terça-feira, 11 de outubro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho.


Apresentamos alguns exemplos de feitiços usados por grupos angolanos.
O «kissola» é um boneco de trapos, de uns 30 cm, preparado pelo adivinho. Enfeitam-no com uma cabeleira de fibra pintada com barro vermelho. O casal que deseja filhos coloca-o debaixo da cama. Em todas as Luas Novas, alimentam-no aspergindo-o com bebidas e alimentos e a mulher pinta-o com pó. Fica simbolizado por uma bananeira plantadas à frente da casa e protegida por estacas. É o sinal do «kissola».

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Ninguém pode falar com a mulher que está sob a sua influência. Se não consegue engravidar, o adivinho arranca as estacas, mata uma galinha e esfrega o «kissola» com o sangue. Se, depois deste sacrifício, não consegue a gravidez, o especialista atribui à mulher a esterilidade.
O adivinho prepara o «nvunji» para o cliente que deseja descobrir um feiticeiro ou u m inimigo, autor de algum mal, especialmente doenças. Enche um chifre de antílope com pó da casca da árvore «mbambu», de onde se extrai um dos venenos mais utilizados nos ordálios. No meio do pó coloca duas balas de chumbo. Entrega também uma pequena cabaça, «ndembo», cheia de «nbambu» e de pêlos de várias partes do corpo de uma pessoa.
O dono coloca-o num cestito debaixo da sua cama. Quando quer activar a sua força, espeta o chifre junto ao fogo da lareira com a cabaça ao lado e pede-lhe uma doença para o inimigo.
Quando adoece uma criança, esfregam-na com pó de «nvunji». Tem variadas aplicações. Os chefes têm-no sempre porque o «nvunji» é como uma arma que mata tudo.
Quando alguém quer matar um inimigo vai ao adivinho. Esse tem uma arma diminuta em cujo tubo introduz pólvora, dois bocados de agulha e um pouco da terra que o inimigo pisou ou urinou. O cliente tem de matar um gavião e um pássaro selvagem chamado «andúa». Ao primeiro tira uma unha, ao segundo, um pedaço da asa e introduz tudo no cano da arma. A asa serve para levar a carga e a unha, além de ajudar a transportar, também serve para ferir o inimigo.
Dependuram um galo de cabeça para baixo e o adivinho, com um só golpe, corta-lhe a cabeça. O queixoso acende a pólvora, saem as balas (agulhas) e espetam-se no galo. Neste momento morre o inimigo. O adivinho atira o galo ao rio, para simbolizar o enterro do inimigo e o queixoso, entretanto, amaldiçoa-o. Manda-o para casa e proibi-lhe de dormir em sua cama, durante quatro dias. Certificada a morte do inimigo, ele tem de pagar os emolumentos ao adivinho.
Para compreendermos como o jogo mágico pode conduzir a aberrações e criar uma atmosfera de terror, vamos descrever alguns feitiços preparados só para fazer mal ou para defender e vingar supostas acções mágicas maléficas. É cega a fé no poder e, embora ninguém os tenha visto, acreditam na sua existência.
Certos feiticeiros podem vivificar um cadáver com fórmulas secretas, medicamentos e invocações mágicas. Quando o conseguem, transforma-se num feitiço visível apenas a quem o fez. A uma ordem do feiticeiro, ele dirige-se à pessoa indicada e torce-lhe o pescoço até a matar. As outras pessoas apenas vêem a vítima caída no chão com o pescoço torcido e a gritar de dores. Pode-se afugentar queimando um pouco de farinha.
Em várias regiões de Angola, existe a convicção de que os chefes podem preparar um feitiço especial. Apanham uma criança e enterram-na viva. Durante duas semanas, desenterram-na diariamente e mumificam-na com lavagens e irrigações. Transforma-se num feitiço invisível que o chefe utiliza para matar os seus inimigos desta forma: aproxima-se da pessoa indicada com uma arma ao ombro e um chicote; dá-lhe uma chicotada e introduz-se no seu sangue. A vítima começa a tremer até morrer.
Também se servem de meninas para conseguir os mesmos objectivos. Mas a estas matam-nas espetando-lhes um punhal no peito, depois de seduzidas, e levadas para um lugar escondido.
O bantu teve de recorrer à magia-feitiçaria para explicar as mortes repentinas, a epilepsia, apoplexia, loucuras, qualquer manifestação espasmódica ou ataques cardíacos.
Não há dúvida que estas crenças consolidam a autoridade política e o prestígio dos especialistas. Estes confirmam-nas utilizando o veneno ou matando mesmo, através de fiéis servidores. No aspecto negativo, a magia bantu encobre manobras terríveis que satisfazem os piores instintos. Há especialistas consumados em sugestão, hipnotismo, parapsicologia e com uma experiência e com uma experiência milenária na aplicação de drogas e na propagação do terrorismo psicológico. No entanto, estes exageros, são bastantes limitados e nunca atingem as dimensões e sangue-frio dos utilizados em outras sociedades.
Certos especialistas, diz o povo, tiram o coração a um cadáver, matam um cabrito e uma galinha e também lhes extraem o coração. Perfuram uma estátua de madeira, da cabeça ao ventre, e introduzem os três corações. Em seguida, tapam o buraco para que «fermentem». Alguns dias depois, o feitiço começa a bailar. Está pronto para cumprir a sua missão, isto é, matar os inimigos do proprietário. Como é invisível, agarra a vítima pela cintura, penetra pelo ventre e vai até ao pescoço. O inimigo morre deitando sangue pela boca e pelos ouvidos.

«Depois da nomeação, máscara e dançarino são sagrados e, se são profanados, podem causar a morte do sacrílego».
O especialista da magia deve sará-las com um cerimonial especial. Por isso, são guardadas em lugares secretos e bem vigiadas. Só o especialista, os iniciados da sociedade particular ou secreta, e os homens podem vê-las e conhecer o seu significado.

Na África Ocidental, a máscara adquiriu tal expressão, estilismo, naturalidade, surrealismo, perfeição, dramatização e simbolismo que, com pleno direito, pode ser considerada como uma das notáveis obras de arte da humanidade. Assim, as mascarras bambaras, ibas, mendes, bomuns, wavegas, dogóns, ekois, batekés, bamilekés, ashantis, aguis, pangwés, balumbas, iorubas, baulés, as de Ifé, o Benim, talhadas na madeira, marfim, ouro, bronze, cobre e latão.

Há muitas mulheres dotadas para o exercício da magia. Acreditam que certas anciãs se podem converter em perigosas feiticeiras

Como médico indispensável, douto e respeitado, consegue um nível de vida superior, pertence a uma casta privilegiada. A medicina científica ocidental, que o desprezou, reconhece hoje os seus valores e sabe que possui conhecimentos e segredos de grande utilidade. Em muitos países estão mesmo oficialmente reconhecidos.

Uma antiga curandeira narra o rito da seguinte maneira: «Tive uma doença ma garganta… A adivinha consultada declarou que a causa do mal eram dois antepassados, avós maternos, que exerciam a profissão. Fui a uma mestra. A cerimónia decorreu assim: estava sentada numa esteira, no pátio da casa da mestra. Enorme assistência dançava e cantava à minha volta ao som do batuque… Pouco depois, entro em transe. Não consigo proferir uma só palavra, apesar de compreender tudo o que se passa à minha volta. Sinto-me sufocada e os meus olhos parecem lançar fogo.

Muitos doentes dirigem-se ao dispensário queixando-se de corpos estranhos que percorrem algumas partes do corpo e que incomodam com dores. Assistimos a curas de estados de saúde preocupantes, com a simples prestidigitação de simular que se lhes extraia do corpo um rato, uma rã ou uma pedra. Nestes casos, a sugestão é uma terapia eficaz.

O hospital pode aliviar a doença, mas como não a ataca pela raiz porque não descobre a causa, naquele momento fica acalmada, mas pode voltar. Além disso, muitos receiam morrer no hospital, onde a sua comunidade não pode realizar os ritos fúnebres e onde deambulam outros membros da comunidade ali falecidos, propensos à maldade por causa da desesperada solidão em que se encontram.

O curandeiro é um especialista que, com certeza, ainda vai durar muitas gerações em África.

No entanto, também é verdade que o prestígio e coacção mágica refreiam a expansão das conquistas médicas. Sofrem e morrem muitos africanos porque estes especialistas influentes impedem o seu sucesso a centros hospitalares.
A África tem necessidade urgente de se libertar das cadeias da magia. Os curandeiros, adivinhos, chefes e a gerontocracia são os mais firmes defensores desta situação.

Em muitas regiões, são denominados «m-hanga», «n-gan», «mganga», «inyanga», mas o mais comum é «nganga» cuja raiz significa «curar, tratar, rodear, acomodar, diagnosticar». «A melhor tradução parece ser a de «homem que conhece os meios de poder». Numa acepção relacionada com a sua missão, «nganga é o termo mais vulgar e mais difundido e, no contexto cultural congolês, usa-se este termo para designar o “sacerdote”». Em duala, língua bantu do sul dos Camarões, chamam-lhe «ngambi», de «ngan», o forte, e «nganja», sábio em ciência oculta e poderosa, aquele que pode adivinhar o futuro e averiguar se uma pessoa está habitada por espírito adverso.
Em Angola, são muito usados os termos «kimbanda» e «nganga». No entanto, em algumas línguas «nganga e onganga» é o feiticeiro. Na impossibilidade de empregar um termo bantu com o mesmo significado em todos os grupos, optámos pelo de «adivinho», acentuando, porém, que interessa mais o significado que lhe é atribuído que propriamente o vocábulo.