quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Placas tectônicas dobram velocidade de movimento





Postado por: Matheus Gonçalves
climatologiageografica.com

Estudo recente sobre placas tectônicas da Terra indica que elas estão se
movendo mais rápido agora do que em qualquer época nos últimos  bilhões
de anos. Se houver comprovação que tal estudo é verdade, o resultado
poderia ser explicado por outra descoberta surpreendente das últimas
semanas: a presença de mais água dentro do manto da Terra do que em
todos os oceanos juntos .

As placas tectônicas são impulsionadas pela formação e destruição de
crosta oceânica. Quando as placas se afastam acabam permitindo que calor
e magma subam a partir do manto e se solidifique. Onde as placas estão
sendo empurradas, a crosta pode se levantar para formar montanhas ou uma
placa é empurrada para baixo da outra e é sugada de volta para o manto.
Com o envelhecimento da Terra se esperava que o movimento das placas
fossem retardados. Um estudo do ano passado realizado por Martin Van
Kranendonk (Universidade de New South Wales, em Sydney, na Austrália), e colegas mediram elementos concentrados pela ação tectônica em mais de 3000 rochas de todo o mundo, e concluiu que o movimento de placas tem diminuindo nos últimos 1,2 bilhões anos .

Agora Kent Condie (geoquímico do Instituto Novo México de Mineração e
Tecnologia em Socorro) e seus colegas usaram uma abordagem diferente e
concluíram que a atividade tectônica está aumentando. Eles olharam para
a freqüência com que novas cadeias de montanhas se formam quando as
placas tectônicas colidem umas com as outras. Então combinaram essas
medições com dados magnéticos de rochas vulcânicas, para trabalhar em
que latitude as rochas se formaram e como os continentes haviam mudado
de forma rápida.
Ambas as técnicas mostraram que o movimento das placas aceleraram. A
taxa média de colisões continentais e a velocidade média com que os
continentes mudam latitude dobrou nos últimos 2 bilhões de anos.

Condie pensa que a grande quantidade de água no manto terrestre pode
explicar a descoberta. Quando a crosta afunda no manto, a água oceânica
é sugada também. Embora a maioria vem de volta à superfície em emissões
vulcânicas, ao longo dos éons a quantidade de água no manto continua
muito grande.

Peter Cawood (Universidade de St Andrews, Reino Unido) pensa que o
trabalho é interessante. “O aumento da taxa de movimento tectônico
parece real”, afirma.

Van Kranendonk não está pronto para mudar de idéia. ” Nosso trabalho
documenta uma redução da taxa e volume de reciclagem crustal para 1,2
bilhões anos, apoiando a ideia de que o movimento das placas tectônicas,
na verdade, tem vindo a abrandar desde aquela época “, diz ele.

Fonte:

New Scientist
http://www.newscientist.com/article/mg22329843.000-earths-tectonic-plates-have-doubled-their-speed.html#.VAplefldXPN

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Corrupção da Petrobras põe o Brasil à beira do precipício





País vive à espera das delações e das consequências econômicas e políticas do caso


O sistema é simples, diabólico e eficaz: um acusado de corrupção reduz sua pena se delatar outros, que por sua vez podem receber o mesmo tratamento, com o que o caso se ramifica ao infinito. É a maneira que o juiz brasileiro Sérgio Moro tem para reconstruir o rastro da bilionária corrupção que domina de cima a baixo a maior empresa pública da América Latina, a Petrobras, e que sacode o país: contratos forjados no valor de bilhões de reais, obras superfaturadas para a construção de refinarias, contas bancárias repentinamente esvaziadas para que não sejam congeladas, arrependidos que fazem acordos após pagar quase 100 milhões de reais, maletas com notas de dinheiro que vêm e vão, jatinhos levando somas estonteantes, um tesoureiro do PT envolvido na trama e intermediários que se entregam após passar dias foragidos da polícia. E, além disso, vários dos maiores empresários do país, todos detidos na mesma carceragem sob a acusação de suborno, dividindo espaço e destino com o delator, Alberto Youssef, que tudo sabe e tudo conta… O sonoro nome que a Polícia Federal deu à última fase da operação, Juízo Final, é sintomático. Tudo no Brasil gira atualmente em torno dessa gigantesca empresa pública e das venenosas revelações que surgem a cada manhã.
Há no momento 16 detidos. Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, e dois diretores de uma empresa fornecedora, que aderiram ao programa de delação premiada, estão sob prisão domiciliar. Os outros 13 (empresários, diretores de empresas, altos executivos, outro ex-diretor da Petrobras e o quarto delator, o doleiro Alberto Youssef) convivem na carceragem da sede da Polícia Federal em Curitiba. Youssef, claro, está numa cela à parte, pois seu advogado não se fia totalmente na preservação da sua integridade física, já que Youssef se tornou o alvo a abater.
Todos os envolvidos são acusados de alimentar um esquema ultraconhecido: os altos funcionários da Petrobras recebiam subornos das empresas em troca da concessão de contratos. Figuras marginais andavam para lá e para cá com malas que azeitavam uma máquina que chegou a movimentar mais de 10 bilhões de reais. Ninguém conhece a soma real. As empresas implicadas tinham (e têm) contratos no valor de 60 bilhões de reais. Mas quanto disso ficava pelo caminho? Seriam 10%? Ou 20%? Ou 50%? O ex-diretor Costa e o doleiro Yousseff dizem que os partidos políticos, entre os quais o PT de Lula e Dilma Rousseff, levavam sua parte, que chegava a 3%.
A Petrobras, com seus 86.000 funcionários, não é uma empresa qualquer: refina 98% da gasolina consumida no Brasil, mantêm negócios com quase 20.000 empresas que lhe fornecem todos os tipos de produtos e serviços, e é ela própria responsável por um décimo de todos os investimentos feitos no Brasil. Por isso o Governo, nocauteado pela crise, teme não só a repercussão política do caso (há acusações ainda não confirmadas de financiamento ilegal de partidos, entre os quais PT e PSDB), mas também uma eventual ressaca econômica e também social. Das dez maiores empresas de engenharia e construção do país, só duas não estão envolvidas no escândalo da Petrobras. Por isso há quem enxergue um risco concreto de que as principais obras públicas em andamento sejam paralisadas. Ou seja, que o país pare. Foi o que disse na quinta-feira José Costa Neto, presidente da principal empresa elétrica brasileira, a Eletrobras, controlada pelo Governo. Nesse mesmo dia, o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, acrescentou após uma reunião com a recém-reeleita Rousseff: “A presidenta está preocupada com o que vai acontecer com as obras. E eu, como Governador, também. Imagine o que significaria agora paralisar, por exemplo, a construção dos canais do São Francisco”.
Um dos advogados dos presos declarou nesta semana, após visitar seu cliente, que o suborno era inevitável. “Se não, a obra não saía. Se alguém ignorar isso, ignora a história deste país”. Dias atrás, o empresário Ricardo Semler, de 55 anos, escreveu um artigo na Folha de S.Paulo intitulado “Nunca se roubou tão pouco”. “Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país”, escreveu Semler. “Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos setenta. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos oitenta, noventa, e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.”
Outro advogado dos presos, ao ser perguntado sobre as consequências do caso, respondeu: “Não sei aonde isso vai dar”. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acrescentou numa recente entrevista à Folha de S.Paulo que “isso é um rastilho pólvora. Quando um começa a falar o outro diz: vai sobrar só para mim? E aí eles começam a falar mesmo”.
As ramificações políticas são imprevisíveis: Costa e Yousseff acusam diretamente o tesoureiro do PT, João Vaccari, de receber subornos para ajudar as campanhas políticas do seu partido. Também apontam outros intermediários de outros partidos. Enquanto isso, Rousseff, em Brasília, tenta driblar o temporal como consegue, sem aparecer muito, agarrando-se à tese que já defendeu durante a campanha, que consiste em assegurar que sob o seu mandato a corrupção é investigada e perseguida. A favor dela está o fato incontestável de empresários até recentemente intocáveis estarem na prisão. Janot disse de forma clara na entrevista à Folha: “A Justiça de três, quatro anos para cá não é mais uma Justiça dos três Ps: puta, preto e pobre. Ela está indo em cima de agente político e de corruptor”. O ex-presidente Lula, enquanto isso, recomendou à presidenta, segundo O Globo, que espere mais tempo para anunciar integralmente a sua nova e fornida equipe ministerial, assegurando que nenhum dos indicados estará envolvido no escândalo.

Imagem: Bandeira do Brasil em plataforma da Petrobras. / Felipe Dana (AP)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Milionários do caso Petrobras dividem celas e lavam roupa sob o sol





O dia a dia na prisão dos altos executivos que caíram na Operação Lava Jato, da PF
Detenções sacodem a República no final do primeiro mandato do Governo Dilma

Pedro Cifuentes Curitiba

Os milionários executivos acusados de organização criminosa, corrupção, fraude na Lei de Licitações e lavagem de dinheiro no caso Petrobras lavam sua roupa sob o sol e têm a permissão de caminhar pelo recinto penitenciário até o começo da noite. As celas são humildes. São apenas seis: precisam dividir, e as duchas são públicas. Não podem receber alimentos de fora, mas almoçam e jantam dignamente. Alguns têm direito a uma ligação telefônica diária. As celas estão menos saturadas desde a noite de terça-feira, quando 11 dos 23 detidos foram liberados, com a proibição, no entanto, de sair do país.
Saíram da prisão em silêncio, alguns deles escondendo o rosto, em companhia de seus advogados. O restante teve a prisão preventiva ampliada por um prazo de um mês, o que irritou alguns advogados. Entre eles, Celso Vilardi, advogado de João Auler e Dalton Avancini, máximos responsáveis da construtora Camargo Corrêa: “Meus clientes estão perturbados com o fato de que quatro dias depois de ser ditada a prisão temporária, sem nenhum elemento novo, a prisão preventiva tenha sido ampliada e sejam comparados ao grau de periculosidade dos outros presos”.
Entre os presos havia presidentes e ex-presidentes das maiores construtoras do Brasil, oficialmente acusados de terem organizado junto à petroleira estatal um esquema de subornos, corrupção e lavagem de dinheiro que, entre 2004 e 2012, pode ter desviado bilhões de dólares e financiou irregularmente durante anos os principais partidos políticos (em maior quantidade o governante PT, mas também o PMDB e o PP).
Um dos primeiros a ser tirado de sua residência, no Rio de Janeiro, foi Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras. Seu destino já estava traçado desde o dia em que foram descobertas suas contas bancárias na Suíça. Ao longo do dia foram caindo nomes aparentemente intocáveis: diretores da OAS, Camargo Corrêa, Mendes Júnior, Queiroz Galvão, UTC, Engevix, Iesa e Galvão Engenharia, responsáveis por quase todas as grandes obras do país nos últimos anos. De todas as grandes empresas de construção brasileiras, só duas (Odebrecht e Andrade Gutierrez) se livraram, até o momento, de ter um dirigente na prisão. Suas sedes, no entanto, também sofreram buscas na sexta-feira.
Outro dos detidos, Ricardo Pessoa, presidente do grupo UTC/Constran, era, segundo as revelações da operação Lava Jato, o 'chefe do clube', o coordenador do cartel formado por 13 empresas construtoras. Esses presidentes e diretores-gerais dividiam as obras, calculavam preços, superfaturamentos e subornos, realizavam reuniões periódicas no que terminou sendo uma reinterpretação muito particular da política “Compre Nacional”, que, estimulada pela hoje presidente Dilma Rousseff quando era ministra de Minas e Energia, tinha o objetivo de desenvolver a indústria naval brasileira tendo como base a imposição de uma porcentagem de mão de obra, recursos e maquinário local nos projetos da petroleira.
O que deveria ser um fator de estímulo ao desenvolvimento nacional abriu brecha para negócios escusos. Os pagamentos ilícitos eram feitos em dinheiro ou através de transferências maquiadas com a etiqueta de “serviços de consultoria”, em contas brasileiras ou em paraísos fiscais. No seleto clube havia inclusive um subgrupo de eleitos “VIP”, formado pelas empresas ‘gigantes’, Camargo Corrêa, UTC, OAS, Odebrecht e Andrade Gutierrez, que algumas vezes se reuniam separadamente.
Na última sexta-feira, dia 14, esses Vips só tiveram tempo de encher uma maleta pequena com mudas de roupas, livros e uma necessaire. Os rumores sobre possíveis detenções de executivos estavam crescendo, mas só alguns dos suspeitos se anteciparam e ligaram para a Justiça com o objetivo de chegar a um acordo e evitar a prisão. Estupefatos, os brasileiros ficaram sabendo por toda a imprensa que 300 agentes da Polícia Federal tinham detido, logo na primeira hora, em 6 estados, 23 dos profissionais mais ricos e poderosos do país. Depois, tinham sido colocados em vários aviões e enviados a Curitiba, centro nevrálgico da já famosa Operação Lava Jato contra a corrupção que envolve a Petrobras, atendendo à sétima etapa da investigação, chamada de “Dia do Juízo Final”.
Nessa noite, e nas três seguintes, dividiram celas em uma delegacia repentinamente saturada e tiveram até que jogar alguns colchões no chão, já que em uma das dependências continua completamente isolado o doleiro “arrependido” Alberto Youssef, cujo testemunho na Justiça, junto com o de um ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e um executivo da empresa Toyo Setal Júlio Camargo, levou a algumas das detenções e mudaram para sempre o rumo do maior escândalo de corrupção da história brasileira.
Tamanhos são os valores supostamente desviados no esquema descoberto, tão volumoso é o processo judicial, e tão inesperadas são as revelações dos últimos delatores que ninguém parece estar muito certo de nada nos escritórios da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, em cuja carceragem estão os acusados. Os agentes cortaram a comunicação com os jornalistas até que sejam concluídos os depoimentos dos detidos. A entrada do local, com várias câmeras de televisão localizadas na porta, é um ninho de fofocas. Os rumores sobre novas delações entre os detidos são constantes, ameaçando quebrar definitivamente o futuro de alguns acusados e a tranquilidade de muitas pessoas cujos nomes ainda não apareceram diretamente ligados à investigação (políticos, empresários e intermediários).
“É impossível saber onde isso vai terminar”, reconhece em particular um dos advogados presentes, que acaba de assessorar seu clientes durante meia hora antes de um depoimento ao juiz. Até o momento, o juiz Sergio Moro, que comanda a investigação, ordenou a quebra do sigilo bancário dos presos e o Senado aprovou fazer o mesmo com um homem cujo nome tem aparecido com frequência na imprensa: João Vaccari, tesoureiro nacional do PT, acusado de ser um “operador do esquema” por Costa, que afirmou à Justiça que 3% dos contratos era destinado integralmente aos cofres do PT.
Não menos decisiva foi a delação premiada, no mês de outubro, de Julio Camargo, da Toyo Setal: não só rompeu a estratégia de negação ferrenha das acusações por parte das empresas corruptoras, como também eliminou qualquer dúvida sobre a detenção de Renato Duque e induziu o arrependimento de outros acusados relevantes: Augusto Ribeiro de Mendonça, também executivo da Toyo Setal e presidente da Associação Brasileira de Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav); e o ex-gerente de Engenharia da Petrobras Pedro Barusco, que se antecipou à ação do dia 14 e propôs proativamente à Polícia um acordo de delação premiada similar aos de Costa e Camargo, mas com muito mais dinheiro para devolver. Além de fornecer informação relevante, entregaria 100 milhões de dólares em troca de uma eventual redução de pena e direito à prisão domiciliar. O valor é o maior na história do Brasil a ser devolvido por um delator arrependido e equivale aproximadamente à quantidade gasta pela presidente Dilma Rousseff ou por seu adversário Aécio Neves na recente campanha eleitoral. Até o momento, cinco delatores premiados devolveram 423 milhões de reais aos cofres públicos.
Enquanto isso, a Petrobras cai na Bolsa (com um raro respiro nesta quarta-feira, de alta de 2,65%) e adia a publicação de seus resultados trimestrais em meio a uma assustadora crise de imagem, as construtoras interrogadas buscam fechar acordos com as autoridades para que as obras em andamento não sejam paralisadas pela investigação, e a oposição acumula munição para atacar o segundo mandato de Dilma Rousseff. As 23 prisões decretadas na ação de sexta-feira talvez sejam consideradas no futuro um ponto de virada na evolução institucional do país. Nesse sentido se manifestou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima na tarde da própria sexta: “Hoje é um dia republicano. Todos somos iguais, e aqueles que cometem um crime devem ser punidos da mesma forma”.
Imagem: Executivo da UTC deixa PF após cinco dias de prisão em Curitiba. / R. B. (REUTERS)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

“Não há uma cidade, um Estado no Brasil, sem obra superfaturada”





Para promotor especialista em carteis, algumas empresas atuam como a máfia

MARINA NOVAES São Paulo 

Mudam os esquemas, mas os protagonistas continuam os mesmos. Ano após ano, grandes empresas – em especial, construtoras – são apontadas como pivôs de escândalos suspeitos de desviar uma fortuna dos cofres públicos no Brasil. O mais atual, que atinge a empresa estatal mais importante do país, a Petrobras, revelado pelaOperação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), pode ter causado um rombo de até 10 bilhões de reais. Para o promotor de Justiça de São Paulo Marcelo Batlouni Mendroni, especialista em investigar crimes financeiros e cartéis, somente uma ampla reforma na legislação diminuirá a ocorrência de casos de corrupção que, na avaliação dele, é endêmica.
“Não há uma prefeitura, um Estado no Brasil, sem contratos superfaturados de obras, de prestação de serviços”, disse o promotor, doutor pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha, com pós doutorado na Università di Bologna, na Itália. Em entrevista ao EL PAÍS, na sede do Gedec, órgão do Ministério Público paulista criado em 2008 para investigar delitos de ordem econômica, Mendroni comparou as empresas envolvidas em escândalos dessa natureza à máfia italiana.
O promotor é autor da denúncia, de 2012, um grupo de empreiteiras suspeitas de fraudar uma concorrência pública para obras do metrô paulista. Embora sejam casos completamente distintos – um afeta o Governo Federal, comandado pelo PT, e o outro o Governo paulista, a cargo do PSDB –, chama a atenção a repetição dos “personagens” da esfera privada. Dentre as denunciadas pela Promotoria de São Paulo há dois anos, seis estão agora sob a mira da Operação Lava Jato da PF: as construtoras Camargo Corrêa, Mendes Júnior, OAS, Queiroz Galvão, Iesa e Odebrecht – todas negam irregularidades. Na semana passada, 36 investigados,entre eles executivos de oito construtoras, foram detidos pela Polícia Federal.
Pergunta. Por que observamos a repetição de algumas empresas em casos diferentes de corrupção?
Resposta. Por causado volume de dinheiro envolvido nos contratos com grandes estatais. O Brasil parece que, indiretamente, vai copiando o modelo das atividades mafiosas. Se você for olhar a Cosa Nostra italiana, de um tempo pra cá, ela parou de praticar crimes violentos e entendeu que conseguia ter muito mais sucesso conseguindo ganhar grandes contratos com o poder público, através da infiltração nas obras públicas, da corrupção de agentes públicos e intimidação de concorrentes. Então eles ganham grandes contratos com o Estado, superfaturam essas obras, que foi exatamente o que parece que aconteceu na Operação Lava Jato e que acontece no Brasil... Aliás, verdade seja dita: é o que acontece em praticamente todos os municípios, todos os Estados e na União. É uma corrupção absolutamente disseminada em todo o país. Eu acho que não existe uma prefeitura nesse país, um Estado, que não tenha esquema de superfaturamento de contratos de obras e serviços públicos. E a União, evidentemente, é onde estão os maiores contratos.
Essas organizações empresariais também são organizações criminosas. Isso tem que ficar bem claro. Hoje em dia, sabemos de empresas perfeitamente lícitas que atuam como um modelo de organização criminosa empresarial, que praticam muitos crimes, além de corrupção, a formação de cartel, os crimes tributários, e outros por aí... ou seja, elas praticam atividades lícitas, mas se valem da estrutura empresarial pra praticar crimes.
P. O senhor foi enfático em mencionar que não tem conhecimento profundo sobre a Operação Lava Jato. Mas, pela sua experiência, é possível que o esquema que vimos na Petrobras hoje tenha começado há muitos anos, até em Governos passados?
R. Sem conhecer o caso, sem opinar especificamente sobre esse caso, acho que esse é um esquema que já vem de muitos, muitos anos. (...) A minha opinião é de que sim. Que isso não é um esquema novo. Não só a Petrobras, mas se fossem investigar a fundo as grandes estatais, todos esses contratos, a gente ia ver aí que muitos outros bilhões de reais foram levados através de superfaturamento de obras, de hidrelétricas, estradas, hidrovias, enfim... Não tenho a menor dúvida. Na verdade, eu diria que, com 99,99% de chance, sim que esse esquema existe há pelo menos aí uns 30 anos, desde que o Brasil saiu da ditadura militar... Meu palpite é que desde os anos 80 a gente tenha aí esses esquemas atravessando os Governos indistintamente. Talvez tenha sido mais forte em um Governo que em outro, dependendo muito da ação de Tribunais de Contas, do Ministério Público, da Polícia Federal, enfim, dos termos de investigação e repressão à criminalidade. Mas que existe há bastante tempo eu acho que sim.
P. Muitos classificaram como “histórica” as prisões de empresários na última semana – e recentemente de políticos envolvidos no escândalo do Mensalão. Qual a sua opinião?
R. Eu acho que o Brasil vive uma fase em que deveria rever toda a legislação, a questão da Justiça, pra de alguma forma passar o país a limpo... É lógico que a corrupção não vai ser extirpada, mas que fosse dado um golpe violento contra a corrupção, para que as pessoas tenham mais medo. Porque do jeito que ela existe hoje, eu não tenho nenhum medo de errar em dizer que a corrupção é absolutamente endêmica no Brasil. E não acho que só isso vai ser um divisor de águas. Se não se houver essa reforma processual penal e penal, eu acho que nós vamos viver esse filme mais algumas vezes, achando que dessa vez vai... E isso pode ter um efeito rebote muito perigoso, no sentido de que as pessoas fiquem incrédulas, desestimuladas...
P. O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, disse à Folha de S.Paulo que algumas das empresas investigadas disseram ter sido alvo de concussão, ou seja, da exigência de dinheiro para fechar contratos. O que o senhor acha desse discurso?
R. É balela. (...) Assim como a gente não sabe quem veio antes, o ovo ou a galinha, na corrupção a gente também não sabe quem vem antes, a empresa ou o agente político. Porque é interessante para os dois. Na verdade, as duas partes se procuram...
P. Qual a dificuldade que o Brasil tem de perseguir e punir os agentes corruptores?
R. A corrupção é talvez um dos casos mais difíceis de se apurar. Porque é um crime silencioso que interessa às duas partes. Na corrupção, existem dois autores ao mesmo tempo e a vítima é o Estado, que é quieto, silencioso, não fala... A investigação da corrupção é dividida basicamente de duas formas cruciais: a primeira é quando as partes não sabem que estão sendo investigadas, que é quando temos um maior grau de possibilidade de eficiência, na medida em que nós temos instrumentos como escutas telefônicas, escutas ambientais, buscas e apreensões... Depois que os casos chegam à imprensa, corremos contra o tempo.
P. O senhor disse que, depois que a investigação vaza, fica mais difícil reunir um conjunto de provas ‘diretas’. Isso não facilita, de certa forma, o trabalho da defesa? Porque grandes empresas têm grandes advogados...
R. Se você tem poucas provas diretas, mas tem um conjunto vasto de provas indiretas, é possível que se dê maior valoração para as provas indiretas. Mas o poder Judiciário no Brasil, de uma forma geral, ainda é um pouco resistente em analisar as provas indiretas, coisas que na Europa e nos Estados Unidos, já foi absolutamente superado. Na Itália, por exemplo, os juízes aplicam nos casos de grandes máfias a questão da ‘máxima de experiência’, que é uma coisa muito nova no Brasil. (...) Mesmo a colaboração premiada, que é usada há muito tempo na Europa e nos Estados Unidos, só agora começa a ser usada no Brasil, principalmente depois da Lei de Organização Criminosa, mas ela já estava na nossa legislação. No Direito as coisas são um pouco mais lentas que nas outras ciências, porque envolvem uma adaptação da sociedade. Nós passamos por um período, e ainda passamos de certa forma, de muita resistência de advogados dizendo a colaboração premiada é imoral, mas isso é um instrumento absolutamente lícito. Então é um processo lento.
P. O que pode ser feito para diminuir a ocorrência de crimes financeiros no Brasil?
R. Em uma investigação de uma organização criminosa você precisa de uma engrenagem de três rodas: legislação adequada, estrutura e treinamento. Pra começar, já passou do tempo de os Estados terem varas criminais especializadas em crimes econômicos. Os casos de lavagem de dinheiro e de formação de cartéis, especificamente, e aqueles correlatos, são extremamente complexos. Quando você manda um caso desses pra um juiz comum, que na maioria das vezes não está habituado com esse tipo de processo, ele vai ter que começar tudo do zero.
O outro ponto é que a punição seja efetiva pra esse tipo de crime. Eu costumo dizer o seguinte: esses empresários, esses políticos e agentes públicos que praticam a corrupção não precisam de ressocialização, como os criminosos comuns. Eles precisam de uma pena com caráter exclusivamente punitivo. Não é permitindo que ele deixe a prisão depois de cumprir um sexto da pena... Por que hoje é muito vantajoso o cara praticar o crime, conseguir roubar milhões, e depois sair, resgatar o dinheiro que eles têm aplicado em outra parte do planeta, e viver uma vida nababesca. Se você tem um nível baixo de criminalidade em alguns países da Europa é porque as pessoas têm medo da mão pesada da Justiça, não porque elas nascem naturalmente boas...
P. Qual a sua opinião sobre o financiamento privado das campanhas eleitorais?
R. Eu sou um pouco radical nessa questão. Eu, por exemplo, me questiono por que tem que ter o financiamento público ou privado de campanha... Por que as grandes empresas querem financiar as campanhas? Porque elas têm interesses. Não é de graça. Não é ideológico. Elas bancam candidaturas indistintamente, de vários partidos, sem nenhuma ideologia política, dos concorrentes diretos. Isso é o óbvio ululante. Só não enxerga quem não quer ver. É um ciclo vicioso: eles financiam as campanhas e depois cobram de alguma forma, seja para facilitar os contratos com essas empresas, que são superfaturados e é, muitas vezes, a forma como recebem o dinheiro investido de volta.
Imagem: O promotor de Justiça Marcelo Mendroni, de São Paulo. / M. NOVAES