animais ou envia-os contra as suas vítimas. Consegue esconder-se debaixo da terra, transforma-se em pedras e introduz-se nas árvores.

domingo, 16 de outubro de 2011

André Mingas, músico e arquitecto - In Memorium


Luanda - André Rodrigues Mingas Júnior, que também é conhecido por André Vieira Dias Mingas, pois a sua Mãe é Vieira Dias, é irmão de Ruy Vieira Dias Mingas, Saydi Vieira Dias Mingas, que também era escritor (Gasmin Rodrigues), sobrinho de Liceu Viera Dias e primo de Carlitos Viera Dias. Todos eles monstros sagrados da Cultura Musical e Política de Angola.

Fonte: Apostolado
André Mingas também usa o nome de Gasmin Rodrigues em projectos de Arquitectura, pois Gasmin é Mingas ao contrário.

Este senhor da música e da cultura é filho de André Rodrigues Mingas e Antônia Vieira Dias Mingas, nasceu em Luanda, a 24 de Maio de 1950. Influenciado pelo seu irmão Ruy Mingas e pela genialidade de Liceu Viera Dias, graças ao seu talento indiscutível e sentido de modernidade, começou desde muito cedo a criar uma nova sonoridade musical em Angola, quando mais ninguém o fazia, o que é visível no seu primeiro álbum denominado "Coisas da Vida".

Embora o CD tenha sido produzido há 30 anos, continua a ser actualmente uma das principais referências da moderna música angolana, misturando já naquela altura ritmos locais com sonoridades do jazz e do rock no semba criando a ideia do semba jazz, criticado na época.

O músico e compositor, segundo Filipe Mukenga, foi a sua principal influência levando-o a adoptar as dissonâncias que hoje são uma característica de Filipe Mukenga.

André Mingas tal como Filipe Mukenga e Waldemar Bastos fazem parte da geração de ouro de músicos de excelência que emergiu e teve sucesso nos anos 1970 e 1980. Precisam de ser ouvidos e tocados pelas novas gerações para enriquecimento da música angolana.

O pai do "Mufete" foi vice-ministro da Cultura e durante o seu mandato criou a sociedade de autores Angolanos denominada SADIA que existe até hoje. Segundo um quadro do Ministério da Cultura, não identificado, André Mingas foi o homem da massificação cultural, das ideias do Instituto Médio (em construção) e do Instituto Superior de Artes e Cultura e Museu de Arte Contemporânea.

André Mingas terminou os seus estudos na Universidade Agostinho Neto e posteriormente na Universidade Técnica de Lisboa. Foi Arquitecto, Mestre em Arquitetura e Urbanismo, Secretário para os Assuntos Locais do Presidente de Angola, foi Vice-Ministro da Cultura, formador de quadros em Portugal onde foi Professor do 5º ano de Arquitectura da Universidade Lusófona de Lisboa. É referenciado pelos seus alunos e pelo Professor Troufa Real como um grande comunicador, versátil e cativante, as suas aulas estavam sempre cheias pela sua capacidade de comunicação e cultura e ainda por cima com um tremendo coração.
Enquanto arquitecto é respeitado no seu país e é o percursor das ideias de requalificação de vários bairros da cidade de Luanda.

André Vieira Dias Rodrigues Mingas Júnior foi um dos fundadores da União dos Artistas Angolanos tendo composto músicas e letras que expressam o amor, valorizam a mulher angolana e expressam a realidade da vida com grande sentido de paz e fraternidade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

«Dicionário Português-Kimbundu e Kimbundu-Português» já nas “bancas”


Luanda - O livro tem 140 páginas e cerca de 5000 vocábulos. A obra Dicionário Português – Kimbundu e Kimbundu – Português, foi concebida para registar e divulgar vocábulos, usados nas distintas áreas do Kimbundu, lê-se no prefácio, da referida obra do autor Júlio António « Juju Kamuxitu ».

Fonte: Club-k.net
“Como é fácil de constatar, de edição em edição, as obras literárias registam sempre uma grande melhoria, um significativo enriquecimento em todos os aspectos,” lê-se ainda na introdução do para precisar que esta edição “agora com um aumento considerável de vocábulos, uma nova arrumação, pois, a estética é também questão de suma importância.”
O autor defende o princípio segundo o qual, não existe kimbundu melhor ou pior, existe sim um kimbundu diferente, nas distintas áreas do kimbundu.

Quanto as obras consultadas para esta edição « Juju Kamuxitu » descreve que consultou “dicionários Académicos de Português e com a prestimosa contribuição oral de pessoas singulares, falantes da Língua Kimbundu”

Dados do autor:
- Naturalidade: Luanda
- Estado civil: casado
- Professor, Oficial de Secretaria
- Operador de Telecomunicações SITA e ICAO
- Técnico de Tarifas
- Formador e participante às reuniões da IATA e AFRAA.
- Presentemente reformado e dedico a trabalhos literários
Contactos:
- Facebook: http://www.facebook.com/pages/Jujú-Kamuxitu/275389424393?sk=wall
- E-mail: juju.kamuxitu@gmail.com
- Telefone: 00244 939 710 365

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A República dos cem mil dólares


Até o fúnji me rapinaram

Sou corrupto!
Eis a pátria edificada
cercada, electrificada, armada, sem luar
Ai! Esta Luanda espectacular
de milhões de espoliados
em prisão domiciliar

Sou corrupto!
Gloriosa, eterna e abençoada ditadura cujo povo
jaz analfabeto.
A independência ainda não chegou
quem a usurpou?!
Um punhado
de punhais traiçoeiros/negreiros
vendida aos estrangeiros por alguns dinheiros

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar

Sou corrupto!
Já não nos sobra um pedaço da nossa terra
A independência da corrupção chegou
mas ainda não terminou
Nem nas ruas nos podemos movimentar
porque um segurança nos vai
interpelar e ameaçar
Estou na miséria, sem país
sem saber o que fiz
Roubar alguma coisa do petróleo
que me também espoliaram
Sou mesmo um zero
Electricidade, água, casa, saúde, emprego
só para quem comprou Angola
mais os estrangeiros que nos governam
E ainda fingem eleições que já sabemos
são fraudes eleitorais que de antemão
já vencemos

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar

Sou corrupto!
Até a banana, a jinguba, a jimboa
o fúnji me rapinaram
Eles roubam-me, não são gatunos?!
E eu quando roubo
atiram-me a matar!

Eles libertaram tudo mas esqueceram-se
de libertar o povo
Que se manifesta e denuncia
a corrupção
Eles têm bancos brancos
que nos espoliam, nos matam!
E a barragem de Kapanda não tem capacidade suficiente
para abastecer Luanda
mas potência não lhe falta
para abastecer a corrupção
Não se prende ninguém
enquanto a junta militar
nos escravizar
A água está também a minguar
e vai acabar, faltar
O momento final aproxima-se
o desabar
O clamor do povo
está no ar

Sou corrupto

E quem isto denunciar
cem mil dólares terá que pagar
Ou um ano de prisão vai apanhar
E têm cães Pitbull
que comem crianças
como manjar



terça-feira, 11 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho.


Apresentamos alguns exemplos de feitiços usados por grupos angolanos.
O «kissola» é um boneco de trapos, de uns 30 cm, preparado pelo adivinho. Enfeitam-no com uma cabeleira de fibra pintada com barro vermelho. O casal que deseja filhos coloca-o debaixo da cama. Em todas as Luas Novas, alimentam-no aspergindo-o com bebidas e alimentos e a mulher pinta-o com pó. Fica simbolizado por uma bananeira plantadas à frente da casa e protegida por estacas. É o sinal do «kissola».

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Ninguém pode falar com a mulher que está sob a sua influência. Se não consegue engravidar, o adivinho arranca as estacas, mata uma galinha e esfrega o «kissola» com o sangue. Se, depois deste sacrifício, não consegue a gravidez, o especialista atribui à mulher a esterilidade.
O adivinho prepara o «nvunji» para o cliente que deseja descobrir um feiticeiro ou u m inimigo, autor de algum mal, especialmente doenças. Enche um chifre de antílope com pó da casca da árvore «mbambu», de onde se extrai um dos venenos mais utilizados nos ordálios. No meio do pó coloca duas balas de chumbo. Entrega também uma pequena cabaça, «ndembo», cheia de «nbambu» e de pêlos de várias partes do corpo de uma pessoa.
O dono coloca-o num cestito debaixo da sua cama. Quando quer activar a sua força, espeta o chifre junto ao fogo da lareira com a cabaça ao lado e pede-lhe uma doença para o inimigo.
Quando adoece uma criança, esfregam-na com pó de «nvunji». Tem variadas aplicações. Os chefes têm-no sempre porque o «nvunji» é como uma arma que mata tudo.
Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho. Esse tem uma arma diminuta em cujo tubo introduz pólvora, dois bocados de agulha e um pouco da terra que o inimigo pisou ou urinou. O cliente tem de matar um gavião e um pássaro selvagem chamado «andúa». Ao primeiro tira uma unha, ao segundo, um pedaço da asa e introduz tudo no cano da arma. A asa serve para levar a carga e a unha, além de ajudar a transportar, também serve para ferir o inimigo.
Dependuram um galo de cabeça para baixo e o adivinho, com um só golpe, corta-lhe a cabeça. O queixoso acende a pólvora, saem as balas (agulhas) e espetam-se no galo. Neste momento morre o inimigo. O adivinho atira o galo ao rio, para simbolizar o enterro do inimigo e o queixoso, entretanto, amaldiçoa-o. Manda-o para casa e proibi-lhe de dormir em sua cama, durante quatro dias. Certificada a morte do inimigo, ele tem de pagar os emolumentos ao adivinho.
Para compreendermos como o jogo mágico pode conduzir a aberrações e criar uma atmosfera de terror, vamos descrever alguns feitiços preparados só para fazer mal ou para defender e vingar supostas acções mágicas maléficas. É cega a fé no poder e, embora ninguém os tenha visto, acreditam na sua existência.
Certos feiticeiros podem vivificar um cadáver com fórmulas secretas, medicamentos e invocações mágicas. Quando o conseguem, transforma-se num feitiço visível apenas a quem o fez. A uma ordem do feiticeiro, ele dirige-se à pessoa indicada e torce-lhe o pescoço até a matar. As outras pessoas apenas vêem a vítima caída no chão com o pescoço torcido e a gritar de dores. Pode-se afugentar queimando um pouco de farinha.
Em várias regiões de Angola, existe a convicção de que os chefes podem preparar um feitiço especial. Apanham uma criança e enterram-na viva. Durante duas semanas, desenterram-na diariamente e mumificam-na com lavagens e irrigações. Transforma-se num feitiço invisível que o chefe utiliza para matar os seus inimigos desta forma: aproxima-se da pessoa indicada com uma arma ao ombro e um chicote; dá-lhe uma chicotada e introduz-se no seu sangue. A vítima começa a tremer até morrer.
Também se servem de meninas para conseguir os mesmos objectivos. Mas a estas matam-nas espetando-lhes um punhal no peito, depois de seduzidas, e levadas para um lugar escondido.
O bantu teve de recorrer à magia-feitiçaria para explicar as mortes repentinas, a epilepsia, apoplexia, loucuras, qualquer manifestação espasmódica ou ataques cardíacos.
Não há dúvida que estas crenças consolidam a autoridade política e o prestígio dos especialistas. Estes confirmam-nas utilizando o veneno ou matando mesmo, através de fiéis servidores. No aspecto negativo, a magia bantu encobre manobras terríveis que satisfazem os piores instintos. Há especialistas consumados em sugestão, hipnotismo, parapsicologia e com uma experiência e com uma experiência milenária na aplicação de drogas e na propagação do terrorismo psicológico. No entanto, estes exageros, são bastantes limitados e nunca atingem as dimensões e sangue-frio dos utilizados em outras sociedades.
Certos especialistas, diz o povo, tiram o coração a um cadáver, matam um cabrito e uma galinha e também lhes extraem o coração. Perfuram uma estátua de madeira, da cabeça ao ventre, e introduzem os três corações. Em seguida, tapam o buraco para que «fermentem». Alguns dias depois, o feitiço começa a bailar. Está pronto para cumprir a sua missão, isto é, matar os inimigos do proprietário. Como é invisível, agarra a vítima pela cintura, penetra pelo ventre e vai até ao pescoço. O inimigo morre deitando sangue pela boca e pelos ouvidos.

«Depois da nomeação, máscara e dançarino são sagrados e, se são profanados, podem causar a morte do sacrílego».
O especialista da magia deve sará-las com um cerimonial especial. Por isso, são guardadas em lugares secretos e bem vigiadas. Só o especialista, os iniciados da sociedade particular ou secreta, e os homens podem vê-las e conhecer o seu significado.

Na África Ocidental, a máscara adquiriu tal expressão, estilismo, naturalidade, surrealismo, perfeição, dramatização e simbolismo que, com pleno direito, pode ser considerada como uma das notáveis obras de arte da humanidade. Assim, as mascarras bambaras, ibas, mendes, bomuns, wavegas, dogóns, ekois, batekés, bamilekés, ashantis, aguis, pangwés, balumbas, iorubas, baulés, as de Ifé, o Benim, talhadas na madeira, marfim, ouro, bronze, cobre e latão.

Há muitas mulheres dotadas para o exercício da magia. Acreditam que certas anciãs se podem converter em perigosas feiticeiras

Como médico indispensável, douto e respeitado, consegue um nível de vida superior, pertence a uma casta privilegiada. A medicina científica ocidental, que o desprezou, reconhece hoje os seus valores e sabe que possui conhecimentos e segredos de grande utilidade. Em muitos países estão mesmo oficialmente reconhecidos.

Uma antiga curandeira narra o rito da seguinte maneira: «Tive uma doença ma garganta… A adivinha consultada declarou que a causa do mal eram dois antepassados, avós maternos, que exerciam a profissão. Fui a uma mestra. A cerimónia decorreu assim: estava sentada numa esteira, no pátio da casa da mestra. Enorme assistência dançava e cantava à minha volta ao som do batuque… Pouco depois, entro em transe. Não consigo proferir uma só palavra, apesar de compreender tudo o que se passa à minha volta. Sinto-me sufocada e os meus olhos parecem lançar fogo.

Muitos doentes dirigem-se ao dispensário queixando-se de corpos estranhos que percorrem algumas partes do corpo e que incomodam com dores. Assistimos a curas de estados de saúde preocupantes, com a simples prestidigitação de simular que se lhes extraia do corpo um rato, uma rã ou uma pedra. Nestes casos, a sugestão é uma terapia eficaz.

O hospital pode aliviar a doença, mas como não a ataca pela raiz porque não descobre a causa, naquele momento fica acalmada, mas pode voltar. Além disso, muitos receiam morrer no hospital, onde a sua comunidade não pode realizar os ritos fúnebres e onde deambulam outros membros da comunidade ali falecidos, propensos à maldade por causa da desesperada solidão em que se encontram.

O curandeiro é um especialista que, com certeza, ainda vai durar muitas gerações em África.

No entanto, também é verdade que o prestígio e coacção mágica refreiam a expansão das conquistas médicas. Sofrem e morrem muitos africanos porque estes especialistas influentes impedem o seu sucesso a centros hospitalares.
A África tem necessidade urgente de se libertar das cadeias da magia. Os curandeiros, adivinhos, chefes e a gerontocracia são os mais firmes defensores desta situação.

Em muitas regiões, são denominados «m-hanga», «n-gan», «mganga», «inyanga», mas o mais comum é «nganga» cuja raiz significa «curar, tratar, rodear, acomodar, diagnosticar». «A melhor tradução parece ser a de «homem que conhece os meios de poder». Numa acepção relacionada com a sua missão, «nganga é o termo mais vulgar e mais difundido e, no contexto cultural congolês, usa-se este termo para designar o “sacerdote”». Em duala, língua bantu do sul dos Camarões, chamam-lhe «ngambi», de «ngan», o forte, e «nganja», sábio em ciência oculta e poderosa, aquele que pode adivinhar o futuro e averiguar se uma pessoa está habitada por espírito adverso.
Em Angola, são muito usados os termos «kimbanda» e «nganga». No entanto, em algumas línguas «nganga e onganga» é o feiticeiro. Na impossibilidade de empregar um termo bantu com o mesmo significado em todos os grupos, optámos pelo de «adivinho», acentuando, porém, que interessa mais o significado que lhe é atribuído que propriamente o vocábulo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Para atingir um indivíduo basta actuar sobre as suas roupas, unhas, ossos, cabelos,


Os Bacongos situam-nos em aldeias subterrâneas, maza». A cada aldeia de vivos corresponde outra de antepassados equiparada à que aqui deixaram. Falam dum «lugar, dum mundo inferior». Os ruandeses dividem o mundo em três andares: «O andar do meio é constituído pela terra que habitamos. Debaixo da terra, está o mundo abissal, habitat dos “bazimu”… Por cima da terra está situado o andar superior o andar superior ou Céu… habitat de Deus».

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Outros grupos pensam que vivem em regiões inóspitas, nas selvas, em grutas ou num «lugar subterrâneo, sombrio e taciturno, sempre triste, onde não é agradável viver», embora de modo nenhum seja uma prisão, um lugar de castigo ou um cárcere, visto que podem visitar e até habitar bosques, estatuetas, cavernas, árvores, rochas, lagoas, colinas e pessoas.

Podem-se encontrar explicações naturais para tudo, mas é necessário encontrar também explicações de ordem sobrenatural. As pessoas precisam de bodes expiatórios para explicar os seus sofrimentos…
As frustrações, as desordens psíquicas, as tensões emocionais e outras manifestações da personalidade profunda são imediatamente exteriorizados e projectados num ser humano ou em circunstâncias que deitam as culpas sobre um agente exterior.

Na realidade, respondem à instituição e normas sociais e às aspirações do bantu, mas a causalidade mística deturpa e empobrece, tornando os «africanos brutais, demolidores e hostis».
Os bantus, como todos os humanos, são capazes do bem e do mal. Mas é pena que a causalidade mística e o poder omnímodo da magia impossibilitem de concretizar as aspirações de harmonia-paz que a cultura bantu persegue como o valor mais precioso.

Há um culto especial, em certos bosques sagrados, reservados aos túmulos dos chefes. Ali ninguém pode cortar lenha, e só penetra o guardião, descendente de chefes, o qual, de vez em quando, lhes oferece sacrifícios.
Para os sacrifícios preparam pequenos e toscos altares protegidos por uma cabana, ao ar livre, perto das casas ou no bosque e nas encruzilhadas.
Veneram certas relíquias dos antepassados ilustres, sobretudo o crânio, as tíbias, unhas e cabelos, ou objectos pessoais como armas e instrumentos técnicos. Colocam-nos dentro de minúsculas habitações, onde os antepassados gostam de morar. A sua presença é mais notada e activa, porque se prolongam nas relíquias.
Um dos processos mais usados para os atrair consiste em cavar uma minúscula sepultura junto de casa. Enchem-na de alguma matéria que apodrece depressa, simbolizando o corpo do antepassado. Ao lado plantam uma árvore, que fica sacralizada, porque a aspergem com o sangue de uma galinha, ao mesmo tempo que suplicam ao antepassado que passe a viver nela. Se a árvore seca, quer dizer que o antepassado não aceitou a mansão. Essa árvore escuta diariamente as súplicas da família.

Durante o terceiro ano, aprende a adivinhação pela água e as encantações pela maneira de entender a linguagem das árvores, rios e fadas.

Se a África negra não supera a estreiteza comunitária, a dependência acabrunhadora dos parentes e a crença na omnipresente e todo-poderosa, não cremos que consiga a libertação, que leva consigo uma gama de objectivos muito maior que a independência política.

A experiência do mal provocou o medo. O bantu sofreu calamidades permanentes: vida breve, doenças endémicas, opressões seculares e a interacção ambivalente. O medo é a consequência do desconhecimento das causas naturais dos fenómenos e afunda o bantu nesse desconhecimento, na inércia e na passividade fatal que sufoca qualquer tentativa e possibilidade de encontrar a solução de um problema, a seu ver, irremediável, pois que o ultrapassa.

A privada, exercida por indivíduos anónimos, é quase sempre perigosa, não só porque não se consegue detectar a sua origem, mas sobretudo, porque é utilizada com objectivos malévolos, para satisfazer paixões. Qualquer indivíduo, possuidor destas técnicas, quase sempre imitadas dos especialistas, julga-se superior e emprega-as em proveito próprio.
«A magia privada tem um campo vastíssimo. São raras as ocasiões em que o homem não necessite da sua ajuda. Recorrem a ela para aumentar o bem-estar, favorecer as paixões e afastar males reais, ou imaginários, que os rodeiam. Algumas actividades de primeira necessidade (caça, pesca, gado, agricultura) são acompanhadas de magia. O mesmo acontece com os principais actos da vida humana: nascimento, puberdade, matrimónio e morte. Há uma magia privada, própria para apoiar ou destruir o afecto, proteger a propriedade, ter êxito na guerra, controlar os fenómenos da natureza, curar doenças, anular os projectos dos feiticeiros, fazer exorcismos aos espíritos maus». Os feiticeiros exercem a magia privada.

O uso de um pedaço de qualquer objecto, ou mesmo reprodução, afecta e influi no objecto ou pessoa real. Quando põem ao pescoço um chifre de animal, conseguem a sua protecção ou ficam livres dos seus ataques. Se perfuram com uma pequenina será um boneco antropomórfico, se lhe espetam uma faca, se o queimam ou o cortam aos pedaços, provocam a morte do inimigo representado. O mesmo acontece se rasgam uma fotografia. Assim, o especialista fabrica uma estatueta que representa determinada pessoa e, actuando sobre ela, pode matar ou prejudicar essa pessoa.

É muito usada esta acção mágica sobre a participação. Para atingir um indivíduo basta actuar sobre as suas roupas, unhas, ossos, cabelos, saliva, excrementos, ou sobre a erva ou terra que ele pisou ou da sua casa, pois conservam algo da sua vida. Tudo o que o especialista fizer sobre esses objectos, bom ou mau, acontecerá ao dono. O mesmo se verifica em relação ao caçador que bebe o sangue da peça abatida, ou ao guerreiro que bebe o sangue dos seus companheiros ou inimigos caídos na batalha. Apropriam-se da sua força vital. Pela lei da comunidade, um ser pode sofrer as consequências mágicas da desgraça caída sobre outro ser com o qual estava vitalmente ligado. A morte de um gémeo pode vitimar o sobrevivente.
A magia por contacto pode actuar sobre fotografias, pegadas, sombra, utensílios e reflexo de um ser vivo e, sobretudo, sobre o seu nome verdadeiro. «as qualidades dos objectos são realidades substanciais, simultaneamente separáveis e transmissíveis. A comunicação verifica-se, quase sempre, por contacto físico: tacto, absorção de comida ou bebida, relações sexuais. O contacto pode revestir outras formas: um olhar, um gesto, uma palavra.

«o marido polígamo dirige-se à primeira esposa e esta transmite as suas ordens às restantes esposas. Dirige-se igualmente ao primeiro filho, quando quer dar ordens aos restantes filhos. O que está encarregado de transmitir um recado dirige-se a uma terceira pessoa, isto é, à pessoa que acompanha aquele a quem deve transmitir esse recado. A não ser que se trate de um segredo pessoal. Não é estranho nem fora do normal que o negro, ao sul do Sara, recorrendo sempre a um intermediário para se dirigir ao seu semelhante, tenha institucionalizado intermediário para orar a Masa Dambali (Deus para os Bambaras).

O bantu recorre ao adivinho ou ao curandeiro sempre que alguma desgraça o persegue, quando se sente ameaçado ou deseja conseguir favores, boa sorte ou, então, quando pretende afastar a acção de feitiços dirigidos contra si. Costumam recomendar-lhe um feitiço que pode mesmo ser fabricado pelo cliente ou por qualquer artista, mas só o especialista o pode tornar poderoso.

Também usam chifres de antílopes, bolsas de pano e até ossos humanos. As estatuetas costumam ter uma cavidade no centro do ventre, do pescoço ou da cabeça, onde o especialista esconde ossinhos, pêlos, cabelos, sangue e pedaços de plantas e minerais. A participação vital fica unida e activa. A força vital, que o enche, encontra os três reinos do universo. Assim, é possível a junção de forças que, em pequena escala, realiza a totalidade cósmica participante.

Hoje, é frequente encontrar dentro dos feitiços pequenos crucifixos, medalhas, contas do rosário e outros objectos cristãos. Pensam ser a melhor maneira de apropriar-se magicamente da virtualidade que proporcionou aos brancos o seu poderio. Uma cristianização superficial levou-os, por sincretismo, a utilizar imagens cristãs com a mesma finalidade. O santo cristão ocupa o lugar do antepassado, mas sem banir o sentido religioso tradicional.
Abundam as estatuetas-feitiços representando um antepassado ilustre. Como autênticos relicários, neles guardam, em qualquer cavidade, restos dos seus cabelos, unhas, crânio, ossos, dentes ou qualquer coisa, que lhe tenha pertencido. O antepassado, ali presente e actuante, protege a sua descendência porque gosta de recolher-se nessa morada, ou, então, porque os seus restos tornam presente a sua força vital.

A sugestão causa estragos. O veneno ocasiona muitas mortes. Os especialistas da magia e muitos particulares conhecem as receitas secretas para a sua preparação e a ciência empírica da sua aplicação, cujos efeitos vão desde a idiotice, paralisia ou intoxicação, até à morte quase instantânea ou lenta e dolorosa. Protegidos pela crença na acção mágica, fulminam vidas humanas com demasiada frequência e impunidade. O uso do veneno e de outros tóxicos leva as pessoas a acreditaram na eficácia da magia e a envolverem os especialistas numa auréola de poder, mistério e prestígio. As crenças mágicas originaram e mantêm estes abusos.