terça-feira, 11 de janeiro de 2011

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA ESCRITOR ANGOLANO


Olhares sobre a Luanda antiga
“A Conjura”, que retrata a sociedade da capital angolana no século 19, marca a estreia do escritor no Brasil

Em 1989, a literatura angolana foi surpreendida com a publicação de “A Conjura”, a primeira obra literária a debruçar-se sobre a sociedade crioula de Luanda no final do século 19, marcando a estreia do escritor José Eduardo Agualusa.

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“Ali estão as fragilidades dos primeiros romances – a ânsia de querer contar tudo, por exemplo – mas também algumas virtudes que só os iniciantes costumam possuir, como a paixão e uma certa ingenuidade”, comenta Agualusa, sobre o livro lançado no Brasil pela Editora Gryphus.

Ao longo de seis capítulos, Agualusa descreve a rotina dos moradores da velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda, para onde eram enviados os condenados e bandidos de Portugal que cruzavam com os nobres senhores africanos e seus escravos pelas ruas da cidade, entre os anos de 1880 e 1911. Confira a entrevista com o autor.

Como o passado ajuda a olhar o presente com menos distorção?

José Eduardo Agualusa – Tinha 26 anos quando comecei a escrever “A Conjura”. Escrever esse romance, pesquisar sobre a sociedade angolana no século 19, ajudou-me a compreender muito melhor a história recente do país. A própria gênese da guerra civil que, mais que um confronto ideológico entre esquerda e direita, foi um confronto entre campo e cidade, algo que vem do século 19 – e que trato neste romance. As grandes famílias escravocratas do século 19, famílias negras e mestiças, estão também na gênese do movimento independentista moderno.

Por que o romance histórico é forte em Angola e sem o mesmo peso nos outros países africanos?

Agualusa – Angola tem uma literatura muito mais desenvolvida do que os restantes países africanos de língua portuguesa. Em Moçambique, por exemplo, contam-se nos dedos de uma única mão os escritores com carreira internacional – e sobram dedos. Isso tem a ver com a história da própria colonização. Em Angola, uma porcentagem muito significativa de pessoas falam português como língua materna, e isso desde há várias gerações, o que não acontece nem em Moçambique nem na Guiné-Bissau. Há escritores angolanos, como o Pepetela, que têm se esforçado por explorar os silêncios da história, mas mesmo assim ainda há muito o que explorar. Em Angola, o passado tem muito futuro.

Cruzar o imaginário cultural com a história remota e recente do seu país seria um caminho para montar um painel da complexa realidade de Angola?

Agualusa – Sem dúvida. A boa literatura não traz respostas, mas pode ajudar a colocar as questões certas. O mais interessante num país como Angola é a presença no dia a dia do imaginário popular, e toda a imensa riqueza de enredos gerados por um presente e um passado próximo, extremamente agitado. Além disso, um país como Angola, jovem, cheio de vitalidade, atrai aventureiros de toda parte do mundo. É um prato cheio para um escritor.

Já se disse que sua relação com Angola é semelhante à de Camus com a Argélia.

Agualusa – Eu acho que a literatura, sobretudo em países como Angola, nos quais os mecanismos democráticos estão ainda pouco desenvolvidos, e onde a maioria da população não consegue fazer ouvir a sua voz, acho que num país assim a literatura tem um imperativo ético, o que não significa que deva ser dirigista. Como disse antes, ao escritor cabe colocar as questões, cabe promover o debate, cabe incomodar e perturbar, mas não tem de ter a pretensão de dar as respostas. Várias pessoas me perguntaram, quando do lançamento de “Barroco Tropical em Lisboa”, se não tinha receio de perturbar. Eu acho que um bom romance é aquele capaz de perturbar. O que incomoda. Um romance que não incomode provavelmente não merece ser publicado.

Imagem: agualusa.info