sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CULTURA TRADICIONAL BANTU. Os assassinatos são muito raros. Abunda todavia a vingança mortífera do veneno.


A. Kagame insiste em que o Deus bantu não pertence à categoria de «ntu» (ser finito): porque a noção do ser não é unívoca, e sim análoga.

Embora seja mais comum chamar a Deus de Pai, em alguns grupos aparece como Mãe. Um velho soba quimbundo chamava sempre a Deus «Mama Nzambi» (Deus-Mãe) e não «Tatá Nzambi» (Deus-Pai), que seria o comum.

Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas

Referimo-nos apenas aos nomes usados em Angola. A denominação mais comum na área banta e empregada em 24 línguas é a de Nzambi, com estas variantes: Nyambe, Njambi, Nzambe, Nzame, Nzama, Njambe, Nsambi, Tshambe, Inambie, Inandzambi, Nhambe e outros.

O. Ribas afirma que deriva de «Kuzamba»: «presentear (a vida, o mundo)»: «dizer, fazer, executar, modelar, ordenar», isto é, «aquele que cria, fala, organiza e faz».
Pode também originar-se da raiz «Yamba» (recompensar, remunerar). Nzambi seria «o remunerador, o benfeitor», ou do radical «mbi», essência pessoal. Expressaria uma entidade abstracta. Em quicongo chamam-lhe «Nzambi-Mpungu» «o grande, o forte, o todo-poderoso, o perfeito, o bondoso, o imenso, o excelente», talvez, porém, por influência cristã.
De qualquer forma, «o sentido original de Nzambi… permanece obscuro, como diz Van Wing. Não obstante, esta obscuridade será relativamente menos densa, uma vez que os dois significados «dizer e fazer» poderiam referir-se a «criar pela palavra e pela acção».
Outro grupo de nomes provém dos radicais «umba, panga, unda, tongla, ilola e, sobretudo, unga» que dão uma noção de «criar fabricando, dando forma, modelando». Assim «Mbunda, Pamba, Umbumbi, Maunda, Karunga, Kalanga, Katonga, Umbumba e Kalunga».
Kalunga (Deus) aparece em vários grupos etnolinguísticos angolanos, norte da Namíbia, fronteira de Angola (nordeste) com o Congo (Zaire) e em grupos junto ao lago Kivu e lago Tanganica. Kalunga, etimologicamente, significa «aquele que, por excelência, reúne». Em diversas línguas bantus, significa também o mar, o oceano, o infinito, a morte, o rei do mundo subterrâneo ou mar, o que atrai a chuva. Kalunga
Encerra um significado real de Grandeza, Imensidão, Infinidade.
Não há certeza sobre o sentido etimológico dos nomes de Deus «Suku, Huku, Sugu».
Alguns os deduzem do verbo «oku-huka»: sobressair, exceder, sobrepujar. Assim, Deus seria «O Altíssimo, o Excelso, o Grande, o Impenetrável.»
Campbel opina que «Sku» quer dizer: «O que socorre as necessidades de suas criaturas».
Outros opinam que poderia derivar-se da palavra umbunda «esuku» (medula das árvores) ou de «uasuku» (o último). Suku seria, assim, o «primeiro de todos».
Parece mais acertado derivá-lo das palavras, também umbundas, «sekulu» e «ise-yukulu» («o velho dos velhos»),« a raiz dos velhos» Deus seria «o pai mais velho de todos os pais humanos.

Tipo cuvale (Kuvale). Puros pastores nómadas do grupo Herero. Somatologia mista caucasóide-bantu: as tradições e diversos traços culturais acusam origens camitas.

Encontra-se uma infinidade de alusões ao controlo divino do universo. Não duvidam de que é o Senhor do mesmo, o seu dono, que vê e conhece os segredos da criação e do homem. Para Deus não há mistérios. «Os Ba-Nhanekas e os Ba-kumbis designam com o nome de Huku ou Suku… ao Deus invisível que vê o que nós fazemos, ouve o que dizemos, e sabe o que pensamos.

Os Quimbundos de Luanda conhecem os «quituta» que vivem nos rios, bosques, rochas, fontes. Podem aparecer em forma de cobra com chifres ou de monstro horrível e encarnar através do pai ou da mãe. Também acreditam nas «quiandas», sereias que aparecem na forma de pessoa, costumam ocasionar deformações físicas.
Os génios fixam o seu habitat em lugares e árvores especiais. Para vários angolanos, alguns embondeiros gigantes, os baobás, ficam sacralizados com a presença de génios bons e protectores, e constroem ao pé deles pequenas cubatas-santuários onde lhes oferecem culto. Era frequente dependurar os cadáveres dos feiticeiros dos seus ramos, para que os génios impedissem as suas acções nefastas.
Controlam muitos lugares da natureza, quando habitam neles, bem como as actividades humanas nesse meio.
Há génios no ar, na chuva, na tormenta, no fundo da terra, nas selvas, lagos,, rios, nas nascentes, na caça e pesca, nas culturas, viagens, estepes e até nas enfermidades misteriosas.

Também é certo que, depois duma história de guerras, epidemias, fomes, escravidão e enfermidades endémicas, já se habituaram a morrer. A mortalidade é tão elevada e a morte tão imprevista que se lhes tornou familiar. «Esta familiaridade com a Morte é também uma herança africana».
Fatalismo irremediável, resignação, gozo pela passagem, diminuição do ser, mistério e absurdo, desgraça, impotência, transtorno social, consumação, nova realização individual e comunitária, revolta perante um violento desastre antinatural, segurança, receio? Nenhuma destas definições esgota o sentimento bantu ante a morte, mas parece que, no seu conjunto, a definem.

Causas da morte
Os assassinatos são muito raros. Abunda todavia a vingança mortífera do veneno. A maioria das mortes derivadas de consultas ao adivinho são provocadas por fulminantes drogas venenosas.
A origem mais é a feitiçaria. O bantu acredita que algum membro da comunidade, dotado de poderes mágicos ou que deles se apoderou, fulmina a vítima e permanece oculto.
Os familiares do morto recorrem ao adivinho para que descubra o feiticeiro criminoso. O adivinho apresenta um espelho, uma faca e uma cabaça com água, em cujo interior repousam pós vermelhos. Sentam-se na espessura da floresta. O adivinho chama com uns assobios produzidos por um chifre de cabra ou antílope, com palavras esotéricas e gestos cabalísticos, o feiticeiro. Em seguida, no espelho, por vezes na água, aparece a cara do defunto e a seu lado outra pessoa. É o feiticeiro causador da morte.
O adivinho mergulha a faca na água que se tinge de vermelho. Simboliza o sangue do feiticeiro que morrerá, ainda que se encontre longe. De facto, a sua morte realiza-se ou por acção dos familiares ou por acção de algum dos secretos cúmplices do especialista.
Utilizam o veneno como arma mais frequente, discreta e eficaz. Asseguraram-me muitos, porque viram, que o espelho reproduz as imagens. Será necessário apelar para o enorme poder de sugestão que a milenária experiência sedimentou nos adivinhos bantus ou para poderes parapsicológicos de que fazem gala muito amiúde.
Outras vezes, dependuram o cadáver, atado de pés e mãos a um pau ou colocam-no numas andas. Dois ou quatro homens passeiam-no pela aldeia. Diante de toda a assistência silenciosa e aterrada, o adivinho pergunta ao cadáver: - Quem te matou?
O cadáver quase sempre se detém diante duma pessoa e se move bruscamente. Não há dúvida, aquele indivíduo foi o feiticeiro.
Estas práticas originam vinganças, arbitrariedades, abusos e um medo generalizado. É que o acusado não pode apelar, visto que o bantu admite um tipo de feitiçaria inconsciente, como vimos, e, além disso, nunca pode demonstrar a sua inocência ante uma prova tão irrefutável prestada desde o além-túmulo por um defunto ou seus antepassados.
Acusam em especial os indivíduos anti-sociais, misantropos, apáticos, defeituosos, irascíveis, a quem os familiares ou o adivinho odeiam, e os mais ricos. Realizam assim uma assepsia social e uma circulação de bens.

Ritos fúnebres
Pelo contrário, se se realizarem com descuido ou forem deformados, o defunto esquecido vagueará sem destino, desgraçado, e o olvido dos seus acarreta desprezos e terríveis vinganças para os vivos. Converte-se num perigo permanente e pode ocasionar males.
A solenidade dos ritos está em proporção com o prestígio social e, sobretudo, com a influência vital do defunto. Os chefes merecem honras especiais que se revestem da maior solenidade, com a reunião da comunidade. Assim, conservam o seu estatuto social no outro mundo e não guardam ressentimentos contra as suas comunidades que, por outro lado, desejam prestigiar-se com pomposas festas, as comidas, bebidas e danças adquirem tal relevo, que não há festa que as supere. Vi, nestas ocasiões, sacrificar até quinze bois! As festas poderão prolongar-se por um mês se o chefe for importante.
Está bastante espalhado o costume de deixar corromper o cadáver do chefe até que a cabeça se desprenda do tronco. O crânio deve ficar para o herdeiro, como feitiço protector. Às vezes, arrancam-lhe as unhas para fabricar poderosos feitiços ou manter viva a sua presença, já que a sua personalidade se prolonga até aí.
Confiam tanto no seu poder que, em muitos grupos, os dignitários o sepultam num lugar escondido, por exemplo no leito dum rio, para evitar que seja esquartejado e a sua carne destinada a vivificar feitiços.
Foi frequente ocultar a morte do chefe durante meses, até um ano por vezes. Talvez tentassem evitar convulsões sociais ou fosse exigido por situações políticas.