Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Jonas Savimbi no lado errado da História - Livro



Lisboa - Sugerimos vivamente a todos aqueles que desejarem saber pormenorizadamente sobre a vida política do Dr. Jonas Savimbi não descrita noutros livros, adquirirem este excelente livro. Dado os temas politicamente polémicos sobre os três partidos provavelmente não será permitida a sua venda em Angola. Por isso, pedidos a condescendência da editora e do autor.

* Emídio Fernando
Fonte:
www.dquixote.pt & http://kuribeka.com.sapo.pt Club-k.net
A Aliança com os colonos
A possível intervenção da China e da Zâmbia, nas deserções e traições no seio da UNITA, é demonstrativo do isolamento internacional de Jonas Savimbi e do seu movimento, especialmente nos derradeiros anos da década de 1960. Ambos os países, seguindo também uma linha traçada na Organização de Unidade Africana, mantêm um dúplice relacionamento com Savimbi. Por um lado, permitem--lhe deslocações, recebem os seus companheiros de luta mais próximos e até dão formação militar, mas, por outro, contêm-se no fornecimento de apoios mais sólidos. E, por vezes, até lhe dificultam a vida.

No exterior de Angola, o MPLA e o FNLA, os únicos movimentos reconhecidos pela OUA como legítimos «combatentes pela liberdade», tudo fazem para dar continuidade ao isolamento da UNITA. Savimbi, desde a primeira hora, conserva um fiel amigo, o egípcio Gamei Nasser, que lhe abre as portas de Paris, Moscovo, Havana e Pequim. No entanto, a recolha de apoios não corre bem, o que o obriga a lutar pela sobrevivência apenas no interior de Angola. Aqui encontra, após o seu regresso do Egito, um movimento dilacerado, com centenas de militantes presos pelos portugueses. Um relatório dos serviços de informação dos militares descreve a situação do movimento de Savimbi como estando nos limites:

“A UNITA mantém-se «enquistada» na região de Munhango (...) A sua actividade tem sido caracterizada por raptos de populações e ataques a colunas de madeireiros. Pressionada pela FNLA e principalmente pelo MPLA, com quem tem tido já vários reencontros armados, lutando com dificuldades de reabastecimento de material, mas usufruindo de um considerável apoio da população da área em que se refugia, a UNITA encontra-se numa situação de certo modo difícil.”

Jonas Savimbi, perante três inimigos, escolhe aquele que lhe parece ser o mais fácil de se aliar e simultaneamente também o mais forte militarmente: Portugal. A aproximação com a potência colonial, que ele supostamente combatia, demora dois anos a ser concretizada, e mostra uma das suas principais facetas, identificadas por Fernando Passos Ramos que, na altura é o principal responsável pelas informações militares do exército português na zona Leste de Angola:

“Savimbi aliava-se ao diabo, se fosse possível desde que isso não prejudicasse a UNITA. Vem nos livros e manuais dele.”

Por outro lado, a PIDE recolhe informações que lhe permitem concluir que entre os três movimentos, a UNITA é o que oferece melhores garantias num acordo com os portugueses. A estratégia agrada também às chefias militares e a aproximação começa a ser desenhada em finais de 1969. No entanto, não é claro quem realmente dá os primeiros passos, se as autoridades portuguesas, se alguém a mando de Savimbi. A única certeza é que as primeiras conversas acontecem na cidade de Gago Coutinho e em Cangumbe, zona particularmente rica em madeiras preciosas e explorada por madeireiros. Mas o mote é dado antes, quando Savimbi solicita, numa carta dirigida ao governador-geral de Angola, escrita a 3 de março de 1969, «armas e munições destinadas a combater o MPLA».

Jonas Savimbi arranca para as conversações com o poder colonial, obedecendo à mera estratégia de sobrevivência da UNITA. Admite que os dirigentes da UNITA possam vir a ser reintegrados na sociedade e na administração pública, mas com lugares de destaque, incluindo ele próprio. A UNITA encontra-se, no final da década, num isolamento territorial muito significativo, confinada à região Leste de Angola, e militarmente impossibilitada de se estender pelo território. Apenas esporadicamente combate com alguns guerrilheiros no Sul do país, mas integrada nas ofensivas da SWAPO. A estratégia militar portuguesa, desde a criação da UNITA em março de 1966, dedica uma especial importância à zona Leste de Angola, destacando para lá os seus melhores soldados e comandantes militares. São eles que recrudescem os ataques contra as bases dos movimentos, ajudados pelas «tropas especiais» recrutadas entre a população.

O Zaire (ex-Congo) e os EUA suportam, como sempre fizeram, a FNLA. A Zâmbia, a esmagadora maioria das novas nações africanas e os países socialistas apoiam, militar e financeiramente, o MPLA. Os dois movimentos, FNLA e MPLA, têm a bênção da OUA e até Agostinho Neto, juntamente com Marcelino dos Santos, de Moçambique, e Amílcar Cabral, da Guiné-Bissau, já tinha sido recebido pelo Papa no Vaticano. O encontro acontecia a 1 de Julho de 1970.

A desconfiança internacional, especialmente dos jovens países africanos, em relação a Savimbi não abranda desde a sua súbita saída do GRAE, sobretudo porque, mais uma vez, deixava um movimento nacionalista. O MPLA, através de Lúcio Lara, aproveita para propagandear a ambição de Savimbi, insistindo na tese que ele exigiu ser primeiro-ministro de um futuro governo angolano caso o MPLA alcançasse o poder. Além deste isolamento internacional, Savimbi debate-se com um problema adicional que ameaça a sobrevivência do próprio movimento: os abastecimentos. Grande parte da alimentação é fornecida pela população, mas as armas, munições, fardamento e medicamentos, fornecidos pela China, dependem exclusivamente da passagem pela Zâmbia. As bases do movimento estão entre os 200 e os 300 quilómetros da fronteira, em linha reta, cruzando rios, montanhas e selvagens matagais.

Jonas Savimbi, com a iminência de perder a guerra e naturalmente a UNITA, opta por se aliar paulatinamente aos portugueses. Esta via tem também como objetivo principal combater os seus principais inimigos que impedem o crescimento no terreno e no campo internacional da UNITA: a FNLA e o MPLA.

A existência de correspondência entre as autoridades coloniais e o líder da UNITA pressupõe que já existiam contactos prévios de aproximação. E que a ideia de ser a UNITA a combater o MPLA era coincidente entre o movimento de Savimbi e as chefias militares portuguesas. Ainda em 1969, Jonas Savimbi, numa troca de correspondência com Eduardo Jonatão Chinguji, confessa estar interessado «na proposta dos portugueses de eliminar o MPLA. Numa das cartas, declara a intenção de explicar o acordo que quer fazer com o «inimigo», tentando cativar Chingunji, sabendo que este é um dos mais acérrimos nacionalistas dos dirigentes da UNITA. Por isso, acrescenta-lhe uma alegoria que demonstra também a ambiguidade com que ele encara as conversações:

“Cada africano que trabalhe com o branco deve ser falso para lhe mostrar uma boa cara mas um coração infiel. Quando, em cada canto de Angola, houver um africano pronto a morrer, pronto a trair o branco, então estaremos próximos da vitória.”

O lado indefinível do caráter de Jonas Savimbi — que se iria revelar mais vezes ao longo da sua vida — manifesta-se durante os anos que decorrem as conversas, causando sérias desconfianças entre os militares portugueses. Os comandantes militares da UNITA mantêm conversas com as autoridades portuguesas entre maio e junho de 1969, escolhendo como mediadores alguns colonos que exploram e negoceiam a madeira na região. São eles que fazem a ponte entre os militares da UNITA e os oficiais da PIDE, com o obvio conhecimento e anuência de Jonas Savimbi: sendo uma organização muito centrada no seu presidente, ninguém arriscaria encetar contactos à revelia do líder. Todavia, Samuel Chiwale, nas suas memórias, garante que as negociações tiveram início apenas em finais de 1970, ano em que a direção da UNITA responde a uma «petição de madeireiros portugueses» que pretendiam «pedir autorização para explorar madeira» no território controlado pelos rebeldes.

As primeiras conversas permitem, desde logo, um desanuviamento nos ataques e emboscadas da UNITA às colunas dos militares portugueses que, por outro lado, garantem segurança ao movimento. O segundo congresso realiza-se entre 24 e 30 de agosto. Nesse congresso os delegados beneficiam de um «corredor de segurança» montado pelos portugueses: muitos chegaram do estrangeiro, vindos da Zâmbia, entrando, por terra, em território angolano sem que tenham sido beliscados. A reunião acontece com 80 delegados e com centenas de pessoas a assistir sem que haja registo de qualquer incidente. Tanto a data da realização do congresso como o local são do conhecimento prévio da PIDE que, no entanto, resolve omitir nos seus relatórios dirigidos às chefias militares. Só depois de realizado o encontro, a polícia política descreve, quase ao pormenor, as decisões tomadas, incluindo os nomes dos 31 eleitos para a direção da UNITA. Esses detalhes são reportados aos comandos militares apenas a 14 de janeiro de 1970.

Além do acordo tácito com as autoridades portuguesas, Savimbi estabelece um pacto com os madeireiros portugueses, em 1970, com o conhecimento não oficial dessas mesmas autoridades. Mas antes, manda atacar uma coluna que transportava madeira de Chicala, passando pelas margens do rio Lungué-Bungo. No ataque, os guerrilheiros recolhem, além da madeira, armas e oito camiões. A ofensiva da UNITA praticamente obriga os madeireiros a aproximarem-se da direção de Savimbi que iria culminar num entendimento. O líder da UNITA nomeia, para representar o movimento, Evaristo Ekolelo. Do lado dos madeireiros, «assinam» o acordo José Duarte, Acácio de Oliveira, Zeca de Oliveira e João «Nhonga», assim conhecido por vir da aldeia de Nhonga, na zona de Munhango.

Tanto a PIDE como os militares portugueses têm conhecimento das conversas e das respetivas conclusões, sem que agissem com sinais contrários. As autoridades coloniais dão assim um consentimento ao acordo que permite aos madeireiros explorar e transportar a madeira das zonas controladas pela UNITA, sem que sejam atacados. Em contrapartida, pagam uma renda mensal, fornecem bens de primeira necessidade, como sal, azeite, pilhas, roupas, sabão, cobertores e medicamentos e comprometem-se a recrutar metade dos seus trabalhadores junto da população do Leste de Angola. A UNITA, pelo seu lado, abastece os madeireiros de carne de caça, farinha de mandioca, milho, legumes, peixe e mel que depois são revendidos nas lojas dos portugueses fixadas nas vilas e aldeias.

O entendimento ajuda Savimbi a quebrar grande parte do seu isolamento, permitindo-lhe, pelo menos, garantir a sobrevivência do movimento que tinha criado. No entanto, não resolve o seu principal problema: ter uma organização guerreira, sem armas e acantonada num espaço limitado. É por isso que opta por se entregar nas mãos do inimigo que diz combater: as tropas coloniais. Para isso, não hesita em usar argumentos e até elogios à governação colonial portuguesa.

No terreno, Portugal tem cada vez mais dificuldades para enfrentar e travar as ofensivas da FNLA e sobretudo do MPLA que, nos últimos dois anos, consegue implantar-se no Leste de Angola. Por isso, é obrigado a reforçar os contingentes e, em março de 1971, cria a Zona Militar Leste (ZML), comandada por Bettencourt Rodrigues, um general que viria a defender uma resolução da guerra pela via pacífica. Apesar disso, e por causa da já considerada «situação delicada», o comando militar é reforçado de poderes e de meios: mais efectivos militares e mais tropas especiais (comandos, paraquedistas e fuzileiros) e mais material com helicópteros e aviões bombardeiros. http://petrinus.com.sapo.pt/leste.htm

Savimbi enfrenta outro revés: o aumento da instabilidade na Zâmbia, que se sente obrigada a apoiar a revolta na vizinha Rodésia do Sul (Zimbabwe), proclamada independente por lan Smith. O território zambiano começa a ser de alcance mais difícil. Smith corta as vias férreas e às estradas, limitando assim o fornecimento de abastecimentos que também chegam para alimentar os guerrilheiros da UNITA.

Esta conjuntura, aliada à disponibilidade de Jonas Savimbi em querer entender-se com as autoridades coloniais, vai abrir caminho a um acordo entre a UNITA e os militares lusos que ficará conhecido como a «Operação Madeira», desenhada por Bettencourt Rodrigues. A estratégia passa por tentar derrotar os outros dois movimentos, inimigos de Jonas Savimbi - a FNLA e o MPLA. Ao mesmo tempo pretende a «conversão» do líder da UNITA, defendida por Fernando Passos Ramos, o oficial que iria estar no centro do furacão na ligação entre Savimbi e as tropas coloniais.

A Operação Madeira é assim uma táctica maoista: converter o inimigo. É preciso escolher quem é o inimigo e quem é o adversário. O adversário é o que tem pontos comuns. Neste caso, o nosso ponto comum era destruir o MPLA.

Durante quase dois anos, Jonas Savimbi estará na iminência de fazer uma profunda transformação na sua vida: de um líder guerrilheiro nacionalista e lutador pela independência para um alto quadro dirigente da administração colonial.