domingo, 22 de janeiro de 2012

Entrevista com professora literária Simone Schimidt


Luanda - “ANGOLA TEM UMA LITERATURA MUITO PRÓDIGA EM MATÉRIA DE AUTORES”, Segundo à professora Simone Schimidt, do departamento de línguas e literaturas vernáculas, nos cursos de pós graduação em literaturas, da Universidade Federal de Santa Catariana, na República Federativa do Brasil.

* Cláudio Fortuna
Fonte: Semanário Angolense Club.k-net

SA - Professora sei que tem estado muito ocupada à trabalhar na recolha de alguns estudos sobre a nossa literatura, gostaríamos que nos fizesse uma apresentação dos objectivos e o que está a trabalhar em concreto?
Simone Schimidt - Estou trabalhando com as representações de gênero e raça nas literaturas africanas de língua portuguesa, particularmente nas literaturas angolana, moçambicana e caboverdiana. Meu enfoque, em primeiro lugar, incide sobre os modos de construção, nessas literaturas, de um pensamento acerca do problemático conceito de “raça”, buscando compreender de que modo os discursos e percepções sobre essa questão atuaram na formação de um pensamento anticolonial, e também como ele se manifesta hoje, em sociedades pós-coloniais que (re)elaboram constantemente suas respostas aos problemas de identidade (nacional, cultural, subjetiva, etc.). Num segundo momento, interessa-me particularmente investigar como as mulheres, como sujeitos e objetos de representação, tomaram parte desse debate sobre o que chamo de 'elaboração de um discurso sobre as questões raciais' nos países africanos. Nesse sentido, interessa-me a intersecção das categorias de gênero e raça, buscando examinar os modos como se traduziram tais categorias, em termos de experiência representada na literatura, em textos de autoria feminina e/ou em textos onde as relações de gênero e raça têm relevância na economia narrativa.
Além dessa pesquisa que venho desenvolvendo, dedico-me, no momento, a ministrar, juntamente com a supervisora de meu pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense, Professora Laura Cavalcante Padilha, um curso sobre memórias de guerras por vozes femininas, que dá continuidade a um trabalho que há tempo vem sendo desenvolvido por um grupo de pesquisadores (dentre os quais se inclui a professora Laura) sobre o motivo da guerra nas literaturas africanas. Trata-se de um momento muito especial em minha carreira, pois desfruto do privilégio de compartilhar pesquisa e docência com uma figura admirável, em todos os sentidos, como é a professora Laura Padilha. O curso que estamos ministrando aborda o tema da guerra, no âmbito do colonialismo português e de seus desdobramentos históricos, a partir do ponto de vista das mulheres. Através da leitura de textos portugueses e africanos de autoria feminina, propomos um jogo de espelhamentos entre estas diferentes representações, discutindo temas como memória, violência e trauma.

Enquanto professor(a), como é que avalia as literaturas africanas neste momento?
As literaturas africanas vêm conquistando atenção e prestígio crescentes no sistema literário de língua portuguesa. Até muito recentemente, apenas os especialistas conheciam e admiravam a produção literária de países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. Hoje essas literaturas começam a ganhar mais relevância, a se difundir para fora do círculo restrito da academia, e a conquistar um público leitor efetivo. O que mais cativa esse novo público, creio, é a vitalidade, a força, a profunda vinculação com a experiência humana que essas literaturas trazem para seus leitores. Quando apresento os autores africanos aos meus alunos no Brasil, eles costumam se emocionar, e afirmam ter encontrado uma literatura capaz de lhes falar mais de perto, estabelecendo importantes laços de identidade com sua vivência pessoal. E a isso se acrescenta um apurado trabalho de criação na linguagem, que instiga o leitor mais exigente.

Todo esse processo de ampliação do público leitor das literaturas africanas no universo da língua portuguesa produz um efeito muito positivo, que é o de dar a conhecer aos seus contemporâneos, dos mais diversos lugares, um pouco das culturas dos países africanos, o registro literário de suas vivências e de sua experiência histórica, além, é claro, de oferecer aos leitores a fruição de textos de grande qualidade estética.

Qual o lugar da literatura angolana no âmbito das literaturas produzidas nos países africanos onde se fala a língua portuguesa?
Um lugar de destaque, sem dúvida. Desde os tempos da luta de libertação (tomando este importante momento da história angolana como um marco significativo no impulso à produção literária), autores da importância de António Jacinto, Viriato da Cruz, Luandino Vieira, Pepetela, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, e tantos outros, chamaram a atenção de leitores de vários países para o drama então vivido pelos angolanos, através de uma literatura pujante e de altíssima qualidade, que em muito ultrapassava o mero relato da experiência política, embora também fossem, é evidente, relatos movidos pela vontade política de mudança e de liberdade. Mas como disse, ultrapassavam a contingência do momento vivido, e serviram como uma espécie de modelo para as demais literaturas africanas; é comum vermos, por exemplo, o relato de um autor como Mia Couto, que declara a influência que Luandino Vieira teve sobre sua escrita literária. Hoje, num outro momento histórico, encontramos em autores mais recentes uma literatura que é sem dúvida herdeira dessa tradição de bons narradores e poetas angolanos, tradição essa que remonta, como sabemos, a períodos muito anteriores à independência.

Gostaríamos, que estabelecesse uma relação entre as literaturas africanas produzidas em língua portuguesa e as outras veiculadas em francês e inglês.
É sabido que as literaturas africanas de línguas francesa e inglesa possuem uma tradição mais consolidada, se comparadas às literaturas de língua portuguesa, em termos de produção e recepção de seus textos, e possuem uma quantidade muito grande de autores, muitos deles consagrados junto ao público europeu e norte-americano. Contudo, é difícil estabelecer a comparação que me pede. Para tanto, seria preciso um domínio do corpus literário de cada uma dessas literaturas que eu, francamente, não possuo. Meu território, vamos dizer assim, tem sido o da língua portuguesa, e é dentro dele que me sinto razoavelmente confortável para emitir algumas opiniões, com base nas leituras e reflexões que tenho feito ao longo desses anos em que venho lecionando e pesquisando sobre essas literaturas.

Pode-se falar de angolanidade na literatura de Angola? Em que medida se pode falar desta matriz e o que é isto de angolanidade?
Respondo às duas questões em conjunto. Creio que a reivindicação de uma 'angolanidade' à literatura angolana esteve muito ligada ao programa político de independência nacional. Não se pode discutir esse tema sem vinculá-lo estreitamente ao contexto histórico pós-independência, quando a construção de uma identidade nacional mobilizava todos os sujeitos da nação, especialmente os escritores, que haviam tomado parte ativa na luta anticolonial e ocupavam posições de destaque no novo governo. Hoje, contudo, percebo um certo anacronismo nesta discussão, já que o momento histórico é outro. Vivemos, em termos gerais, um momento de blocos internacionais, de redes transnacionais, onde se indagam identidades, pertencimentos e os muitos deslocamentos que a conjuntura globalizada nos impõe. Além disso, considero que a ênfase na afirmação de uma identidade nacional pode ser bastante nefasta para uma literatura; há muito mais para se compreender nas admiráveis experiências humanas registradas na literatura angolana do que se elas são “autenticamente” angolanas ou não. Embora a ideia de nação exerça ainda um forte apelo sobre todos nós, e em grande parte de nossas vidas precisamos nos sentir 'pertencendo' a um lugar, a uma comunidade, a uma nação, creio que, em alguns momentos da cultura de um país, o nacionalismo pode ser bastante problemático. O grande pensador palestino Edward Said identificava, no imperialismo europeu e nos nacionalismos do então chamado 'terceiro mundo', duas forças conservadoras que se alimentavam reciprocamente.

Quais são os escritores angolanos com projeção internacional e por quê?
Há basicamente dois tipos de reconhecimento internacional. O primeiro deles é de natureza acadêmica, que atua na formação de leitores, na consolidação de uma crítica literária, na definição do que seria, digamos, o corpus de autores angolanos a conhecer, ler e estudar. No âmbito deste tipo de reconhecimento, encontram-se escritores angolanos que têm sido fortemente prestigiados por círculos cada vez maiores de leitores, como é o caso, por exemplo, de Luandino Vieira, Pepetela, Manuel Rui, Boaventura Cardoso, Ana Paula Tavares, Arlindo Barbeitos, Ruy Duarte de Carvalho. Outra modalidade de projeção internacional se deve mais à atuação do mercado editorial, com suas estratégias de grande alcance midiático, que ampliam o público leitor, alargando suas fronteiras. É o caso de autores mais recentes, que têm se beneficiado grandemente dessas formas de contato com o público, movendo-se com desenvoltura na mídia e em outras formas de diálogo direto com os leitores, tais como debates, eventos literários, espaço virtual, etc. São autores que vêm conquistando um público leitor mais amplo, e não necessariamente especializado. Dentre esses autores, eu destacaria, por exemplo, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, João Melo. É importante enfatizar que não há nesta divisão 'didática' que traço, nenhum julgamento de valor: o fato de um autor ser mais divulgado pelo mercado editorial, ou de outro ser mais restrito ao ambiente acadêmico, não implica maior ou menor qualidade do trabalho artístico de um ou de outro. Não sou, absolutamente, uma purista neste aspecto. Acredito firmemente que há excelentes textos literários com boa circulação editorial e divulgação na mídia, assim como pode ocorrer a 'canonização', via academia e a crítica literária especializada, de textos e autores nem sempre relevantes. Cabe ainda destacar que a divisão que apontei sinaliza apenas uma tendência, mas não se trata de uma divisão estanque. Na verdade, pelo menos no Brasil, hoje, se verifica uma forte tendência a 'misturar' esses dois lados da divulgação dos autores; felizmente (pois quem ganha com isso sem dúvida é o leitor), os escritores consagrados pela academia circulam cada vez mais no meio editorial e na mídia, assim como os autores que já surgiram sob os auspícios das estratégias mercadológicas de divulgação de suas obras, têm sido lidos de forma crescente pela academia, o que considero extremamente saudável do ponto de vista cultural.

Alguns estudiosos das literaturas africanas, dizem que a literatura angolana ocupa um espaço privilegiado no conjunto das outras literaturas dos PALOP, concorda?
Sim, acredito que a literatura angolana ocupa um lugar de bastante destaque dentre as literaturas de língua portuguesa. Isso se deve, ao meu ver, a uma tradição literária que já se pode considerar bastante implantada em Angola, e também a uma quantidade expressiva de bons autores, que circulam internacionalmente. Eu não ousaria fazer comparações do tipo “este país tem muito maior destaque em sua literatura do que aquele”, mas acredito, sim, no caráter referencial que a literatura angolana assume contemporaneamente perante os demais países de língua portuguesa.

Em seu entender, como é que é possível ocupar esse lugar, quando há uma critica literária angolana bastante incipiente?
Trata-se de uma literatura muito pródiga em autores, e isso faz com que dialogue vivamente com a crítica de outros países, como é o caso do Brasil. As redes de contato e as constantes trocas culturais que se dão entre os escritores angolanos e os críticos e estudiosos brasileiros são, como se sabe, intensas e muito ricas. Além disso, a crítica literária voltada para as literaturas africanas de língua portuguesa não tem cessado de crescer em muitos outros países, o que permite que o diálogo da literatura angolana com seus estudiosos tenha um caráter transnacional muito interessante.

Para terminar, gostaríamos de ouvir que conselho daria aos estudantes angolanos que pretendem aderir à crítica e aos estudos das literaturas africanas?
Que se dediquem a ler seus autores com atenção e respeito por seu admirável trabalho. Que desfrutem do privilégio de possuírem uma literatura de grande qualidade, mantendo, contudo, um diálogo permanente com aquilo que está sendo produzido e discutido fora de seu país. Este parece ser um bom conselho: que não percam de vista os valores e a riqueza daquilo que pertence ao seu país, à sua cultura, mas que também não se restrinjam a isso, ou seja, que não se deixem jamais enclausurar dentro de sua própria experiência cultural e histórica.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O que foi a revolta das cem flores? como que aconteceu e por quê?


Introdução
O movimento das Cem Flores (minfang yundong) refere-se ao período do início de 1956 até meado de 1957, quando o Partido Comunista Chinês (PCC) permitiu a liberdade de expressão, deixando “as Cem Flores desabrocharem e as Cem Escolas rivalizarem”.
O movimento é considerado como um período chave na história da República Popular. No início de 1956, para consolidar as conquistas socialistas, Mao iniciou um período de “relaxamento” para os intelectuais. E em fevereiro de 1956, no XX Congresso do PCUS, Khrushchev denunciou os atos tirânicos de Stalin, o que obrigou os dirigentes comunistas a reconhecerem os erros do stalinismo, alimentando assim, a esperança dos intelectuais de que o regime retificaria o seu “estilo de trabalho” e reformaria o sistema socialista. Sem dúvida, as crises políticas e ideológicas do bloco soviético, sobretudo as revoltas populares na Polônia e Hungria serviram como elemento catalizador para as manifestações intelectuais na China.

Joao de Deus. http://br.answers.yahoo.com/activity?show=ixwHlSl8aa

O Partido resolveu lançar, no fim de abril de 1957, a Campanha de Retificação (zhengfeng yundong), convidando os intelectuais a criticarem livremente o governo. Os manifestantes, sobretudo, os estudantes não se limitaram aos discursos oficiais, mobilizaram-se para reivindicar a “liberdade” e a “democracia”, desafiando assim, os projetos autoritários e paternalistas do Partido. Em conseqüência, a Campanha de Retificação transformou-se numa Campanha Anti-direitista (fanyou yundong)— uma grande repressão aos manifestantes. O efêmero desabrochar das Cem Flores deixou marcas profundas na futura relação Estado-intelectual.

As críticas dos intelectuais e dos democratas foram: a dominação e o comando arbitrário do partido; a falta de proteção aos direitos individuais; a opressão da polícia política; as “três pragas” (o burocratismo, o dogmatismo e o sectarismo); a megalomania; a busca do sucesso rápido; o desprezo pela história e pela tradição; o culto à personalidade; a imitação cega da União Soviética; a falta da democracia; a falta da liberdade de expressão; a proibição das ciências sociais; a censura; o servilismo.
As reivindicações foram: o Estado de direito; a liberdade de informação; o equilíbrio do poder; o multipartidarismo; a indenização para os empresários; a autonomia dos intelectuais; a liberação dos cursos “burgueses” (como a sociologia, a ciência política, o direito, antropologia, entre outros); a tolerância ideológica; a liberdade de expressão e a emancipação do indivíduo.
As principais reivindicações dos estudantes também foram a democracia e Estado de direito. Os alunos argumentavam que o espírito do socialismo era igualdade, democracia e liberdade, sem as quais não haveria socialismo; reivindicavam a eleição direta; defendiam o sistema socialista porém queriam melhorar a vida política e cultural do país; Elogiavam a decisão do presidente Mao por lançar a Campanha de Retificação, como esforço para evitar que o “fogo húngaro” incendiasse a China; criticavam o culto à personalidade e o “obscurantismo”; combatiam a nova classe, isto é, uma camada dos quadros burocratas que abusava do poder e agia contra os verdadeiros princípios do socialismo; lutavam pela emancipação do indivíduo e pela liberdade do pensamento.
Em geral, as críticas e as reivindicações ainda são pertinentes nos dias de hoje, na media em que a questão do socialismo, do Estado de direito e da democracia ainda desafia o governo chinês.

Conclusão
Como um movimento social, as Cem Flores foram marcadas pela precocidade. Em primeiro lugar, o regime comunista ainda era jovem e as vitorias heróicas da revolução e da Guerra da Coréia proporcionaram grande prestígio ao Partido Comunista. Apesar das crises internacionais e das dificuldades econômicas internas, na época, o projeto socialista ainda não tinha perdido seu apelo, e a população depositava grandes esperanças nos comunistas.
Em segundo lugar, embora numerosos, os protestos eram fenômenos essencialmente do meio intelectual. Os manifestantes, sobretudo, estudantes, professores, democratas, profissionais, funcionários, até alguns quadros do Partido, apontaram os problemas do regime e reivindicaram a democracia e a emancipação do indivíduo. Mas esses conceitos abstratos tinham pouca relevância para a grande massa iletrada. A maioria da população não participou das manifestações, e os protestos democráticos não conquistaram as simpatias dos operários e camponeses.
O próprio Partido também pagou um alto preço por ter ignorado as advertências precursoras. A irônica deusa da história freqüentemente coloca os opressores no lugar dos reprimidos. Muitos dirigentes do Partido, por sua vez, seriam queimados mais tarde pelo fogo da Revolução Cultural (1966-1969). Através dessas vicissitudes, a “velha guarda” finalmente aprendeu as lições, e começou a corrigir os erros e a reformar o sistema.
Podemos descrever o relacionamento entre o partido e os intelectuais como um ciclo da “repressão e relaxamento”. Mesmo cada ciclo s
Fonte(s):
www.rj.anpuh.org/
Imagem: Ilustração, retirada de um livro deensino primário, mostrando três membros da Guarda Vermelha. Wikipedia.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Lin Zhao


Lin Zhao ( Simplificado / Chinês Tradicional :林昭), nascida como Peng Lingzhao ( Simplificado / Chinês Tradicional :彭令昭) em Suzhou , 16 de dezembro de 1932 morreu em 29 de abril de 1968.
Foi uma francodissidentes durante o Movimento das Cem Flores, de 1957. Durante esse tempo, os intelectuais, como se foram encorajados a criticar o Partido Comunista da China , mas acabaram por ser punidos por isso.
Em outubro de 1960, Lin Zhao foi presa pela primeira vez em Suzhou por ser uma contra-revolucionária. Ela foi mais tarde condenada a 20 anos de prisão. Enquanto estava na prisão, ela já famosa escreveu centenas de páginas de comentários críticos sobre Mao Zedong usando seu próprio sangue. Ela foi executada em 1968.
A vida de Lin Zhao foi trazida à luz pelo documentarista Hu Jie, cujo documentário纪录片寻找林昭的灵魂(In Search Of Soul Lin Zhao) ganhou inúmeros prêmios e também apareceu em vários capítulos de Philip Pan 's livro de 2008, Out of Shadow Mao .
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Quem é Quem: Aline Frazão, cantora angolana


Lisboa - Aline Frazão nasceu e cresceu em Luanda (Angola) e vive actualmente em Santiago de Compostela, na Galiza. Pisou o palco pela primeira vez com 9 anos e desde essa altura teve a oportunidade de cantar vários estilos de música como fado, MPB, Jazz e música tradicional de Angola e Cabo-Verde.

Fonte: Facebook Club.k-net
Com 15 anos começou a escrever as primeiras canções, tocando a guitarra com influências que vinham do Brasil, em especial da bossa nova. Entre 2006 e 2009 conjugou a universidade em Lisboa com pequenas colaborações em diversos projectos de música e teatro. Na sua rota de viagem seguiu-se Barcelona, onde nasce o projecto “A minha embala”, cujo único álbum seria lançado dois anos mais tarde, em Junho de 2011. Mas foi em Madrid, cidade onde morou durante cerca de dois anos, que começou a fazer concertos acústicos a solo em bares e salas, interpretando versões de clássicos da música angolana, cabo-verdiana e brasileira, e também temas autorais.

Procurando unir duas paixões - viajar e cantar - Aline actuou em diversas cidades como Paris, Dublin, Lisboa, Luanda, Bruxelas, Londres e Buenos Aires. Depois de participar na edição de 2010 do Cantos na Maré, festival galego dedicado à lusofonia, a angolana decidiu mudar-se desta vez para a Santiago de Compostela e dedicar-se exclusivamente à música. Aí formou a banda que a acompanha actualmente: o contrabaixista cubano Jose Manuel Díaz e o percussionista galego Carlos Freire. Em Setembro de 2011, entrou em estúdio para gravar o seu primeiro disco.


“Clave Bantu” é uma produção independente que reúne um selecção de onze temas originais compostos pela angolana durante esses últimos quatro anos de viagens. Inclui ainda duas parcerias inéditas com dois escritores angolanos, José Eduardo Agualusa e Ondjaki. O disco, com arranjos de Aline e Jose Manuel Díaz, conta ainda com as participações especiais do multi-instrumentista brasileiro Sérgio Tannus e do trombonista português Rúben da Luz.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Ilha do Conde de Monte Cristo


Exército de ratos invade a ilha de Montecristo, na Itália

Ilha, que tem apenas 10 km², é uma área protegida e considerada uma reserva natural biogenética

Um exército de ratos invadiu a ilha italiana de Montecristo, no arquipélago toscano, num ataque que nem mesmo o escritor francês Alexandre Dumas poderia ter imaginado na sua famosa obra "O conde de Monte Cristo", informou nesta sexta-feira o jornal Corriere della Sera. A ilha, que tem apenas 10 km², é uma área protegida e considerada uma reserva natural biogenética.

Os roedores chegaram ao local a bordo de navios e se reproduziram de maneira muito rápida. Segundo o jornal, existe um rato por metro quadrado na ilha que inspirou Dumas, o que pode ameaçar o ecossistema do local. Para solucionar o problema, as autoridades usarão um avião para jogar 27 toneladas de alimentos envenenados em Montecristo.

O método escolhido foi duramente criticado por associações a favor dos animais e pelo campeão de pesca submarina Carlo Gasparri, quem escreveu uma carta à Promotoria da capital da Toscana, Florença, na qual afirma que o veneno utilizado é contraproducente. "O produto é altamente tóxico para os organismos marinhos e pode provocar efeitos negativos no ambiente a longo prazo. Além disso, é uma substância que demora muito para desaparecer do ambiente", afirmou Gasparri.

O praticante de pesca submarina também disse que o veneno é um risco para os milhares de turistas que desembarcam em Montecristo no verão para uma visita guiada. Ele propõe que seja usado um veneno mais leve. Na ilha, onde vive um vigia com sua família, há uma vila do século XVIII, as ruínas de um antigo mosteiro e a gruta onde viveu no século V o Bispo de Palermo, São Maximiliano.

Terra
WSCOM Online

http://www.wscom.com.br/noticia/internacional/RATOS+INVADEM+ILHA+DE+MONTECRISTO-119152

sábado, 31 de dezembro de 2011

Lançado concurso literário TDM


Maputo (Canalmoz) - Foi lançado ontem, em Maputo, o concurso literário TDM 2012, um evento cultural que tem por objectivo incentivar a produção literária e estimular o gosto pela leitura.
Em conferência de imprensa para anunciar o concurso, o administrador delegado da TDM, Zainadin Dalsuco, disse que “para o ano de 2012 teremos três modalidades, nomeadamente Romance, Conto e Poesia, e a grande novidade é que até à última edição, o Romance era premiado com o valor de 100 mil meticais e as outras duas modalidades com 75 mil meticais, pelo que na presente edição o valor do Romance passará para 150 mil meticais e as outras duas para 100 mil meticais cada”, afirmou Zainadin Dalsuco. Acrescentaria que “adicionalmente aos prémios monetários, serão oferecidos aos vencedores um computador portátil a cada e ainda um pacote de banda larga, válido por três meses”.
Para o secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), Jorge Oliveira, a bienal literária “já tem o seu espaço e em todas as edições a nossa expectativa é de que mais autores adiram e que hajam bons e justos vencedores, pois não estamos perante bons prémios, e que tem ajudado a encontrar bons autores – que é o objectivo deste concurso”, concluiu Jorge Oliveira.
De referir que as obras premiadas serão publicadas, em livro, pela TDM que deterá, apenas para as primeiras edições, os direitos autorais.
As publicações não deverão ultrapassar os 1.000 exemplares por cada obra premiada, sendo que 200 exemplares serão destinados ao autor, 100 à empresa TDM, enquanto os restantes 700 exemplares serão oferecidos a diferentes instituições de ensino e bibliotecas previamente seleccionadas em todas as 11 províncias do país.
(FDS)
Imagem: ... prémios do Concurso Literário TDM-2010, sendo um na modalidade de conto, ...
noticias.sapo.mz

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

China: dissidente Chen Wei condenado a 9 anos de prisão. Escritor apelou à «revolução de jasmim»


Um tribunal do sudoeste da China condenou o dissidente e escritor Chen Wei a nove anos de prisão por «incitação à subversão do poder de Estado», informou a defesa.

Chen foi interpelado pela polícia em Fevereiro, no contexto do reforço da repressão contra os opositores ao regime comunista, na sequência de uma série de apelos à «revolução de jasmim», inspirada nos movimentos pró-democracia dos países árabes.

«Ele é inocente. Criticou o Partido [Comunista Chinês], o que nenhuma lei proíbe», declarou Zheng Jianwei, um dos advogados de defesa do dissidente, citado pela AFP.
http://www.tvi24.iol.pt/internacional/china-chen-wei-dissidente-revolucao-de-jasmim-tvi24/1311295-4073.html
Imagem: Em 2008, Liu aparece em frente ao túmulo do dissidente Bao Zunxin, ..
www1.folha.uol.com.br

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Nancy Vieira já está em Maputo


Maputo (Canalmoz) - A cantora cabo-verdiana Nancy Vieira já está em Maputo, para um concerto único a ter lugar amanhã no Centro Cultural da UEM. Trata-se de um show enquadrado no programa Verão Amarelo da mcel, numa produção da Big Brother Entretenimento.
Em conferência de imprensa, que teve lugar na manhã de ontem, numa das estâncias turísticas da capital, Nancy introduziu-se ao público moçambicano, tendo referido que é primeira vez que vem a Moçambique e sentiu hospitalidade e calor humano que caracteriza o povo moçambicano, ou simplesmente “morabeza”, como ela fez questão de nos caracterizar.
Na noite de amanhã, em sessão de gala no Centro Cultural da UEM, Nancy Vieira disse que vai lançar o seu mais recente álbum, “No Amá”, expressão que em língua crioula e literalmente traduzido para português é o mesmo que “amemo-nos”.
Esta jovem cantora de dócil voz vai-se fazer acompanhar por quatro instrumentistas, com destaque para o moçambicano residente em Portugal, Costa Neto, que também já está no solo pátrio.
“O meu disco “No Amá” é composto por doze temas, todos em crioulo, todos especiais para mim, porque fala de amor e todos resultam de uma selecção que não foi fácil de fazer”, disse Nancy para depois acrescentar que “o tema “No Amá” é de Teófilo Chantre e é um apelo bonito. “Esta música fala sobre um romance, mas aproveitei para deixar um apelo ao amor no sentido mais abrangente, a todas as formas de amar”, concluiu.
Zófimo Muiuane, em representação da mcel, disse que “a operadora que põe os 128 distritos a comunicar não podia ficar alheia a esta aparição, porque é filosofia da mcel apoiar a cultura nacional e internacional”. (FDS)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Cabo Verde de luto. Funeral de Cesária Évora é amanhã


A diva do amor cabo-verdiana Cesária Évora morreu sábado aos 70 anos na cidade de Mindelo devido a complicações respiratórias
Pretória (Canalmoz) – A cantora cabo-verdiana Cesária Évora será sepultada amanhã no Mindelo, sua terra natal. A Diva dos pés descalços vai continuar em câmara fria até às 07h00 do dia do funeral. O corpo será transladado para a residência familiar, onde permanecerá até ao meio dia.
O corpo será velado no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Vicente. À tarde, pelas 16h00 o cortejo fúnebre parte para o cemitério.
O governo de Cabo Verde decretou dois dias de luto nacional. O dia das cerimónias fúnebres foi decretado tolerância de ponto em Mindelo.
A bandeira nacional está a meia haste em todo território cabo-verdiano, em embaixadas, consulados e outras representações de Cabo Verde no exterior.
Cesária faleceu sábado, com 70 anos, na cidade de Mindelo. Sofria de complicações respiratórias.
De acordo com a “Rádio Nacional de Cabo Verde”, citada pela VOA, a cantora sentiu-se mal por volta das 7h da manhã quando foi levada de urgência para o Hospital Batista de Sousa vindo a falecer pouco depois das 11h.
Cesária Évora nasceu a 27 de Agosto de 1941. Tem 24 discos editados, entre originais ao vivo e em parceria com outros artistas de vários países.
Cesária Évora permanece como o maior expoente da morna. Iniciou a sua carreira mundial no início dos anos 90. Era a voz de Cabo Verde. Encantou as plateias através de todo o planeta. Actuou nos palcos mais conceituados do planeta.
A 23 de Setembro deste ano, em Paris, anunciou que ia deixar os palcos para sempre por causa da sua saúde.
O seu último espectáculo em França foi em Abril no “Grand Rex”. Depois cancelou todos os concertos.
Foi sujeita a várias intervenções cirúrgicas. Em Maio de 2010, obrigaram-na a abandonar os palcos.
Cesária Évora tornou-se conhecida do grande público em 1992, com o lançamento do seu terceiro álbum, “Miss Perfumado”, e dois concertos num Teatro de Paris.
Apesar de tardio, o sucesso internacional de Cesária, cuja carreira começou há 50 anos, jamais parou. A sua célebre canção “Sodade” assegurou a sua notoriedade.
Em 1999, Portugal, agraciou Cesária Évora com a medalha da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Em 2009, o presidente francês Jacques Chirac distinguiu-a com a medalha da Legião de Honra de França.
O galardão “Les Victoires de la Musique” para melhor álbum foi-lhe atribuído por duas vezes: em 2000 pelo álbum “Café Atlântico” e em 2004 pelo álbum “Voz d’Amor”.
Em 2003 Cesária Évora foi premiada com um “Grammy” atribuido ao disco “Voz d’Amor”.
Em Dezembro de 2010, no Rio de Janeiro, o Presidente Lula da Silva condecorou Cesária Évora com a medalha de Ordem do Mérito Cultural 2010.
Cesária Évora foi distinguida também com o prémio carreira na gala do “Cabo Verde Music Awards 2011”. (Redacção/ VOA)

Noite de jazz com Judith Siphuma



Maputo (Canalmoz) - Os munícipes da cidade da Matola e não só degustaram, na sexta-feira última, uma noite de tertúlia ao sabor do jazz music & soul, servido por Judith Sephuma, acompanhada por Vusi Khumalo, num concerto inserido no programa Verão Amarelo da mcel, num cocktail musical no Parque dos Poetas, na cidade da Matola, onde o denominador comum era o jazz music.
Os espectadores tiveram ainda a ocasião de acompanhar o malabarismo musical, provindo de Valter Mabas, jovem guitarrista de créditos firmados, que abrilhantou o show em secção de abertura.
Mabas espalhou o seu talento aos quatro cantos do parque, conquistando simpatia do público amante do Jazz music que o acarinhou com aplausos.
Foi uma noite de glamour em que a chuva parou e abriu espaço para os gurus da música internacional se fizessem ao palco para apetrechar a festa.
O ponto mais alto da noite foi quando o apresentador André Manhiça convidou para o palco a jovem Judith Sephuma, para em grande estilo emprestar a sua voz a reboque de seus melhores êxitos!
Judith Sephuma fez-se acompanhar por um naipe de artistas de luxo que constituem a sua banda, onde sucessos como “Le Tshephile Mang”, entre outros, foram o denominador comum naquela noite.
Entre vários trabalhos desta cantora, Judith brindou o público com temas do CD “Change Is Here” que surge no seguimento do seu álbum de estreia, “A Cry, a Smile, and a Dance”, o mesmo que: Um Grito, Um Sorriso, Uma Dança, exaltado com euforia e vibração.
Esta cantora apresentou temas dos discos anteriores, já conhecidos pela plateia, que fez questão de se juntar a ela em coros e num passo de dança.
Com uma voz esplendorosa, Judith foi passeando a sua classe, cantando o smooth jazz, passando pelo soul music e r&b, misturados com alguns ritmos sul-africanos.(FDS/ Redacção)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Morreu Cesária Évora. A cantora cabo-verdiana Cesária Évora morreu hoje. A "diva dos pés descalços" tinha 70 anos



A cantora cabo-verdiana Cesária Évora morreu hoje, aos 70 anos, no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, Cabo Verde, disse à Lusa fonte hospitalar.
A "diva dos pés descalços", como a imprensa se referiu muitas fez a Cesária Évora, nasceu há 70 anos na cidade do Mindelo, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente no seio de uma família de músicos.
Numa das muitas entrevistas que deu, certa vez, afirmou: "tudo à minha volta era música". O pai, Justiniano da Cruz, tocava cavaquinho, violão e violino, instrumentos que se tornaram característicos daquelas ilhas, o irmão, Lela, saxofone, e entre os amigos contava-se o mais emblemático compositor cabo-verdiano, B. Leza.
Nome mais internacional de Cabo Verde

"Cize" como era carinhosamente tratada pelos amigos, tornou-se no nome mais internacional de Cabo Verde, país de onde o mundo conhecia já grandes músicos como Luís Moraes e Bana.
Desde cedo que Cesária Évora se lembrava de cantar, como referiu numa das muitas entrevistas que deu: "Cantava ao ar livre nas praças da cidade para afastar coisas tristes". Aos 16 anos canta nos bares das cidade e nos hotéis começando a ganhar uma legião de fãs que a aclamavam já como
"rainha da morna".
A independência da nação africana, em 1975, coincide com o início de um "período negro" da cantora que deixa de cantar, tem problemas com o alcoolismo e trabalha noutra área.
Em 1985 a convite de Bana, proprietário de um restaurante e uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, Cize vem a Lisboa e grava um disco que passou despercebido à crítica, seguindo para Paris onde é "descoberta" e daqui, como aconteceu com outros cantores, partiu para os palcos do mundo.
Em 1988 grava "La diva aux pied nus", álbum aclamado pela crítica. Nesta fase da sua carreira tem um papel fundamental, que se manteve até ao final, o empresário francês José da Silva.
Grammy para Melhor Álbum
Em 1992 Cesária Évora gravou "Miss Perfumado" e aos 47 anos torna-se uma "estrela" internacional no mundo da world music, fazendo parcerias com importantes músicos e pisando os mais prestigiados palcos.
Uma carreira internacional que passou várias vezes por palcos portugueses cujas salas esgotavam para ouvir, entre outros êxitos, "Sôdade".
Em 2004 recebeu um Grammy para o Melhor Álbum, de world music contemporânea pelo disco "Voz d'Amor". "Cise" não pára e continua em sucessivas digressões, regressando de quando em vez à sua terra natal.
"Eu preciso de quando vez da minha da terra, do povo que sou e desde marulhar das ondas", confidenciou certa vez à Lusa.
A cantora começa a enfrentar vários problemas de saúde e alguns "sustos" como afirmava, mas regressava sempre aos palcos e aos estúdios com alegria.
Em 2009 o Presidente francês Nicolas Sarkozy entrega-lhe a medalha da Legião de Honra, depois de uma intervenção cirúrgico que a levou a temer pela vida.
Carreira termina por conselho médico
Cesária voltou aos estúdios e anunciou não só uma digressão como a gravação de um novo que deveria sair no próximo ano.
No dia 24 de setembro numa entrevista ao Le Monde a cantora afirma que tem de terminar a carreira por conselho médico. A sua promotora, Tumbao, emite um comunicado confirmando as declarações da "diva dos pés descalços", e dando conta da tristeza que sentia por ter de o fazer. Nesse mesmo dia ao princípio da tarde a cantora é internada no hospital parisiense de Pitie-Salpetriere, por ter sofrido "mais um acidente vascular cerebral (AVC)". A Tumbao emitiu nesse mesmo dia um comunicado dando conta que o diagnóstico clínico da mais internacional artista cabo-verdiana era "reservado".
Hoje Cize, aos 70 anos, completados no passado 27 de agosto, e após uma curta visita a Lisboa onde pediu para passear a pé pelo bairro de São Bento.
Ao longo da carreira, além das inúmeras digressões e atuações em televisões, gravou 24 álbuns, um DVD, "Live in Paris", e registou dezenas de colaborações em discos.

Ler mais: http://aeiou.expresso.pt/morreu-cesaria-evora=f694993#ixzz1gnx7uqrN

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Filipe Mukenga já está em Maputo


Maputo (Canalmoz) - O músico e compositor angolano, Filipe Mukenga, já está em Maputo para um concerto enquadrado no programa Verão Amarelo, da mcel, a ter lugar hoje, sexta-feira, na capital moçambicana.
Considerado precursor da nova música de Angola (NMA), Filipe Mukenga trocou um dedo de prosa com jornalistas, numa conferência de Imprensa que teve lugar no edifício-sede da mcel, onde falou sobre o seu concerto.
“Para o show desta sexta-feira, vou fazer uma incursão pelos meus quatro álbuns, portanto aquilo que me identifica – o NMA – que é uma música aberta ao mundo e caracterizada por uma grande riqueza de conteúdo e harmonia”, disse Filipe Mukenga, quando convidado a falar da sua performance neste show a ter lugar no Centro Cultural Universitário.
Mais adiante, o autor de “Mimbu Iami” disse que “irei buscar no jazz as dissonâncias, os acordes invertidos e pouco comuns na música africana com efeito na arte Mukenga para agradar o público que se fará presente no concerto”.
Para Sérgio Inglês, chefe de Marketing da mcel, o apoio a este concerto – produzido pela Destinos – é mais uma contribuição desta empresa de telefonia móvel na promoção da cultura moçambicana e não só. “Sempre apoiamos a cultura nacional e internacional e este nosso gesto tem sido extensivo ao desporto, pelo que reiteramos o nosso compromisso em galvanizar e impulsionar as artes no nosso País”, disse Sérgio Inglês. (Redacção)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ruínas de Mbanza Kongo podem ser apresentadas à UNESCO


Candidatura a património da humanidade é sustentáve
A coordenadora da candidatura das ruínas de Mbanza Kongo, Angola, a património da humanidade afirmou hoje que o Governo tem até Julho de 2012 para apresentar o dossiê à UNESCO e considerou que já existem indícios para sustentar a inscrição.

Segundo a arqueóloga Sónia da Silva António, coordenadora do projecto «Mbanza Kongo, cidade a desenterrar para preservar», do Ministério da Cultura angolano, decorrem actualmente os trabalhos de escavação na área classificada daquela cidade para procurar as provas arqueológicas de que a antiga capital do reino do Kongo tem um valor universal excepcional.
Formado no século XIII, o reino do Kongo tinha seis províncias e ocupava parte dos atuais territórios de República Democrática do Congo (RDC), Congo Brazzaville, Gabão e Angola. Mbanza Kongo ainda hoje preserva as ruínas daquela que pode ter sido a primeira Sé Catedral erguida ao sul do Saara, denominada Kulumbimbi e construída no século XVI, testemunha da presença portuguesa na região.

Sónia António, que desde segunda-feira se encontra em Mbanza Kongo acompanhada de dois arqueólogos da Universidade de Yaoundé, Camarões, para mais uma missão científica, reconheceu que ainda há muito por pesquisar, mas que existem já indícios que podem sustentar a inscrição das ruínas na agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Prospecção geofísica

Admitindo que os trabalhos arqueológicos possam levar anos, Sónia António afirmou que enquanto decorrem as escavações se podem ir canalizando as provas já obtidas ao comité do património mundial.
Entretanto, para acelerar os trabalhos, será necessária a utilização do método de prospecção geofísica e não pedestre, que está ser empregue até agora: “Vamos contar dentro de sete dias com uma empresa especializada em prospecção geofísica para identificar com radares onde estão situadas as estruturas soterradas da cidade de Mbanza Kongo”.

Segundo a especialista, a técnica permite identificar com rapidez e maior precisão as estruturas existentes debaixo da terra. Segundo fontes bibliográficas de que dispõe a equipa, a cidade tinha 12 igrejas, conventos, escolas, palácios e residências que deverão ser facilmente identificados com o sistema de radares.

Os 50 hectares da área de protecção das ruínas deverão sendo progressivamente alargados em consequência das escavações arqueológicas, já que até agora se desconhece até onde se estende a parte histórica da cidade.

Sónia António manifestou-se preocupada com a falta de quadros especializados, já que em Angola há apenas dois arqueólogos, o que tem levado a equipa a recorrer a especialistas de universidades europeias, africanas e americanas.

Caso Mbanza Kongo venha a ser declarada “património mundial”, a cidade vai contar com um centro de pesquisa e interpretação sobre o Reino do Kongo. O projecto foi lançado em 2007 e visa a preservação do património e, em última instância, o reconhecimento de Mbanza Kongo como património mundial. Estas ruínas são um dos onze sítios inseridos na lista indicativa de bens angolanos a património mundial da UNESCO.
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=52112&op=all

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Mito Solongo de Diogo Cão e o seu contexto. Breve história antiga do Soyo e do Kongo


"Breve história mítica antiga do Soyo e do Kongo !..."

Debatem-se ainda hoje várias opiniões (às vezes opções...) sobre as origens remotas e a "fundação" do Reino do Kongo, sem se fazer sequer muita atenção à extensão ou validade dos conceitos "fundação" e "Reino" e introduzindo no respectivo estudo terminologias discutíveis que, infelizmente, vamos uma vez mais ser obrigados a utilizar por falta de melhor solução.

Entretanto, e independentemente dessa indecisão terminológica, não parece ainda possível descrever o processo de formação destes Estados da África Central com um mínimo de precisão.

Correm vários mitos que a ele se referem, e sobre esses mitos chocam-se várias leituras. O panorama dos resultados é vasto, é rico, e é vago.

A documentação que nos chega não se refere a estas épocas senão como reflexo duma tradição oral muito posterior e tem-se visto mais do que uma vez, os velhos e outros informantes de trabalhos de campo recitarem o que vem escrito nos livros que estiveram ao seu alcance.

Por vezes os relatores dessa documentação não tinham discernimento suficiente para entrar em subtilezas semânticas dos conceitos que usavam e que eram os que definiam a sua própria sociedade, como os conceitos de "pai", "tio", "sobrinho", "filho", etc.

O termo "Mani" muito usado nessa documentação para distinguir os mais altos aristocratas, tais como o "Mani Sonho", o "Mani Kongo", o "Mani Bata", etc. que se saiba, nunca foi confirmado no terreno por pesquisadores mais modernos e logo mais completos
.
Tudo parece indicar que se trate de uma corruptela de "mwana" significando, "filho" no sentido hierárquico e não genealógico.

Para António Gonçalves, o acto de conceder uma terra ou um território a um visitante ou a qualquer pessoa, é um acto de paternidade.

O "Mani Soyo" da época de Diogo Cão falava do rei do Kongo como "seu sobrinho", não porque fosse necessariamente seu "tio" mas sim porque eram ambos do mesmo clã e ele, o do Soyo, era o mais-velho do clã, o Nkunkulu, título que sempre preferiram e respeitaram os chefes solongo originários de Mbanza Kongo.

Mas apesar destas dificuldades vale a pena passar uma rápida vista de olhos pela mitologia destes povos quanto mais não seja para ganhar outra e tremenda dúvida:

Quem eram afinal os basolongo?

Os basolongo são eminentemente patrilineares.

Os muxikongo (de Mbanza Kongo) e todos os outros bakongo que se conhecem, identificam-se pela filiação matrilinear. Donde vem essa diferença tão significativa? Corresponde às diferenças entre dois povos de origens diversas que se encontraram e aliaram de várias maneiras, ou à diferenciação operada durante um processo comum?

Os basolongo falam um dialecto, o kisolongo, bem distinto do kikongo clássico de Mbanza Kongo. Porquê?

Isso é mais uma vez o resultado do encontro de dois povos diferentes que se aproximaram ou de um só povo que se diferencia em partes?
O Mito de Lukeni

Há portanto mais do que um mito referindo-se ao processo de formação do Estado do Kongo, dito geralmente Reino do Kongo.

Todos eles têm a mesma linha narrativa, isto é, falam da primeira migração de um grupo de linhagens associadas, simbolizadas pelo nome de um herói mítico, um "herói fundador" como Ntinu Wene, como Nimi a Lukeni, falam também de um contexto centro-africano onde se insere o itinerário percorrido, este último fixando um território que virá a consagrar fronteiras míticas do referido Estado.

Para o efeito que se pretende neste breve estudo, todos esses complicados enredos não são muito relevantes.

Mas não poderíamos compreender o "mito de Diogo Cão", o navegador português que atingiu as praias do Soyo pela primeira vez, sem compreender também o que eram e como se desenvolviam os basolongo, isto é os habitantes do Soyo, assim como, qual o ponto da situação, na altura, em relação ao Estado do Kongo.

Tomamos aqui uma síntese das versões conhecidas do mito talvez mais representativo referido à formação do Estado do Kongo, o mito de Nimi a Lukeni.

Segundo a documentação dos séculos XV e XVI, e segundo a interpretação mais corrente, a "fundação" do reino do Kongo parte de uma formação Yombe vinda de Vungu, na margem direita do Zaire, provavelmente no Mayombe, que teria emigrado no Século XIV que se encaminhou para a margem esquerda do rio onde acabou por fundar Mbanza Kongo.

Diz-nos esta tradição que vivia no ponto de partida um chefe chamado Nimi a Nzinga. Nzinga é um nome atribuído a um grupo de linhagens aliadas que se pretendiam descendentes do mesmo antepassado.

Um determinado ramo do grupo Nimi a Nzinga, chamado Nimi a Lukeni, é o que está na origem da fundação da capital do Kongo, na margem Sul.

Neste conjunto, Nimi a Nzinga, nome dominante, é o de uma aliança patrilinear. Lukeni é um nome da linha matrilinear. Assim, Nimi a Lukeni é "filho" de Nimi a Nzinga e de uma certa Nzanza que pertence a outro subgrupo chamado Nsaku Lau.

O herói "Lukeni" partiu, pois da aldeia do seu "pai" e, em Mpemba, a região de Mbanza Kongo, derrotou o chefe local Mbunlulu Mwana Mpangala.

A história posterior revela uma aliança importante do poder com uma série de senhores que a documentação mais antiga designa por "Mani Pangala" que representa as linhagens locais com importância determinante nos assuntos religiosos e na gestão da "propriedade linhageira".

Uma outra lenda sobre a "fundação" do reino do Kongo que não vamos tratar nestas páginas, relatada por A.Cordeiro em 1624, diz que Mbanza Kongo foi fundada por Ntinu Wene (ou Motino- Bene), "um filho mais novo do Rei de Vungu" o qual teria conquistado e unificado as numerosas chefaturas em que estava dividida a formação local Kongo.

A narração deste mito está ornada com os parâmetros habituais da linguagem mítica. Nela se destaca um personagem que vem de longe com uma intenção reformadora (ou conquistadora) e com uma comitiva ou "a sua gente", um itinerário muito bem definido, o encontro com mandatários locais, e a instituição de uma aliança que assume formas diversas, desde o casamento com uma mulher aborígene a uma guerra seguida de vitória total mas sempre generosa.

Seja como for todas as lendas estão de acordo com um ponto de origem em Vungu, donde rompeu uma migração cujo nome designa não a pessoa nem sequer o conteúdo étnico do grupo mas apenas a linhagem dominante, que chegou a Mpemba, onde fundou a cidade de Mbanza Kongo.

Importa referir que o missionário A. Cordeiro, Duarte Lopes/Pigafetta e todos os cronistas que se referiram à expedição de Diogo Cão, fixaram para a posteridade o nome de Nzinga a Nkuwo, como sendo o rei do Kongo que os portugueses encontraram e que veio a chamar-se D. João I.

Nzinga e Nkuwo são, uma vez mais, nomes clâmicos que se repercutem por toda a história do Kongo e, principalmente o primeiro, é uma chave para a história do Soyo e dos seus conflitos internos.

Diz também a tradição Kongo que este rei teve um filho (entre outros) chamado Mvemba a Nzinga (D. Afonso I) e Cordeiro acrescenta que a (linhagem central) Mvemba Nzinga deu "os grandes reis até Henrique I" e ocupou os territórios de Mpemba e Soyo, o que significaria que se estendeu nesse território pelo menos desde Lukeni até ao "príncipe Nezinga" que incluiu o Soyo no território do reino.

Com efeito, a partir de Mbanza Kongo teve lugar um processo de expansão por todo o território que acabou também por chegar ao Soyo e assim, é o sangue Mvemba a Nzinga que entra no Soyo através de um outro personagem ou herói que pertence já à mitologia local e que se chama Nzinga a Mvemba (designado na tradição soyo como "o príncipe Nezinga").onde encontra os basolongo e organiza um estado sujeito à coroa central.

Nas linhas que se seguem vamos ter ocasião de ver como as linhagens reais em Mbanza Kongo tendo vindo de fora, ficam ligadas ao poder local Mpemba Nkazi assim como no Soyo a linhagem estrangeira (Mvemba Nzinga, vinda de Mbanza Kongo) sediada no Pinda, se liga ao chefes da terra (do Pângala).

Os Mitos de Fundação no Soyo

Todos os velhos do Soyo, tanto os das linhagens "da terra" como os das linhagens "de fora" (de Mbanza Kongo) estão de acordo que Nezinga, o "príncipe Nezinga", é o verdadeiro fundador do Estado do Soyo embora absorvido pela soberania Kongo.

Mas, em 1980, os velhos ligados ao poder de então que estava nas mãos das linhagens "da terra" - em que um regente (na falta de um rei coroado) utilizava o título de Soyo dya Nsi- afirmavam que a gente que Nezinga encontrou no Soyo, era um povo organizado e evoluído, produto duma migração muito mais antiga dirigida pelo herói Nentombe. A origem de Nentombe não porém muito clara.
A sua função ideológica sim: a de criar uma formação dona da terra antes de Nezinga. Algumas das versões recolhidas dizem: " Nentombe foi colocado por Deus aqui na terra do Soyo...".

Outros porém afirmavam que "Nentombe é originário de Mbanza Kongo.
Os espíritos arrastaram-no para o Soyo... ".

Em todo o caso o herói permanece um personagem misterioso que simboliza uma migração muito remota, cujo itinerário, passando pelo Ambriz no Sul até Noki na margem do Zaire, estabelece um território que se pode considerar mesmo ainda hoje, o território solongo.

Além disso, de certo modo o mito é confirmado pela tradição Nezinga onde se diz que este príncipe encontrou no Soyo uma sociedade rica, evoluída mas fragmentada, vagamente dirigida por um chefe designado Soyo dya Nsi, sediado no Pângala.

De tudo isto ressalta com bastante evidência um conflito de poder -- e de posse de terras -- no Soyo, entre os descendentes de Nentombe e os descendentes de Nezinga, que vem até hoje.
A lenda de Nezinga tem também um itinerário significante, como todas as outras, que sai de Mbanza Kongo, vai ao Nzetu (zona do Ambriz) desce para a foz do Zaire e chega ao Pângala onde está o Soyo dya Nsi , estabelece uma aliança em que fica claro que Nezinga segura o poder mas o Chefe local continua o dono da terra.

Depois prossegue na sua viagem através da qual foi espalhando o sangue Mvemba a Nzinga com casamentos dos quais resultam mais de trinta filhos.

Um dos mitemas principais da tradição Nezinga é o conflito surgido entre os seus próprios filhos e dos filhos com o pai, por ocasião de uma doença deste, por via das misturas de sangue de que eram portadores e dos diferentes compromissos que elas implicavam.

Num outro mitema diz-se que Nezinga, depois de firmado o acordo com Soyo dya Nsi, voltou a Mbanza Kongo exibindo esse excelente trunfo assim como duas cabaças, uma com água do mar (a riqueza) e outra com areia do solo ( a numerosa população local), faz-se perdoar e é acreditado pelo rei como governador das terras donde viera.

Algumas versões recolhidas informam que Nezinga recebe autoridade sobre o Soyo por parte do rei do Kongo seu tio, para resolver "os casos simples" deixando para ele, Ntotila, "os casos complicados".

Este mitema vem a repercutir-se, como veremos, no mito de Diogo Cão.

Finalmente, e para não alongarmos muito este texto fora do assunto principal, resta acrescentar que, depois do conflito de Nezinga com os seus filhos, estes foram deserdados excepto as duas filhas, Ndilu e Mfutila que se haviam mostrado obedientes por amor filial.

O mito prossegue, depois da morte de Nzinga através dos seus sucessores.
O herdeiro do trono solongo foi o filho de Ndilu, a filha mais velha, que se chamou Mvemba a Ndilu.

Mas quando cresceu o filha de Mfutila, a mais nova, a mãe exigiu uma parte da herança segundo as orientações do falecido pai.

Gerou-se um conflito que resultou na partilha do Soyo em dois Estados: o Soyo de Cima (Mfutila Nentandu) e o Soyo de Baixo (Mfutila Neanda) situado na margem do Zaire, aliás o centro do conjunto político. Enfim, este mitema da partilha do Soyo explica o estado actual da sociedade e do poder solongo que de facto apresentam uma divisão em duas partes, hoje bastante diluída.

O panorama político-social do Soyo à chegada da expedição de Diogo Cão, é pois o de um Estado solongo, dividido em dois, o Soyo-de-Cima ao Sul e o Soyo-de-Baixo, ao Norte. o todo é contudo uma dependência do trono Kongo em Mbanza Kongo, onde reina provavelmente a linhagem Mvemba Nzinga.

A comunidade solongo, além de dividida por dois Estados entre os quais o Soyo-de-Baixo, sediado no Pinda (mais exactamente no Kitxitxi, segundo a tradição Nezinga) detém o poder central de etnia, contem igualmente um certa diferenciação classista onde se destaca uma camada social aristocrática, ela própria dividida também em duas camadas aliadas mas contraditórias vindas de fontes diferentes:
a dos chefes das linhagens locais e a dos chefes das linhagens Mvemba Nzinga originárias de Mbanza Kongo.
Resta acrescentar que, tendo sido possível em 1990, recolher várias listas genealógicas do trono solongo "desde a sua fundação" mais ou menos desiguais mas semelhantes pareceu-nos interessante apresentar aqui aquela que se revela mais sólida, embora apenas até à época do navegador português:

Mvemba a Ndilu - neto de Nezinga e primeiro soberano, portanto depois da fundação do Estado através do herói Nezinga.
Nkinvi kya Mvemba
Nkulumba dya Ngolowolo - que aparece em outras listas com o nome de NKUKULUMBA NEKOKANLOKO
Nekyanvu Kya IkwaNdom Malele kya Nsi - o soberano do Soyo à chegada de Diogo Cão.

Pretenderam sempre os nossos informantes que todos estes nomes pertencem à camada Mvemba Nzinga.
Contudo o nome Kya Nsi, de Dom Malele, que significa "da terra", parece desmenti-lo. Somente estudos mais detalhados poderão esclarecer este assunto.
O Cisma Antonino do Século XVIII e suas consequências

A cosmogonia tradicional solongo não difere muito da dos outros povos desta parte de África.

Ela é simplesmente, como tudo o que pertenceu ao antigo reino do Kongo, muito mais agitada.

De uma maneira geral e breve, é próprio dessa cosmogonia o culta da água (implicando o da chuva com o seu sacerdócio específico e seu sistema de pensamento), da árvore (principalmente o da mulembeira ou mulemba ("ensendeira" na documentação que a ela se refere) e o da pedra.

Os espíritos são os Nkisi Nsi e habitam preferencialmente em certas lagoas como a nascente que abastecia a Missão Católica do Pinda e que se chamava Malu ma Madiya ("Água de Maria"), mas eles também costumam roçar-se pela folhagem da grande mulembeira da casa do chefe, o que é visível quando a copa da árvore se agita chamando a atenção dos velhos que conversam à sua sombra.

Os gémeos, essas criaturas controversas enviadas ao casal para o pôr à prova, habitam igualmente as camadas superficiais da água depositada. Mas sob essa camada há outra, a dos albinos, os adversários dos gémeos.

A pedra e a árvore são também habitáculos de cargas mágicas e geradoras de mitologia.

Da pedra surgiram um dia os homens brancos, ao passo que os negros tinham nascido das árvores.

O culto dos antepassados (de certo modo, o dos gémeos também) é talvez o mais formal da religião tradicional do Soyo.

Ele é praticado em todas as aldeias num altar constituído por um pequeno telheiro com não mais de um metro de altura, que esconde uns orifícios no solo através dos quais se comunica com os antepassados.

Chama-se Mvela e há entre estes altares uma hierarquia estabelecida que apresenta no Pângala, o mais importante dentre eles: o Mvela kya Soyo, que cobre o povo de todo o território, tanto para o Soyo-de-Cima como para o seu vizinho do Norte, onde se encontra.

Mas é, provavelmente o culto da chuva o mais determinante, porque se relaciona com a sobrevivência material das pessoas, com a fertilidade e com a mulher. O seu sacerdote é designado Kintumba e a sua importância é tão grande que a coroação de um novo soberano no Soyo tem de ser presidida e ministrada por ele.

É também o Kintumba que faz vir a chuva através de um culto hoje sincrético, onde se reza um padre-nosso em kisolongo, apenas parecido com o original cristão em português.

Sobre este contexto vem justapor-se a ideologia cristã desde o século XVI. Como afirma Thorton.
Porém, essa cristianidade "... era aceite, não como uma nova religião mas como um culto sincrético, integralmente conservado com outros cultos do Kongo e derivando do Kongo e não da cosmologia cristã ou europeia".

Hoje a atitude religiosa dos basolongo é, de certo, predominantemente cristã. Mas atrás dessa atitude que devia implicar um sistema ideológico igualmente cristão desenham-se todas as correntes místicas que a atravessaram e reconfiguraram num composto bem difícil de interpretar.

Ressalta porém de tudo isso que da cosmogonia tradicional à ideologia oficial de hoje mais ou menos cristã, intromete-se com uma força afinal determinante, o culto antonino que nasce no fim do Século XVII na região de Mbridje (alto Ambriz) e se difunde a partir do Soyo absorvendo de forma avassaladora a consciência dos basolongo e não só, espalhando-se por todo o território Kongo, e novamente não só.

As raízes desse culto podem ser reportadas a uma velha do Ambriz, Apolónia Mfumaria, conhecida igualmente por Mfuta Mfumaria (Mfumadiya) que afirmava, entre outras, coisas ter encontrado no rio a cabeça de Cristo (uma pedra arredondada e vulgar) com sinais do seu descontentamento em relação aos pecados dos homens.

Daí surgiram os primeiros mandamentos do antonismo, condenando os antigos feitiços, o trabalho aos domingos, e sobretudo criticando o Senhor D. Pedro IV de Água Rosada, candidato ao trono central do Kongo, que se refugiava no Kimpango, temendo os seus rivais na posse da coroa até então abandonada.

Para a apóstola do antonismo, D. Pedro devia marchar sobre S. Salvador e proclamar-se rei do Kongo.

Com efeito o retrato político dessa época que resultava da desastrosa batalha de Ambwila contra o Governo colonial de Angola (1666), onde teriam perecido "mais de cem mil homens", era o de um Kongo desmembrado, dividido em ducados, e marquesados mais ou menos independentes a fazerem guerras uns aos outros e a recolherem escravos, com dois candidatos ao trono, de clãs rivais, respectivamente D. Pedro de Água Rosada, um Kimpangu, da estirpe dya Nlaza, e D. João II Nsimba a Ntando, um Kimpanzu, da estirpe dya Nlemba, refugiado em Bula ( mais ou menos Kinshasa actual) a evitarem enfrentar-se pela posse da coroa e pela reunificação do reino.

Depois da velha Apolónia surgiram outros apóstolos igualmente reformadores que aprofundavam mais um pouco o novo credo, até que do Tubi, uma aldeia solongo onde era a chefe (mfumu), surgia a figura impressionante de Beatriz Kimpa Mvita, a Santa Beatriz, ou Beatriz do Kongo como ficou conhecida pelos historiadores.

Beatriz, uma jovem muito bela segundo um relatório do capuchinho Bernardo da Gallo ao papa Clemente XI datado de 1717, relança o movimento que pela primeira vez se constitui em "cisma antonino".

Ela afirma ter estado no céu com S. António o qual lhe propôs um programa reformador que limpava o culto cristão de suas impurezas feiticistas e outras, como o crucifixo que não era mais que um amuleto, definia uma moralidade de tipo novo, e fixava como objectivo central a reunificação do Reino do Kongo, único meio de racionalizar o tráfico de escravos que andava ao sabor dos apetites dos grandes senhores, de criar uma sociedade crente, justa e sem preconceitos, de fugir também à influência terrível dos capuchinhos italianos que missionavam a coberto do Governo de Angola, do Papa e daqueles senhores da guerra.

Este movimento conheceu uma amplitude inesperada, e face à atitude irresoluta de D. Pedro de Água Rosada, dividiu mais o poder ainda em suspenso com um novo candidato ao trono, o General "Chibenga", ou seja, D. Pedro Constantino de Almada, então Capitão General de D. Pedro de Água Rosada.

A força do movimento era muito grande na primeira década do Século XVIII.

Os escravos bakongo abandonavam seus amos e apresentavam-se ao antonismo que se estruturava à maneira duma seita activa e contestatária.

Uma oração nova, a Salve Antoniana, substituía a Salve Reginae da liturgia católica e constituía o verdadeiro manifesto do antonismo.

Para os antonistas, Jesus Cristo era natural de S. Salvador (Bethelem), e mesmo a Virgem Maria e S. José eram bakongo de nascimento, naturais do Ducado do Nsundi (Nazaré).

Mas o fim do decénio pôs um termo a este sonho dourado e piedoso.

Beatriz, sob impulsão do P. Bernardo da Gallo (que evoca o Santo Ofício para se justificar) e a conivência da autoridade de D. Pedro (o Água Rosada), foi queimada na fogueira com o seu principal oficial, o "Anjo da Guarda" S. João, em 1708.

No ano seguinte o Chibenga, com o seu enorme exército meio antonino meio católico, foi derrotado na tremenda batalha do Monte Evululu e D. Pedro ocupou finalmente S. Salvador fazendo-se coroar rei do Kongo, como D. Pedro IV.

O antonismo refugiou-se no seu estrato cosmológico misturado com os "espíritos da terra", mas o ponto principal do seu programa, a restauração do reino do Kongo, fora cumprido.

Aparentemente a seita dissolveu-se após os desaires sofridos. Mas o culto e a fé nos dois principais protagonistas da ideologia antonina mantiveram-se e existem ainda hoje. St. António continua a ser em todo o Kongo um pólo essencial da mitologia e a santa, agora chamada Stª. Maria é, no Soyo, objecto de um culto discreto de fertilidade e de propiciação da chuva.

Um novo mito surge no Soyo em data incerta (após a queda do antonismo), que converte "D. Beatriz Kimpa Vita ou D. Beatriz do Kongo, mulher ligada à política e à história do reino, na Stª. Maria do Soyo, "espírito da terra" que habita nas águas da sua própria nascente e que se ocupa dos problemas dos basolongo"
O Mito de Diogo Cão

Diogo Cão, navegador português e figura histórica do Século XV, entra finalmente na história tradicional do Soyo como personagem mítica, embora aí apareça de uma maneira um tanto vaga, e contudo com a missão muito precisa de reiterar a eclosão de uma nova cultura entre os basolongo, de uma nova religião e de uma nova civilização técnica que faz surgir bens materiais de tipo novo.

Ora a maneira como o seu mito se desenvolve é a maneira clássica dos "heróis reformadores" da mitologia savânica desta parte de África.

A sua estrutura narrativa é semelhante à de toda essa mitologia.

O protagonista surge de algures, de longe, com uma comitiva; tem encontros com os mandatários dos soberanos locais mas não chega a encontrar o "rei" (ou "rainha") do Soyo.

A sua entrada em cena tem aspectos espectaculares que valorizam o personagem e que o definem como "estrangeiro".

Depois percorre um itinerário bem definido onde a via fluvial -- a principal via comercial: o rio Zaire -- se desenha como dominante, e acaba em Mbanza Kongo, junto do Ntotila.
Por uma das versões recolhidas desta lenda, sabe-se que Diogo Cão desembarcou numa praia do Soyo onde encontrou uma "pedra alta", sobre a qual havia dois santos: St. António e St. Maria.

O visitante queria levá-los para Portugal, mas St. Maria negou-se e veio a ser deixada na praia, criando uma derivação da lenda destinada a dar conteúdo ao culto de St. Maria que, como vimos atrás, ainda hoje se pratica no Soyo
.
Uma segunda versão diz que Diogo Cão chegou num barco à vela (Nkumbi ya Nkutuktu) a uma praia do Soyo em Mbanza Malele.

Aí encontrou um pescador, Ndom Lwolo, um súbdito da rainha Malele kya Nsi, nome que figura entre os primeiros da lista de soberanos do Mfutila Neanda ( o "Soyo de baixo").

Quando o navegador perguntou o nome da terra, o pescador respondeu: "Kinzadiko" ("não sei").

E ao interrogá-lo sobre o nome do grande rio, Ndom Lwolo respondeu: "Nzadi" ("Rio").

O visitante concluiu assim que o rio se chamava "Zaire".

Então Diogo Cão manifestou o desejo de ser apresentado à rainha.

A soberana foi informada deste acontecimento e desta solicitação, mas lembrou-se que o seu antepassado Nezinga recebera ordens do Tio, o Ntotila, que a impediam de, como seu suserano, estabelecer relações com povos estrangeiros.

Por isso a rainha recusou qualquer contacto com os visitantes mas mandou-os conduzir a Mbanza Kongo.

Um guia acompanhou, pois, a expedição portuguesa rio acima, até Noki, onde desembarcaram.
O navio ficou fundeado no sítio chamado Nsuku a Nsambi a Nzombo, onde havia uma grande pedra com uma mulembeira que lhe crescera no topo.

Desse modo evitava-se subir até Matadi, "por causa dos ventos violentos da região, originados pelas montanhas".

Prosseguiram a viagem por terra ao encontro do Nekongoe da sua corte, que lhe ofereceram um grande banquete.

Note-se que o Nekongo, avisado por mensageiros, já sabia da chegada dos portugueses e já os esperava.

O visitante deu ao Ntotila como presente um rico pano que se chamou Nkampa.

O mito de Diogo Cão parece, enfim, pôr em relevo algumas particularidades da consciência solongo.

Nele se recorda com especial vigor a dependência do rei do Soyo para com o rei do Kongo, seu soberano.

Este aspecto não tem porém uma intenção didáctica pura, mas ele é, muito mais, o resultado do movimento de aproximação com Mbanza Kongo e portanto com o poder central por tradição, que crescia no Soyo à data da recolha do mito (1990).

Contudo sabe-se pertinentemente pela documentação existente , que os contactos de Diogo Cão com o dito "Mani Soyo", foram numerosos e até frutuosos, pois inclusive o chefe solongo fez-se baptizar.

Além disso a narração pretende mostrar através dum contorno simbólico que o culto actual (e bastante antigo) de St. Maria, surge da igreja católica (vem com Diogo Cão), mas em oposição a ela.

Recordemos que a santa, devendo ter "regressado" com o navegador como sucedeu a St. António, preferiu ficar no Soyo.

Enfim, para o historiador, há neste mito numerosos elementos significativos inspirando um mínimo de segurança que lhes permita serem tratados como factos históricos, quer pelo número muito elevado de informantes que os reconheceram -- o que dá fixidez a uma cultura histórica envolvente -- quer pela sua semelhança com a realidade concreta conhecida.

No episódio histórico de Diogo Cão fala-se de uma "pedra" (na ocorrência, o Padrão); essa "pedra", de que, no mito, o Navegador é miticamente (e não explicitamente) portador (ou criador) contém dois santos da religião católica:
St. António e St. Maria, o primeiro, tanto na versão antonina do Soyo como na do Kongo desaparece, abstratiza-se e só se manifesta indirectamente através da sua eleita, a santa; o itinerário mítico da expedição pelo rio Zaire conduzindo a uma "pedra" que evoca a descoberta de Yelala, facto histórico e por fim um Senhor do Soyo, um "Mani Soyo" que na narração mítica se chama Ndom Malele Kya Nsi e na narração histórica toma o nome de D. Manuel da Silva.
O que é pois o dito "Mito de Diogo Cão", senão a representação que o povo solongo se faz do facto histórico, modelado pela linguagem mítica local e pela ideologia dominante?

Assim sendo é também uma das fontes da história do Soyo cuja leitura implica a descodificação de um mito.

Bibliografia Sumária

ABRANCHES, Henrique - Comentário à tradição Nezinga, in Revista Internacional de Estudos Africanos, nº. 1, 1981, Lisboa.Sobre os basolongo - arqueologia da tradição oral, Ed. Fina Petróleos de Angola, Luanda. 1991
BONCTINK, F. - Les Panzelungos, ancêtres des solongo - Annales Equatoria, T.I, V.I, 1980.
BRASIO, António - O problema da eleição e coroação dos Reis do Kongo, Fac. Letras, Coimbra, 1969.
CALLEWART, R.P.E. - Les moussorongos - in Bulletin de la Societé Royale Belge de Geographie, T.29, Bruxelles, 1905
CAVAZZI DE MONTECUCCOLO, J. A. - Descrição histórica dos três reinos, Congo, Matambe e Angola - (2volumes), Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa, 1965
COSTA, José da (informante de terreno) - Mambu mampa. Mvila a Nezinga - (manuscrito), Pinda, 1963
MVEMBA, André (informante de terreno) - Lutoma vina e Mvila a Nezinga (manuscrito), Ngande Soyo.
FELGAS, Helio E. - História do Congo português - Carmona 1958
GALLO, Bernardo da - Relations (1694-1718) - in Jadin, 1961
GONÇALVES, António Custódio - Kongo, le lignage contre l'Etat - I.I.C.T., Univ. Évora, Évora, 1985
HILTON, Anne - The Kingdom of Kongo - Clarendon Press, Oxford, 1987
JADIN, L. - Le Congo et la scecte des Antoniens - Restauration du Royaume sous Pedro IV et la "Sant Antoine" congolaise (1694-1718) - Bulletin de L'Institut Historique Belge de Rome, T. XXXIII, pgs 411 a 614, Bruxelles, 1961.
LUCCA, Lourenzo da - Relations sur le Congo, 1700-1717- in Jadin, 1961
MARCHAL, P. Gilles, s.sp. - Sur l'origine des basolongo - in "Equatoria", Revue des sciences congolaises, n-4 ano 11, 1948, pgs 121 e ss.
RAVENSTEIN, e.g. - The strange adventures os Andrew Battell of leight, in Angola and adjoining regions, 1950.
THORTON, J. - The development of un african catholic churc in the kingdam os Kongo, 1491- 1750 - in JOURNAL OF AFRICAN HISTORY, 25, n.2 (1984) pgs 147-167, Cambridge
http://afmata-tropicalia.blogspot.com/2010/06/breve-historia-antiga-do-soyo-e-do.html
Imagem: Photo of Soyo, Angola: By a Facebook Member on Aug 2009. tripadvisor.com

sábado, 3 de dezembro de 2011

Regresso



E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

Imagem: título, História Trágico-Marítima. editor, Livraria Sá da Costa
pedroalmeidavieira.com

Por Aquele Caminho. Adriano Correia de Oliveira (1942-1982). Letra de José Afonso



Por aquele caminho
De alegria escrava
Vai um caminheiro
Com sol nas espáduas.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Leva o solitário
Sob os pés marcado
Um rasto de sangue
De sangue lavado.

Levanta-se o vento
Levanta-se a mágoa
Soltam-se as esporas
Duma antiga chaga.

Mas tudo no rosto
De negro nascido
Indica que o negro
É um espectro vivo.

Quem lhe dá guarida
Mostra-lhe a pintura
Duma cor que valha
Para a sepultura.

Não de mão beijada
Para que não viva
Nele toda a raiva
Dessa dor antiga.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
Doutra sementeira.

O sol vem primeiro
Grande como um sino.
Pensa o caminheiro
Que já foi menino.

Ganha o seu sustento
De plantar o milho.
Aquece-o a chama
Dum poder antigo.

Falta ao caminheiro
Dentro da algibeira
Um grão de semente
Doutra sementeira.

Imagem: do Ventre Livre-1871). Quem faz a oferta é um tal de Manoel Dias Pereira ...
picaretasdatavola.blogspot.com