terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Huíla: Cem mil crianças poderão ficar fora do ensino





Falta de salas e de professores razão principal agravada pelos cortes orçamentais

Teodoro Albano
VOA

Mais de cem mil crianças podem ficar fora do sistema de ensino em 2015 na província da Huíla.
As autoridades que superintendem a educação na província não avançam as razões que estarão por detrás do elevado número de crianças impedidas de ir a escola, mas a Voz da América sabe que a exiguidade de salas de aulas e de professores face a actual explosão da população estudantil fundamentam a situação.
O problema que tem que ver com a carência de professores no Lubango e com maior incidência no interior, está longe de ser resolvido já que o cancelamento dos concursos públicos em 2015 afecta seriamente a política de contratação de novos docentes. Esse cancelamento é o resultado dos cortes orçamentais forçados pela crise do preço do petróleo.
“ Podemos aqui acreditar que ainda temos problemas de professores porque o périplo que fomos realizando a nível dos municípios houve manifestação de todos os directores municipais da educação naquilo que é necessidade de incrementarmos mais professores”, disse o coordenador de formação e porta-voz da direcção provincial da educação, Benício Puna.
O sindicato de professores na Huíla revela que apesar da vontade dos filiados cumprirem com o seu papel de educar e ensinar, o ano lectivo arranca com muitos pendentes por resolver, segundo o secretário provincial da classe, João Francisco.
“ Há pendentes dos tais pagamentos os tais subsídios de colaboração de férias nem foram pagos na totalidade. Então também constituem uma luta para que este ao possamos pôr fim a esta situação desses pagamentos quem vêm já desde a muito tempo”, disse o sindicalista
 Os números definitivos de crianças inseridos no sistema geral de ensino em 2015 só serão conhecidos em Março já que até ao momento ainda decorrem matrículas em alguns estabelecimentos escolares.

Milhares de crianças ainda fora do sistema escolar no Kwanza Sul





Centenas de professores abandonam a profissão todos os anos contribuindo para as dificuldades. Província vai este ano ter mais salas de aula

Fernando Caetano
VOA

Apesar da construção de mais escolas e da admissão de centenas de novos professores dezenas de milhar de crianças deverão este ano estar ainda fora do sistema escolar no Kwanza Sul.
Falando por ocasião da abertura do ano escolar  o director provincial da educação, ciência e tecnologia Francisco António de Figueiredo Júnior disse que para 2015 está prevista a construção de  novas escolas nos diferentes níveis de ensino.
Este ano deverão ser admitidos  17.100 novos alunos, 321 novos professores e 190 novas salas de aulas,  mas  64.207 crianças estarão ainda fora do sistema de ensino.
«No ano lectivo de 2014, a província contou com uma rede de 525 escolas, comportando 5.235 salas de aulas, para um universo de 9.139 professores e 466.431 alunos matriculados nos distintos níveis e subsistemas de ensino”, disse.
“Para o ano de 2015, temos em perspectiva a inclusão de 17.100 novos alunos e 321 professores, bem como a entrada em funcionamento de 190 novas salas de aulas”, acrescentou afirmando ainda que há  “um universo de 64.207 crianças fora do sistema de ensino".
O director de educação disse ainda que o sector luta para manter os professores atraídos para outras profissões. Desde 2012 até ao ano transacto, o sector de educação na província perdeu para outros sectores mais de 900 professores, factor que está pesar na balança do ensino e aprendizagem.
António de Figueiredo Júnior  diz ter havido “baixas significativas” no sector dos professores afirmando que no ano lectivo 2012 perderam "369 professores por várias razões, em 2013 houve uma baixa de efectivos na ordem dos 265 professores e no ano lectivo 2014 houve uma baixa de efectivos na ordem dos 298 professores, totalizando cerca de 932 professores que deixaram o sector da educação”.
É urgente repor esses números devido ao  crescente  número de alunos, acrescentou.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Educadora em Malanje diz que há professores que não sabem escrever o nome





Engrácia Joaquim Pedro Ramos, directora do Centro Escolar Deolinda Rodrigues

Isaías Soares
VOA

“Há professores que não sabem  escrever o nome deles”, denuncia a directora do Centro Escolar Deolinda Rodrigues, no município de Malanje, Engrácia Joaquim Pedro Ramos.
A deficiente competência dos alunos do ensino primário do ensino geral em Angola transita do primeiro e segundo ciclos e para as instituições de ensino superior no país.
Há falta de empenho por parte de muitos docentes, acusou a directora num seminário realizado esta semana. “Um aluno que estuda a iniciação até a sexta classe, não é o professor da sétima classe que vai lhe ensinar a ler e escrever”, questionou para perguntar: “é o professor da sétima que lhe vai mandar fazer o abecedário?
“Quem está a mutilar esta sociedade, aqueles alunos, estudantes do Instituto Médio de Educação que não sabem ler e escrever, quem são?”, continuou Engrácia Joaquim Pedro Ramos para, depois, apelar os colegas a reconhecerem isso.
Engrácia Ramos reafirmou que “os professores do ensino primário é que estão a mutilar as crianças, aqueles doutores que estão ali no INE, que estão na faculdade que não sabem escrever, vocês é que estão a mutilar”, acusou.
A responsável enumerou outras dificuldades que emperram o processo de ensino e a aprendizagem em Angola, com proeminência para o domínio da língua portuguesa.
“Quem não sabe aprende com o outro, quem tem uma grafia má procure melhorar”, aconselhou, mas denunciando “eu não tenho vergonha, nem erro de dizer que ainda temos professores que não sabem escrever, até o próprio nome dele”.
Apesar das deficiências, o próprio professor solicita a transferência para leccionar no I Ciclo, prejudicando sobremaneira os alunos.
Durante o seminário que termina esta sexta-feira, para docentes do ensino primário de toda a província, estão a ser revistas noções sobre o sistema de avaliação, aspectos ligados à língua portuguesa, matemática, estudo do meio, entre outras disciplinas.
Cerca de 20 mil novos alunos vão frequentar a escola no ano lectivo 2015 a ser aberto no dia 30 deste mês em Malanje.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A volta das ideias. MARIO VARGAS LLOSA





Há muito não se via na França tantos escritores, professores, pesquisadores e eruditos se envolverem de forma tão intensa na vida pública debatendo sobre os ataques jihadistas

http://brasil.elpais.com

Os assassinatos cometidos pelos jihadistas na França contra a revista satírica Charlie Hebdo e um supermercado kosher tiveram surpreendentes consequências políticas. Eles reativaram as raízes democráticas da sociedade francesa e mobilizaram imensos setores para que manifestassem seu protesto contra aquela barbárie e sua defesa da tolerância, da liberdade, da igualdade, do direito à crítica e da legalidade, valores que se viram ameaçados com aqueles crimes.
Além disso, devolveram a confiança da opinião pública no Governo (que parecia desfalecer) do presidente François Hollande e do seu primeiro-ministro, Manuel Valls, pela forma enérgica como lidaram com a crise provocada pelo desafio terrorista, e renovaram os consensos da classe política francesa em favor dos “princípios republicanos”, ou seja, a coexistência na diversidade de crenças, costumes e culturas diferentes. Em vez de se deixar intimidar pela chantagem sangrenta dos extremistas islâmicos, a França, que já os combateu na África e continua a combatê-los no Oriente Médio, reafirma sua decisão de continuar a enfrentá-los. Como prova disso, despachou para essa região o seu principal porta-aviões, o Charles de Gaulle, a fim de apoiar os bombardeios aliados contra o califado islâmico instaurado em territórios da Síria e Iraque. Vale recordar que a França propôs uma intervenção militar na Síria em prol dos rebeldes laicos e democratas que se sublevaram contra a ditadura de Bashar al Assad, e que sua proposta foi frustrada por culpa dos Estados Unidos e outros aliados, intimidados por Vladimir Putin, fornecedor de armas para o Governo sírio. Agora que aquelas forças rebeldes foram varridas pelos fanáticos islâmicos que querem derrubar o regime de Assad para instalar uma ditadura ainda mais despótica (no califado islâmico, além das decapitações, das chibatadas e da escravização da mulher, acaba de estrear a política de lançar os homossexuais ao vazio), muitos Governos ocidentais lamentarão não ter adotado a firmeza da França em defesa da civilização, que é, claramente, o que o extremismo islâmico se propõe exterminar.
Porém, a mais importante decorrência dos assassinatos cometidos pelos jihadistas em Paris talvez seja a volta das ideias à política francesa. Elas foram as grandes protagonistas da sua vida pública ao longo de boa parte da história, mas nos últimos tempos, em parte pelo desinteresse – para não dizer desprezo – que a política inspirava na sua intelligentsia, e em parte pelo viés puramente pragmático, de mera gestão do existente, sem voo, nem horizonte, nem ideais, que aquela havia adquirido, o debate de ideias, no qual a França sempre se destacou, parecia ter sido extinto na terra de Voltaire, Diderot, Sartre, Malraux e Camus. Nestas últimas semanas ele retornou, de maneira plural e caudalosa.
Há muito não se viam tantos escritores, professores, eruditos e pesquisadores voltando-se de forma tão intensa para a vida pública, opinando através de artigos, manifestos e entrevistas em rádio, televisão e jornais sobre o crescimento do antissemitismo, da islamofobia e dos guetos de imigrantes desprovidos de educação, trabalho e oportunidades, que se multiplicam nas cidades europeias e servem de caldo de cultivo do extremismo antiocidental, e de onde estão saindo milhares de jovens para integrar os batalhões fanáticos da Al Qaeda, do califado islâmico e de outras seitas terroristas.
A polêmica é tão intensa que me fez recordar os anos sessenta, quando assuntos como a guerra da Argélia, as denúncias sobre o Gulag, a fascinação que a revolução cubana e o maoísmo exerciam sobre muitos jovens e o compromisso e militância dos intelectuais animavam um debate efervescente, que enriquecia a política e a cultura francesas. Entre as ideias em torno das quais há maior disparidade de opiniões figura a imigração: será ela um perigo potencial, como crê Marine Le Pen e como parece subscrever o revoltoso Michel Houellebecq em seu último romance, Submissão, devendo portanto ser restringida e vigiada com rigor? Outros intelectuais, como André Glucksmann, recordam que o maior número de vítimas do terrorismo islâmico são os próprios muçulmanos, que já morreram e continuam morrendo às dezenas de milhares, vítimas de alguns fanáticos para os quais todo aquele que descrê da sua verdade única merece ser exterminado. O fanatismo irracional e assassino não é monopólio do islã; floresce também em outras religiões, das quais não esteve excluída a cristã, embora – quem poderia negar? – aquele seja muito mais resistente à modernização do que esta foi, pois não experimentou ainda esse longo processo de secularização que permitiu à Igreja Católica se adaptar à democracia, ou seja, deixar de se identificar com o Estado. Tudo isso parece indicar que passará muito tempo até que os países árabes – um exemplo promissor, lamentavelmente único até agora, é o da Tunísia – adotem a cultura da liberdade.
Eu gostaria de comentar as opiniões sobre este tema de dois intelectuais que aprecio muito: J.M. Le Clézio e Guy Sorman. Ambos coincidem em afirmar que os assassinos dos jornalistas do Charlie Hebdo, assim como o dos quatro judeus do supermercado kosher, são meros delinquentes comuns, pobres diabos nascidos ou criados nos guetos franceses, em condições execráveis, e educados no crime nos reformatórios e prisões. Esta seria sua verdadeira condição, para a qual o fundamentalismo islâmico serve apenas de disfarce superficial. O ambiente social em que nasceram e cresceram seria o maior responsável pelo furor niilista que os transformou em depredadores humanos, mais do que uma convicção religiosa.
Creio que essa análise não leva em conta suficientemente aqueles que canalizam, armam e aproveitam para seus próprios fins esses “lobos solitários” produzidos pela discriminação, a incultura e o ergástulo. Por acaso todas as ideologias e religiões não se serviram sempre de delinquentes comuns e sujeitos descerebrados e perversos para cometer suas maldades? Os assassinos do Charlie Hebdo e do supermercado saíram daqueles guetos, mas foram treinados no Oriente Médio ou na África e participaram de organizações que, graças a Estados petroleiros e xeques multimilionários que as financiam, estão equipadas com armas muito modernas e têm redes de informação e contatos por todo o mundo, ao mesmo tempo em que imãs e teólogos os abasteciam com as verdades elementares para justificar seus crimes e se sentirem heróis e mártires merecedores de glória e de prazeres incontáveis no além. Certamente as condições de abandono e marginalização dos guetos europeus contribuem para criar potencialmente o assassino fanático. Mas quem coloca a bomba ou o kalashnikov nas suas mãos, o incita e o indica o alvo a liquidar tem tanta responsabilidade como ele no sangue derramado.
Que a luta contra o terrorismo às vezes exija certas reduções da liberdade é, lamentavelmente, inevitável, com a condição de que tais limitações não transgridam certos limites além dos quais a própria liberdade sucumbe e um país livre deixa de sê-lo, chegando a se confundir com os Estados totalitários e obscurantistas que alimentam o terrorismo. Isto parece ter sido muito bem entendido pelo povo francês, que, na pesquisa sobre intenções de voto publicada no mesmo dia em que escrevo este artigo, indica um aumento na popularidade de todos os partidos democráticos – de direita e de esquerda –, enquanto a Frente Nacional não parece ter ganhado um só voto com sua demagogia de pedir o restabelecimento da pena capital, a saída da Europa e uma agressiva política anti-imigratória.
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© Mario Vargas Llosa, 2015.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tempos de horror





A tragédia de Charlie Hebdo serve para lembrar que no México foram assassinados 102 jornalistas nos últimos 14 anos


Camille Desmoulins, o advogado e jornalista que em 12 de julho de 1789 discursou para as massas nos jardins do Palais Royal para que tomassem a Bastilha, algo que aconteceu dois dias depois, acabou guilhotinado pela Revolução que ajudou a engendrar, exatamente por rir-se e denunciar em seu semanário satírico a violência posterior.
Se agora em nossos dias a tragédia do Charlie Hebdo reflete que a imprensa continua sendo o espelho do mundo em que vivemos, é inevitável voltar os refletores para a América. Por exemplo, o México foi, em 2014, segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ), o país mais perigoso para exercer o jornalismo no subcontinente e está em sétimo lugar no mundo. A Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) anunciou que, dos 102 jornalistas assassinados entre 2000 e 2014, apenas em 10% dos casos houve sentença e 89 crimes continuam impunes. É muito perigoso opinar sobre um político corrupto ou a serviço dos cartéis.
Na Argentina, a pressão é enorme e eu entendo. Chegou um momento em que o quarto poder se tornou o primeiro. A luta entre a presidenta Cristina Kirchner e o grupo Clarín exige um esclarecimento fundamental, independentemente das razões de cada um. Kirchner, para o bem ou para o mal, foi eleita pelos argentinos; a equipe do Clarín é escolhida apenas pelo Clarín. O princípio da soberania do Estado está em quem é eleito e não em quem pode eleger. Os meios de comunicação se transformaram no principal eleitor até que, como dizia Stendhal, “tudo que é exagerado se torna insignificante”. Assim, seu poder chegou a ser tão imenso que se tornou —por uma questão de sobrevivência— insignificante.
No Equador, o presidente Correa, que se sentiu ofendido, mudou a Constituição e aprovou em 2013 a controversa Lei da Mordaça pela qual, se se considerasse que um meio de comunicação tivesse faltado com a verdade, seria sancionado economicamente de forma tão selvagem que equivaleria ao fechamento. Um exemplo é o jornal diário El Universo, cujos três diretores e um dos jornalistas foram condenados a três anos de prisão e a pagar uma multa exorbitante de 40 milhões de dólares. Na Colômbia, o diretor de El Espectador, Guillerme Cano, recebeu seus colegas do Charlie Hebdo no céu. Eles morreram pelas balas de um Kalashnikov e Cano pelas de Pablo Escobar, em 1986, mas no fim a causa da morte foi a mesma. No Brasil, diante do fluxo de inteligência, simpatia e mudanças sociais encarnado pelo ex-presidente Lula, apenas a atuação vigilante de alguns meios como a Folha expuseram o escândalo de corrupção da Petrobras, desafiando o Governo de Dilma a explicar os contratos firmados pela estatal. Além das numerosas prisões, ordenou-se o bloqueio de bens que ultrapassam os 300 milhões de dólares.
O tempo em que apenas os meios de comunicação eram a consciência dos povos passou, entre outras coisas pela emergência das redes sociais. Hoje devem encontrar seu próprio lugar no jogo de poder.
Não só porque os fanáticos, os ditadores e os poderosos têm pouco senso de humor, mas porque intuem —com razão— que por trás do humor costuma vir o senso crítico e que este pode estimular a única coisa que, ao lado do medo, é o motor dos seres humanos: a esperança. Quando a esperança é muita e de muitos, chama-se revolução, por isso é preciso cegá-la na origem.
O mapa da liberdade de expressão está em perigo. Há uma pergunta elementar: Quem manda, afinal? A mídia ou os Governos? Os Governos são melhores, pois no fim das contas os elegemos nas urnas. No entanto, também é verdade que enquanto a América Latina é ocupada pela China (que não é uma boa referência de liberdade de expressão) e Cuba se torna o fator chave para o diálogo entre as Américas, a falta de atenção dos Estados Unidos, junto com a prepotência dos Governos da zona do euro, colocaram os meios de comunicação latino-americanos em uma grave e definitiva crise de identidade.
O terror não é exclusivo de ninguém; é de todas as religiões, de todas as cores, de todos os deuses, de todas as bandeiras. É bom que nesse momento em que a Europa olha o terror de frente, os meios de comunicação saibamos que há todo um continente que fala espanhol, cujo rosto deformado reflete, há muito tempo, um estado de terror.