sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Oliver Stone conta história de tráfico e vingança em “Selvagens”


Ao longo de suas quatro décadas atrás das câmeras, o cineasta norte-americano Oliver Stone nunca teve receio de levar seus personagens até o inferno. Foi assim em Assassinos por Natureza, A Reviravolta e Nascido em 4 de Julho, entre outros. Em Selvagens, não é diferente.

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O novo longa é uma tortuosa descida ao fundo do poço da humanidade e, no caminho, até as almas que ainda são puras se pervertem. Enfim, no mundo de Stone, não há salvação — somos todos culpados.
Não há mocinhos ou bandidos, todos se corrompem mais cedo ou mais tarde no inferno que se materializa no sul da Califórnia, fronteira com o México, onde o tráfico de drogas é a principal fonte de renda dos personagens.
Os amigos Chon (Taylor Kitsch) e Ben (Aaron Johnson) dividem a plantação e distribuição da melhor maconha do mundo. Dividem também a cama com O. (Blake Lively), e todos vivem muito bem num “ménage à trois”. É a garota quem conta a história e em sua narrativa explica as coisas — às vezes até demais.
Stone transforma esse triângulo amoroso sem tensão numa espécie de “noir” diurno que dialoga com o “western” e o romance. Não ficam de fora também os tiques comuns do cineasta — como diversos formatos e texturas ao longo de uma mesma cena, além de malabarismos narrativos.
Mas o que poderia acarretar uma tremenda confusão cinematográfica se organiza numa espécie de ópera pop, com grandiloquência — um tom que nem sempre merece, mas, por isso mesmo, torna-se divertido.
O., na verdade, se chama Ophelia e poderia ser a garota rica, linda e loira desprovida de qualquer profundidade. No fundo, ela é o símbolo do sonho americano apodrecido — quer tudo e sem qualquer esforço.
Seus dois companheiros são opostos entre si. Chon lutou no Iraque e no Afeganistão, é durão e tem pavio curto. Ben jamais matou alguém e passa temporadas ajudando crianças pobres na África. A única coisa que têm em comum é O. — e ela bem sabe disso.
Esses, até certo ponto, são os personagens de alma pura. Os corrompidos, ao menos desde o começo, são os mexicanos, cujo cotidiano inclui decapitações e sequestros.
La Reina Elena (Salma Hayek) comanda um cartel do México e quando a dupla Chon e Ben não aceita fazer negócios com ela, não hesita em mandar seu capanga sequestrar O. O capanga é Lado (Benicio Del Toro), um sujeito sem qualquer escrúpulo.
O conceito de selvagem –e selvageria, em consequência– oscila ao longo do filme. Para os mexicanos, o dois gringos dividindo a mesma garota sem qualquer crise de consciência não é aceitável. O trio de norte-americanos parece não ter qualquer respeito por família, honra e decência. Estes, por sua vez, veem os vizinhos mexicanos como os selvagens capazes de degolar e atear fogo em seus inimigos. Enfim, um conceito volátil que toma a forma que interessa ao enunciador.
Baseado num romance homônimo recém-lançado no Brasil, de Don Winslow, o filme Selvagens deixa de lado a prosa quase telegráfica do escritor –que assina o roteiro com Stone e Shane Salerno– para mergulhar nos excessos barrocos típicos do cineasta.
Se, para alguns, estas escolhas podem enfraquecer a trama, por outro lado, pode estar nestes maneirismos também uma certa graça, uma vez que a trama em si é pueril e uma mera desculpa para Stone abusar deles. No fundo, tal como o conceito de selvagem dentro do filme, essas são opiniões que variam conforme o referencial.
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb