Em Angola julgam-se presos políticos acusados de nenhum crime. Dizem que é um regime democrático que está em pleno gozo das suas funções. A corrupção está no pódio como grande vencedora. A miséria e a fome também. As potências democráticas fecham os olhos e apontam que assim é que é bom, que assim é que se faz a estabilidade em África. Eis a receita do terrorismo do qual a Europa não se consegue desenvencilhar. Quem apoia a corrupção e as suas ditaduras, no fundo também é terrorista sem o saber.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O aumento dos protestos xenófobos e islamófobos inquieta a Alemanha





Cerca de 15.000 pessoas protestam contra os muçulmanos na cidade de Dresden

Luis Doncel. Dresden

Famílias com filhos adolescentes. Casais de aposentados. Grupos de amigos recém-saídos do trabalho. Esse era o perfil mais comum dos 15.000 manifestantes, segundo a polícia, que pela nona semana consecutiva saíram nesta segunda-feira às ruas de Dresden, no leste da Alemanha, para protestar pelo que consideram generosidade para com os refugiados, abusos do Estado do bem-estar por parte dos imigrantes e, enfim, pelo que a seus olhos é uma evidente ameaça à civilização europeia e cristã. Um ou outro jovem robusto com a cabeça raspada poderia lembrar o protótipo do participante de uma manifestação de extrema direita, mas eram uma esmagadora minoria. Todos eles integram o Pegida (acrônimo de Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente), o movimento que parece surgido do nada e que inquieta uma grande parte do país.
O que começou como um protesto com umas poucas centenas de pessoas derivou para um problema político de primeira magnitude. A chanceler Angela Merkel confessou que observa esse movimento com preocupação máxima. “Na Alemanha há liberdade de manifestação, mas não há lugar para campanhas de difamação e calúnias contra o que vêm de outros países”, disse nesta segunda-feira. O presidente da República, Joachim Gauck, qualificou os participantes de “extremistas”; e o ministro da Justiça, o social-democrata Heiko Maas, de “vergonha para a Alemanha”. Ambos foram alvo de vaias quando a oradora pronunciou seus nomes.
“Somos o povo. Somos o povo”. Os manifestantes interrompem o discurso dos organizadores. Repetem o lema que se tornou famoso há 25 anos, quando os alemães do Leste saíram às ruas para acabar com a ditadura da RDA. As manifestações se realizam às segundas-feiras, como as que começaram em Leipzig em setembro de 1989 e conseguiriam em poucos meses derrubar o Muro de Berlim e reunificar o país. A situação agora é muito diferente, mas para muitos é tão crítica como na época. Na Saxônia, o Estado do qual Dresden é a capital, os estrangeiros são apenas 2,2% da população. E os muçulmanos tão somente 0,1%. Mas esses dados não fazem os ligados ao Pegida desistirem de suas ideias. “Não queremos chegar à situação de outras cidades da Alemanha, onde se instaurou uma polícia da sharia”, diz uma garota, referindo-se a um fato ocorrido recentemente em Wuppertal.
“Aqui temos aposentados que recebem 670 euros e depois de pagar o aluguel ficam praticamente sem nada. Crianças que vão a jardins de infância em contêineres. Sinto muito, mas precisamos do dinheiro para nós. A Alemanha não pode salvar todo o mundo”, diz um homem que prefere manter-se no anonimato. “Escreva apenas que eu sou um cidadão de Dresden.” Os jornalistas não são muito queridos aqui. “Imprensa mentirosa” é um dos gritos mais repetidos em coro. “Trabalha para um jornal espanhol? Com certeza vocês não mentem tanto como os alemães”, diz um participante.
O Pegida se estendeu para outros lugares do país, que jogam com as iniciais de cada cidade onde a manifestação é convocada para trocar o nome do protesto: Dügida em Düsseldorf, Kassida em Kassel... Todos elas com muito menos êxito do que em Dresden. A classe política alemã se mostra desconcertada ante um fenômeno que ninguém previu e que ninguém sabe aonde pode acabar. O movimento não surgiu do partido eurofóbico Alternativa para a Alemanha (AfD), mas alguns de seus líderes já entraram na onda e dizem que compartilham os princípios dos manifestantes. Apesar de todos os partidos tradicionais rejeitarem o novo movimento, há diferenças na forma de abordá-lo. Alguns líderes, com receio de perder votos nos rincões mais conservadores, insistem em diferenciar entre a xenofobia dos instigadores do Pegida e os cidadãos de boa-fé que participam das manifestação por seus medos. “É um erro fazer essas distinções. Quando os parceiros bávaros de Merkel dizem que os imigrantes têm de falar alemão em casa estão fazendo uma campanha gratuita para o AfD e o Pegida”, dizia o líder de Os Verdes, Cem Özdemir, na tarde desta segunda-feira a este jornal, no trem que o levava de Berlim a Dresden. Ali ele participou da contramanifestação organizada por aqueles que acreditam em uma Alemanha multicolorida onde caibam todos. O protesto reuniu 6.500 pessoas.
Pois à guerra pelas ideias se seguiu a guerra das cifras. No domingo, 15.000 cidadãos saíram às ruas em Colônia para dizer que os imigrantes e refugiados são bem-vindos. Os defensores de imigrantes que marcharam nesta segunda-feira em Dresden eram ostensivamente menos numerosos que os do Pegida. Dezenas de carros de polícia separavam uns dos outros. Essa escalada de manifestações e contramanifestações desenha um inquietante panorama de polarização nas ruas alemãs. “Há um problema de fundo. Não há uma discussão aberta sobre como abordar a imigração e isso deixa frestas das quais se aproveitam os extremistas”, garante Werner Patzelt, do Instituto de Ciências Políticas de Dresden.
O criador e líder do Pegida é Lutz Bachmann, um obscuro personagem que teve problemas com a justiça por tráfico de drogas, roubo e violência. Nada disso parece inquietar os homens e mulheres que nesta segunda-feira mostraram sua irritação em Dresden. “Não somos extremistas nem ultraconservadores. Tudo o que queremos é conservar a identidade alemã”, clamavam do palco enquanto os participantes respondiam: “Somos o povo. Somos o povo”.
Imagem: Manifestantes xenófobos em Dresden com um cartaz que diz: “Respeito e tolerância, também para nosso povo” / AFP