Com a conivência do re­gime, os vampiros con­tinuam a sugar o sangue dos angolanos. António Roque, (português) direc­tor técnico da empresa Damer Gráficas, propriedade do Grupo Media Nova, inaugurada ofi­cialmente a 13 de Novembro de 2008 pelo então ministro da In­dústria, Joaquim David. António Roque é bem claro quan­do, no seu facebook, diz: “COMIGO TUDO EM FORMA, EMBORA NESTA TERRA DE PRETOS. MAS A MALTA RE­SISTE” In FOLHA8

terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

República de Benguela

















Provisão Régia do Reino de Benguela
1615
"De meu poder real e absoluto, me praz e hei por bem, por esta presente provisão, a capitania, conquista e governo das províncias do dito Reino de Benguela (...) e por ela as erijo e ao dito Reino em novo Governo, para que de hoje em diante tenham separada a jurisdição e Governador"
Don Filipe II de Portugal
(Provisão Régia in: DIAS, Gastão Sousa. Os Portugueses em Angola. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1959. p. 99 e 100)
Declaração de Independência
MPSO - Movimento em Prol da Sobrevivência dos Ovimbundu
4 de Fevereiro de 2002
Governo do MPLA, gigantesca estátua de ferro com pés de barro assentes na tirania, incompetência, despotismo e corrupção, viemos, em nome da nossa etnia, vítima de um genocídio silencioso praticado por vocês, dizer-vos que basta.
Em nome dos Bailundos (va-mbalundu), os Biés (va-vihé), os Uambos (va-wambu), os Galanguis (va-ngalangui), os Quibulos (va-kimbulu), os Adulos (va-ndulu), os Quingolos (va-kingolo), os Kalukembes (va-kaluquembe), os Sambos (va-sambu),os Ekeketes (va-ekekete), os Kacondas (va-kakonda), os Quitatos (va-kitatu), os Seles (va-sele), os Ambuis (va-mbui), os Hanhas (va-hanha), os Gandas (va-nganda),os Chicumas (va-chikuma), os Dombes (va-dombe) e dos Lumbos (va-lumbu), pedimo-vos, a vós, que sempre estivestes à margem do nosso sofrimento, que nos deixeis em Paz.
Fomos hospitaleiros para com vocês. As portas dos nossos onjango estiveram sempre abertas. Em troca, vocês transformaram os nossos sorrisos em lágrimas; minaram as nossas lavras, nakas e consciências. E como se não bastasse, secaram as lágrimas das nossas mulheres. A partir de hoje nunca mais sereis bem-vindos no nosso espaço social, cultural e psicológico, o "onjango". Sois ingratos e mal-agradecidos. Definitivamente, deixamos de reconhecer a vossa soberania.
Não somos um governo eleito; muito menos um Estado independente, ainda que um dia (quem lá sabe) possamos evoluir para tal. A única autoridade que legitima a nossa acção é a liberdade, a consciência e a identidade étnica, que é emanação mais profunda das nossas crenças, atitudes e valores. Isso torna-nos independentes da vossa tirania e do policiamento que sempre fizestes ao nosso pensamento e às nossas acções.
Vocês não têm qualquer legitimidade moral, social e cultural (esta já nem se fala) para nos governarem. Conhecemos, desde muito cedo, os vosso métodos de coação. Por isso não reconhecemos o vosso governo; aliás, nunca vos elegemos para nos governarem. Pena que vocês são demasiados cínicos para aceitarem que nós, os Ovimbundu, nunca vos quisemos. Demos-vos um cartão vermelho nas primeiras eleições que se realizaram no País. Ovimbundu algum se revê no vosso programa (social, económico, político e militar) e no projecto de sociedade que, em vão, vocês procuram sustentar.
Vocês são tudo de mais nefasto e de hediondo que existe na face da terra. A vossa ambição desmedida pelo poder já atingiu as raias do anormal. Da falhada tentativa de implantação da "sociedade socialista" (que excluía a alternância no poder) à criação e alimentação de um Monstro (ingénuo e esquizofrénico), oriundo da nossa etnia, para justificar ao País e ao mundo a destruição metódica do nosso grupo, vocês mostraram que não olham a meios quando se tratam de questões atinentes ao poder. Daí os bombardeamentos indiscriminados, as bombas químicas, a deslocação forçada das populações para fora do seu habitat, (condenando-as a morrer de stress, fome e doenças) e a incorporação, na vossa máquina de guerra, de soldados capturados e rendidos.
Vocês sempre recorreram a bodes expiatórios para justificarem o extermínio que levam a cabo. Para além do Monstro, criado e nutrido por vocês, é táctica vossa fazer crer ao mundo que nós estamos em guerra contra vocês; pelo contrário, vocês é que estão em guerra contra nós, contra a Paz e contra a Democracia e por uma razão muito simples: nós somos a maioria e isso sempre vos preocupou, pois num pleito eleitoral, transparente e justo, qualquer nosso representante sairia vencedor.
Defendemos a ideia segundo a qual, os problemas são intrínsecos à vida humana; mas não precisamos de vocês para os resolveremos. Nós temos capacidade e inteligência suficientes para identificar, catalogar e dar soluções aos nossos problemas e pelos próprios meios. Não precisamos de vocês para nada.
O "onjango" é um espaço que pretende promover o diálogo, a troca de opiniões, de pontos de vista de resultados de pesquisas sobre aspectos económicos e sócio-culturais da etnia Ovimbundu, assim como denunciar, energicamente, o extermínio a que esta etnia está sendo sujeita, desde o regime colonial e que se agravou logo após a ascensão do País à independência.
Pretendemos, deste modo, criar um espaço aberto a todos que pretendam contribuir, com o que têm, para a sobrevivência da etnia Ovimbundu, independentemente da raça, etnia, poder económico, militar e filiação partidária. Trata-se, portanto, de um espaço onde cada um, em qualquer parte do mundo, poderá expressar as suas opiniões sem temer por represálias ou que venha, um dia, a retractar-se do que disse.
Os conceitos promulgados por vocês em matéria de direitos económicos, sociais e culturais (propriedade, trabalho, saúde e educação) e de liberdade (consciência, expressão, associação) não se aplicam a nós, porquanto a nossa existência é imaterial. Não somos anarquistas e muito menos aventureiros; daí que, contrariamente a vocês que impõem a ordem através da força física das estruturas polícias e partidárias, sempre a desfavor da nossa etnia, a nossa forma de governação será baseada na Ética própria dos valores africanos, que vocês sempre ignoraram. Nunca aceitaremos as vossas ideias e a vossa forma de olhar para o mundo. Escusado será dizer que tudo que fizerdes para nos forçarem a mudarmos de opinião será em vão. Estamos, assim, a criar uma nova nação.
Desejamos que ela seja mais justa, mais equilibrada, isenta de guerras; diferentemente da nação criada por vocês, dentro do lema "um só povo uma só nação", que fez tábua-rasa ao nosso modo de ser e de estar no mundo e que hoje, de uma forma solene, nos emancipamos.
O Massacre nos Seles: Depoimento de um sobrevivente
2002
O ano de 1917 foi, para todos os efeitos trágicos, para a Nacao Ovimbundo. Foi neste ano que as etnias irmãs tal é, por exemplo, os Ambos, perderam o seu grande Chefe Mandume, que se suicidou ao prever a derrota eminente, assim como foram ocupados os Reinos de Cassanje, Cuango e Mutano (Reino de Humbi e Njiva).
Relativamente ao espaço étnico Ovimbundu, verificou-se nesse ano o que se denomina na história por “Revolta dos Seles”, cujas causas, segundo Almeida (1979), foram o Roubo de Terras e o Trabalho Forçado.
Trouxemos aqui o depoimento de um sobrevivente dessa guerra a fim de termos uma percepção mais clara sobre tais acontecimentos.
Entrevista conduzida e traduzida por Mbela Isso
- Podia dizer-nos o seu nome?
- Eu chamo-me Aurélio Ukuahamba.
- Quantos anos tem?
- Não sei bem; mas em 1917, eu tinha 14 anos; portanto, devo ter agora 99 anos.
- Diga-nos o que lhes fez deixar o Seles e passar a viver no Bailundo?
- Bem, não me lembro bem da minha aldeia. Recordo-me, isso sim, de que na aldeia se haviam destacado três homens: Manda e o seu irmão Chinguli e o primo deste Yove. Eles tinham morto um branco, chamado Chimboto (este não era o nome real) chamavam-lhe assim por se assemelhar a um sapo, ou seja, era muito gordo. A morte de Chimboto fez com que o problema chegasse ao Bailundo, de onde nasceu a tal guerra. No entanto, essa guerra não foi dirigida contra toda a região dos Seles, não. Ela foi dirigida ao local onde viviam Manda, Chinguli e Yove. Eles haviam inclusivamente trazido um mapa onde estava assinalado o tal local. Consequentemente, a guerra não chegou a outra margem do rio. Apenas no local onde se supunha estarem os três homens até que a guerra terminou numa caverna, de onde saí e fui levado até ao Bailundo, depois de termos passado por Chipala.
- Na verdade quem era esse tal Chimboto?
- Chimboto era um branco.
- Mas que foi que ele fez?
- Bem, o que ele fez não sei; agora o que lhe fizeram eu sei; dizem que foi comido; foi mastigado. Agora as causas que fizeram com que ele fosse comido eu, confesso sinceramente, que as desconheço. Na altura não passávamos de uns simples garotos. É importante referir que em Katanda nada aconteceu porque vivia lá um branco chamado senhor Barradas que saiu em defesa das populações de Katanda, explicando que elas não tinha nada a ver com o problema. Esse senhor Barradas disse a eles que as pessoas daquela zona nada tinham com o problema então ergueu-se uma bandeira na aldeia de Katanda.
- Katanda?...
- Sim, sim, Katanda Seles.
- Mas que é isso de Katanda? É uma aldeia?
- Sim é uma aldeia muito grande, onde vivia o tal senhor Barradas, que vivia próximo da aldeia e saiu em defesa da população que aí vivia.
- Portanto todos que viviam na aldeia de Katanda Seles foram poupados?
- Sim, foram poupados. Os das outras aldeias eram apanhados e mortos logo de imediato. Foram esses acontecimento que lá se viveram.
- Mas matavam apenas homens ou também velhos, mulheres e crianças?
- Tudo era morto, inclusivamente as crianças. Havia casos em que as mulheres eram obrigadas a transportar grandes cargas e eles ao verem que elas não conseguiam caminhar, então diziam que isso era devido ao peso da criança, então pegavam nelas e atiravam-nas ao solo, matando-as: Isso tudo eu vi com os meus próprios olhos.
- Bem, afinal de contas quem eram essas pessoas que tinham ido ao Seles fazer isso; eram angolanos, portugueses, brancos. Quem eram? Pode dizer-nos?
- Refere-se aos que tinham participado nessa guerra? Foram as autoridades coloniais. Foram os brancos. O senhor Gomes Luís, Martinho e o padre Redineck eram esses que se encontravam à frente de todo este processo.
- Redineck?
- Sim; Redineck. Foi um padre francês.
- Um francês metido nisso?
- Sim; um francês. Este padre destacou-se ao ponto de os meus pais assim que tiveram um filho, deram-lhe o nome de Evaristo Redineck. Foi este o nome do meu irmão. Foi um padre muito misericordioso, que muito ajudou a minha mãe que padecia de ochivovo e mal conseguia andar, pois tinha as pernas inchadas. Ele andava sobre um burro e foi ele que tratou da minha mãe até que ela deu à luz e então atribui o nome do padre ao filho. É por isso que o meu irmão se chama Evaristo Redineck.
- Bem, na altura o Rei do Bailundo era Kandimba. Será que ele participou directamente nesta guerra? Ele tinha ido pessoalmente aos Seles?
- Sim, ele participou directamente nessa guerra. Para além dele também esteve o Sekulu Yacomba (Jacob). Havia, na missão do Bailundo, um missionário chamado Hasting que também estava para ir, mas depois desistiu alegando que aquele problema não tinha nada a ver com eles, mas sim com os portugueses. O missionário Hasting queria também ir à guerra porque ele era muito corpulento, e era um homem pela paz, mas depois desistiu e foi ele que orientou para que fosse o tal gigante sekulu Yacomba. Um homem. Era muito corpulento. Um homem entre os homens. Ele é o pai do Sr. André Luvemba. Da Missão Evangélica do Bailundo tinham saído muitas pessoas para lá, como por exemplo, o Salustiano Epalanga, Marcolino Sayongo, Lutero. Todos esses tinham seguido o sekulu Yacomba. Como eram pessoas fortes foram ao Seles por causa de Manda, Chinguli e Yove. Foram esses três os causadores da tal guerra. Mais tarde eles foram apanhados e não se sabe bem para onde foram levados ; se foi para Portugal ou para um outro local, nunca soubemos. Vimos apenas quando foram apanhados e amarrados em correntes.
- Correntes?
- Sim, correntes. Eu vi-os com esses meus próprios olhos. Eu vi como eles foram conduzidos para o rio Queve e metidos à força num barco. Eu estive lá. Vi tudo isso com os meus próprios olhos. Era como se os estivesse a ver mesmo agora. Mande era um negro claro, enquanto que os outros Chinguli e o Yove eram muito escuros.
- Bem, houve pessoas como vocês que foram capturadas. Será que foram convertidas em escravos?
- Bem, não eram bem escravos. Talvez houvesse essa intenção no princípio, mas o governo português ordenou que as pessoas capturadas, na guerra dos Seles, não fossem consideradas de escravas, porque não haviam sido compradas. Agora é bom enfatizar que quem ordenou que se fizesse a guerra contra os Seles, foi o governo colonial português. É assim que se explica que depois de terminada a guerra, as autoridades portuguesas disseram que quem quisesse voltar aos Seles, poderia fazê-lo. Inclusivamente, o Rei de Katanda (dos Seles) se tinha deslocado pessoalmente ao Bailundo, armou o seu acampamento no Sachole, reuniu todas as pessoas que tinham sido levadas ao Bailundo como prisioneiras e disse que todos os que quisessem voltar aos Seles, poderiam fazê-lo. Era uma grande multidão. Muita gente mesmo.
- Esse Rei Katanda era o Rei só de Katanda ou do Seles inteiro?
- Era o soba grande dos Seles. Como na aldeia dele, como disse atrás, ninguém havia sido molestado, isso criou mais confiança nas pessoas que quando souberam da presença dele, foram apresentar-se.
- Terminada a guerra não chegou a nascer ressentimentos entre os Bailundos e os Seles?
- Bem, os Bailundos foram mobilizados pelas autoridades coloniais por haver homens muito corpulentos. Os portugueses pediram ajuda a estes dizendo para lhes ajudarem a combater os (ingumba) bandidos que haviam morto um branco. As autoridades coloniais não enviaram para lá os soldados no activo mas aqueles que estavam de “baixa”, ou seja, soldados que já tinham acabado a tropa e, como tal, sabiam disparar. Foi a estes a quem deram as armas, sob o comando do branco Sr. Gomes, o branco Martinho e o Sr. Padre Redineck que fazia a missa e o sekulu Yacomba de Chilume, foram eles que fizeram o tal trabalho. A nossa mãe é que se tinha recusado a voltar aos Seles, dizendo que os filhos deviam estudar na escola. E assim ficamos no Bailundo onde estudei um bocadinho. Depois disso trabalhei com os missionários e mesmo os bailundos tinham para comigo uma grande estima. Nunca fui maltratado ou humilhado.
- E nunca se arrependeu por ter ficado no Bailundo e não ter regressado à sua aldeia, nos Seles?
- Como me iria arrepender? Eu cresci lá.
- Então acha-se mais Bailundo que Seles?
- Sim, considero-me Bailundo. Foi aí onde me casei. Depois disso desloquei-me uma vez aos Seles para visitar um soba, o Soba Ndu.. então ele disse-me que ia falar com o chefe de posto colonial, para me disponibilizar um carro com o qual ia buscar a minha esposa, bagagem, filhos etc. para eu suceder-lhe no trono.
- Soba quê?
- Soba Ndungu.
- Dos Seles?
- Sim dos Seles.
- E não aceitou?
- Sim, não aceitei, inclusivamente eu tive que lá ir três vezes. Os meus irmãos também tinham ido comigo. De resto, vivi todos esses anos, na Missão do Bailundo, sou um crente, tentei sempre, embora com muita dificuldade, cumprir com os mandamentos da igreja. Fui baptizado em 1930 e até agora tudo tem corrido muito bem.
- Agora teria um certo interesse saber como eles se comunicavam, na altura?
- Bem, os soldados tinham uma corneta, enquanto que o soba usava tambores (batuques). Havia um indivíduo que subia numa árvore de onde ia dando, aos gritos, as orientações. Vocês têm que fazer isso; têm que fazer aquilo. Ia de novo, para uma outra área, repetindo as mesmas acções, dando anúncios. Ia para aldeias distantes que os obrigava a passarem a noite pelo caminho, chegavam ao Huambo e mesmo ao Mungo; e quando andavam em grupo, com homens armados, apoderavam-se do gado bovino e das pessoas que encontravam e traziam para o Bailundo. As coisas decorreram assim até que chegamos ao Bailundo. Isso tudo aconteceu em Março de 1918.
- Só mais questão. No principio falou de uma caverna (eleva). Tem algumas recordações dessa caverna?
- Ah era uma grande caverna.
- Não tinha nome? Como se chamava?
- Chiyumba; foi aí onde nos tínhamos escondido quando os brancos apoiados pelos bailundos atacaram a nossa aldeia. Nós fomos os últimos a chegar e quando lá pusemos os pés encontramo-la completamente cheia; abarrotada e não tivemos outra alternativa que sentarmos à entrada da caverna. Foi aí onde eles nos encontraram. O pai foi afastado da entrada e as pessoas foram obrigadas a sair da caverna. Assim que todos saíram os homens foram alinhados dum lado e, de seguida, todos mortos ao lado de um precipício; os homens foram todos fuzilados. O meu pai também estava para ter o mesmo fim, mas o sekulu Yacomba, não aceitou e disse que ia levá-lo para o Bailundo. Na guerra dos Seles, os bailundos tiveram duas baixas: a do sekulu Chilyambelela, sekulu da Eunice Chavonga que nasceu o Amós Hokohoko. E outro que morreu foi o Chipuketa. São todos de Capila e perderam as suas vidas nos Seles. Eu estava junto do sekulu Chyambelele. A frente dele, vinha o homem da bandeira, depois estava ele e atrás dele, eu. Aconteceu que na caverna estava alguém com uma arma que disparou contra o sekulu Chilyambelea, o qual caiu morto com um tiro na cabeça. O contingente de tropas do governo colonial e os bailundos ficaram aí três dias, a caça das pessoas e fuzilando-as assim que as apanhavam. Isso tudo foi visto com os meus próprios olhos.
- E que nos tem a dizer sobre o comandante desta missão? Era um oficial, comerciante?
- Bem, não era general e muito menos comerciante. Chamavam-lhe sr. Gomes juiz.
- Ah, então era juiz. E onde ele vivia?
- Ele viveu no Bailundo, junto da estrada que dá para Cajabão, muito próximo da casa do senhor Moreira. Foi ele, juntamente com o Sr.Martinho, que organizou todas as forças. Acho que ele era comandante. Agora o padre Redineck, não era propriamente um militar, apenas se limitava a dar a missa, de manhã e a tarde.
- Mas quanto tempo demorou então a guerra?
- Oito meses. Começou em Agosto de 1917 e terminou em Março de 1918.
- Foram grandes combates?
- Sim, grandes combates. Pegavam nas pessoas e disparavam, disparavam sobre elas. No princípio matavam as pessoas ao lado do rio. Depois chegou uma ordem para que as pessoas deixassem de ser mortas na margem dos rios e que era necessário matá-las ao lado de covas abertas para o efeito. Teve de se pedir o envio de enxadas do Bailundo. As pessoas que iam ser mortas é que cavavam as suas próprias covas, isso tanto podia ser feito no período da manhã como da tarde e mais tarde eram fuziladas e fechava-se os buracos. Isso tudo eu vi com os meus próprios olhos.
- Mas uma coisa: Esse Mande, Chinguli e Yove, não tinham armas?
- Não, eles não tinham armas. Estavam desarmados, nem sequer tinham arcos e flechas. É por isso que eu acho que aquela guerra não foi justa, pois uns tinham armas e os outros nada tinham e a única coisa que tinham que fazer era apenas fugir. Bem, mas isso não queria dizer que entre os dos Seles não havia pessoas com armas, pois o Chipuleta, tal como disse, foi morto com uma arma de fogo. Esse Chipuleta tinha acendido um tição à entrada da caverna sem saber que dentro dela estava alguém com uma arma que disparou e foi o fim. Você conhece o sekulu Mbalundu? Que vivia no Sachole?
- Não; não o conheci, mas ele também tinha ido aos Seles?
Sim; também tinha ido. Esse tal sekulu Mbalundu é que tratou da saúde do homem que matou Chipuleta. Ele foi apanhado e foi morto aos poucos. Primeiro cortaram-lhe as mãos; depois as pernas, e, finalmente a cabeça. Foi um sofrimento terrível. E foi essa a guerra dos Seles que eu vi com os meus próprios olhos.
A origem dos ovimbundu segundo a tradição oral
Por: Mbela Issó
"As culturas equivalem-se. É na diferença e pluralidade que se encontra o sentido de humanidade"
Mindlin
Num dos nossos artigos relativos à história dos Ovimbundu, apresentamos três hipóteses sobre a possível origem deste grupo étnico,tendo-nos inclinado, depois de apresentarmos alguns factos, para a hipótese que nos pareceu ser a mais defensável; ou seja, a que dizia respeito ao facto de os Ovimbundu serem descendentes dos autores das pinturas ruprestes de Caninguiri que, através de um processo de aculturação e miscigenação, foram adquirindo traços dos outros grupos bantu, chegados de outras paragens e latitudes.
Os mitos possuem uma importância capital, porquanto a análise das narrativas permite não só resgatar elementos susceptíveis de subsidiar a análise de factos históricos (complementando as fontes escritas), como também auxiliar na identificação de elementos culturais com vista a construção da identidade de um determinado grupo étnico.
O mito, e como muito bem o diz Chiapini (2000), pretende, na maior parte dos casos, explicar o surgimento do mundo, assim como alguns fenómenos da natureza, dentro de uma determinada lógica estrutural, onde podemos encontrar um enredo, que entretêm as pessoas, mas também mostra o desenvolvimento do pensamento e da cultura de uma determinada comunidade. Pese embora o carácter lúdico, e mesmo de entretenimento dos mitos, estes possuem uma grande importância na vida das comunidades. É precisamente isso que nos diz Lévi-Strauss (1967), para quem a relevância dos mitos não radica apenas no seu conteúdo mas, sobretudo, na sua estrutura, uma vez que eles contêm processos mentais universais.
Autores como Campbell (1997) referem-se ao facto de ser característico dos mitos a presença de seres sobrenaturais, chamando-nos,com isso, a atenção ao facto de que os mesmos pretendem estabelecer uma ponte entre o mundo imaginário e a consciência racional. Torna-se, não obstante, necessário não se confundir o mito e a lenda com a superstição. Os mitos e as lendas apresentam-se, geralmente, como narrativas populares de carácter oral e que se transmitem de geração em geração, recaindo a tónica dominante no sobrenatural, enquanto que a superstição se apresentaria como a fragmentação de um velho mito, com a entrada de um novo elemento que é o medo ou o terror (Chiapini,1988).
O mito Ngalangi
Segundo os dados de que dispomos, a lenda sobre a origem do mundo foi recolhida por Keiling (1934) e mais tarde retomada por Child (1964). A tradução de Luís Keiling é a seguinte:
“ Um dia caiu do céu um homem que teve o nome de Féti, que quer dizer o princípio. O bom do homem deu em percorrer a terra e notou que, havendo muitos animais, se encontrava um só homem, que era ele. Que aborrecimento e enfado sentir-se tão só no meio dessa criação! Para ver se espairecia, lembrou-se de ir ao Cunene para caçar um pouco. Pega, pois, nas armas e vai em busca de um hipopótamo, que lhe fornecesse carne e gordura. Horas esquecidas esteve Féti à espera de uma peça de caça, quando em vez do suspirado animal vê surgir das águas uma forma humana, muito semelhante a si mesmo: era a primeira mulher a quem denominou Tchoya, que, derivando do verbo okuoya, quer dizer enfeite, ornato, perfeição. E tão bela, tão garrida a achou o nosso Féti que dela se enamorou e com ela fundou a primeira família que pela luz do sol foi alumiada. Passaram dias, passaram meses, e numa bela manhã foram os ecos da mata despertados pelos vagidos de um novo ser, que viera albergar a habitação do felizardo Féti. Não houve ave do céu, nem animal da floresta, que não viesse dar aos pais os parabéns por tão bom acontecimento. Encantados, impuseram os progenitores ao recém-nascido o nome de Ngalangi.Passaram tempos, e eis que em casa aparece um novo bebezinho, desta vez uma menina, a quem chamaram Viyé. Viyé, provém do verbo okuiya, que em português se traduz por vir. Queriam os pais significar que aquela filha havia de chamar a si as populações e ser o tronco de uma grande família. E Viyé veio a ser a mãe das raças do norte, isto é, das terras do Bié, enquanto foi o pai das gentes do Sul. Assim contam os ngalangi e terminam por afirmar que deles descendem todos os habitantes do Bié,Huambo,Sambo, Cuíma e Caconda”.
Análise da narrativa
A presente narrativa coloca em discussão um aspecto muito importante do ser humano. A tentativa de compreender a sua origem. Sob o ponto de vista da estrutura composicional, a narrativa obedece, como se pode ver, a uma linearidade cronológica dos factos, aparecendo, não obstante, um elemento de subversão, a solidão, de cuja resolução surgem outras situações,cujos desfechos vão levar ao nascimento de vários reinos; daí o seu carácter explicativo que remete para a crença de que a solidão,por si só,é perniciosa, pois o homem é, eminentemente, um ser social. Por outro lado, o tempo e o protagonista assumem posições um tanto ou quanto díspares. Se bem que, por um lado, o personagem principal seja definido no texto (Féti), por outro, a atemporalidade é um aspecto notório o que torna a narrativa mais abrangente, englobando todos os sub-grupos da etnia Ovimbundu, e não só, cuja origem a lena pretende explicar.
Neste sentido, a metáfora do homem que caiu do céu (Féti), responde, em pleno, a questão da vida e do nascimento da primeira forma de organização da sociedade humana no espaço territorial ocupado pelos Ovimbundu. Deste modo, tematizam-se aspectos de grande significado para a compreensão da origem dos mesmos, através de uma linguagem simples.Do ponto de vista da estrutura arquetípica, posta de manifesto através do surgimento da fêmea (da lama,) a mesma não se pode dissociar da própria cultura Ovimbundu onde se gerou a narrativa, tomando em consideração o papel da mulher na referida comunidade. Recorde-se que o homem veio do céu.
Outras análises poderiam ser feitas, nomeadamente nos aspectos que se prendem com a micro-estrutura (aspectos linguísticos),pois estamos cientes de que uma análise desse tipo não deveria cingir-se apenas à estrutura geral da narrativa (enredo) e ao conteúdo temático. Lamentavelmente, uma tradução não nos permite irmos tão longe. Acresce a isso que o nosso propósito foi o de analisar a narrativa dos Ngalangi sob o ponto de vista macro-estrutural, apegando-nos mais em questões de índole histórico-cultural, que propriamente literária e linguística, o que poderá ser feito noutras ocasiões.
Implicações
A presente narrativa propõe uma visão endógena sobre a origem dos Ovimbundu, que é contrária a algumas fontes escritas onde a temática é posta nos processos migratórios (de fora para dentro). A lenda mostra que este processo se desenvolveu de dentro para dentro para fora,isto é, os Ovimbundu tiveram a sua origem precisamente nas proximidades do rio Cunene e daí se foram expandido para outras áreas e regiões. Apesar disso, o bom-senso recomenda-nos certa cautela para não cairmos em certos exageros e análises precipitadas, mesmo que autores como Clark (1973) afirmem que a infiltração “banto no território terá sido feita gradualmente,por pequenos grupos, (...) que terão sido em acolhidos pelas populações autóctones, e na maior parte vivendo o período mesolítico”. Este ponto de vista reforça a nossa hipótese de os Ovimbundu serem resultado de uma simbiose entre os autores das pinturas de Caninguiri e os Bantu que, posteriormente, tiveram contactos com aqueles. É do mesmo autor a ideia segundo a qual “a ocupação de lugares desertos ou de fraca densidade populacional, a miscigenação,a adopção da cultura e até da língua dos povos autóctones terá dado lugar a uma bantoização progressiva das populações”.
Caninguiri: O berço dos Ovimbundu
Pese embora esses subsídios fica por responder o significado da narrativa do sub-grupo Hanya que, conforme nos diz Hauenstein (1967), também postula a existência de Féti e Tchoya, na perspectiva dos Ngalangi. A única diferença assenta no facto de que, para os Hanya, os Ovimbundu teriam vindo de um local chamado Nali, instalando-se, posteriormente, em Cinendele, já em território angolano. E não deixam de ser curiosos os palpites de Child de que Féti teria emigrado mais para Norte. Nesta linha de ideias os reis Ngola, de cujo nome deriva Angola, teriam descendido de Féti. Consequentemente, algumas etnias irmãs seriam, nesta linha de ideias, descendentes da etnia Ovimbundu e não o contrário como o afirmam certos estudos. Será?
Origem dos Ovimbundu:
A hipótese mais próxima da realidade.
Por: Mbela Issó
A origem dos ovimbundu tem sido motivo de estudos apaixonados por parte de vários historiadores. Uma das razões para que isso aconteça, tem a ver com o facto de se tratar de um grupo étnico que marcou (e continua a marcar), de modo profundo, a história económica, social, política e cultural da porção de território Ovimbundu en Africa.
Na verdade, este grupo étnico, destacou-se muito cedo. Assim, temos, em primeiro lugar, a enfatizar a resistência tenaz que manifestou contra o invasor colonialista; em segundo lugar, a sabedoria de alguns dos seus reis, que lhes permitiu estender as suas relações comerciais até ao Zanzibar (Oceano Índico); em terceiro lugar, a exploração desenfreada a que foi vítima durante o regime colonial (roças, pescarias, fazendas de algodão, café,etc.) que levou muitos ovimbundu a emigrarem para os países vizinhos. Por último, e na história mais recente, o facto de ter surgido, no seio deste grupo étnico, uma rebelião armada, cujas consequências ainda estão para ser descritas.
A origem dos Ovimbundu é, de acordo com os historiadores, sempre vista dentro dos processos migratórios Bantu (Os ovimbundu, tal como a maior parte da população que vive a sul do equador é Bantu, por pertencerem a um grupo linguístico que utiliza a raiz ntu para se referir ao homem. O acréscimo do pefixo Ba (plural)- Bantu surge, assim, para designar esta população no seu todo). Recorde-se que alguns investigadores têm avançado hipóteses segundo as quais os Bantu teriam vindo da Ásia ou da região de Bahar-el-Ghazal e que se teriam fixado nos grandes lagos. Muito para além das formulações hipotéticas é um facto comummente aceite entre os investigadores de que os Bantu devem, provavelmente, ter vindo das mesetas de Bauchi (Nigéria) e dos Camarões. Mas tudo aponta no sentido de serem originários do Noroeste da floresta equatorial (vale de Benué) e que durante milhares de anos se foram fixando em vários pontos da África. As migrações, como é óbvio, tiveram várias causas entre as quais podemos apontar as de carácter político (defesa e luta pela sobrevivência de um grupo face ao outro); económico (ligadas às catástrofes naturais que faziam com que os Bantu procurassem terrenos mais férteis). São os problemas que Basil Davidson designou como sendo de carácter físico. Por último, pode apontar-se o desentendimentos dentro dos vários clãs (problemas ligados à sucessão ao trono).
Ekuikui II :Artífice da estratégia "vergar o adversário pela economia"
Relativamente a Angola é de referir que os Bantu angolanos, são originários do que se tem designado por 2º Centro Bantófono (Baixo Congo e Planalto Luba).Os ovimbundu seriam, assim, descendentes dos Bantu que se fixaram no planalto central. No entanto, as hipóteses acerca da origem dos ovimbundu são várias e nem sempre consensuais. As referidas hipóteses dividem-se entre aquelas que afirmam que os Ovimbundu teriam vindo de Benué (um vale situado numa região a leste da Nigéria); as que defendem a ideia de que seriam resultado de uma miscigenação de outros grupos e as que os consideram como descendentes dos autores das pinturas rupestres de Caninguiri (Kañilili).
De acordo com a primeira hipótese os ovimbundu, conforme os seus autores, teriam passado pela faixa Atlântica, fixando-se em Benguela. E dado o facto de serem agricultores dirigiram-se ao planalto do Huambo e Bié, cujas terras eram as mais férteis. Esses autores sustentam esta hipótese com dados provenientes da linguística. Assim, segundo ele, alguns dos termos utilizados pelos Ovimbundu, ao invés de se aproximarem aos usados pelos Bantu mais próximos assemelham-se mais aos do povo Igbo da Nigéria. É o caso do termo "Suku" (deus) "omunu" (pessoa,) "twendi" (vamos). Os kimbundu por, exemplo, utilizam o termo Nzambi para designar Deus.
Os defensores da segunda hipótese afirmam que os Ovimbundu são uma síntese de vários grupos étnicos. E, consequentemente, defendem a ideia de que este grupo não tem um carácter homogéneo. Estão à vista os aproveitamentos políticos que se podem fazer desta interpretação. Uma vez que se pretende, com este ponto de vista, provar que os Ovimbundu não são um grupo étnico unitário, e muito menos têm uma especificidade cultural e étnico-linguística próprias.
Os estudiosos, defensores desta hipótese, apegando-se em aspectos linguísticos, afirmam que os Ovimbundu seriam descendentes dos Bakongo, uma vez que, segundo eles, a língua umbundu é uma síntese do Bantu-Kongo e do Bantu-Lunda. Na verdade, esta hipótese, possui uma certa evidência científica, pois os Ovimbundu, pela posição que ocupam no planalto central, teriam ligações com os Ambundu da baixa de Kasanji; com os Cokwe e os Lunda. E mesmo a sua grande versatilidade, a sua impressionante capacidade de adaptação aos diversos habitat, poderia ser explicada a partir desta simbiose; desta miscigenação que não se cingiu apenas a aspectos linguísticos e biológicos;mas também à adopção de saberes, técnicas, formas colectivas de luta contra a adversidade da natureza.
Esta hipótese, a mais aceite pelos vários historiados, viria a levar um rude golpe, criando assim, várias dúvidas, com a descoberta da estação arqueológica de Kaniniguiri (Kaniñili). É de referir que esta se situa nas áreas do Mungo e do Bailundo e remonta a milhares de anos (9600 anos ou 9670 anos em idade absoluta). O que mostra que, paralelamente, as comunidades pré-bantu (Bosquímanos,os Vátuas e outros) existia, na região do planalto, uma comunidade, de onde saíram os autores das famosas e impressionantes pinturas ruprestes de Kaninguiri. E, se para além das evidências arqueológicas, nos ativermos à tradição oral, que apresentaremos quando falarmos da história de cada subgrupo étnico em particular, podemos tirar a seguinte conclusão: existem evidências claras que apontam no sentido de os Ovimbundu serem descendentes directos dos autores das pinturas de Kaninguiri e que foram sofrendo, num processo de "osmose", influência dos grupos Bantu que se iam fixando nas proximidades.Saliente-se que, de acordo com alguns historiadores, as migrações dos Bantu, em Angola, devem ter iniciado no século XII com a entrada dos Kikongo; dos va-Nyaneka no séc XVI, dos Ngangeula, no século XVII, dos Ovambo e dos Cokwe, no século XVIII e dos Ovakwangali no século XIX.
O grupo étnico dos ovimbundu é, actualmente, formado por vários subgrupos :va-mbalundu, va-vihé, va-wambu, va-ngalangui, va-kimbulu, va-ndulu, va-kingolo, va-kaluquembe, os va-sambu), va-ekekete), va-kakonda), va-kitatu, va-sele, va-mbui, va-hanha, va-nganda va-chikuma, va-dombe e va-lumbu). Estes subgrupos vivem na região que compreende o Huambo, zona de solo fértil e onde se pode cultivar cereais, pomicultura, horticultura, etc. Para além disso, possui boas condições para o gado, especialmente bovino; é de referir que algumas províncias como a Huíla possuem regiões onde a população é maioritariamente Ovimbundu (Caluquembe e Caconda); o Bié, igualmente uma zona fértil e de clima saudável; Benguela, região igualmente com terrenos muito férteis e onde existem minérios de cobre,ferro,enxofre, sulfato de sal,etc.e numa parte do Cuanza sul.
Por fim resta-nos apenas dizer que os futuros estudos a efectuar quer ao nível da linguística, quer da arqueologia,quer ainda da tradição poderão aportar outros dados importantes para o conhecimento relativo a origem dos Ovimbundu.
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MPSO - Movimento Pela Sobrevivência dos Ovimbundu
DECLARAÇÃO
Tomando em consideração os novos contornos do processo político angolano, e o facto de a Unita estar, inquestionavelmente, associada às razões que conduziram ao surgimento do MPSO, porquanto o genocídio étnico a que os Ovimbundu têm sido objecto foi motivado pelo receio, politicamente justificado, dessa força política chegar ao poder graças à sua base social, o MPSO não pode ficar indiferente ao novo quadro político angolano, sobretudo na véspera da realização do IX Congresso da Unita a realizar-se nos dias 24 a 27 de Julho; de modo que vem declarar o seguinte:
1. O MPSO, cujos objectivos são os de lutar, intransigentemente, pela integridade física, cultural e social dos ovimbundu, considera o ambiente de paz reinante em Angola como uma grande vitória, que deveria ser preservada a todo o custo; não obstante isso, não deixa de manifestar o seu desagrado pelo processo de reinserção dos desmobilizados das FMU e seus dependentes; escusado será referir que, em certos casos, o Ministério de Reinserção Social, deu mostras de pretender o extermínio dessa franja populacional que só não sucumbiu, na totalidade, nos “Campos da Morte”, graças a sua capacidade de resistência e espírito de iniciativa;
2. Durante os longos anos do conflito que abalou o país, os angolanos e a comunidade internacional, “aprenderam” a tragar a ideia de que as dificuldades que o país vivia eram, na maior parte dos casos, derivadas do factor guerra; dificuldades que iam desde a instauração de uma democracia e de um Estado de Direito, aos problemas de índole económica e social; no entanto, passado um ano, constata-se que, em Angola, não só houve um agravamento das muitas situações vividas no período de guerra, como também se pôs de manifesto a incompetência da élite no poder em governar o País, associada ao pânico derivado da perda do controlo da sociedade; só assim se explica o facto de se manterem as situações seguintes, nomeadamente:
a) Partidarização das instituições, consubstanciada na existência e permanência dos agentes do SINFO (polícia secreta), das Células e Núcelos da Juventude do Partido nas escolas, universidade, ministérios, etc., e a mobilização forçada dos funcionários para o MPLA, com o risco de perderem o emprego, caso se recusem a tal o que é, sem dúvida alguma, o facto mais evidente de que estamos perante uma ditadura, e muito longe de um Estado que se diz Democrático e de Direito;
b) Falta de isenção nos meios de comunicação social estatal (televisão, rádio e imprensa escrita) e a adopção de linhas editoriais, sobretudo no Jornal de Angola, que atentam contra o processo de Paz e Reconciliação Nacional e que concorrem para o acirrar de ódios contra os ovimbundu, através do que essa imprensa, afecta ao partido no poder, denomina de “umbundização” do aparelho do estado e da sociedade;
c) Falta de transparência no processo de desarmamento da população civil a nível nacional, e acções no sentido de tornar a famigerada polícia de emergência, tristemente conhecida por “Ninjas”, cada vez mais aguerrida, numa fase em que isso não só já não se justifica, como também não se compreende o porquê de tais acções;
d) Indiferença do poder judicial, relativamente aos escândalos de corrupção que proliferam por todo o lado e a cada momento, envolvendo, inclusivamente, figuras como a da sua Excelência, o Sr. Presidente da República, e às atitudes de intolerância política que se vão verificando, sobretudo nas províncias, contra qualquer força política;
e) Remissão ao ostracismo das províncias do Centro de Angola onde o cenário de pobreza e exclusão social atinge proporções alarmantes, o que acrescido a inexistência do papel do Estado nessas zonas, faz pensar numa punição daqueles que durante vários anos quiseram permanecer do outro “lado da barricada”.
3. Um dos fenómenos que se vem verificando em Angola, logo após a instauração da democracia multipartidária, é a proliferação de partidos, muitos dos quais criados a mando não se sabe de quem, mas cujos objectivos são mais que claros: sair em defesa da élite no poder que pretende manter-se nele por tempo indeterminado. É nesta linha de ideias que o MPSO nota, com grande satisfação, o não surgimento, até ao momento, de qualquer força política de base étnica ovimbundu. Isso é, para nós, o sinal mais claro de que essa comunidade continua ainda a rever-se, pese embora os inqualificáveis e injustificáveis erros, na força política que surgiu no seu seio.
4. Desde o cessar fogo ocorrido há um ano, no Luena, até ao presente momento, o país entrou num grande marasmo político onde a Unita, como o maior partido da oposição, se absteve de exercer o seu papel de controlo do governo no poder. De modo que, não se pode deixar de louvar os partidos, organizações não governamentais e pessoas singulares que, de um modo exemplar, souberam ocupar o vazio deixado por àquele partido; daí o nosso reconhecimento ao elevado grau de consciência política e coragem dessas instituições e entidades. Referimo-nos, em particular, ao Padepa, Open Society ao Coeipa e aos seus líderes.
5. O processo de reconciliação nacional é, por si mesmo complexo, e exige medidas práticas, capazes de sossegar as vítimas. Nesse sentido, é de louvar as iniciativas dos sobreviventes do 27 de Maio que se batem pela justiça e pelo esclarecimento da situação que levou a morte milhares de seus camaradas.
6. O MPSO não pode deixar de manifestar preocupação face aos rumores sobre a existência da corrupção no seio da Unita, “o party in waiting” que é, neste momento, uma das esperanças dos angolanos, assim como da existência de acordos secretos com o Partido no Poder para uma eventual partilha no poder o que, diga-se, em abono da verdade, seria uma forma pouco digna de honrar o legado político e histórico do fundador do Partido, o Dr. Jonas Malheiro Savimbi. Consequentemente, os congressistas deverão eleger para futuro presidente da Unita, em consciência e liberdade, aquele que mostra ser capaz de romper, definitivamente, com o Mpla e de proclamar ao mundo o fim do Gurn. Torna-se óbvio que, com o fim da guerra, já nada justifica a existência do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional, apresentando-se apenas como uma estratégia do Partido no Poder para, quando das eleições, justificar-se perante os eleitores de que “não roubou”, e nem “desgovernou” o País sozinho.
7. Nos dias que correm, torna-se cada vez mais claro que apenas um partido que se rege por princípios democráticos é capaz de os estender a toda a sociedade. Assim, não se pode deixar de reconhecer a capacidade e o mérito da Unita ao implementar medidas democráticas, de facto, na forma como pretende eleger o seu Presidente, numa altura em que o Mpla, sempre anacrónico e apegado a princípios estalinistas, ainda discute sobre a viabilidade ou não de se manter o centralismo democrático.
8. Por último, o MPSO exorta os congressistas da Unita para, em momento algum, se desviarem do grande objectivo a alcançar no presente momento histórico: tomar o poder pela via das urnas, substituindo o governo incapaz, anacrónico e corrupto do Mpla que, por tudo isso, perdeu a legitimidade de ficar em frente dos desígnios da nação; pelo que, a discussão das “questões internas” e dos “erros do passado” não deveria ser feita antes de cumprido tão sublime objectivo.
18 de Junho de 2003
Pinceladas de uma cronologia que o MPLA intencionalmente ignorou
Por: Balbina Essanju
(Século XX)
1900
O missionário protestante M.Z. Stober,denuncia que, na região do Bailundo, continuava a venda de escravos. Outro missionário C.A. Swan, escreve que na região do Bié, os escravos debilitados nas caravanas eram mortos com golpes na cabeça e deixados na mata ao deus dará.
1902
Surgimento na região do Bailundo de um profeta que vaticina a derrota dos colonialistas portugueses.
1908
O reverendo Wesley H. Stover,pertencente ao American Boards of Comissioneres for foreign mission, do Bailundo,é expulso da colónia por se suspeitar estar ligado aos rebeldes do Bailundo desde 1902 (data da revolta de Mutu-ya-Kevela).
1917
Nos Seles,verifica-se uma revolta contra os portugueses devido o roubo de terras e o trabalho de contrato. Os Africanos incendiaram as casas dos comerciantes portugueses.
1940
Surgimento no Huambo do "Grupo de Nova Lisboa" constituído por brancos e mulatos que se opunham ao envio de trabalhadores Africanos para S.Tomé; " Revolta tenaz contra os portugueses no Cubal que foi terrivelmente reprimida.
1950
Surgimento no Lobito do grupo Ohio e, no Bié, o "Grupo Avante" todos dissolvidos pelas autoridades coloniais.
1952
Interdição no Bailundo do clube sociocultural Olonguende.
1955
Aparecimento em Nova Lisboa (Huambo) da Juventude Cristã de Angola, agrupava membros do AASA e do Seminário Real de Nova Lisboa. Depois de 8 meses deixou de funcionar.
1957
Interdição do grupo OCA (organização cultual dos angolanos no Lobito de tendência predominantemente protestante e prisão do seu presidente Júlio Afonso.
1960
Forma-se no Huambo (Nova-Lisboa) o Grupo "Grande-Vanguarda-Comando" dirigido por Marcos Kassaga e João Baptista, formado por soldados Africanos da Escola de Aplicação Militar.Forma-se, igualmente no Huambo o grupo Cacunda, chefiado por Júlio Chinovala Cacunda.
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Ovimbundu states
Cingolo
Rulers
*1800* Ekundi
*1820* Ulundu
*1840* Kalukongolo
*1860* Kalueyo I
*1870* Cimina
*1880* Kalueyo II
*1890* Cimbalandongolo
*1900* Nandi
Ciyaka
Rulers
*1810* Atende II
*1820* Cikoko I
18.. - 18.. Kuvombo-inene
18.. - 18.. Ndumbu III
*1835* Handa II Kaciyombo
1842 - 1850 Njimbi Ukulundu
1850 - 1870 Canja I Cimbua Cahuku Luanjangombe III
1870 - 1898 Handa Njundo
1898 - 1904 Cilulu III
1904 - 1911 Handa III
1911 - 1915 Atende III
1915 - 1918 Cikoko II
1918 - 1920 vacant
1920 - 1925 Cilulu IV
1925 - 1928 Handa IV Kalumbombo
1929 - 1939 Sakulanda Luanjangombe IV
1939 - 1940 Cilulu V
1940 - ... Tomasi
Gumba
Rulers
*1903* Ciweka
19.. - 1934 Mbati
1935 - 1938 Simbwyikoka (regent)
1938 - 1940 Kakope
1940 - 1954 Kafelo
1954 - 1956 Kutenga Lusase
1956 - 1964* Cilombo
Kalembe
Rulers
*1810* Njundu
*1835* Cinguangua II
*1850* Cikomo
*1860* Ndumba
*1895* Nyime
*1900* Sakatilo
Kalukembe
Rulers
*1835* Ndumbu Saciyambu
*1845* Keita Hungulu
*1850* Kamupula
*1860* Ngandu Kapembe
18.. - 18.. vacant
*1880* Pomba Kalukembe
*1890* Muengo Njamba
... - ... Kavala Hungulu
Mbailundu, M'Balundo
Rulers
Katiavala I (1700) [Childs, 1970: 245]
Jahulo I (1720) [Ídem: 245]
Somandulo (s.f)
Tchingi I (1774-1776)
Tchingi II (Tchiliva Banbangulu, 1778)
Ekuikui I (1780)
*1800* Numa I
*1810* Hundungulu I
*1811* Tcisende I
*1818* Njunjulu
*1820* Ngungi
*1835* Civukuvuku Chama (Tchongonga, s.f)
18.. - 1842 Utondosi
1842 - 1861 Mbonge
1861 - 1869 Tcisende II
1869 - 1872 Vasovãvã
1872 - 1875 Ekongo-liohombo
1876 - 1893 Ekuikui II
1893 - 1895 Katiavala II
1895 - 1896 Numa II
1896 - ... Hundungulu II
*1900 - 1902* Kalakata
190. - 190. Kalandula
1903 - 1904 Mutu ya Kevela (regent)
"Houve, entanto, um homem, que não era rei, mas que estava ligado à corte do reino do Bailundo, que não esteve para meias medidas. Esse homem chamava-se Mutu-ya-Kevela, que quis pôr freio aos apetites desmesurados dos portugueses. Mutu-ya-Kevela viria a ser dominado e morto em 1902, muito antes do aprisionamento, na região do Bimbe, do seu conselheiro, Samakaka, famoso pelos seus conhecimentos de magia, utilizado, em vão, para ludibriar as forças portuguesas. Dali em diante, os portugueses tiveram um domínio total do “Reino” ao ponto de, por um lado, influenciarem nas sucessões ao trono e, por outro, mobilizarem os reis, agora convertidos em sobetas, para as suas missões mais bizarras como foi, por exemplo, a mobilização dos bailundos, sob o comando do rei Candimba para a chacina da população dos Seles."
1904 - 1911 Cisende III
1911 - 1935 Njahulu II Kandimba
1935 - 1938 Musita
1938 - ... Cinendele
Félix Numa Candimba
"O último dos soberanos que regeu o Bailundo, sob a bandeira colonial, foi Félix Numa Candimba, da linhagem do rei Candimba. Félix, durante o tempo colonial e os anos que se seguiram a independência nacional, conciliava a função de rei (soba) com a de contínuo na Escola Primária nº 44, do Município do Bailundo."
1977-1998 Manuel da Costa Ekuikui III - Rei do Bailundo
1998 - 2008 Utondossi II
Com a morte do líder da Unita, o fim da guerra e a re-proclamação de Augusto Kachytiopololo para rei, com o epíteto de Ekuikui IV, O “reino” do Bailundo entrou na sua fase mais crítica, cuja nota predominante é a vassalagem total ao MPLA e JES. Daí que o passo a seguir, conforme foi orquestrado por essa força política, com o beneplácito de Augusto Kachytiopololo, foi a eliminação física de Utondossi II, o que se conseguiu, em 2008, como consequência de um atentado sofrido em 2007 na localidade de Lunge, onde vivia. Estes factos apenas atestam quão contraproducente é a intromissão abusiva da política e do poder instituído no poder tradicional. Mas, apesar disso, nos “akokoto” mentais das populações do Bailundo apenas têm lugar os reis de sangue azul. Quantos aos outros, serão esquecidos logo que deixarem o mundo dos vivos.
Another List of Rulers
La lista de los ossoma inene, es decir, de los soberanos del reino de M’Balundo, desde su fundación hasta la actualidad, es la siguiente:
1. Katiavala I (en torno a 1700) [Childs, 1970: 245]
2. Jahulo I (en torno a 1720) [Ídem: 245]
3. Somandulo (s.f)
4. Tchingi I (1774-1776)
5. Tchingi II (Tchiliva Banbangulu, 1778)
6. Ekuikui I (1780)
7. Numa I (s.f)
8. Hundungulu I (s.f)
9. Tchissende I (s.f)
10. Junjulu (s.f)
11. Ngungi (s.f)
12. Chivukuvuku Chama (Tchongonga, s.f)
13. Utondosi (1818-1832)
14. Bungi (1833-1842)
15. Bongue (1842-1861)
16. Tchissende II (1816-1869)
17. Vassovava (1869-1872)
18. Katiavala II, (1872-1875)
19. Ekongoliohombo (1875-1876)
20. Ekuikui II (1876-1890) *
21. Numa II (1890-1892) **
22. Moma (1895-1896)
23. Kangovi (1897-1898)
24. Hundungulu II (1898-1900)
25. Kalandula (1900-1902)
26. Mutu-Ya-Kevela (1902-1903) ***
27. Tchissende III (1904-1911)
28. Kandimba Jahulu (1911-1935)
29. Mussitu (1935-1938)
30. Tchinendele (1938-1948)
31. Filipe Kapoko (1948-1970)
32. Félix Numa (1970-1982)
33. Tchongolola (José Maria Pessela, 1982-1985)
34. Ekuikui III (Manuel da Costa, 1985-1996)


Notas: * Falleció en 1893.
** Estas fechas no parecen correctas, o bien hubo un vacío entre 1892 y 1895.
*** No fue rey, sino virrey.
**** Cuando falleció Ekuikui III, el municipio de Bailundo estaba ocupado por UNITA, y se nombró rey a Utondossi II que, sin embargo, según algunas informaciones no llegó ser entronizado. Cuando UNITA abandonó el municipio, en 1999, el Rey Utondossi II acompañó la retirada del movimiento.
Ndulu
Rulers
*1800* Cindele
*1810* Mbundi
*1835* Siakalembe
*1850* Lusãse
*1870 - 1890 Elundu Civava
1890 - 189. Civange
*1897* Cipati
*1900* Cisusulu
190. - 190. Kasuanje
190. - 190. Siakanjimba
*1904* Ndingilinya
19.. - 19.. Sihinga
*1910* Congolola
*1917* Cisokokua
19.. - 1935 Cihopio
1935 - ... Sangombe Esita (regent)
Ngalangi
Rulers
... - ... Ndumba II Cihongo
*1835* Kambuenge II
*1844 - 1860 Ndumba III Epope Kateyavilombo
1860 - 18.. Etumbu Lutate
*1886* Ndumbu I
*1890* Ekumbi
*1895* Cihongo II
*1899* Ciyo
*1905* Cipala
*1916* Kangombe
*1920* Ngangawe
192. - 192. Cuvika
*1925* Cikuetekole
19.. - 1931 Mbumba Kambuakatepa
1931 - 1933 Cingelesi
1933 - 1935 Ndumbu II
1935 - ... Congolola
Sambu
Rulers
... - ... Handa
*1810* Usinhalua II
*1820* Kambangula
*1835* Congolola
... - ... Lundungu
... - ... Ekuikui
... - ... Mandi
*19..* Citangeleka Komundakeseke
Viye
Rulers
1795 - 1810 Kawewe
1810 - 1833 Moma Vasovãvã
1833 - 1839 Mbandua
1839 - 1842 Kakembembe Hundungulu
1842 - 1847 Liambula
1847 - 1850 Kayangula
1850 - 1857 Mukinda (regent)
1857 - 1859 Nguvenge
1860 - 1883 Konya Cilemo
1883 - 1886 Ciponge Njambayamina
1886 - 1888 Ciyoka
1888 - 1890 Cikunyu Ndunduma
1890 - 1895 Kalufele
1895 - 1901 Kaninguluka
1901 - 1903 Ciyuka (1st time)
1903 - 1915 Kavova
1915 - 1928 Ngungu
1928 - 1940 Ciyuka (2nd time)
Wambu
Rulers
*1800* Kahala I Kanene
*1805* Vilombo II Vinene Kaneketela II
1813 - 1825 Cingi II Cinene Livonge
1825 - 1840 Ngelo II Yale
1840 - Apr 1846 Ciasungu Kiapungo
1846 - 1860 Kapoko II
1860 - 1870 Atende II a Njamba
1870 - 1877 Vilombo III Kacingangu
1877 - 1885 Hungulu II Kapusukusu
1885 - 1891 Wambu II
1891 - 1894 Njamba Cimbungu
1894 - 1902 Livonge
1902 The portuguese attemped to extinguished the state by colonial power
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A morte (14 Janeiro 2012) do rei Ekuikui IV

A morte (14 Janeiro 2012) do rei Ekuikui IV, autoridade tradicional máxima do reino do Bailundo, deixa o reino mergulhado numa crise profunda. Augusto Kachytiopololo, era o nome de baptismo do ancião que faleceu aos 94 anos, vítima de doença.

O seu antecessor foi Manuel da Costa (Ekuikui III) que governou o Bailundo entre 1977 e 1998. Segundo dados históricos, Manuel da Costa não pertencia a linhagem dos reis do Bailundo, mas sim dos reis da Luvemba. Mas subiu ao trono como Ekuikui III, tendo sido respeitado como tal.

Nos anos 80, foi raptado pela UNITA e levado para o antigo bastião do "Galo Negro", a Jamba, onde era tratado como um rei. Em 1992, com o deflagrar da guerra pós-eleitoral e consequente fixação de Jonas Savimbi no Bailundo, Ekuikui III retoma o trono, diante da fuga de um novo rei, Augusto Kachytiopololo, Ekuikui IV, que lhe tinha tomado o lugar durante a sua ausência.

Quando Ekuikui III faleceu no final dos anos 90, mergulhou, de novo, o reino numa crise. As forças do governo tinham, entretanto, retomado o Bailundo, e o MPLA impôs a re-proclamação de Augusto Kachytiopololo para rei, com o epíteto de Ekuikui IV. Kachytiopololo, de acordo com fontes históricas, era um homem comum, não pertencente a qualquer linhagem dos reis do Bailundo, e foi elevado à categoria de rei por questões essencialmente políticas, tendo mesmo sido eleito deputado do MPLA em 2008.Mas governo de Angola alega que Katchytiopololo foi neto do antigo Ekuikui ll , rei histórico da resistência colonial.

A sucessão obedece alguns rituais a serem observados. O ritual fúnebre foi feito durante o período da noite onde o corpo é enterrado e a cabeça depositada no tabernáculo. Óbito de Katchytiopopolo termina a 19 de Fevereiro do corrente. Cabe aos Mwekalhas, designação dada a Corte tradicional, a eleição do futuro rei.

O Reino do Bailundo foi fundado no século XV. Chegou a ser o maior,mais poderoso e influente reino do centro e sul de Angola. Actualmente continua a ser uma importante praça de disputa política.Recentemente, a Ministra Cultura, Rosa Cruz e Silva manifestou a a intenção do seu ministério reabilitar e requalificar o santuário onde jazem as ossadas dos soberanos Katiavala (fundador do Reino do Bailundo) e Ekuikui II pelo seu valor histórico e cultural.
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BREVE HISTORIA DE LOS REINOS OVIMBUNDU
Según José Redinha (1974: 39), las poblaciones que actualmente se denominan ovimbundu2 constituyen el mayor grupo etnolingüístico angoleño, al representar aproximadamente una tercera parte del total de la población. Está subdividido en 15 subgrupos, entre los que destacan los denominados huambos, bienos y bailundos. Los ovimbundu ocupan una franja territorial rectangular entre el litoral y el altiplano central de la zona de Huambo y Bié, y sus orígenes no están muy claros. Gladwun Childs (1970: 241)3 se refiere a un héroe fundador Feti y a un mito fundacional según el cual el primer lugar de ocupación de los ovimbundu sería un lugar cercano a la confluencia de los ríos Kunene y Kunyonãmua. Estas poblaciones poseen un imbricado sistema de parentesco que se expresa en un modelo de doble descendencia: patrilineal (oluse) y matrilineal (oluina4).

El oluse define en la actualidad el modelo de sucesión política, de este modo, todos los cargos con autoridad y poder, del sekulo (pequeño jefe, también denominado jefe de aldea) al ossoma (jefe, rey), se transmiten por vía patrilineal. A su vez, el sistema matrilineal, el oluina, definía tanto los modos de transmisión de la propiedad como la organización de la vida económica, que incluía las caravanas comerciales. Los clanes matrilineales tenían sus propios jefes, a través del tío materno (manji a nyõho), que ostentaba poderes políticos y religiosos sobre los miembros de su ossongo (clan matrilineal [plural, olossongo]). Estos jefes también podían ser macotas (consejeros) del ossoma (ídem: 58-59). Fundamentalmente, los ovimbundu trazaban la descendencia y las relaciones sociales a través del oluina, es decir, del sistema matrilineal. Sin embargo, más recientemente, la descendencia y la transmisión de propiedad y del poder político se producen por vía del oluse. Algunos autores señalan que este cambio está muy asociado a la influencia de las iglesias, sobre todo las protestantes (ArJaGo, 1999: 44).
Según Douglas Wheeler y Diana Christensen (1973: 55), los reinos ovimbundu, que serían aproximadamente unos 22 a principios del siglo XX, empezaron a formarse durante el siglo XVII, como resultado de la integración de grupos de poblaciones imbangala o jaga, que se desplazaron desde el norte y nordeste del altiplano y se mezclaron con poblaciones que ya residían en la región. Según Neto (1997), estas poblaciones imbangala estaban relacionadas con los lunda y los luba, y su fusión con las poblaciones del altiplano dio lugar a los precursores de los actuales ovimbundu. Los 22 reinos ovimbundu presentaban diferentes tipos de constitución e importancia política y social, y en su mayoría estaban constituidos únicamente por una ombala5 (unidad sociopolítica que reunía a varios conjuntos de pequeñas aldeas) liderada por el ossoma o soberano. Cada conjunto de pequeñas aldeas se denominaba etambu, y tenía a su frente a un sekulo o jefe de aldea, por lo general miembro del clan real del ossoma, por vía patrilineal.

El ossoma ostentaba el máximo poder, desde el punto de vista político y religioso, y contaba con la colaboración de un conjunto de consejeros, los macotas, constituido por sus sekulo, por otros miembros del linaje real del ossoma y por ancianos prominentes del reino. Los reinos más importantes fueron los de Bié, Bailundo y Huambo6 que, tanto por su dimensión (estaban constituidos por numerosos conjuntos de olumbala) como por su situación geográfica, dominaban prácticamente la totalidad del altiplano central y el comercio de caravanas con el interior del continente. Varios olossama (plural de embala), menos importantes, eran miembros de los olossongo reales de Bié, Bailundo y Huambo, y dependían, desde el punto de vista político y religioso, de estos soberanos (ídem: 58-59).
EL REINO DE M’BALUNDU
El reino de M’Balundu es el mayor y uno de los más importantes de los reinos ovimbundu. Según Gladwyn Childs (1970: 246), este reino llegó a incorporar a reinos que no eran ovimbundu y a extender su dominio hasta el río Kuanza. A lo largo de su historia, el reino de M’Balundu ha sufrido una serie de profundas influencias y transformaciones, sobre todo a partir de la dominación colonial portuguesa y, más concretamente, a partir de 1902, fecha de la última sublevación de los bailundos contra la dominación colonial. A partir de esa época, el reino perdió su independencia y fue sometido progresivamente a la lógica políticoadministrativa colonial, de la que conviene destacar dos aspectos: la subordinación de sus estructuras políticas al poder administrativo colonial, así como la progresiva reducción de la base territorial del reino.

En el período precolonial (entendido como el período anterior a 1902), la ofeka (nación en umbundu) de M’Balundu ocupaba una amplia región del altiplano central, a partir de su centro fundacional, la montaña de Halavala7. A partir de 1902, la base territorial de la ofeka se redujo progresivamente, y se vio sujeta a la lógica de las divisiones administrativas coloniales hasta quedar confinada a sus límites actuales, que corresponden, a grandes rasgos, al actual municipio de Bailundo y algunas regiones de los municipios colindantes.

Según la historia local oral, el reino de M’Balundu fue fundado, probablemente en el siglo XVI, por un cazador llamado Katiavala, procedente de la región de Sumbe o Seles, en la actual provincia de Kwanza Sul. Según la historia narrada por los ancianos:

“(...) Antes del inicio del reinado, ya existían Umbulu y Katiavala, así como sus familias. Fue en el tiempo en el que no se conocía la raza blanca. Y mucho menos las armas, la escopeta. Vivían sólo como gente, pueblo. (...) Entonces él [Katiavala] descendía de la familia del rey, hasta el momento de la colonización portuguesa. (...) El reinado de Katiavala procede de Seles, provincia de Kwanza Sul, de donde venían todos estos reyes. Socossange era el padre de Katiavala. Se instalaron en estas tierras debido a la caza, buscaban animales. Desde Seles hacia aquí, se instalaron en una ombala denominada Ngonga.

En aquel tiempo, conseguían mucha caza, cazaban y vendían, y criaban ganado bovino. Los pastores de este ganado eran Katiavala y el soba Ndalo. Entonces la alimentación era sólo a base de carne de buey. (...) Katiavala no era un soba, no, era pastor. En esa época los pastores tenían esa necesidad de comer carne de buey. En estas circunstancias, los dos pastores idearon un método para poder abatir una cabeza [de ganado]. Afilaron una vara y la introdujeron en el ano de un buey. Al tirar de ese palo, las menudencias del vientre tapan automáticamente el ano, impiden la evacuación y hacen que fermente la barriga del animal, que muere. Entonces, aquéllos que querían comer la carne quedaron satisfechos, pero el dueño del animal se enfadó.

Utilizaron este método dos veces. El dueño de los animales se entristeció, ya que no descubría la enfermedad que estaba matando a su ganado. Pero había un espía que fue a decirle que los responsables de aquella situación eran los propios hijos de la casa [Katiavala y Ndalo]. Entonces, el dueño de los bueyes [Socassange, padre de Katiavala y de Ndalo] se enfureció tanto con los pastores que Katiavala y el soba Ndalo huyeron. (...) En ese momento, en la montaña donde nos encontramos [montaña sagrada de Halavala, donde se hallan las tumbas de Katiavala y de Ekuikui II], ya se ubicaba Umbulu Tchingala. Katiavala pensó que tenía que venir aquí para presentarse al rey (...) y, al dirigirse a esta gente, aquí ya existía una camada joven entre estas gentes, fue bien recibido, porque era un visitante. Le preguntaron de dónde venía y él dijo que de la ombala Ngonga, y volvían a preguntarle: ‘¿qué vas a hacer?’, y él les decía que era cazador y que se encontraba en aquella montaña de Sambo, bien recibido, y le dijeron ‘entonces, quédate donde estás. Nosotros por aquí también tenemos nuestros cazadores y nos quedamos aquí’. En aquella época, Katiavala siempre que cazaba un animal sacaba un muslo y se lo enviaba a Umbulu Tchingala. Era un regalo a los reyes que se encontraban aquí.

También los cazadores de aquí, cuando mataban se acordaban del regalo que hacía Katiavala y también llevaban un presente. A Katiavala le ofrecieron una de las patas [el miembro posterior de una pieza de caza]. Éste quedó poco satisfecho y recordó que siempre que él mataba a un animal llevaba a esa familia un muslo así que, ¿cómo es que, a la inversa, en vez de llevarle un muslo le llevaban una pata? Para él supuso una ofensa. Entonces, Katiavala generó una oportunidad cuando aquí se planeó una cacería. Al quedar aquí sólo mujeres y niños, Katiavala subió hasta esa montaña con su escopeta. Las casas eran de revoque y él, que recogió algunos manojos de revoque, disparó la escopeta; como en esa época la población no conocía las armas, todos se asustaron bastante. Prendió fuego a los manojos de revoque y, continuación, alguien fue a buscar a los que estaban cazando para contarles que Katiavala había incendiado la aldea. Algunos cazadores suspendieron la caza y vinieron a ver los daños. Katiavala, al darse cuenta de que los habitantes estaban yendo a su encuentro, hizo un segundo disparo y avivó las llamas, puso más revoque y las llamas fueron aumentando. Los que venían a su encuentro huyeron y no llegaron. Fue cuando Katiavala subió hasta aquí a la montaña [se instaló], saliendo de donde estaba. Así comenzó el reinado”. (Ebai: 2004-2)

En esta región había originalmente cinco aldeas (kimbu en umbundo): Halavala, Tchilapa, Ngola, Ndulu y Viyé. Cada kimbu estaba organizada en torno a grupos de parientes, era políticamente independiente de las otras y no tenía una organización política central. Fue Katiavala el que, al dominarlas, dio una unidad política a estas kimbu i fundó el reino M’Balundu; se hizo entronizar con el título de Katiavala I. De acuerdo con el relato que hemos expuesto, Katiavala dominó a esas poblaciones por el hecho de disponer de una ventaja tecnológica-militar, esto es, una escopeta, un canhângulo. Con la creación del reino de M’Balundu, Katiavala introdujo dos principios fundamentales: la centralización política de las aldeas y la introducción de un hecho cultural nuevo, que todavía en la actualidad es una seña de la identidad cultural de M’Balundo, el culto a los reyes, a través de dos vías diferentes: el culto a los cráneos reales, conservados en los etambu, y el culto a los cuerpos, conservados en los akokotos10. Siguiendo con el relato:

“Después de instalarse aquí en la montaña, Katiavala mandó llamar a los jefes de esas cinco aldeas para que vinieran a verlo. Con su escopeta al hombro, Katiavala recibió a las visitas y les dijo que, a partir de ese momento, no quería oír ninguna sentencia en esas aldeas sin que fuese resuelta sólo por sus manos. Cuando pensó en fundar su propio reino, mandó llamar a su padre y, después, de nuevo a los soma de esas cinco aldeas. Cuando estaban todos reunidos, Katiavala dijo ‘a partir de hoy se inicia mi reinado’ (...) y mandó cavar un agujero ordenando que se metieran en él las cabezas de un gallo, un cabrito, un cerdo, un perro, un buey y la de una persona. El reinado se inició con esta costumbre (...) Katiavala ordenó a sus hombres que cogiesen a un hombre, que lo aislasen, y trajeran su cabeza y dejaran el cuerpo abandonado. Por tratarse de una orden de Katiavala, sus hombres fueron al campo y trajeron la cabeza y la pusieron en ese agujero. Katiavala ordenó que se tapara el agujero y en ese lugar plantó un árbol que se llama olumbi, que crece rápidamente”. (Ídem: 2004-2)

Al fundar el reino, Katiavala introdujo también el nombre del mismo a partir de una costumbre local anterior a él, a la que denominaban ombalundu, que consistía en que los hombres de esa región se pintaban una raya negra desde la frente hasta la punta de la nariz. Katiavala habría asociado esta costumbre local al mbalundu, topo real que tiene una raya semejante, pero blanca, y denominó M’Balundu a esta tierra .

“(...) una vez que el reinado estuvo en fase de crecimiento, apareció un ratón al que se llamó topo, en umbundu onete, que tenía una señal en la frente. Katiavala agarró al topo y le pegó en la frente, en el pecho y en el pescuezo, recordando el símbolo de los Umbulu Tchingala que vivían aquí; eran ellos los que vivían aquí, eran ellos los que tenían la tradición de una señal negra que iba de la frente a la nariz. Aquella señal era la que tenía el nombre de M’Balundu. A partir de ahí, Katiavala encontró que el nombre de Halavala sería designado como M’Balundu. El significado de M’Balundu es el siguiente: ‘aunque esté todo cubierto, con un sombrero, buenas ropas, zapatos… tengo todo tapado menos la frente, que es difícil de esconder’. M’Balundu es una cosa que todos ven. Y es así como surgió el nombre de M’Balundu, que excluyó de una vez por todas el nombre de Halavala” (Ídem: 2004-2).
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COLONIALISMO E O DESMANTELAMENTO DA TERRA AFRICANA
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