quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Sindroma NERIKA: Agora “maridas” matam maridos


Luanda - Actos de violência incluindo assassinatos de esposos pelas suas esposas, tornou moda. Se não estivéssemos na mesma picada, teríamos evocado uma crise ou degradação dos valores morais. Mas como somos donos de nós mesmos, não nos atemos em simplicidades de respostas para convencer a aldeia apavorada. Pesquisamos, distribuímos o mal pela aldeia e nos entretemos no jogo de hipóteses e probabilidades para chegar seguros ao mínimo denominador comum.

*Félix Miranda Fonte: Folha8

Esta recrudescência em que se remarca com bastante incidência uma inversão dos termos: esposas matam maridos e com a maior naturalidade do mundo, admirável frieza e descontracção se predispõem a encenar diante das câmaras o acto homicida ou agressão perpetrados, despoletou uma onda de interjeições e objecções que se estendeu ao nível da miudagem nas sanzalas. “Já não é pecado, nada mete medo, tudo é normal porque cemitério virou jardim para piquinicar e desfilar saia curtinha”.

Não sabemos ao certo em termos estatísticos as quantas andamos em homicidas. Certeza porém, não estaremos errados se classificarmos como fenómeno, deveras muito preocupante. É verdade, a violência, num prisma psicológico faz parte do instinto animal, escondida nos labirintos das reacções imprevisíveis e “inexplicáveis” que neste particular assombram o ser do Homem. Porém, muito provavelmente condicionada pelos códigos de conduta ético-sociais e matriculada pelos anais da história da humanidade, a Mulher foi tida ao longo dos tempos como o animal mais “inofensivo e tolerante”, a nossa Virgem Maria, a Mula obediente que aceitava a poligamia com ingenuidade. Mas, os factos documentados nos últimos meses particularmente em Angola transfiguraram drasticamente o quadro. Hoje as mulheres mantêm as garras armadilhadas e aguçadas, prontas a retribuir ao homem com igual ou maior agressividade de que são sujeitas, ou a tomarem iniciativa contra os parceiros. É o que nos propomos considerar, uma inversão de estatutos na relação conjugal, facto que o Homem teima em não acreditar, daí a deflagração das hostilidades. Pois, outrora o “bruto” o “inculto” era o esposo. Actualmente a luta pela afirmação do género, em que prevalece a confusão entre emancipação e igualdade, encoraja a imposição da força ao de lá do posicionamento profissional e da condição económica. Eis que quando se fala de relacionamento conjugal, muito mais do que amor, verifica-se que o afecto ficou substituído pelo jogo de interesses.

Pensamentos recalcados
Não se deve apelar o inconsciente apenas para nos trazer de volta as más memórias ou as experiências mais rudes da vida como é o caso de recordações de violência do pai contra a mãe que codificaram a infância; tão pouco considerar estas atitudes de violência que aplicamos no presente como uma doença da mente ou da personalidade, “complexo de inferioridade, de superioridade” ou o sentimento de vítima pré-destinada. Não! Isto pode ser um falso álibi, como também é erróneo dizer que devo suportar a pancadaria, apenas porque tenho de salvaguardar o futuro e o respeito dos filhos.

Os males da civilização - TV - Internet
Mais do que nunca, os programas de televisão, mesmo os dedicados a classe infantil são geradores de violência. As novelas que são exibidas duas a três vezes por dia, são perniciosas, mercê do baixo nível cultural dos cidadãos, que não estão à altura de discernir e equacionar o conteúdo dos episódios de violência ou homicídios. Estes programas não classificados são cada vez mais frequentes, indiciadores de lições que ensinam homens, mulheres e crianças a atacarem e a se defenderem, a matarem os parceiros inclusive com a maior das crueldades. Já não é preciso recorrer aos filmes de “Hannibal” para se ser carniceira(o), nem desfilar os olhos em pornografia para que as crianças se tornem precocemente prostituídas. Num outro pólo, a Internet, paralelamente aos ganhos do progresso, como é tornar o mundo verdadeiramente numa aldeia global, despoleta no seu contrário, efeitos nocivos como o de adulterar a educação familiar.

Por outro lado e no meu conceito pessoal de abordagem do fenómeno, considero igualmente um acto de cobardia recorrer a convivência familiar passada ou evocar a maledicência hereditária como sentimento recalcado. Igualmente, a pobreza e os revezes económicos actuais, os obstáculos físicos ou as frustrações conjugais_ desde as mais simples, à infidelidade, não formam razão suficiente para justificar as tendências destruidoras e os impulsos criminosos ou descarregar a ira armazenada ao longo do seu crescimento, contra o próximo, como se fosse seu inimigo e não no mínimo seu parceiro. Sempre nos esquecemos que quando na idoneidade, cada dia que desponta, se começa uma nova vida, cujos arquitectos somos nós e não os nossos pais. Por outras palavras, maturidade quer dizer independência mental e auto-suficiência, até na maneira de pensar e agir, verdade que fingimos ignorar.

Digo cobardia porque hoje os jovens na sua maioria, preferem escapar das realidades dolorosas da vida, físicas ou mentais, pelo mais fácil e sempre contra o mais fraco e de forma traiçoeira. Nunca nos podemos esquecer que o filho de pai delinquente ou psicopata, pode ser tão bruto quanto um filho mimado ou que tenha crescido com excesso de protecção e de zelo. Portanto, considero na sua maioria uma espécie de subterfúgio mesquinho, bode expiatório barato, usar o passado dos pais como justificativo do emprego da violência. É verdade só a excepção acredita a regra, mas Nerika Nelumba, Advogada por excelência, um dos casos patéticos mais mediatizados, por aquilo que se apurou na realidade dos factos, não sofria actos de violência de seu companheiro, teve uma infância exemplar, tinha as condições financeiras que lhe permitiam o lazer além fronteiras, não estava na pele de segunda esposa, nem tinha à espreita uma rival, mas assassinou seu marido que dizia amar, de forma vândala.

Causas
A verdade mais válida é que as causas do fenómeno residem mais do que nunca na rejeição pela subjugação por parte da mulher; no inconformismo desta aos caprichos históricos do homem; na quebra do diálogo no lar; consequentemente da amizade quão imprescindível, abrindo brechas ao falso relacionamento onde habita a desconfiança mútua, o ciúme ou a suspeita permanente de traição da mulher ou estratagemas de infidelidade. Noutros termos, esta independência, digamos, usurpada arbitrariamente pela mulher, levou o homem a se sentir cada vez mais ameaçado de perder sua autoridade tradicional histórica. Não é por acaso que se contempla a um aumento de 200% de homicídios praticados pela mulher na Cadeia de Viana, um total de 236 reclusas, das quais 82 homicidas, 63 já condenadas; cifras que podem ter aumentado nas últimas horas.

Particularmente a Igreja Católica no decorrer do século XX, ao tentar apagar as máculas da selvajaria acometidas durante a inquisição, cujos arquivos de memória foram destapados e que passaram a minar sua imagem, evidenciou grande parte de sua actividade ao apregoar os conceitos da religião com os 10 mandamentos e o rigor da moral humana, aceites como ditames da civilização (ocidental). Infelizmente, hoje baqueou neste papel de purgatório e enveredou no estuário do espírito de deixa andar, ao se sentir seriamente ameaçada pelas investidas acutilantes de outras confissões que mais se parecem a seitas, pela forma desinibida, profânica e excitante como praticam os cultos e extorquem dinheiros aos fiéis com a falsa interpretação do dízimo. Deixou-se corromper neste jogo sujo “político” em que bispos e padres se disputam bens materiais e namoram o poder para lucrar estatuto especial. Em tempos era preciosa, servia de ministério protector e os eclesiásticos intervinham como anjos da guarda que em grande medida afastavam os homens da loucura. Na verdade, os interesses políticos em Angola se sobrepõem aos valores religiosos e desviaram a igreja dos seus objectivos fundamentais iniciais “a redenção do homem”.

De lembrar que os homens na generalidade dependem literalmente de 3 dimensões que codificam, seu ser: hereditariedade (subjectivo); ambiente político (determinante) e personalidade vincada (decisivo). O homem angolano se dispersa sem se vincar nas três o que o deixa muito vulnerável, mais do que nunca refém do ambiente político quão instável. Pessoalmente sou pela lógica da evolução civilizacional de Levis Strauss que coloca o Homem como um produto histórico social, sim, mas evolutivo, o que significa dizer, não prisioneiro ao seu passado, sim mutativo e senhor do seu presente. Sempre e como me referi no Prefácio que tive o ensejo de elaborar ao livro de Nvunda Tonet “Psicólogos, porquê e para quê?”, onde estabeleço a observância do respeito mútuo, convénio intangível entre a psicologia e a psicanálise, ou seja: abordar o inconsciente que sempre exige a gratificação dos nossos desejos egoístas) e a consciência moral (que restringe o impulso de agir erroneamente) e outros temas decorrentes pags: 25; 26.

Por seu turno, figuras do Ministério da Família, por nós contactadas, vêem-se naturalmente impotentes e pouco se atrevem a avançar propostas de soluções. Outros mais, pior ainda porque, tudo passou a ser relativo e a gravitar fora da órbita do normal em sociedade nivelada e regrada. Não se estabelece faixa etária, classe social, ou condicionalismos patológicos, é tudo uma embrulhada.

Tal como adverte Sigmund Freud, corroborado por Ivan Pavlov, os conselhos ou as medidas repressivas (policiais ou outras) não podem por si só curar as perturbações mentais do indivíduo _ ou convencê-lo a transformar o comportamento anormal ou compulsivo para comportamento positivo. O fundamental é que todo o indivíduo possa ter ele próprio a capacidade de controlar seus instintos, civilizando sua mente e adequando os impulsos bárbaros num autodomínio racional por excelência que sirva de corrector aos malefícios do passado e permita abrir uma nova era saudável e de felicidade a geração que o indivíduo está a formar e cujo mérito de redenção será unicamente seu.