segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Uma espiã chamada Coco Chanel




A grande estilista trabalhou para os serviços secretos alemães durante a ocupação de Paris. Tentou aproveitar as leis antissemitas para se apropriar das ações de seu sócio judeu


Há gênios que escondem um lado escuro. Coco Chanel é um deles. A mulher que fundou o império que leva seu nome, que transformou a maneira de vestir de milhões de mulheres e que comercializou o perfume mais prestigioso e conhecido (o Nº5), trabalhou clandestinamente para os serviços secretos alemães durante a ocupação francesa (1940-1944). Um livro biográfico entre a meia centena que foi publicada sobre o perfil deste emblema da França transformou em certeza há dois anos o que era uma suspeita até então: Coco Chanel foi recrutada pela espionagem alemã. Nesta semana, pela primeira vez, um veículo de comunicação francês –o canal de televisão estatal France 3– averiguou as profundezas de um aspecto da história que a França prefere com frequência ignorar: o colaboracionismo de um de seus grandes mitos contemporâneos.
Quando os alemães ocuparam Paris, em maio de 1940, Coco Chanel tinha 57 anos. Na época, já era uma referência mundial no universo da moda e uma empresária de prestígio com 4.000 empregados em vários ateliês. Ela, como outras celebridades da época, fugiu, assustada, para o sul do país para retornar a Paris pouco tempo depois. Os alemães desejavam manter a fama da cidade como capital das artes e do entretenimento e obtiveram o retorno de Chanel, do ator Jean Gabin e da bailarina e cantora Joséphine Baker, convertida secretamente também em espiã, mas neste caso a serviço dos aliados.
Durante duas horas, o programa mensal da France 3 A sombra de uma dúvida destrinchou na última segunda-feira, em um capítulo intitulado Os artistas sob a ocupação, o destino de um bom punhado de celebridades durante a ocupação alemã. O de Chanel resulta especialmente doloroso. A grande estilista não só voltou para Paris como também retornou à vida luxuosa no hotel Ritz e se apaixonou por Hans Günther von Dincklage, um diplomata alemão fluente em francês e que resultou ser um recrutador nazista de espiões. Por meio dele Chanel obteve a libertação de seu sobrinho Gabriel, que sempre se suspeitou ser filho da própria estilista.
Os dados e documentos revelados no programa da emissora France 3 são incontestáveis. No início da ocupação, aproveitando as novas normas antissemitas, Coco Chanel tentou arrebatar a seu sócio, o judeu Pierre Wertheimer, a empresa Bourjois, que comercializava o Chanel Nº 5. Não conseguiu. Wertheimer, sabedor dos perigos que o espreitavam, tinha colocado previamente suas ações em nome de um certo Félix Amiot, que as devolveu no fim da guerra. Para apresentar uma aparência de empresa renovada, Chanel, uma mulher altiva e de escassa empatia, despediu grande parte de seu pessoal; uma vingança, na verdade, pela greve que os empregados tinham realizado meses antes.
O estilo de vida de Chanel durante os anos de ocupação sempre levantou suspeitas na sociedade francesa. Hal Vaughan, um velho jornalista norte-americano, veterano da guerra, publicou em 2012 os dados que confirmavam tão incômoda suspeita. Gabrielle Bonheur Chanel, mais conhecida como Coco Chanel, figurava nos serviços alemães como a agente F-7124. A France 3 recuperou agora documentos inéditos do ministério de Defesa francês, da Prefeitura de polícia e do Arquivo Nacional da França que corroboram essa versão. De fato, a viagem que Coco Chanel realizou à Espanha em 1943 foi uma tentativa de utilizar suas ligações indiretas com o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill para tentar que Londres concordasse em assinar a paz unilateralmente com Berlim. Uma missão fracassada.
O fim da ocupação de Paris, em agosto de 1944, deu lugar, nos primeiros dias, à cruel perseguição de todo colaboracionista. Enquanto as turbas castigavam as mulheres raspando-lhes o cabelo, Coco Chanel foi detida e levada a um comitê de depuração que a interrogou durante algumas horas antes de liberá-la. Nunca mais foi incomodada. Ninguém investigou. Nenhum tribunal sequer interrogou a proprietária de um império da moda, a joalheira e a perfumista que mantinha esplêndidas relações com a aristocracia e a arte de todo o continente. Apesar disso, ela optou por um exílio dourado na Suíça que durou dez anos. Lá foi feita a última foto que se tem dela, datada de 1949, ao lado de seu charmoso amante alemão.
Coco Chanel voltou a Paris e retomou as luxuosas estadias no Ritz. Ali morreu a milionária, em 1971, depois de ficar doente repentinamente, deitada em sua cama, perfeitamente vestida, penteada e maquiada, aos 88 anos de idade. Depois disso, poucos quiseram mexer no lado mais tenebroso de sua biografia. “Você viu a repercussão do programa?”, pergunta retoricamente ao EL PAÍS o produtor executivo da Martange Production, Frédéric Lusa, responsável pelo programa, para responder: “Essa história só interessou veículos de comunicação estrangeiros”.
A sobrinha-neta de Gabrielle Bonheur Chanel, Gabrielle Palasse, filha de Gabriel -aquele que foi salvo por Hans Günther von Dincklage-, confessou uma vez publicamente que nunca se atreveu a perguntar a Coco Chanel se na verdade era neta dela. Pierre Wertheimer terminou convencendo o gênio da moda para ficar com a empresa, embora mantivesse a grande Coco como sócia criativa e cobrisse todos os seus gastos até o fim. Os netos de Pierre, Gerard e Alain Wertheimer, são hoje os donos do império Chanel, que tem quase 200 lojas em todo o mundo. Empresa familiar não cotada em bolsa, a Chanel é a responsável pela fortuna dos Wertheimer, avaliada recentemente pela Bloomberg em 5,6 bilhões de euros (cerca de 17,8 bilhões de reais).
Em 1983, os novos gestores contrataram o estilista Karl Lagerfeld, extravagante e genial personagem. Esta é a opinião dele sobre Coco Chanel e seu lado escuro: “A verdade não nos diz respeito. Uma lenda é uma lenda. Prefiro minha fantasia aos detalhes históricos [...]. O que importa não é a realidade, a não ser a ideia que temos das coisas e das pessoas. Para mim, Chanel é uma ideia e isso é o que eu desenvolvo”.
Uma vida de luxo
Coco Chanel nasceu em 1883, em Saumur (um vilarejo do centro da França), no seio de uma família humilde.
O grande amor de sua vida, o aristocrata britânico Boy Capel, emprestou-lhe o dinheiro para montar seu primeiro ateliê. Alguns anos depois, a estilista tinha criado um império da moda e explorava, com o sócio Pierre Wertheimer, o Chanel Nª 5, o perfume criado por ela em 1921.
Viveu quase toda a vida em grandes hotéis. Duas 'suítes' do Ritz foram sua casa em Paris até sua morte, em 1971.

Imagem: A estilista Coco Chanel, em seu ateliê em Paris em 1937. / ROGER-VIOLLET

Ser negro nos Estados Unidos




Por José Inácio Werneck, de Bristol


Eric Garner tinha 43 anos, 1,91m  e 160 quilos. Obeso, sofria do coração e de asma.
Era camelô, na saída do “ferry” que liga Staten Island aos outros distritos de Nova York: Brooklyn, Queens, Manhattan e Bronx.
Tinha mulher e seis filhos.
Vendia cigarros avulsos, o  que irritava os comerciantes da área, que reclamavam de “concorrência desleal”, já que não pagava os pesados impostos que incidem sobre o consumo de tabaco.
Em julho deste ano, debateu-se nas mãos de cinco ou seis agentes policiais, que o derrubaram ao chão – embora um vídeo mostrasse claramente que ele tinha as duas mãos erguidas, em sinal de que se rendia – e lhe aplicaram, entre outros golpes, uma gravata.
-  I can’t breathe, I can’t breathe. Não posso respirar, não posso respirar – gritou Garner, onze vezes.
Quando uma ambulância afinal foi chamada,  estava morto.
A promotoria distrital instaurou um “Grand Jury”, procedimento que tem a finalidade não de julgar um suspeito, mas de determinar se há suficientes evidências contra ele para processá-lo criminalmente.
O suspeito no caso era Daniel Pantaleo, o que aplicou a gravata. Os demais policiais receberam imunidade, para testemunhar.
Depois de ouvir os demais policiais, outras testemunhas e o próprio Pantaleo, o Grand Jury concluiu que não havia “probable cause” (evidências suficientes) para levar Pantaleo a um julgamento.
Pantaleo e seus colegas são brancos, Garner era negro.
Depois do ocorrido em Ferguson, no estado de Missouri, em que um Grand Jury tampouco encontrou evidências suficientes para processar o policial branco que matou a tiros um jovem negro, a eterna discussão sobre racismo nos Estados Unidos voltou à tona.
Em Ferguson, o policial branco, de 1,93m,  disse ter sido aterrorizado pelo  negro de 18 anos, que tinha 1,95m e 118 quilos.
O ocorrido em Ferguson é em grande parte envolto em dúvidas e contradições, enquanto em Nova York a evidência de imagem e sons do vídeo torna difícil acreditar que um Grand Jury em que metade dos membros era de negros e hispânicos possa ter sido  tão complacente com o policial branco.
A própria existência nos Estados Unidos de uma “raça” que não é raça, a hispânica (dividida em geral pela imprensa entre “hispânicos brancos e não-brancos”), mostra como a cor, as feições e outras características étnicas – o que se chama “racial profiling” – podem dividir e separar os seres humanos.
Casos de negros mortos por policiais brancos são infelizmente corriqueiros em Nova York,  cidade com um prefeito branco casado com uma mulher negra, que diz estar derterminado a mudar radicalmente o comportamento e mentalidade dos homens e mulheres encarregados de zelar pela segurança da população.
Para quem tem a pele mais escura, a maior ameaça à segurança vem da própria polícia.

José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.
Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.
Imagem: O racismo nos EUA se repete com frequência e praticamente não sai das manchetes dos jornais

Voo teste para Marte pousa com sucesso no Pacífico





A nave Orion, projetada para levar astronautas a Marte na década de 2030, dá duas voltas na Terra, em voo que serviu para agência espacial norte-americana avaliar reentrada na atmosfera e exposição à radiação.


Com um dia de atraso, a cápsula espacial americana Orion foi lançada na véspera para o seu primeiro voo de teste. Acoplada a um foguete do tipo Delta IV, a cápsula não tripulada partiu da base espacial em Cabo Canaveral, na Flórida, e pousou com sucesso no sudoeste da costa californiana no final da tarde.
Em cerca de quatro horas e meia no espaço, a Orion deu duas voltas na Terra e atingiu 5,8 mil quilômetros de altitude – dez vezes mais alto do que a órbita da Estação Espacial Internacional (ISS). Em sua conta no Twitter, a Nasa publicou fotos que mostram o pouso da cápsula com apoio de oito paraquedas – os três principais do tamanho de um campo de futebol.
No voo de teste, a Nasa analisou o comportamento do escudo térmico da Orion, que precisa suportar temperaturas de 2.200ºC durante a reentrada a uma velocidade de 32 mil quilômetros por hora na atmosfera terrestre. Além disso, os engenheiros da Nasa receberam dados sobre a exposição da cápsula à radiação. A agência espacial observou também a separação da cápsula do foguete durante a decolagem e o funcionamento do sistema de paraquedas na aterrissagem no Oceano Pacífico.
Em sua conta no YouTube, a Nasa publicou um vídeo com a decolagem da cápsula Orion. O clipe, de cerca de 10 minutos, mostra imagens de uma câmera acoplada na cápsula enquanto ela se distancia da Terra.
Na primeira tentativa, na quinta-feira, a decolagem foi adiada duas vezes: primeiro por que um barco estava próximo demais da base espacial, depois por problemas técnicos. Em seguida, foi cancelada devido às condições meteorológicas.
Um primeiro voo tripulado da cápsula Orion não deve acontecer antes de 2021. Em meados da década de 2030, a Nasa pretende levar astronautas a Marte. Este voo de teste custou US$ 370 milhões. No total, o programa já custou acumulou US$ 9,1 bilhões à agência espacial norte-americana.
Imagem do vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UEuOpxOrA_0
Imagem: A espaçonave Orion passou por seu primeiro teste para a viagem a Marte

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O actual preço do petróleo e as multinacionais





1.  Os preços internacionais do petróleo prosseguem em trajectória descendente. Vão mesmo já acumulando cerca de 30% de subida face, por exemplo, aos preços registados em Julho deste ano. Tal percentagem constitui uma muito significativa perda de valor naquela que é ainda a mais importante fonte de energia da sociedade moderna.

jpintodeandrade.blogspot.com

2.  Os impactos da descida do preço estão a provocar distintos reflexos sobre os diversos países, no caso de uns serem importadores e outros serem exportadores de petróleo.

3.  Como é evidente, aos países importadores de petróleo interessa um preço do petróleo mais baixo, resultando daí alívio nas suas contas. Aos países exportadores, sem sombra de dúvidas que interessará preços mais elevados, melhorando as suas receitas.

4.  Todavia, essa é uma perspectiva de certo modo redutora, uma vez que existem outros actores em cena, as empresas, com o seu interesse particular que nem sempre é completamente coincidente com o dos estados. Vale, pois, a pena dar uma ligeira olhadela para a posição das multinacionais ligadas à extracção e comercialização do petróleo, colocadas agora no âmago destes interesses contraditórios.

5.  Na maior parte das vezes, as multinacionais são originárias de países importadores de petróleo. O que não implica que não haja nesse negócio empresas de grande porte sedeadas em países exportadores. Mesmo assim, a todas elas interessará, seguramente, preços mais elevados, independentemente do interesse geral dos seus países.

6.  Com os actuais preços do crude, as principais multinacionais ocidentais, Exxon, Chevron, Shell e BP PLC vão vendo reduzidos os seus lucros a níveis inferiores aos de dez anos antes, quando até estavam a vender o petróleo e o gás natural a preços iguais a metade dos actuais. Esta diferença de resultados deriva, sobretudo, do aumento dos custos de produção, pois as novas explorações são feitas em condições cada vez menos favoráveis. Segundo dados recentes, as margens de lucro das multinacionais do petróleo baixaram dos 35% obtidos na última década, para 26% registados nos últimos 12 meses.

7.   Os níveis de produção da Shell já são idênticos aos que tinha dez anos antes. Perspectiva-se que continuem a descer. O mesmo sucederá com a Chevron. A Exxon está com níveis de produção aproximados dos de há cinco anos.

8.  Fruto desse estado de coisas, não são poucas as multinacionais que decidiram não só adiar investimentos que tinham em carteira, como, inclusive, realizar desinvestimentos nos campos petrolíferos menos lucrativos.

9.  Se é verdade que o adiamento dos investimentos em carteira e os desinvestimentos terão implicações sobre a actividade económica dos respectivos países, não deixa de ser verdade que eles também se reflectirão na responsabilidade social dessas mesmas empresas, alguns dos quais serão demasiado importantes para o bem-estar das suas populações.

10.                    A queda dos preços do petróleo está a afectar muito negativamente países como a Venezuela, Irão, Rússia, Iraque, Nigéria, e até mesmo Angola, podendo, porém, ter impactos positivos sobre os maiores importadores de petróleo, nomeadamente, países europeus e a China.

11.                    A situação da Venezuela é das mais sensíveis. Está mesmo a forçar o Presidente Nicolas Maduro a alterar a política de hostilização das multinacionais, que foi o cavalo de batalha de Hugo Chavez. Caso Nicolas Maduro adopte uma política de maior cooperação para com as multinacionais, terá, então, que enfrentar a animosidade dos “bolivarianistas” mais radicais.

12.                    A Rússia não vive momentos muito melhores, engajada que está num conflito que pode, inclusive, descarrilar, obrigando-a a grandes encargos.

13.                    Temos também que ficar atentos aos maus momentos que se avizinham para nós, pois o sector não mineral da nossa economia está ainda muito dependente dos resultados obtidos no sector petrolífero. E esta dependência manter-se-á por muito tempo, até que ele se realimente, criando a sua própria dinâmica.