quinta-feira, 12 de junho de 2014

Por que desabam os edifícios? Eng. António F. Venâncio





A engenharia civil, que acaba por afirmar-se nos tempos actuais, tem registado notáveis avanços no domínio das edifica­ções e imobiliária. A nova geração de edifícios como que desafiando a gravidade, o Bujhai Kalif nos Emiratos Árabes Unidos, com 163 andares e quase um quilómetro de altura é um desses casos; o Tai­peiem Taiwan, com mais de meio quilómetro de altura e projectado para suportar terrramotos e tu­fões; as torres Pretonas - «irmãs gémeas» que são um verdadeiro orgulho para Kuala Lumpur e os mais de 100 andares da Shangai Word Financial Center, na China, são obras que podem exemplificar o estado da engenharia, no actu­al contexto das ciências técnicas mais ousadas.

SEMANÁRIO ANGOLENSE
Todavia, o tema em análise, pode também dar lugar a algumas inquietações. Não exactamente pela natureza arrojada das solu­ções desafiadoras –como o prédio mais alto do mundo com os seus impressionantes 828 metros e ele­vador mais rápido da terra -, mas sim porque também os edifícios desabam pelas mais diversificadas razões. Em consequência disso, enlutaram famílias ou deixaram atrás de si muitos mutilados que ainda lamentam a sua má sorte. Só para exemplo, citemos Per­nambuco, no Brasil, onde nos úl­timos anos desabaram mais de 12 edifícios com um balanço funesto de mais de 30 mortos e inúmeros feridos. No município de Olinda, vários prédios foram interditados por risco de desabamento.
Luanda, conheceu há pou­co tempo o desabamento de um edifício pertencente à DNIC, que causou a morte a vários cidadãos. Após aquele trágico aconteci­mento foram tomadas medidas preventivas que culminaram na demolição de alguns prédios em Luanda. As autoridades criaram um corpo de especialistas envol­vendo instituições que se ocupa­ram da verificação e inventaria­ção dos edifícios em estado crítico pelo seu mau estado de conserva­ção e manutenção.
Mas por que razão desabam os edifícios?
Podem ser arroladas várias si­tuações para explicar a queda de um edifício. Contudo, as mais recorrentes são resultantes da negligência. Os edifícios, princi­palmente aqueles com estrutura de betão armado, só desabam por desatenção humana que geral­mente se arrasta por tempo pro­longado.
Recorde-se, o betão é mais re­sistente com o andar do tempo e nunca se rompe «sem prévio avi­so». Antes de um desabamento, é frequente ouvirem-se estalos no interior do prédio, e isto pode ocorrer com 15 ou muito mais dias de antecedência. As fissuras ou rachaduras nunca são espon­tâneas. Elas se manifestam lenta e decisivamente.
Antes de um desabamento, podem ser observados sinais de iminência, facilmente identificá­veis por engenheiros, e, se fossem devidamente instruídos os seus habitantes, poder-se-ão evitar de­sastres, bastando para o efeito:
- nunca derrubar paredes inte­riores sem o acompanhamento do autor do projecto (existem pare­des que fazem parte integrante da estrutura por suportarem cargas estruturais e não devem ser re­movidas);
- proibir decididamente novas construções no coroamento dos edifícios para acrescentar mais andares (as cargas adicionais colocadas abusivamente são de­pois transmitidas às fundações que não estão calculadas para o efeito, provocando perigosas so­brecargas);
- evitar a colocação de gerado­res que emitem vibrações (vibrar insistentemente um elemento de betão armado já curado é extre­mamente perigoso, pois provoca a sua fadiga prematura);
- comunicar às autoridades pe­quenos sinais estranhos no com­portamento do edifício, como, por exemplo, a dificuldade em fe­char as portas, porque estas pau­latinamente vão cada vez mais prendendo no chão e não fecham correctamente (sinal evidente da deformação do edifício);
- evitar a construção de pis­cinas nos terraços sem consenti­mento do autor do projecto (cada mil litros de água pesa uma tone­lada e num só metro quadrado de área com 1.70m de altura de água pesará 1.700 Kg, contra os cerca de 150 Kg para os quais as lages de cobertura estão preparadas a suportar).
Para sobrecarrregar um edifí­cio, é importante conhecer antes a solução adoptada para as fun­dações, e assim perceber com que cargas contou o projectista na sua decisão matemática. Aumentar anarquicamente as cargas num prédio é caminho certo para ra­chaduras e preparação lógica para a catástrofe do desabamento.
Em certas ocasiões ouvem-se justificações do tipo: «o engenhei­ro sempre concede uma margem de segurança para o edifício...» Se é certo que os engenheiros salva­guardam a segurança com a in­trodução de um coeficiente de se­gurança que geralmente ronda a margem dos 30% ou até mais, isto não significa que se pode acres­centar mais andares ao edifício. Em realidade, o coeficiente de se­gurança em betão, cuida de situa­ções como, por exemplo, falhas de betonagem, estribos desviados do lugar durante a vibração do betão, dosagens de betão incorrectas, etc. Esta margem de segurança, não é destinada aos caprichos, pelo contrário, os cálculos por ex­cesso ou a minoração das capaci­dades dos materiais, são lançados para prevenir falhas construtivas e nunca para receber novas car­gas que possam ser introduzidas a bel-prazer dos inquilinos.
Evitar a modificação dos layouts das salas de escritórios tentando adaptar à actividade comercial, sobrecarregando a es­trutura ou, ainda, abrindo roços cortando vigas e pilares para fa­zer passar canalizações de ar con­dicionado, ou tubagens diversas fragiliza o elemento, colocando-o fora de serviço perigando assim toda estrutura.
Combater a acumulação de en­tulhos nos andares vizinhos em obras; eliminar as infiltrações de água no interior do edifício, pois estas aumentam bastante o risco de desabamento;exigir que o pré­dio seja inspeccionado, de 5 em 5 anos, por engenheiros patologis­tas da construção ou especialista experiente, bem como solicitar a revisão das instalações eléctricas, de gás e sanitárias, são medidas preventivas que podem evitar de­sabamentos. Esta tarefa deve ser assumida por organizações em condomínios ou mesmo por vo­luntariosos cidadãos que preten­dam participar nesta missão de alerta e prevenção de catástrofes totalmente evitáveis nos edifícios onde moram.
A experiência mostra que vale a pena lançar, para reflexão dos moradores de edifícios urba­nos, o conceito de «Segurança predial». O termo não é mui­to conhecido, mas só se podem evitar desabamentos com uma consciência cívica de prevenção. Os cuidados a ter com as obras de engenharia, tal como se cui­da da saúde humana, passam pela compreensão do princípio segundo o qual para cada do­ença um remédio, mas que este não surja demasiado tarde. E que, quando o edifício «adoece» - por mais insignificante que seja a patologia –o seu diagnóstico e cura não devem ser adiados, sob risco de ocorrer um inesperado desabamento. E nisso, a popu­lação (organizada em comissões de moradores) é chamada a res­peitar mais os edifícios onde habitam, devendo mantê-los saudáveis para que cumpram de­vidamente a sua função de aco­lhimento e conforto.
Semanário Angolense, número 568, de 07 de Junho de 2014
Imagem: derrocada do prédio da DNIC em Luanda. http://cangue.blogspot.com/