segunda-feira, 17 de março de 2014

Amílcar Cabral. "O meu irmão conseguia fazer amizades em todo lado"


Amílcar Cabral estuda em Lisboa e pensa no regresso a África. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

Carlos Pinto Santos
http://www.vidaslusofonas.pt/amilcar_cabral.htm

Em Cabo Verde as autoridades proíbem o programa de rádio de Amílcar Cabral. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Amílcar propõe a reafricanização dos espíritos. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.      
 Amílcar Cabral chega a Portugal em 1945. É o ano da grande esperança para os democratas portugueses, depressa desfeita quando Salazar garante a condescendência dos vencedores da Segunda Guerra Mundial e mantém, inalterável e apoiado, o regime de ditadura.
A primeira mulher de Amílcar, Maria Helena de Athayde Vilhena Rodrigues, foi sua colega no Instituto de Agronomia. Narrou assim a Mário de Andrade o conhecimento do futuro marido, de quem viria a ter duas filhas, Iva Maria e Ana Luísa:
"Conheci Amílcar no primeiro ano de Agronomia, em 1945. As aulas tinham começado em Novembro, ele chegou em Dezembro (...) Eu não pertencia ao seu grupo, mas lembro-me perfeitamente de o ver entre os outros colegas. Como ele era o único negro, notava-se bem... Amílcar não fizera o exame de admissão à Universidade (...) toda a gente falava dele, elogiava a sua inteligência e ele, para mais, era simpático e descontraído. No que respeita às suas actividades políticas, lembro-me que os meus camaradas recolhiam assinaturas de adesão aos movimentos democráticos. E Amílcar participava activamente nesses comités de estudantes antifascistas. Aquando das assembleias era ele quem dirigia as discussões porque se exprimia muito bem (...) No princípio do terceiro ano, em Outubro de 1948, pertencemos à mesma turma, a dos únicos vinte e cinco estudantes que tinham passado nos exames".
Condiscípulos e amigos recordam Amílcar como um indivíduo de dinamismo contagiante, grande sentido de humor, com enorme capacidade de criar amizades. Sedutor, atrai afectos femininos com facilidade.
"Era o mais bem vestido e aprumado de todos nós", lembra seu amigo, o jornalista Carlos Veiga Pereira.
"O meu irmão conseguia fazer amizades em todo lado", diz Luís Cabral. "Foi pela simpatia de Amílcar — revelou em entrevista ao "Diário Popular" o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau — que os soviéticos nos forneceram os mísseis com que controlámos a aviação portuguesa. O magnata italiano Perelli era seu amigo e deu-nos as fardas de oficiais que usávamos. Tudo por amizade e simpatia".
O estudo, a militância, os namoros, ainda lhe deixam tempo para se dedicar ao seu desporto preferido: o futebol.
E, segundo as crónicas, caso o tivesse querido poderia ter feito carreira. De tal maneira dá nas vistas na equipa de Agronomia que o Benfica chega a convidá-lo para ingressar no clube. Mas Amílcar declina a proposta e mantém-se apenas nos "pelados" universitários.
Durante os anos de estudo um irresistível apelo o toma, bem como a outros estudantes negros: era necessário o regresso a África. Não só pela família que ama profundamente, mas porque "milhões de indivíduos têm necessidade da minha contribuição na luta difícil que travam contra a natureza e os próprios homens (...) Lá, em África, apesar das cidades modernas e belas da costa, há ainda milhares de seres humanos que vivem nas mais profundas trevas". Em 1949, escreverá: "Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. Eis a razão de ser da minha vida".
Esta vida a que se refere, partilha-a, em Lisboa, no Instituto de Agronomia, na Casa dos Estudantes do Império e nos livros que lhe abrem os horizontes de compreensão do mundo do seu tempo. Entre esses livros um será determinante: a Anthologie de la nouvelle poésie négre et malgache, organizada por Léopold Sédar Senghor. Este livro traz-lhe a certeza que "o negro está a despertar em todo o mundo". Teoriza sobre o cabo-verdiano — o homem resultante da fusão dos primeiros habitantes do arquipélago, brancos e negros. Já então reconhece que o número de mestiços é seis vezes superior ao dos brancos e três vezes ao dos negros — do ponto de vista psíquico há um "espírito cabo-verdiano", existe a cabo-verdianidade. Esta profissão de fé tem de ser harmonizada com a militância. No quinto ano do curso, Amílcar volta ao arquipélago para passar as férias grandes. A sua especialidade técnica - a erosão dos solos - e a cultura geral de que dispõe, quer transmiti-las e ensiná-las aos cabo-verdianos. Na Praia, pronuncia, através do Rádio Clube de Cabo Verde, várias palestras sobre as características do solo das ilhas. Apesar das dificuldades, reconhece que a agricultura é a base da economia de Cabo Verde. Para tal, é necessário elucidar, esclarecer, consciencializar o homem da rua. Amílcar coloca o problema da elite na sociedade. É preciso criar uma vanguarda intelectual que leve ao cabo-verdiano anónimo toda a informação sobre os seus problemas tradicionais. Como dirá: "Os quadros devem esclarecer aqueles que vivem na ignorância".
Esta informação deve ultrapassar os limites de Cabo Verde e tornar-se uma informação global que se alargue a todo o mundo. Eis a sua tarefa de militante: consciencializar os cabo-verdianos.
Mas as autoridades portuguesas rapidamente lhe proíbem o acesso à rádio. Como lhe proíbem que ministre um curso nocturno na Escola Central da Praia.
"Dar a conhecer Cabo Verde aos cabo-verdianos" corresponde ao que acontece em Angola: "Partamos à descoberta de Angola" é a divisa de um grupo de jovens intelectuais em torno do poeta Viriato da Cruz.
De novo em Lisboa, Amílcar firma os laços que o unem a outros estudantes originários das colónias portuguesas. Trata-se de um grupo de jovens, provenientes da pequena burguesia urbana africana, todos conscientes da revolta contra o colonialismo e detentores da vantagem de possuírem instrução e cultura. Militam nas organizações da juventude democrática portuguesa, o MUD Juvenil, o Movimento para a Paz. Com uma bandeira que os diversifica dos europeus: a reafricanização dos espíritos, diz Amílcar Cabral. Esta reprocura da identidade leva à criação, em casa da família Espírito Santo (de que é figura proeminente a santomense Alda Espírito Santo), de um Centro de Estudos Africanos. Ali se discutem, apesar das incursões da PIDE, algumas das questões mais prementes da África sob a domínio português. Amílcar tem nesses debates uma participação decisiva.

         O PAIGC E O INÍCIO DA LUTA ARMADA
Amílcar Cabral vai para Bissau como engenheiro agrónomo. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Amílcar Cabral funda o PAIGC e inicia a luta armada contra o Estado Português. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.    
Após terminar o curso, em 1950, faz estágio na Estação Agronómica de Santarém. Pouco depois, falece Juvenal Cabral. Em 1952, Amílcar regressa a África, a Bissau, contratado pelos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa.
Aos 28 anos desembarca em Bissau um engenheiro agrónomo que tem em mira outros fins que não só os da sua profissão (onde, aliás, será sempre de grande competência). O principal desses fins: consciencializar as massas populares guineenses. Como escreverá na comunicação aos quadros, em plena luta de libertação, em 1969: "Não foi por acaso que viemos para a Guiné. Nenhuma necessidade material determinava o nosso regresso ao país natal. Tudo foi calculado, passo a passo. Tínhamos enormes possibilidades de trabalhar nas outras colónias portuguesas e mesmo em Portugal. Abandonámos um bom lugar de investigador na Estação Agronómica para virmos para um lugar de engenheiro de segunda classe na Guiné (...) Isto obedeceu a um cálculo, a um objectivo, à ideia de fazer qualquer coisa, de contribuir para o levantamento do povo, para lutar contra os portugueses. É isso que temos feito desde o primeiro dia em que chegámos à Guiné".
O "Engenheiro", como lhe chamarão os compatriotas, está na melhor das posições para levar a cabo a tarefa de consciencialização. No posto agrícola de Pessubé, que dirige, contacta com os trabalhadores rurais entre os quais cabo-verdianos. É difícil a unidade entre estes e os guineenses para a constituição de uma luta comum. Será difícil até ao fim, apesar de alguns cabo-verdianos (Aristides Pereira, Fernando Fortes, Abílio Duarte, entre outros) se unirem à sua volta. O trabalho político segue a par da actividade profissional. Encarregado da planificação e execução do recenseamento agrícola da Guiné, o relatório que elabora continua a ser hoje o primeiro dado valorizável para o conhecimento da agricultura guineense.
A princípio, Amílcar Cabral procura agir na legalidade. Redige os estatutos de um Clube desportivo e cultural ao qual podem aderir todos os guineenses. As autoridades portuguesas não o autorizarão a funcionar porque a maioria dos signatários não possui bilhete de identidade.
Em 1955, o governador Melo e Alvim obriga Cabral a deixar a Guiné, embora lhe permita voltar uma vez por ano, por razões familiares.
1955 é o ano da Conferência de Bandung que assinala o nascimento do Movimento dos Não-Alinhados, do final da primeira guerra de independência do Vietname, da passagem à luta armada da FNL argelina. E Amílcar Cabral transferido para Angola, trabalha em Cassequel, como engenheiro... e tomando contacto activo com os fundadores do MPLA, ao qual se liga, desde início.
Numa das suas passagens por Bissau, a 19 de Setembro de 1959, Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral, Júlio de Almeida, Fernando Fortes e Elisée Turpin criam o Partido Africano da Independência/União dos Povos da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Obviamente, um partido clandestino, que só deixará de o ser quatro anos mais tarde, quando instalar a sua delegação exterior em Conacri.
Nesse período, a actividade de Amílcar Cabral é esgotante. Continuando os seus estudos fitossanitários e agrológicos, viaja frequentemente entre Portugal, Angola e Guiné.
Em Novembro de 1957 participa em Paris numa reunião para o desenvolvimento da luta contra o colonialismo português, mantém contactos com os anti-colonialistas em Lisboa, está em Accra num encontro pan-africano e vai a caminho de Luanda quando ocorre o massacre de Pidjiguiti. Em Janeiro de 1960 vai à II Conferência dos povos africanos, em Tunis, em Maio está em Conacri. Ainda neste ano, em Londres, denuncia numa conferência internacional, pela primeira vez, o colonialismo português. Mas aí, como durante todos os anos de luta, sublinha com ênfase não estar contra o povo português. O seu combate é, em exclusivo, contra o sistema colonial.
Hoje, as investigações históricas e os depoimentos de muitos intervenientes da época mostram que líder do PAIGC sempre se disponibilizou para negociações com o Governo português, nunca aceites pelo regime da ditadura.
Entre 1960 e 1962, o PAIGC actua a partir da República da Guiné. Essa actuação desenvolve-se em três aspectos: formar militantes e quadros para a difusão do Partido no interior da Guiné, garantir o apoio dos países limítrofes (o que foi tarefa complicada porque a República da Guiné pretendia a utilização dos guineenses de Amílcar Cabral na sua própria política e porque o Senegal se manifestou hostil durante seis anos) e, finalmente, a obtenção do apoio internacional.
É a República Popular da China quem dá o primeiro passo, recebendo, em 1960, Amílcar Cabral e alguns quadros que ali ficarão preparando a guerrilha e a formação ideológica. Em 1961 o Reino de Marrocos concede-lhe idêntico apoio.
Em 1962, desencadeia-se a luta armada contra o Estado Português. Tinham passado 17 anos desde que o filho de Juvenal Cabral chegara a Lisboa para frequentar a Universidade.

         UMA TEIA DE INTERESSES
 Séku Turé instiga ao assassínio de Amílcar. E, entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.  
Em reportagem publicada no Expresso, a 16 de Janeiro de 1993, José Pedro Castanheira fornece uma série de dados sobre a morte de Amílcar Cabral, que, três anos depois aprofunda no livro "Quem Mandou Matar Amílcar Cabral?".
É possível crer em vários factos. A política colonial portuguesa, dividindo para reinar, criara uma diferenciação entre cabo-verdianos e guineenses. Os primeiros, mestiços na sua grande maioria e mais escolarizados, são os preferidos da administração do Estado Novo. Desempenham os cargos menos desqualificados, usufruem de um tratamento preferencial. Quando se constitui o PAIGC, os quadros dirigentes são cabo-verdianos, os combatentes são guineenses. O próprio Amílcar Cabral, embora nascido na Guiné, é considerado cabo-verdiano. As tensões, os conflitos no interior do PAIGC existiram sempre. Em 1973, a guerra de libertação nacional encaminha-se para a vitória. Os dirigentes políticos continuam a ser cabo-verdianos. É provável que a proximidade do êxito extremasse a confrontação no Partido.
Séku Turé que, desde 1958, fora um líder africano de grande prestígio está em perda de influência. Por seu turno, Amílcar Cabral é uma personalidade que se evidencia na cena africana e internacional, reunindo apoios que vão da China e dos regimes comunistas, aos países nórdicos. O grande sonho de Turé de anexar a Guiné-Bissau para criar a "Grande Guiné" está em perigo. É bem provável que tivesses dado sinais de concordância aos revoltosos - todos guineenses - para consumarem o crime. Cabral sairia de cena, o PAIGC desmembrar-se-ia, passando, na prática, para o controlo de Turé. (Em Maio de 1974, Leopold Senghor, Presidente do Senegal, não hesita em afirmar ao coronel Carlos Fabião e ao embaixador Nunes Barata ter sido Séku Turé o instigador do assassínio de Amílcar Cabral).
Por fim, a PIDE/DGS. Desde muito, pelo menos desde 1967, a organização policial portuguesa procurava matar Cabral. Alguns guerrilheiros prisioneiros foram manobrados para colaborarem com a polícia política. Ficou provado em relação a alguns dos intervenientes no atentado. Tudo leva a crer que, em medida desconhecida, a PIDE não foi alheia a toda a trama.
Testemunhos da época revelam também que Amílcar Cabral tinha consciência que poderia ser traído pelos companheiros de luta. Afirmara algumas vezes: "se alguém me há-de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC. Só nós próprios".

         AS VÁRIAS MORTES DE AMÍLCAR CABRAL
Amílcar Cabral foi sepultado no cemitério de Conacri. Desaparece de cena o mais esclarecido dirigente africano da sua geração, o principal teórico da luta armada africana de libertação.
O homem que sempre viveu em coerência com os seus ideais, o líder do movimento guerrilheiro que almejava uma comunidade fraterna que floresceria — em várias ocasiões o escreveu e disse — quando os dois povos levados à guerra se libertassem do opressor comum, seria morto mais vezes.
Vítima de um ajuste de contas que não merecia, Amílcar Cabral teve a segunda morte no golpe de Estado de Nino Vieira de 14 de Novembro de 1980 que arrasou o seu grande sonho de fazer da Guiné e de Cabo Verde um único país, ou, pelo menos, uma união de Estados capaz de se impor aos desígnios hegemónicos dos governos de Dacar e Conacri, e desmembrou o PAIGC por ele fundado.
Morreu com a ostentação, a corrupção e a sanha sanguinária na resolução dos diferendos políticos onde se deixaram atolar muitos dos dirigentes guineenses.
Morreu com a miséria, a doença e a fome que dizima o seu povo vinte anos depois da independência admiravelmente conquistada nas matas de Madina do Boé.
Morreu agora outra vez quando velhos camaradas de armas — os seus antigos camaradas — se digladiaram numa luta fratricida infligindo à Guiné-Bissau uma destruição terrivelmente superior à provocada por onze anos de guerra colonial vendendo, provavelmente, a soberania nacional numa patética tentativa de conservar a bebedeira do poder.
 
ILHA
- um poema de Amílcar Cabral - Praia, Cabo Verde, 1945 -
                Tu vives — mãe adormecida —  
                nua e esquecida,
                seca,
                fustigada pelos ventos,
                ao som de músicas sem música
                das águas que nos prendem…  
 
                Ilha:  
                teus montes e teus vales  
                não sentiram passar os tempos  
                e ficaram no mundo dos teus sonhos  
                    os sonhos dos teus filhos     
                a clamar aos ventos que passam,  
                e às aves que voam, livres,  
                as tuas ânsias!  
 
                 Ilha:  
                colina sem fim de terra vermelha  
                    terra dura     
                rochas escarpadas tapando os horizontes,  
                mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

As cidades submersas de 1.800 anos na China



Se um dia você resolver viajar para o Lago de Qiandao, terá a chance de visitar duas metrópoles de 1.800 e 1.400 anos de idade, totalmente submersas.
O “Lago das Mil Ilhas”, na sua tradução em português, é chamado assim por possuir 1.078 grandes ilhas e milhares de pequenas, e fica localizado em Zhejiang, a cerca de 150 km de Hangzhou, na China.
No seu fundo, ficam as cidades de Shicheng e Hecheng (ou Shi Cheng e He Cheng), pensadas como perdidas por 40 anos.
Ao contrário de outros locais históricos que foram parar no fundo de rios e mares após serem vítimas de tragédias, as cidades não foram exatamente “perdidas”, mas sim deliberadamente sacrificadas.
Os assentamentos da Dinastia Han perderam-se sob as águas crescentes do lago artificial em 1959, após a construção de uma hidrelétrica nas proximidades. Agora, fossilizam lentamente sob mais de 30 metros de água.
Ironicamente, as metrópoles submersas hoje são um exemplo muito bem preservado do urbanismo desta antiga dinastia, incluindo cerca de 265 arcos de pedra bem conservados.
O sacrifício e a redenção
Em 1959, o governo comunista da China construiu sua primeira usina hidrelétrica no condado de Chun’na, a Usina Hidrelétrica de Xin’anjiang, para abastecer cidades do leste do país como Shanghai e Hangzhou.
Com isso, as antigas metrópoles Shicheng e Hecheng foram afundadas no Lago de Qiandao, junto com cerca de 27 aldeias e mil vilas. 290 mil habitantes tiveram que migrar da região.
Hecheng foi uma cidade comercial e próspera construída há 1.800 anos, enquanto Shicheng, também conhecida como Cidade do Leão, possui 1.400 anos e foi um centro político, econômico e cultural.
Os estudiosos pensavam ter perdido esse pedaço da história chinesa para sempre, mas, entre 2001 e 2011, o governo local organizou cinco expedições para descobrir detalhes sobre o alagamento, e percebeu-se que muita coisa das antigas cidades ainda estavam inteiras, como vigas, escalas e tijolos de casas, pátios, esculturas bem trabalhadas, portões, arcos, cemitérios e até uma telha esculpida com a frase “Fabricado no 15º ano do Imperador Guangxu”.
Agora, as cidades submersas se tornaram um destino turístico de aventura para viajantes e mergulhadores, que têm a chance de conferir as ruínas litorâneas de uma civilização incrível.
Atualmente, a Usina de Xin’anjiang está quase inativa e o Lago de Qiandao já perdeu seu sentido como fonte de energia elétrica. Foi sugerido que o nível do lago fosse baixado para trazer as cidades novamente à tona, mas elas estão debaixo d’água há 50 anos, e especialistas creem que não resistiriam à mudança do ambiente.
Além disso, o lago se tornou uma fonte da água potável para fabricação de cerveja e água mineral, e baixar seu nível poderia prejudicar os interesses econômicos da região.
Quem estiver disposto a encarar 30 metros de água acima da cabeça, no entanto, ainda será capaz de disfrutar da visão dessas antigas maravilhas. [Gizmodo, PapoViagem, CRI]
hypescience








segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Livros escolares falsificados na China


Luanda - Para a China vão livros de todas as disciplinas leccionadas no ensino primário, que abarca da 1ª à 6ª classe, de acordo a reforma educativa. Segundo a nossa fonte, os livros chegam a Angola de navio, algumas vezes passando pela África do Sul, sendo desembarcados no porto do Lobito.

Fonte: O País

Seguidamente são transportados por via terrestre até à cidade capital. O destino e o despacho para os clientes são feitos no mercado Asa Branca, disse.

Bela, a nossa interlocutora, que disse não poder revelar o preço que pagam pelas cópias dos livros, mas garante que é um valor acessível e que permite render lucros. “Todo negócio agora vem da China”, mencionou.

Acrescentou que a fiscalização não devem confiscar o material às senhoras que zungam ou vendem nos mercados informais, mas sim fiscalizar os portos e as alfândegas, onde entram esses materiais. “Será que eles não vêem os contentores de livros que entram no país?” Questionou a senhora.

Os fornecedores estacionam as suas viaturas num pequeno parque junto ao mercado, onde as antigas comerciantes do mercado do Roque Santeiro vendem. O negócio é feito em circuito fechado, pelo que não aceitam vender a mercadoria a pessoas desconhecidas, nem tão pouco revelar o preço. “ Já temos as nossas clientes. Se alguém quiser livros em grande quantidade tem de comprar às senhoras a quem vendemos; elas vendem barato ”, disse um dos fornecedores.
Asa Branca, fonte dos livros copiados

No mercado Asa Branca, os livros são comercializados por homens e mulheres, num pequeno corredor que liga o mercado e um quintal onde as senhoras provenientes do ‘Roque’ vendem, denominado de Asa Roque. Num espaço apertado, os vendedores ocuparam o lado direito e o esquerdo para comercializar materiais escolares.

Na “fonte”, como é considerada pelos ambulantes, os livros da 1ª à 6ª classe custam 100 Kwanzas. Margarida Paulo contou que vende no mesmo local onde compra, mas muito cedo. A caixa de livros de qualquer disciplina do ensino primário custa cinco mil ou quatro mil e 500 Kwanzas, revelou.

“As senhoras do São Paulo e outras que zungam pelas ruas de Luanda compram-os a nós, a retalho, ao preço de 100 Kwanzas, para que elas também lucrem”, afirmou.

A comerciante tem conhecimento da proibição da venda dos livros escolares, mas alega que não tem outra opção. “Nós dependemos simplesmente do mercado, de acordo com a procura. Sabemos que nesta época a maior procura são os materiais escolares, por isso, optei em negociar livros. Estamos a dar uma grande ajuda ao governo, porque eles não têm capacidade para oferecer livros a todos os alunos, daí que os livros são vendidos a preço acessível”, referiu.

Uns nas bancadas e outros no chão, por cima de um pano, assim é a venda no corredor do Asa Branca. Bela Simão contou que sempre vendeu material escolar e confessou que os livros da reforma educativa são mais facilmente copiados.
“A China faz tudo, logo, não é novidade. Chego às cinco horas e compro o meu negócio e posteriormente começo a vender. Para Bela, o importante é conseguir alguma coisa para sustentar a sua família. “Não estamos a prejudicar ninguém, não matamos e não roubamos, por isso sinto-me livre em vender o meu negócio”, salientou.

Para além dos livros do ensino primário, em algumas bancadas no Asa Branca também são comercializados livros das disciplinas do 1º e 2º ciclo do ensino secundário, correspondentes à 7ª e 12ª classes.

Assim como na bancada de Domingos Pedro, que diz vender livros com timbre proibido, é crime, “mas os comerciantes vão onde há lucros”, destacou.

As senhoras que nos vendem não aceitam revelar a fonte. Não sei como vêm, nem de onde vêm. “Limito-me a comprar e revender”, disse. Os livros da 7ª a 9 ª classes estão marcadas em 1000 Kwanzas, mas com desconto ficam a 900. Da 10ª à 12ª podem custar 2000 a 1500 Kwanzas. Os livros mais caros são os de língua portuguesa e matemática, explicou.
Manual do ensino primário, os mais procurados no arreio de S. Paulo

Os livros cuja venda é proibida, são os mais procurados nos mercados informais de Luanda. No São Paulo, os preços variam entre 350 a 400 Kwanzas. A vendedora Maura revelou que os livros da 1ª à 4ª classe custam 300 kz, cinco livros saem por 1500 kz.

A jovem comerciante adiantou que compra os livros em grande quantidade no mercado Asa Branca. “Cada caixa tem 45 livros e custa 4.500 kz”.

Por outro lado, Maria Paulo, vendedora há três anos, disse que vende os livros das primeiras classes do ensino escolar no valor de 250 Kwanzas. Maria contou que sempre diversificou o seu negócio e como está a aproximar-se o início das aulas, escolheu materiais escolares.

Maria Paulo afirmou que desconhece de onde provém a mercadoria que vende desde o mês passado. “Eu compro a retalho no mercado do Kikolo, nas senhoras. De onde vem eu não sei. Realmente a venda é proibida, mas é o negócio que encontramos no mercado e está a render lucro, vamos fazer o quê?”.

O mercado do Panguila também tem sido fonte de mercadoria para as senhoras que vendem material escolar. Judith contou que tem comprado os livros no mercado mais a norte de Luanda. “Compro a retalho, cada a 150 e vendo a 300 Kwanzas, mas com desconto. Não somos as culpadas pela venda dos livros. Fizemos sempre alguma coisa para que os nossos filhos não passem a fome. Se o negócio que está a dar lucro de momento é os livros, nós comercializamo-los”.
Encarregados de educação alegam insuficiência de stocks

Os livros muitas vezes não chegam às mãos das crianças. E se a direcção da escola os entregar, não serão todos os livros. Dos cincos livros que o aluno precisa, a escola entrega apenas dois ou três, disse Joana Mateus, enquanto comprava livros da 3ª classe para o seu filho. No livro está escrito que deve ser distribuído gratuitamente, mas encontrase à venda, sem fiscalização, salientou.

O Ministério de Educação deve rever essa situação e produzir mais livros, no sentido de distribuir a todos os alunos. “As escolas não têm stock suficiente e muitas direcções guardam alguns livros para os seus parentes, assim sendo temos que nos prevenir, para que os nossos filhos não fiquem desenquadra dos na sala de aula, caso não recebam todos os livros. Um outro encarregado de educação considerou os preços dos livros acessível. “Cinco livros por apenas 500 Kwanzas”.
O jovem comprou livros para a 2ª, a 4ª e a 5ª classes, para os seus irmãos. “No meu caso, a conta já é maior. Se as escolas distribuíssem todos os livros, seria um alívio para as famílias, principalmente as mais favorecidas”, acrescentou.
Kero comercializa livros adicionais da 1ª à 4ª classe

Ao contrário dos mercados informais, no híper mercado Kero são comercializados alguns livros adicionais para os alunos do ensino primário. O Meu Caderno de Actividade é um livro produzido pela Plural Editora, no âmbito da reforma educativa. Na capa indica que o livro contém textos do manual de língua portuguesa e matemática da 1ª à 4ª classe. Cada livro custa 1.695 kzs.