segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ser negro nos Estados Unidos




Por José Inácio Werneck, de Bristol


Eric Garner tinha 43 anos, 1,91m  e 160 quilos. Obeso, sofria do coração e de asma.
Era camelô, na saída do “ferry” que liga Staten Island aos outros distritos de Nova York: Brooklyn, Queens, Manhattan e Bronx.
Tinha mulher e seis filhos.
Vendia cigarros avulsos, o  que irritava os comerciantes da área, que reclamavam de “concorrência desleal”, já que não pagava os pesados impostos que incidem sobre o consumo de tabaco.
Em julho deste ano, debateu-se nas mãos de cinco ou seis agentes policiais, que o derrubaram ao chão – embora um vídeo mostrasse claramente que ele tinha as duas mãos erguidas, em sinal de que se rendia – e lhe aplicaram, entre outros golpes, uma gravata.
-  I can’t breathe, I can’t breathe. Não posso respirar, não posso respirar – gritou Garner, onze vezes.
Quando uma ambulância afinal foi chamada,  estava morto.
A promotoria distrital instaurou um “Grand Jury”, procedimento que tem a finalidade não de julgar um suspeito, mas de determinar se há suficientes evidências contra ele para processá-lo criminalmente.
O suspeito no caso era Daniel Pantaleo, o que aplicou a gravata. Os demais policiais receberam imunidade, para testemunhar.
Depois de ouvir os demais policiais, outras testemunhas e o próprio Pantaleo, o Grand Jury concluiu que não havia “probable cause” (evidências suficientes) para levar Pantaleo a um julgamento.
Pantaleo e seus colegas são brancos, Garner era negro.
Depois do ocorrido em Ferguson, no estado de Missouri, em que um Grand Jury tampouco encontrou evidências suficientes para processar o policial branco que matou a tiros um jovem negro, a eterna discussão sobre racismo nos Estados Unidos voltou à tona.
Em Ferguson, o policial branco, de 1,93m,  disse ter sido aterrorizado pelo  negro de 18 anos, que tinha 1,95m e 118 quilos.
O ocorrido em Ferguson é em grande parte envolto em dúvidas e contradições, enquanto em Nova York a evidência de imagem e sons do vídeo torna difícil acreditar que um Grand Jury em que metade dos membros era de negros e hispânicos possa ter sido  tão complacente com o policial branco.
A própria existência nos Estados Unidos de uma “raça” que não é raça, a hispânica (dividida em geral pela imprensa entre “hispânicos brancos e não-brancos”), mostra como a cor, as feições e outras características étnicas – o que se chama “racial profiling” – podem dividir e separar os seres humanos.
Casos de negros mortos por policiais brancos são infelizmente corriqueiros em Nova York,  cidade com um prefeito branco casado com uma mulher negra, que diz estar derterminado a mudar radicalmente o comportamento e mentalidade dos homens e mulheres encarregados de zelar pela segurança da população.
Para quem tem a pele mais escura, a maior ameaça à segurança vem da própria polícia.

José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.
Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
Imagem: O racismo nos EUA se repete com frequência e praticamente não sai das manchetes dos jornais

Voo teste para Marte pousa com sucesso no Pacífico





A nave Orion, projetada para levar astronautas a Marte na década de 2030, dá duas voltas na Terra, em voo que serviu para agência espacial norte-americana avaliar reentrada na atmosfera e exposição à radiação.


Com um dia de atraso, a cápsula espacial americana Orion foi lançada na véspera para o seu primeiro voo de teste. Acoplada a um foguete do tipo Delta IV, a cápsula não tripulada partiu da base espacial em Cabo Canaveral, na Flórida, e pousou com sucesso no sudoeste da costa californiana no final da tarde.
Em cerca de quatro horas e meia no espaço, a Orion deu duas voltas na Terra e atingiu 5,8 mil quilômetros de altitude – dez vezes mais alto do que a órbita da Estação Espacial Internacional (ISS). Em sua conta no Twitter, a Nasa publicou fotos que mostram o pouso da cápsula com apoio de oito paraquedas – os três principais do tamanho de um campo de futebol.
No voo de teste, a Nasa analisou o comportamento do escudo térmico da Orion, que precisa suportar temperaturas de 2.200ºC durante a reentrada a uma velocidade de 32 mil quilômetros por hora na atmosfera terrestre. Além disso, os engenheiros da Nasa receberam dados sobre a exposição da cápsula à radiação. A agência espacial observou também a separação da cápsula do foguete durante a decolagem e o funcionamento do sistema de paraquedas na aterrissagem no Oceano Pacífico.
Em sua conta no YouTube, a Nasa publicou um vídeo com a decolagem da cápsula Orion. O clipe, de cerca de 10 minutos, mostra imagens de uma câmera acoplada na cápsula enquanto ela se distancia da Terra.
Na primeira tentativa, na quinta-feira, a decolagem foi adiada duas vezes: primeiro por que um barco estava próximo demais da base espacial, depois por problemas técnicos. Em seguida, foi cancelada devido às condições meteorológicas.
Um primeiro voo tripulado da cápsula Orion não deve acontecer antes de 2021. Em meados da década de 2030, a Nasa pretende levar astronautas a Marte. Este voo de teste custou US$ 370 milhões. No total, o programa já custou acumulou US$ 9,1 bilhões à agência espacial norte-americana.
Imagem do vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UEuOpxOrA_0
Imagem: A espaçonave Orion passou por seu primeiro teste para a viagem a Marte

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O actual preço do petróleo e as multinacionais





1.  Os preços internacionais do petróleo prosseguem em trajectória descendente. Vão mesmo já acumulando cerca de 30% de subida face, por exemplo, aos preços registados em Julho deste ano. Tal percentagem constitui uma muito significativa perda de valor naquela que é ainda a mais importante fonte de energia da sociedade moderna.

jpintodeandrade.blogspot.com

2.  Os impactos da descida do preço estão a provocar distintos reflexos sobre os diversos países, no caso de uns serem importadores e outros serem exportadores de petróleo.

3.  Como é evidente, aos países importadores de petróleo interessa um preço do petróleo mais baixo, resultando daí alívio nas suas contas. Aos países exportadores, sem sombra de dúvidas que interessará preços mais elevados, melhorando as suas receitas.

4.  Todavia, essa é uma perspectiva de certo modo redutora, uma vez que existem outros actores em cena, as empresas, com o seu interesse particular que nem sempre é completamente coincidente com o dos estados. Vale, pois, a pena dar uma ligeira olhadela para a posição das multinacionais ligadas à extracção e comercialização do petróleo, colocadas agora no âmago destes interesses contraditórios.

5.  Na maior parte das vezes, as multinacionais são originárias de países importadores de petróleo. O que não implica que não haja nesse negócio empresas de grande porte sedeadas em países exportadores. Mesmo assim, a todas elas interessará, seguramente, preços mais elevados, independentemente do interesse geral dos seus países.

6.  Com os actuais preços do crude, as principais multinacionais ocidentais, Exxon, Chevron, Shell e BP PLC vão vendo reduzidos os seus lucros a níveis inferiores aos de dez anos antes, quando até estavam a vender o petróleo e o gás natural a preços iguais a metade dos actuais. Esta diferença de resultados deriva, sobretudo, do aumento dos custos de produção, pois as novas explorações são feitas em condições cada vez menos favoráveis. Segundo dados recentes, as margens de lucro das multinacionais do petróleo baixaram dos 35% obtidos na última década, para 26% registados nos últimos 12 meses.

7.   Os níveis de produção da Shell já são idênticos aos que tinha dez anos antes. Perspectiva-se que continuem a descer. O mesmo sucederá com a Chevron. A Exxon está com níveis de produção aproximados dos de há cinco anos.

8.  Fruto desse estado de coisas, não são poucas as multinacionais que decidiram não só adiar investimentos que tinham em carteira, como, inclusive, realizar desinvestimentos nos campos petrolíferos menos lucrativos.

9.  Se é verdade que o adiamento dos investimentos em carteira e os desinvestimentos terão implicações sobre a actividade económica dos respectivos países, não deixa de ser verdade que eles também se reflectirão na responsabilidade social dessas mesmas empresas, alguns dos quais serão demasiado importantes para o bem-estar das suas populações.

10.                    A queda dos preços do petróleo está a afectar muito negativamente países como a Venezuela, Irão, Rússia, Iraque, Nigéria, e até mesmo Angola, podendo, porém, ter impactos positivos sobre os maiores importadores de petróleo, nomeadamente, países europeus e a China.

11.                    A situação da Venezuela é das mais sensíveis. Está mesmo a forçar o Presidente Nicolas Maduro a alterar a política de hostilização das multinacionais, que foi o cavalo de batalha de Hugo Chavez. Caso Nicolas Maduro adopte uma política de maior cooperação para com as multinacionais, terá, então, que enfrentar a animosidade dos “bolivarianistas” mais radicais.

12.                    A Rússia não vive momentos muito melhores, engajada que está num conflito que pode, inclusive, descarrilar, obrigando-a a grandes encargos.

13.                    Temos também que ficar atentos aos maus momentos que se avizinham para nós, pois o sector não mineral da nossa economia está ainda muito dependente dos resultados obtidos no sector petrolífero. E esta dependência manter-se-á por muito tempo, até que ele se realimente, criando a sua própria dinâmica.

Encontrados seis mortos no Mar de Bering





Pesqueiro sul-coreano naufragou. Equipas de resgate encontraram mais seis corpos na área em que um pesqueiro sul-coreano se afundou na segunda-feira no Mar Bering, com 60 pessoas a bordo, depois de já ter sido recuperado um cadáver e sete sobreviventes. "Todos estavam a usar coletes salva-vidas quando foram encontrados por navios de resgate", disse o porta-voz da empresa proprietária, Sajo Industries. O naufrágio ocorreu na segunda-feira ao largo da costa do extremo-oriente russo e sete pessoas, incluindo um inspetor russo, foram recolhidas do mar com vida, indicou o Ministério das Pescas sul-coreano.

www.cmjornal
Imagem: Já foram recuperados sete sobreviventes e um cadáver





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Papa Francisco critica continente “envelhecido e abatido”





Em discurso no Parlamento Europeu nesta terça-feira, o papa Francisco pediu que a União Europeia supere a crise econômica, para que possa retomar seu papel de liderança global.


Francisco afirmou que o objetivo da visita a Estrasburgo era trazer uma mensagem de esperança aos europeus, cuja confiança nas instituições foi abalada pela crise econômica. Além disso, os moradores do continente encontram-se espiritualmente “à deriva”, numa cultura que não mais valoriza a dignidade dos seres humanos, disse.
- Uma Europa que não mais se abre à dimensão transcendente da vida é uma Europa que arrisca perder sua alma aos poucos – afirmou o pontífice. “A Europa dá a impressão de estar um tanto envelhecida e abatida, como se sentisse cada vez menos como protagonista num mundo que com frequência se refere a ela com indiferença”, afirmou o papa aos parlamentares europeus.
“Encontramos uma impressão geral de abatimento e envelhecimento, de uma Europa que é hoje como uma avó, não mais fértil e vibrante”, observou Francisco. “Chegou a hora de abandonarmos essa ideia de uma Europa medrosa e narcisista, para reavivar e encorajar uma Europa de liderança.”
O papa também falou sobre a questão dos milhares de refugiados vindos de países da África e do Oriente Médio. “Não podemos permitir que o Mar Mediterrâneo se torne um vasto cemitério”, alertou. “Os barcos que chegam diariamente às praias da Europa estão cheios de homens e mulheres que precisam de aceitação e assistência.”
Apenas neste ano, mais de 3.200 pessoas morreram ao tentar chegar à Europa, fugindo de conflitos em seus países de origem.
Centenas de pessoas reuniram-se para assistir ao pronunciamento do papa em telões colocados em frente à catedral de Estrasburgo. Dessa vez, o pontífice abriu mão do papamóvel e do contato direto com os fiéis, e dedicou sua viagem de apenas quatro horas de duração, a mais curta já realizada ao exterior por um papa, ao Parlamento e ao Conselho Europeu.
A visita também foi marcada por protestos, muitos criticando a decisão do presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, de convidar um líder religioso para discursar numa instituição laica.
O líder da Igreja Católica também se reuniu brevemente com os presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy.
Foto: Em visita a Estrasburgo, Francisco apela para que Europa retome postura de liderança global