Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

domingo, 10 de junho de 2012

Mais vasto era o seu coração. 'Os 25 Poemas da Triste Alegria', de Carlos Drummond



Reunidos em 1924 num exemplar único, 'Os 25 Poemas da Triste Alegria', de Carlos Drummond – ele assinava assim –, saem da sombra, ganham edição comercial e revelam a gênese de um mestre
MARIA FERNANDA RODRIGUES - O Estado de S.Paulo
Um alerta aos escritores profissionais que guardam seus primeiros rabiscos, mas não querem deixá-los para a posteridade, ou aos que tenham mandado esses escritos de juventude literária para amigos próximos, a fim de saber se estavam no caminho certo: o imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin está aí, alerta, encontrando originais renegados ou esquecidos.

Aconteceu em 1991, quando ele se deparou com poemas de um João Cabral de Melo Neto ainda adolescente, que não sonhava em escrever Morte e Vida Severina ou A Educação pela Pedra, e publicou aqueles versos de moço. Depois, em 2001, Secchin encontrou a raridade Espectros (1919), a estreia de Cecilia Meireles e única obra proibida de entrar na biblioteca dela. Ferreira Gullar, prêmio Camões, também não gostou de Um Pouco Acima do Chão, seu primeiro livro, mas em 2008 o acadêmico conseguiu a autorização para incluí-lo nas obras completas do poeta. “Tenho essa vocação de desenterrar escritores quando eram adolescentes. Eles deviam ter rasgado e destruído, porque deixando eu acabo descobrindo”, brinca Secchin - ele mesmo poeta, ensaísta e crítico literário - às vésperas do lançamento de Os 25 Poemas da Triste Alegria (Cosac Naify), a pré-estreia de Carlos Drummond de Andrade.
Desta vez, o encontro com o livro não foi resultado do habitual garimpo, mas sim de um golpe de sorte. Secchin ganhou - ele não conta de quem - o único exemplar dessa obra, organizada por Drummond em 1924 e dada de presente ao amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade. O que ocorreu nesses quase 80 anos é um mistério.

Sabe-se que Dolores, então sua noiva, datilografou os originais e mandou encadernar a coletânea em couro. Sabe-se também que Rodrigo, em determinado momento, emprestou o livro a alguém e aparentemente nunca tentou reavê-lo. Eis que Mário de Andrade entra em cena e uma crônica sua sobre esses poemas é publicada. A obra volta a Drummond, que comenta, ao lado do texto original, item por item destacado pelo modernista. Outra informação desconhecida é a data que Drummond teria dado esse exemplar único a Rodrigo - pode ter sido em 1924 ou em 1937, ano das anotações críticas.

Editar ou não algo que em vida seu autor não publicou é questão eterna para a literatura, mas Secchin não tem dúvidas de que o lugar de Os 25 Poemas da Triste Alegria é na estante dos leitores. “Textos deixados pertencem à história, ultrapassam a dimensão individual”, diz. No caso específico de Drummond, ele não lançou o livro em grande tiragem, mas fez uma bela edição para preservar o que não quis publicar.

A obra, destaque da Festa Literária Internacional de Paraty (4 a 8 de julho), que este ano homenageará o escritor mineiro, traz datiloscritos dos poemas, os manuscritos dos comentários de Drummond, já mais maduro, e notas do organizador. Há ainda seleção de artigos sobre poesia escritos por ele entre 1923 e 1924. Em 1930, como se sabe, o itabirano estrearia oficialmente com Alguma Poesia - para se tornar um dos mais cultuados escritores do País.
Foto: O poeta Carlos Drummond de Andrade nos anos 1920