Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O memorial invisível





Mulher em frente à tumba do seu irmão, em Arlington. / K. L. (REUTERS)

Uma seção do cemitério do Arlington concentra o maior número de militares mortos nas guerras do Afeganistão e Iraque

JOAN FAUS Arlington 

É um imponente mar de lápides brancas perfeitamente alinhadas. De longe, a seção 60 se parece com o resto do cemitério de Arlington, no subúrbio de Washington, há 150 anos o santuário em homenagem ao militarismo. Mas, de perto, a paisagem e o ambiente diferem: as lápides são mais novas, há muitas mais flores e dedicatórias, e as visitas são frequentes. A tristeza é mais recente. A seção 60 é o melhor reflexo dos traumas das duas últimas guerras dos Estados Unidos, no Afeganistão e Iraque. São pouco mais de cinco hectares de grama – o cemitério de Arlington tem 250 no total – com centenas de tumbas que representam, na ausência de que se construa um oficial, o memorial aos caídos nesses dois longos conflitos, caros e sem vitória.
Nessa zona plana no sudeste do cemitério há mais de cem fileiras com pequenas lápides retangulares. Quase mil túmulos correspondem a militares mortos que serviram no Afeganistão (uma intervenção que começou em 2001 e ainda não terminou) e Iraque (2003-2011), segundo o cômputo do veterano jornalista Robert Poole, autor de um livro sobre a seção 60. Ele calcula que esses militares componham 40% de todos os sepultados no setor. Nas duas guerras, morreram cerca de 6.800 norte-americanos – ou seja, quase um em cada seis jaz sob o bem cuidado gramado de Arlington. É omaior epicentro de lembranças das duas guerras.
A seção 60 é o melhor reflexo dos traumas das duas últimas guerras dos Estados Unidos, no Afeganistão e Iraque
Ao longe se vê o Pentágono, a sede do Departamento de Defesa, para o qual os mortos trabalhavam. E, ao redor do prédio, ficam os escritórios das empresas que fabricam os equipamentos vendidos ao Exército e usados pelos que agora estão enterrados em Arlington. A seção também é um fio de continuidade: a chamada guerra contra o terrorismo não terminou. O Exército dos EUA continua presente no Afeganistão e em junho passado se viu forçado a voltar para o Iraque por causa do crescimento do grupo jihadista Estado Islâmico. A despeito das perdas humanas, a instabilidade em ambos os países se mantém, mais de uma década depois de iniciadas as invasões.
Antes do início dos conflitos do Afeganistão e Iraque, metade da seção 60 estava vazia. Agora, está quase toda cheia. “Sempre há um enterro por dia, e às vezes quatro”, conta Israel, um guatemalteco de 28 anos que há quatro trabalha no cemitério. É a zona mais ativa de Arlington. Junto com outros cinco imigrantes latinos, ele se dedica a colocar lápides na grama. Depois de um enterro, fica uma inscrição temporária de plástico. Em duas semanas chega a lápide definitiva. Todas são da mesma altura e de pedra branca, exceto as que incluem vários corpos, que são cinzentas e mais altas e largas.
Cerca de 6.800 norte-americanos morreram nos dois conflitos
Muitos dos mortos recentes são enterrados nessa área. Por isso, nela também repousam veteranos da II Guerra Mundial e dos conflitos da Coreia e Vietnã. “Mas o que não é habitual é que tenham juntado todos os do Afeganistão e do Iraque numa mesma zona. Não acontece em nenhuma outra parte de Arlington”, diz um homem de meia idade que trabalha nos escritórios do cemitério e pede anonimato. “Acho errado, porque é festivo demais. Muita gente acha”, acrescenta, enquanto ao fundo se escutam os disparos da guarda militar de honra num enterro próximo.
Nos fins de semana, conta ele enquanto tira fotos da seção 60, chega gente para fazer piqueniques e a mães que brincam com seus filhos junto às tumbas dos seus pais. “Suponho que seja terapêutico”, argumenta. Em seu livro sobre a seção 60, subtitulado “onde a guerra volta para casa”, Poole relata vários exemplos: alguns pais brindam com uísque em frente à lápide do filho, um soldado que morreu aos 26 anos; uma viúva grávida mostra ao marido morto uma ecografia do filho que terão juntos; um menino deixa seu boletim escolar apoiado no túmulo do pai.
Sempre há um enterro por dia, às vezes quatro”, conta Israel, um guatemalteco de 28 anos
“É seu ponto de contato com as guerras do Afeganistão e Iraque, do mesmo modo que as pessoas levam coisas ao memorial do Vietnã” na esplanada do Mall, no centro de Washington, argumenta Poole em uma entrevista telefônica. Mas, na seção 60, diferentemente dos memoriais oficiais, não há muros solenes com nomes, nem grandes bandeiras norte-americanas ou chamas eternas.
Em um recente dia de semana, percebia-se um rastro próximo: túmulos com flores frescas apoiadas, fotografias dos mortos, felicitações de Natal e São Valentim, poemas e desenhos plastificados, ou pedrinhas, bottons e medalhas colocadas cuidadosamente no vértice. Todas as lápides incluem o nome do falecido, seu ano de nascimento e morte, sua patente militar e as guerras em que combateu. Algumas contêm também a universidade, condecorações ou mensagens pessoais. “Eu te amo. Sinto tua falta, meu herói”, lê-se na tumba de um soldado que morreu aos 22 anos, em 2007, no Iraque.
Muitas mortes não são de balas de um Exército inimigo mas sim de bombas improvisadas de grupos insurgentes
“É uma seção muito diferente das outras. A dor é mais recente. As emoções são mais cruas, mais próximas da superfície”, diz o jornalista. A seção 60 é também um espelho da realidade mutante das guerras: muitas mortes não são causadas pelas balas de um Exército inimigo, e sim por bombas improvisadas de grupos insurgentes, que podem destroçar corpos por completo; algumas são de soldados que se suicidaram após voltar aos EUA, vítimas de estresse pós-traumático; e há também os restos de algumas mulheres integrantes do Exército.
Outros foram surpreendidos pela morte dentro de casa. Como um jovem que esteve por um ano no Iraque e que, logo após regressar, morreu em 2013 ao ser baleado por um ladrão no seu apartamento. Sua amiga Conny, de 27 anos, que vive no sul do país e visita pela primeira vez seu túmulo na seção 60, olha a lápide fria e lhe dirige algumas palavras. “Fico feliz de que esteja enterrado perto dos seus companheiros do Exército. Sua irmandade com eles continua”, diz depois, entre lágrimas.